segunda-feira, 28 de setembro de 2026

🌲 Mephistofeles

Review: ⚓ Dead Sea Apes - 'Psychic Tension' (2026, Cardinal Fuzz & Feeding Tube) ⚓


★★★★★

Proveniente da cidade-berço da revolução industrial – Manchester – vem até nós a negra fumaça baforada por Dead Sea Apes com a apresentação do seu novíssimo álbum intitulado ‘Psychic Tension’ e editado a duas mãos pela britânica Cardinal Fuzz e pela americana Feeding Tube Records sob a forma física de LP e CD-R. Na iminência de celebrar duas décadas de imparável produção discográfica – que conta já com a histórica marca de 25 registos lançados até à data –, este tridente inglês continua com a veia criativa bem movimentada e dilatada. Contaminado por um pantanoso, narcotizante, inflamante e brumoso Heavy Psych de imersivo balanço Krautrock e vertiginosa propulsão espacial que nos inquieta e projecta para a garganta do negro abismo cósmico, enfeitiçado por um hipnótico, cinzento, pachorrento e melancólico Drone de imagética Western que nos mumifica com a sua morfínica teia de camadas repetitivas, e perturbado por um dissonante, anárquico, tóxico e tonitruante Noise Rock de desenfreados ritmos Garage que nos desenraíza e extravia a sanidade mental, ‘Psychic Tension’ provoca no ouvinte alucinações visuais, descargas de endorfina, assombrações espirituais, inundações reflexivas, convulsões epilépticas e tempestades cerebrais. Todo um vasto sortido de emoções que nos baloiça da catártica e febril euforia, capaz de nos sobreaquecer e endoidecer, à mesmérica e embriagante letargia que nos amolece e anoitece o espírito. A sua sonoridade sedutora, misteriosa, camaleónica e emancipadora – integralmente instrumental – dá-nos as rugosas e gélidas mãos e passeia-nos por misantrópicas, sombrias, embrumadas e distópicas atmosferas onde a luz e a esperança não ousam entrar, acordadas por dramáticos, incisivos e enfáticos sirenes do apocalipse que soam e ecoam pela fantasmagórica brancura da paisagem. Outonal e simultaneamente infernal, ‘Psychic Tension’ é um álbum sonolento, pesado, enevoado e temulento que dá voz aos nossos silêncios e traz calma às nossas tormentas. Dos bucólicos pântanos orvalhados pela muda, fresca e húmida madrugada da melancolia às crepitantes, fumegantes e intensas lavaredas da insanável revolta, somos persuadidos e levados numa admirável e desorientadora viagem pelo desconhecido. Balançados pelas fascinantes danças de uma guitarra que se meneia em atordoantes, giratórios e magnetizantes riffs – encrostados pela espinhosa e urticante distorção e remexidos num profundo e polposo vórtice que se abre furiosamente no oceano – de onde esvoaçam delirantes, ácidos e borbulhantes solos, sombreados pela espessa pretura de um baixo locomovido a linhas pulsantes, sísmicas e possantes, e escoiceados pela turbulência de uma bateria ritmada a vulcânica explosividade, caminhamos de olhos vendados e passos amedrontados pelos tristes e escurecidos vales de ‘Psychic Tension’. São 37 minutos ancorados num umbroso, esfíngico e esponjoso ritual que arrasta a carregada nebulosidade marítima até à costa da nossa existência. Deixem-se cegar e encantar pela mística musicalidade dos marinheiros britânicos Dead Sea Apes sem faróis que rasguem e acordem as suas reconfortantes trevas.

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sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Review: 🪐 Crypt Trip - 'Hard Ride to Venus' EP (2026) 🪐


★★★★★

Inesperadamente acordados de uma longa e desesperante hibernação com sete anos de duração, os remodelados texanos Crypt Trip estão finalmente de volta – para minha indisfarçável e extravasante emoção – às poeirentas estradas desbravadas e viajadas no passado por inesquecíveis álbuns como ‘Rootstock’ de 2018 e ‘Haze County’ de 2019. ‘Hard Ride to Venus’ dá nome ao tão ansiado regresso deste tridente domiciliado na cidade de Austin que vem até nós sob a exclusiva forma digital com selo autoral, mas com a intenção declarada de um futuro lançamento em formato físico de prensagem ultralimitada e editada de forma independente. Amanhecido e entardecido à empolgante boleia de um maturado, ornamentado e aventureiro Southern Rock de carisma no coldre que corre à rédea solta e lado a lado com um musculado, excitante e oleado Hard Rock de roupagem clássica e um charmoso, envelhecido e lustroso Texas Blues de brilho vintage, este belíssimo EP de indiscreta inspiração colhida nos gloriosos anos setenta anoitece serena e demoradamente debaixo da pálida luz lunar de uma balada Folk onde se testemunha com imperturbável feitiço e uma leve embriaguez um fascinante, simbiótico e apaixonante diálogo tricotado ao relento pelas cordas. Liberal, rústico, nostálgico e sentimental, ‘Hard Ride to Venus’ é um registo de curta duração, mas intensa sedução que nos desarma e conquista do primeiro ao derradeiro tema. De engraxadas texanas calçadas e chapéu de aba larga reclinado na cabeça, deambulamos e saltitamos – de olhar içado e cravado no firmamento – nas costas de um cavalo cansado pelos terrosos e sinuosos trilhos do arenoso coração rural do velho Texas. Ricocheteando entre apressadas, ritmadas e entusiasmantes cavalgadas de esporas ensanguentadas, e caramelizadas, tórridas e desérticas baladas de uma esbatida coloração sépia, vagueamos, sem destino traçado, pela desamarrada, perfumada e galante sonoridade de Crypt Trip. Banhem-se nos ofuscantes desertos de ‘Hard Ride to Venus’ superiormente musicados por uma guitarra com um irresistível swag que se bamboleia em desdobráveis, serpenteantes, picantes e adoráveis riffs e ziguezagueia em deslumbrantes, entrançados, delicados e derrapantes solos, um baixo groovy de reverberação pulsante, magnetizante e elástica, uma galopante bateria de sensibilidade e habilidade jazzísticas, e vocais amarelecidos, acetinados, melodiosos e emotivos. São 25 minutos verdadeiramente viciantes de um caleidoscópico encantamento que nos mantém confortavelmente relaxados num inamovível estádio de plena ataraxia. Este idílico EP representa a banda-sonora perfeita para emoldurar o último suspiro de um verão moribundo que se entrega aos braços agasalhados do Outono.

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