Review: 🌠 Cosmic Fall - 'Back Where the Fire Flows' (2024) 🌠

★★★★

Depois do capítulo inaugural ‘First Fall’ lançado em 2016 (crónica aqui), do segundo ‘Kick Out the Jams’ lançado em 2017 (crónica aqui) e do terceiro ‘In Search of Outer Space’ lançado em 2018 (crónica aqui) seguiu-se um longo jejum discográfico, só agora interrompido com a surpreendente eclosão do quarto capítulo ‘Back Where the Fire Flows’ desta admirável odisseia espacial brilhantemente jornadeada pelos cosmonautas germânicos Cosmic Fall. Editado sob as formas LP, CD e digital pela sua compatriota Clostridium Records, este novo álbum do regressado tridente Cosmic Fall posiciona-se como o meu registo favorito da banda berlinesa. Com o depósito atestado de um extasiante, pirotécnico, tóxico e alucinante Psychedelic Rock de feições Earthless’eanas e de um imersivo, viajante, propulsivo e estimulante Space Rock de bênção Electric Moon’esca, mergulhamos – sem reservas ou temores – na sedutora e eterna noite cósmica à inspiradora boleia das intuitivas, ácidas, ventiladas e evolutivas jams instrumentais da turma alemã. Baloiçando entre atmosféricas passagens de atordoante lisergia e electrizantes descargas de veemente euforia, somos desenraizados do solo terrestre e disparados na vertigem sónica para os mais longínquos e recônditos territórios do Cosmos bocejante, driblando a labiríntica cintura de asteroides, cavalgando cometas que vogam o incomensurável oceano celestial, sobreaquecendo nas incandescentes fornalhas estelares, trespassando coloridas e fantasmagóricas nebulosas e resvalando as fronteiras gravitacionais de solitários e titânicos astros suspensos na vacuidade ultraterrestre. Uma explosiva erupção de lustroso, colorido e fogoso psicadelismo que nos seduz, eteriza e canaliza pelas sinuosas autoestradas espaciais de uma guitarra alucinógena que se embevece na condução de místicos, deleitosos, caleidoscópicos e hipnóticos riffs, e endoidece num enxame de solos ziguezagueantes, luzidios, fugidios e delirantes, pelas arrastadas, sombreadas, quentes e encorpadas linhas de um baixo rabugento, e pelos esponjosos, vistosos e tribalistas ritmos saídos dos pratos tilintantes e flamejantes e dos timbalões acrobáticos e enfáticos de uma bateria desassossegada. São 45 minutos de uma profunda e intensa absorção psicotrópica debaixo de uma torrencial chuva de estrelas. ‘Back Where the Fire Flows’ é um álbum pautado a duas velocidades, governado pela bipolaridade contemplativo versus agressivo, que tanto nos amolece e anoitece numa pesada embriaguez, como efervesce e enlouquece nas vulcânicas lavaredas da adrenalina. Submerjam no imenso céu constelado de Cosmic Fall e dispersem-se pelo firmamento estelar sem vontade de à tona deste sonho regressar.

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terça-feira, 19 de novembro de 2024

