quinta-feira, 2 de julho de 2026

Review: 🔥 Red Kite - 'This Too Shall Pass' (2026, Is It Jazz? Records) 🔥


★★★★★

Abrangendo talentosos músicos provenientes de outros projectos vizinhos como Shining, Elephant9, Grand General, Bushman’s Revenge e Soft Ffog na sua formação, os Red Kite são hoje uma das bandas mais respeitadas dentro do prolífico universo Jazz norueguês. Acordados de uma hibernação de cinco anos de duração (no que à produção de trabalhos de estúdio diz respeito), este apaixonante quarteto regressa agora com o seu terceiro esforço intitulado ‘This Too Shall Pass’ e editado pelo emergente selo discográfico local Is It Jazz? Records. Como o seu nome assim o sugere, este álbum foi concebido num momento de profunda transformação e resiliência para esta embarcação viking que atravessara o abominável cabo das tormentas devido a uma amaldiçoada série de eventos sombrios que descolorara as vidas pessoais dos seus integrantes. Foi nesse difícil processo de consternação e subsequente superação que os inventivos Red Kite tiveram a capacidade de metamorfosear a sua dor pessoal numa autêntica obra de arte piramidal. Capitaneado a duas mãos por um umbroso, melancólico, letárgico e misterioso Contemporary Jazz – de uma inelutável sedução noir a fazer recordar a intrigante atmosfera cinematográfica de Twin Peaks – que ocasionalmente se aventura e desventura nos desbastados territórios do electrizante Jazz Rock, e um enleante, místico, labiríntico e desafiante Prog Rock de extravagante caligrafia avant-garde, esta última criação da erudita turma formada e domiciliada na cidade de Oslo preencheu e extravasou as minhas medidas. Red Kite é a versão gótica de Mahavishnu Orchestra. As suas intelectuais, transcendentes, solenes e excepcionais composições – mareadas por um virtuoso experimentalismo sem fronteiras que o espartilhem – imortaliza no ouvinte um imperturbável estádio de reinante petrificação e ofuscante fascinação que o climatiza e alcooliza do primeiro ao derradeiro tema. Levemente inebriados, entontecidos e enfeitiçados, somos conquistados e levados pela espirituosa mestria instrumental de ‘This Too Shall Pass’ dos refrescantes, sedosos e reconfortantes lençóis onde prazerosamente nos alongamos e espreguiçamos aos turbulentos mares de um naufrágio mental que nos arrefece, inquieta e anoitece a alma. Alumiado pela pálida luzência lunar, este novo registo de Red Kite é abraçado por uma elegância nocturna que nos rouba o ar do peito e leva à rendição. Comovente, esfíngico, dramático e absorvente, ‘This Too Shall Pass’ é um disco imensamente apoteótico que não deixará ninguém indiferente. Baloiçada entre anestésicas, bucólicas e reflexivas passagens que nos massajam e adormecem os sentidos, e aparatosas, estrondosas e selváticas debandadas instrumentais – viajadas em contramão – que nos incendeiam de eufórica emoção, a exótica, sofisticada e camaleónica sonoridade deste expressivo álbum desfila vaidosa e graciosamente num bizarro cabaret. Na composição deste sacramento jazzístico podemos encontrar uma guitarra langorosa de acordes luminosos, cristalinos e casualmente rugosos de onde florescem solos esguios, escorregadios e angulosos, um saxofone lúgubre de sopros ziguezagueantes, esquivos e ocasionalmente agressivos, uma bateria deliciosa – tanto ociosa como em polvorosa – que lhe confere uma ritmicidade acrobática, dinâmica e impressiva, um baixo pulsante de linhas flexíveis, oleosas e palpáveis e um teclado harmonioso de frescos, romanescos e cheirosos bailados. Um dos mais belos discos nascidos em 2026 está aqui, na poderosa veia emocional de ‘This Too Shall Pass’. Não quero acordar deste álbum.

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sexta-feira, 26 de junho de 2026

