terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Review: 🌞 Rostro del Sol - 'Universo 25' (2026, Stoners Dealer Records) 🌞

★★★★

Cinco anos após o lançamento do seu impactante álbum de estreia ‘Rostro del Sol’ (aqui analisado) e sensivelmente dois anos após a projecção do sedutor sucessor ‘Blue Storm’ (aqui examinado), a minha banda mexicana de eleição Rostro del Sol edita agora o seu tão aguardado novo álbum intitulado ‘Universo 25’ que merecera a confiança das companhias discográficas Echodelick Records, Clostridium Records, Stoners Dealer Records e Smogles Records. Este registo de dimensão piramidal, tipologia puramente instrumental e natureza conceptual – inspirado no cruel experimento laboratorial com esse mesmo nome que na década de 1960 levara ao trágico colapso de toda uma populosa e desregrada comunidade de roedores vigiada sob a orientação do psicólogo e etólogo americano John B. Calhoun que na ressaca desse vil estudo viria a constatar que “os efeitos da superpopulação em ratos de laboratório foram um sombrio modelo experimental para prever o futuro da raça humana.” –, trata-se da obra mais completa e desafiante criada até à data pela banda domiciliada na Cidade do México. Com base numa formação de habilidosos músicos parcialmente renovada e uma cuidada e inspirada concepção arquitectada e executada entre 2024 e 2025, este talentoso, aventureiro e espirituoso sexteto azteca tem em ‘Universo 25’ uma pitoresca, colorida, ritmada e carnavalesca fanfarra de reluzente brilho vintage, doce fragância oriental, emancipação sensorial e consagração espiritual, que mistura um elegante, extravagante, majestoso e desarmante Jazz-Rock irrepreensivelmente executado na senda de vultosas referências do géero como Colosseum, Soft Machine, Ian Carr’s Nucleus, Mahavishnu Orchestra, Frank Zappa, Sweet Smoke, Soft Heap, Iceberg e Psicomagia, um condimentado, cerebral, sensacional e caprichado Progressive Rock de graciosas feições sinfónicas que colhe inspiração em clássicas referências como Mogul Thrash, Matching Mole, Arti & Mestieri, Nuova Idea, Banco del Mutuo Soccorso, Semiramis e Sloche, e um caleidoscópico, deslumbrante, reconfortante e exótico Psychedelic Rock de radioso clima Canterbury’esco com agradáveis ecos de Caravan, suor e calor latino a fazer recordar os picantes Chango, e um dançante e apimentado corante Funk à boa moda de Cymande. Místico, prismático, delirante e afrodisíaco, este terceiro trabalho de Rostro del Sol é um psicotrópico banquete onde nos divertimos e saciamos os mais ousados e exigentes desejos de requinte. Um registo verdadeiramente conquistador – de essência cerimonial e presença monumental – que nos incendeia e prazenteia numa sagrada devoção. Estonteante, nutritiva, inventiva e enfeitiçante, a camaleónica e histriónica sonoridade de ‘Universo 25’ trauteia por industriosas, movediças, portentosas e inebriantes composições que nos deixam de pupilas dilatadas, queixos tombados e bocas salivantes. Um emaranhado novelo de instrumentos em sónica e simbiótica debandada que se vai deslindando, organizando e desfilando sob o nosso olhar esbugalhado, ouvidos esfaimados, espírito empolgado e dominado por uma inapagável sensação de ardente fascinação que nos trava a respiração. Neste borbulhante, multicolorido e fumegante caldeirão são remexidos uma maravilhosa guitarra de vistosa e extravagante caligrafia árabe que se manifesta vaidosamente em enleantes, magnéticos, estéticos e serpenteantes riffs de onde são desatados angulosos, virtuosos, caleidoscópicos e ácidos solos, um hipnótico baixo que nos incita a percorrer e sussurrar as suas pulsantes, elásticas, enfáticas e vagueantes linhas, uma bateria circense de desembaraçadas, aparatosas, vertiginosas e alucinadas acrobacias realizadas a fina sensibilidade jazzística, um embruxado teclado de absorventes e harmoniosos bailados eruditos e imponentes e polposos mugidos cósmicos, um esdrúxulo saxofone de gritos estimulantes, histéricos, burlescos e ziguezagueantes, e bailantes congas tribais de provocantes ritmos tropicais. A distinta ilustração de atmosfera alienígena e mutante que confere rosto a esta irretocável criação musical é da responsabilidade da artista espanhola Elena Ibañez. São 50 minutos desassossegados de um sensacional, mirabolante e vibrante carnaval – de poderosa absorção e constante mutação – que nos prende e surpreende a cada audição. Um álbum tremendamente sedutor, oxigenado a criatividade sem fronteiras e administrado por um experimentalismo sem barreiras, que pendula entre misteriosas, brumosas e sonolentas ambiências mergulhadas em anestésica introspecção, e transpiradas, desavergonhadas e luxuriosas galopadas de instrumentos hiperativos que se lançam em entusiásticas e garridas correrias desenfreadas. Muito eu esperava deste novo rasgo criativo de Rostro del Sol e tudo ele meu deu. ‘Universo 25’ é um álbum assombroso que toca a perfeição e um fortíssimo candidato a melhor álbum de um ano de 2026 que promete vir a ser musicalmente abastado.