segunda-feira, 18 de novembro de 2024

Review: ⚓ Astrodome - 'Seascapes' (2024) ⚓

★★★★

Depois de em 2015 terem apresentado o seu apaixonante álbum de estreia (review aqui) e em 2018 terem lançado o seu igualmente maravilhoso ‘II’ (review aqui), os portuenses Astrodome ancoraram em parte incerta, e só agora – sensivelmente cinco anos após a sua hibernação – ressurgem de vento em popa no nosso radar com o pelágico ‘Seascapes’, editado a três mãos pela portuguesa gig.Rocks!, pela londrina Copper Feast Records e pela francesa Totem Cat Records nos formatos LP, CD e digital. Banhado por um imersivo, reflexivo, deslumbrante e expansivo Psychedelic Rock de fragância oceânica e estética cinematográfica, e abençoado por um viajante, atmosférico, hipnótico e flutuante Space Rock sem destino traçado e com alto teor electrónico, este terceiro registo instrumental de Astrodome exibe o lado mais aventureiro, desprendido e experimental do quarteto português. De azimute apontado a influências como Pink Floyd, Tangerine Dream, Mammatus, Causa Sui, Papir, Mythic Sunship, 35007, Monkey3 e Interkosmos, a explorativa, envolvente, eloquente e lenitiva sonoridade de ‘Seascapes’ desenraíza o ouvinte da prisão terrestre, dilatando e dissipando a sua consciência pelas tranquilas águas do infindável oceano astral. Um vertiginoso, evolutivo e corajoso mergulho na eterna e abissal noite cósmica, trespassando fantasmagóricas e coloridas nebulosas, driblando o abraço gravitacional de titânicos e solitários astros, escoando pela alucinante garganta de impiedosos buracos negros que tudo aspiram no negro tapete sideral, e entrando no insondável universo alienígena de olhar maquilhado pela cintilante poeira estelar. À deriva e a levitar sem gravidade a que nos possamos agarrar, deixamo-nos flutuar prazerosa e livremente pelo desdobrável horizonte sideral que a visual musicalidade de Astrodome vai edificando e colorindo à nossa frente. Uma profunda hipnose de ofuscante psicadelismo que nos seduz, adormece, embevece e conduz ao nirvana. Boiando nesta perpétua ondulação, somos sorvidos e dominados por uma imperturbável sensação de pleno bem-estar, e naufragados nas coordenadas do espaço-tempo. Uma seráfica placidez superiormente musicada por duas guitarras etéreas que se manifestam em espaçosos, arejados, condimentados e esponjosos acordes, um murmurante baixo de linhas elásticas, fibrosas, magnéticas e ondeantes, uma bateria tribalista de ritmos estimulantes, enfeitiçantes, buliçosos e bailantes, e um quimérico sintetizador criador e disseminador de uma onírica bruma oxigenada por um exotismo astral. Sintam a vossa lucidez embaciar, o corpo relaxar, as pálpebras tombar e o vosso ego se desintegrar numa sagrada e sonhadora transcendência pela verticalidade do Cosmos interior sem a mais pequena vontade dele acordar. ‘Seascapes’ é um inventivo sedativo de elevada toxicidade que nos resgata da realidade e devolve aos astros. São 43 minutos de um intenso encantamento que nos inebria, anestesia e desagua nas paradisíacas praias da ataraxia. Dissolvam-se nas profundezas desta envolvente fantasia, embriaguem-se de açucarada melancolia, inalem o forte odor a maresia e saltem para cima deste trampolim que vos levará a resvalar as costuras fronteiriças do espaço bocejante. Não vai ser nada fácil, ou sequer desejado, despertar deste sonho. Um dos grandes álbuns do ano está aqui, no tão aguardado, impactante e triunfante regresso dos navegantes portugueses Astrodome ao alto-mar.

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quinta-feira, 14 de novembro de 2024

Review: 🔮 Magick Potion - 'Magick Potion' (2024) 🔮

★★★★

Oriundo dos arredores rurais de Baltimore (Maryland, EUA), o irreverente power-trio Magick Potion acaba de lançar o seu impactante álbum de estreia pela influente mão da prestigiosa companhia discográfica californiana RidingEasy Records através dos formatos LP, CD e digital. De instrumentos apontados a clássicas referências como Blue Cheer, Budgie, Cactus, Cream, Sir Lord Baltimore, Captain Beyond, Leaf Hound, The Amboy Dukes, Dust, Bang e The Groundhogs, este tridente americano executa um musculoso, imponente, ardente e oleoso Hard Rock de forte fragância revivalista, sarapintado por um electrizante Heavy Psych de toxicidade a perder de vista, bailado por um serpenteante Heavy Blues de trajes rústicos e pesadamente sombreado por um intrigante Proto-Doom de espírito ocultista. A sua vistosa, umbrosa, esbelta e gloriosa sonoridade de ornamentada moldura vintage representa uma inspirada homenagem à dourada década de 1970, balançando entre possantes cavalgadas de trevosos e carregados ecos Black Sabbath’icos açoitadas a contagiante energia, e enfeitiçantes baladas anoitecidas e entristecidas pela ébria melancolia. Embrumado e perfumado por um misticismo pagão, pela doce nostalgia e uma carismática rusticidade – desprovida de qualquer maquilhagem – que orientara toda a sua produção, este homónimo álbum de estreia de Magick Potion revela uma obra integralmente esculpida à minha imagem. De cabeça rodopiante, pálpebras rebaixadas e dentes cravados nos lábios, embalamos – de espírito integralmente deslumbrado – pelas idosas, sinuosas, poeirentas e misteriosas estradas de ‘Magick Potion’ à estimulante boleia de uma guitarra portentosa – flamejada por uma distorção crocante, arenosa, rugosa e urticante – que se robustece em dominantes, lascivos, altivos e magnetizantes riffs de bolor setentista, e enlouquece na alucinante condução de solos delirantes, ácidos e esvoaçantes, um baixo obeso de linhas intimidantes, monolíticas, fibróticas e pujantes, uma bateria expressiva de ritmicidade dinâmica, acrobática, enfática e explosiva, e vocais esmorecidos, diabrinos, espectrais e avinagrados que ressoam e ecoam do interior desta borbulhante, multicolorida, aromática e fervilhante poção mágica. São 39 minutos tomados pela aspereza, pretura, destreza e formosura. Um sensacional ritual iluminado por incontáveis velas em chamas de onde escorrem abundantes lágrimas de cera e liderado por bolorentos, vibrantes e fumarentos amplificadores de primitivas e incisivas ressonâncias que nos oprimem, engolem e revolvem. Comunguem Magick Potion, inalem o seu brumoso exotismo e naufraguem na revoltosa ondulação da febril alucinação. Estamos mesmo na distinta presença de um dos mais magnânimos álbuns do ano. Obscureçam-se e embruxem-se nele.

terça-feira, 12 de novembro de 2024

segunda-feira, 11 de novembro de 2024

Review: 🌌 Acid Rooster - 'Hall of Mirrors' (2024) 🌌

★★★★

Da cidade de Leipzing chega-nos o novíssimo álbum de uma das minhas bandas germânicas predilectas: Acid Rooster. Depois do homónimo nascido em 2019 (análise aqui) e dos seus sucessores ‘Ad Astra’ avistado em 2022 (análise aqui) e ‘Flowers & Dead Souls’ florescido em 2023 (análise aqui), este criativo, inspirador e explorativo power-trio apresenta o seu quarto trabalho de longa duração intitulado ‘Hall of Mirrors’ e lançado a três mãos pelos selos discográficos Tonzonen Records (responsável pela distribuição em território europeu), Cardinal Fuzz (responsável pela distribuição no Reino Unido) e Little Cloud Records (responsável pela distribuição nos EUA) sob os formatos LP, CD, cassete e digital. Antes de traduzir para a forma textual tudo o que ‘Hall of Mirrors’ plantara e desabrochara no meu universo emocional, é justo começar por referir, sem qualquer reserva, de que se trata do meu álbum favorito da banda alemã. Incensado por um deslumbrante, imersivo e inebriante Space Rock, um enfeitiçante, caleidoscópico e viajante Psychedelic Rock e um meditativo, hipnótico e lenitivo Krautrock, este novo registo de Acid Rooster dilui o ouvinte numa intoxicante, milagrosa e narcotizante hipnose sem saída de emergência. Uma extasiante massagem cerebral de amplificação consciencial e consagração espiritual que nos embarca numa relaxada, sagrada e sensacional peregrinação em direcção ao radiante Sol de mística fragância oriental. Sintam-se flutuar tranquila e livremente pelas seráficas, quietas e ataráxicas águas de ‘Hall of Mirrors’ e bronzear à exposição de uma sideral, diáfana e virginal luzência capaz de banhar, expurgar e sanar as zonas mais obscuras da nossa alma. Deixem-se mumificar, prender e encantar pela psicotrópica poeira estelar de Acid Rooster à envolvente boleia sonora de uma guitarra aventurosa que se meneia em vistosos, anestésicos, alucinógenos e libidinosos riffs de onde florescem solos coloridos, trepidantes, ácidos e estonteantes, uma bateria de galope Krauty movida a um ritmo saltitante, esponjoso e estimulante, um baixo deliciosamente groovy de linhas ondeantes, elásticas, magnéticas e murmurantes, e um mágico, espiritual e celestial sintetizador que com o seu exotismo electrónico exorciza todo o Cosmos. ‘Hall of Mirrors’ é uma fantástica odisseia no espaço alienígena que tanto nos transporta, vendados e sem coordenadas, por inexplorados territórios mentais de nebulosidade sem visibilidade como nos viaja, lúcidos e fascinados, por azulados céus governados por uma messiânica e ofuscante claridade. São 40 minutos que nos engolem. De olhar selado, cabeça baloiçante, corpo serpenteante e espírito arrebatado levitamos pela vertiginosa verticalidade astral sem nunca olhar para trás. Uma pesada e profunda narcose que nos seduz, amolece, adormece e conduz ao infinito e mais além. Entrem no universo onírico de Acid Rooster e testemunhem toda a lisérgica e profética beatitude de um dos álbuns mais nirvânicos do ano.