Links:

Presenteio-vos com alguns códigos para download gratuito que poderão ser usados em: www.bandcamp.com/yum


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🖤 Support EL COYOTE

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Review: 👑 Hällas - 'Panorama' (2026, Äventyr Records) 👑

★★★★

Proveniente da Suécia – mais concretamente da cidade sulista de Jönköping – chega nesta sonolenta madrugada de 2026 um dos lançamentos por mim mais ansiados do presente ano. ‘Panorama’ é o nome de batismo dado ao novo álbum de estúdio dos fascinantes Hällas, que acaba de ser editado pelo seu recém-criado selo discográfico caseiro Äventyr Records através dos formatos físicos LP e CD. Com base no seu autoproclamado e aclamado Adventure Rock – que não mais representa do que a junção entre um astral, místico, onírico e cerimonial Progressive Rock de ares sinfónicos e um melódico, ostentoso, aparatoso e epopeico Hard Rock de trajes principescos –, este talentoso quinteto escandinavo continua, desta forma, a sua aventurosa e auspiciosa exploração e aquisição de novos territórios num universo musical por si criado e que parece não ter fim à vista. Com o valioso préstimo de múltiplas influências colhidas em clássicas e vultosas referências desabrochadas no fértil jardim setentista como Genesis, Deep Purple, Rush, Eloy, Gentle Giant, Uriah Heep, Yes, Wishbone Ash, Styx, Boston, Premiata Forneria Marconi, Kayak e Klaatu, a fresca, misteriosa, gloriosa e romanesca sonoridade de ‘Panorama’ – irrepreensivelmente executada a uma imaculada e apurada perícia orquestral e condimentada a deslumbrante pirotecnia espacial – encandeia o olhar do ouvinte com cintilante poeira estelar, provoca nos ouvidos do mesmo um torrencial salivar e incendeia o seu espírito com uma estrondosa erupção de emocionada devoção. Imaginativa, inspiradora, sedutora e expansiva, esta nova campanha dos templários suecos Hällas desenvolve-se numa imersiva tela cinematográfica de elementos medievais e mitos acordados com vista desabrigada para a eterna noite cósmica onde pulsam pálidos corpos astrais. Climatizada por uma narrativa verdadeiramente comovente e enfeitiçante que nos relata com (des)colorida vivacidade uma distópica paisagem onde um resignado eremita de espírito derrotado observa um mundo negligenciado, escravizado pela exploração desmesurada, esta consumada obra-prima dos nórdicos tem o raro dom de nos enternecer e embevecer. Capitaneado por composições majestosas, gloriosas e cerebrais, como pode ser testemunhado no épico, monumental e profético tema inaugural “Above the Continuum” – cantado em dois idiomas, com o seu longo corpo temporal e a sua esplendorosa alquimia celestial –, encantadoras, singelas e sonhadoras canções de fácil digestão e imediata fascinação como “Face of an Angel”, “The Emissary” e “At the Summit”, e ainda por uma lacrimosa, sombria, contemplativa e tristemente bela balada denominada “Bestiaus” que nos rouba o ar do peito e sufoca de doce nostalgia, ‘Panorama’ é um registo intensamente elegante, sublime e apaixonante que cravara com uma afiada flecha de Cupido o meu coração. Uma peça de alta-costura superiormente fabricada por duas emocionantes guitarras siamesas que bailam serpenteantes, grandiosos, charmosos e triunfantes riffs, e magicam virtuosos, refinados, detalhados e tortuosos solos numa enlouquecedora escadaria percorrida em espiral, um baixo hipnótico e liderante de linhas musculadas, torneadas e elásticas, uma bateria galopante de ritmos propulsivos, invasivos e estimulantes, um alienígena teclado de intrigantes sirenes cósmicas e exóticas texturas electrónicas, e uma melodiosa, vistosa e messiânica voz de alma trovadora e sotaque aristocrático – ocasionalmente sombreada de perto por um luminoso e sideral coro vocal – que completa na perfeição esta poderosa, caprichosa e sofisticada criação de imponente natureza teatral. A bonita ilustração de ambiência fabular – e que muito faz recordar a capa do álbum ‘Trespass’ (1970) de Genesis – aponta os seus créditos autorais à artista espanhola Marta Maldonado (Branca Studio). Este é um álbum dramático, fantasista, ritualista e catártico, de elevada precisão técnica e escultural beleza arquitectónica, que decerto conquistará um lugar de grande destaque por entre os mais consagrados álbuns forjados em 2026. Longa vida ao reinado de Hällas.

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