Review: 🦇 Kant - 'Paranoia Pilgrimage' (2024) 🦇

★★★★

Da pequena cidade germânica de Aschaffenburg chega-nos a fantasmagórica obra do esotérico quarteto Kant, intitulada ‘Paranoia Pilgrimage’ e lançada pela jovem discográfica alemã Sound of Liberation Records nos formatos LP, CD e digital. Dissecados, misturados e revolvidos num fumarento caldeirão em borbulhante ebulição, estão um obscurantista, cavernoso, umbroso e ritualista Proto-Doom de intrigante atmosfera vampírica, um luxuoso, psicadélico, mélico e lustroso Hard Rock de brilho vintage, e um poderoso, místico, demoníaco e glorioso Heavy Blues com requintes de malvadez. Resultada da potência trevosa de Black Sabbath, da majestosidade fabular de Wishbone Ash, da desregrada perversão de Witchfinder General, da arrepiante feitiçaria de Witchcraft e do culto cósmico de Hällas, a mesmérica, irreligiosa, ostentosa e fatídica sonoridade de Kant escurece, entristece e profana a alma do ouvinte. De pele enregelada e desmaiada, boquiabertos, e olhar envidraçado de pupilas dilatadas, somos cortejados, subjugados e conduzidos ao universo gótico de Edgar Allan Poe onde árvores esqueléticas e decrépitas se erguem na direcção de céus pardos e melancólicos, graníticas e trágicas ruínas medievais hibernam pelo nevado solo coberto de perecidas folhas outonais, e grasnantes e intimidantes corvos esvoaçam freneticamente sobre nós, originando uma chuva de penas pretas. Uma épica assombração superiormente musicada por duas guitarras eruditas que se auxiliam na edificação de monstruosos, dramáticos, enfáticos e majestosos riffs fervidos em gaseificada distorção de onde relampeiam sónicos, efervescentes, ziguezagueantes e histéricos solos, um cismático baixo bailante de linhas pulsantes, elásticas, hipnóticas e possantes, uma galopante bateria aguilhoada a um ritmo abrasivo, impetuoso, intenso e altivo, e uma voz ecoante, lívida, avinagrada e messiânica. ‘Paranoia Pilgrimage’ representa uma imersiva, herética e coerciva hipnose que nos faroliza, atrai, eteriza e subtrai o ar do peito. Uma peregrinação ao lado eclipsado da religião. Comunguem a tóxica, alucinógena, vigorosa e luciférica negrura de Kant e mergulhem, atormentados e engolidos pela febril paranoia, nas abissais profundezas oníricas. É tremendamente fácil cair nesta irresistível tentação. Banhem-se e afogueiem-se nas escuras e sedutoras lavaredas que abraçam este imponente álbum, e testemunhem com detida e inquebrável fascinação todo o enfeitiçante esplendor de um dos mais preclaros álbuns desabrochados no presente ano.

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