Review: 🍹 Smokemaster - 'In the Temple' (2026, Tonzonen Records) 🍹


★★★★☆

Oriunda da cidade de Colónia chega-nos a aragem primaveril suspirada pelo quinteto germânico Smokemaster com o recém-nascido ‘In the Temple’ embalado nos seus braços. Lançado sob a influência da companhia discográfica – sua conterrânea – Tonzonen Records, este terceiro álbum da turma alemã vem ensolarado e nutrido por um fluído, leve, espirituoso e colorido Neo-Psychedelic Rock de caleidoscópica tintura sessentista e espírito pacifista que mantém o ouvinte entretido e fascinado do primeiro ao derradeiro tema. A sua musicalidade florida, radiosa, sorridente e aromatizada vagueia livre e graciosamente pelos nove temas que o compõem, deixando-nos de olhar sonhador, sorriso estampado no rosto e ancorados numa imperturbável sensação de pleno bem-estar. Emoldurado por um místico, alucinógeno e ritualístico revivalismo espelhado pelos mágicos 60’s, ‘In the Temple’ é um paraíso virginal e naturista – incensado a aromas tropicais, trajado por tecidos orientais e de uma envolvência intimista – que nos dilata o senso consciencial e revoluciona o universo sensorial. Electrificados pela sinestesia e aureolados por um êxtase religioso é fácil perdermo-nos neste deslumbrante, frondoso e estonteante jardim de cores vibrantes e estímulos que se multiplicam onde nos banhamos no seu polposo, frutado e açucarado néctar. Levemente anestesiados, de narinas dilatadas, maçãs do rosto coradas e pálpebras semi-cerradas sobrevoamos – com um ligeiro bater de asa – as reconfortantes, edénicas, melódicas e intoxicantes composições de Smokemaster. A frescura, a leveza, a delicadeza e a formosura conjugadas e centrifugadas num louco rodopio onde escorregamos, fantasiamos e esvaziamos a lucidez. Místico, exótico e cerimonial, ‘In the Temple’ é uma iguaria de índole sacramental que ninguém recusará comungar. Recostem-se confortavelmente nas acolchoadas planícies sonoras deste belíssimo disco superiormente pincelado por uma delirante guitarra de temulentos devaneios, um viçoso teclado de harmonias provocantes, um baloiçante baixo de reverberação marcante, uma agradável bateria de ritmos contagiantes e uma voz simpática, etérea e reinante. São 43 minutos radiantes, atestados de um deífico esplendor que nos bronzeia a pele e de uma milagrosa humidade que nos aduba a alma. Uma miraculosa e transformadora revelação divina sublimemente musicada e por nós disseminada. Um quimérico sonho dado à costa da nossa realidade.

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quinta-feira, 18 de junho de 2026

Review: 🐄 Bushman's Revenge - 'Ah, Les Vaches!' (2026, Is It Jazz? Records) 🐄


★★★★★

Com duas décadas de prolífica actividade – onde frutificaram duas mãos repletas de suculentos álbuns editados –, os noruegueses Bushman’s Revenge – um talentoso tridente domiciliado na cidade-capital Oslo – acabam de presentear todos os seus fiéis seguidores com o lançamento do novíssimo ‘Ah, Les Vaches!’ (título inspirado naquelas que, supostamente, foram as últimas palavras proferidas pelo célebre e excêntrico compositor francês Erik Satie no seu leito de morte) com o carimbo da jovem companhia discográfica local Is It Jazz? Records. Se o seu gélido e cristalino antecessor ‘All The Better For Seeing You’ (aqui trazido e desavergonhadamente namorado) senta os seus ouvintes no cume de uma monolítica montanha granítica de olhar embriagado e dissolvido na imensa brancura pincelada pelo rigoroso inverno escandinavo, ‘Ah, Les Vaches!’ fá-los sobrevoar o arenoso tapete dos dourados desertos norte-americanos bronzeados pelos impiedosos raios de um Sol desabrigado. Sem nunca perder de vista a sua estrela orientadora (um cuidado, elegante, estonteante e perfumado Contemporary Jazz) que a faroliza desde que desancorara e se entregara aos secretos desígnios dos mares, esta aventurosa embarcação viking perde-se e encontra-se agora por entre as revoltas ondas do experimentalismo sonoro dando à costa de um deslumbrante, exótico, tórrido e apaixonante Alternative Country de suor latino e sabor Tex-Mex. Conseguem imaginar os desérticos Calexico saídos de uma academia de Jazz com o doutoramento debaixo do braço? Se sim, estão aptos para avistar, com total clareza, as endeusadas paisagens sonoras de ‘Ah, Les Vaches!’. A sua enfeitiçante, camaleónica, meiga, hedónica e ambulante musicalidade – banhada a um lustroso misticismo que nos encandeia e ventilada por um doce sentimento de nostalgia que nos seduz e conduz à ébria sonolência crepuscular do enrugado e amarelecido coração do velho oeste americano – transporta-nos para os poeirentos e emblemáticos palcos cinematográficos do Spaghetti Western debaixo da superior orientação do realizador italiano Sergio Leone. Delicado, contemplativo, leve, lenitivo e sagrado é o reinante clima visual desta obra-prima puramente instrumental que nos iça as velas e veleja pelos serpenteantes desfiladeiros do infindável universo espiritual. ‘Ah, Les Vaches!’ é um registo ascético, anestésico, poético e ambiental para ser comungado de olhos fechados, sorriso imortalizado e sonhos desembrulhados. Um sábio contador de magnéticas histórias. Um postal musical do deserto florido. Uma obra comovente, de luzência milagrosa, que vive na santificada quietude e na consumada beatitude das suas refinadas composições. Deixem-se embevecer, enternecer e derreter à fascinante boleia de uma guitarra trovadora – discípula de Ry Cooder – que se manifesta em ensolarados, lisérgicos, estéticos e aromatizados acordes levados pela suave brisa do deserto, um baixo pachorrento que boceja aveludadas, vagueantes, intrigantes e sombreadas linhas, uma elegante bateria movida a leveza, sentimento e destreza, e um tocante pedal steel que com os seus arrepiantes, harmoniosos e ecoantes uivos nos faz salivar os ouvidos e desmaiar de prazer. São 43 minutos governados por uma imperante, imperturbável e contagiante paz onde, confortavelmente, nos recostamos, relaxamos e idealizamos uma existência exclusivamente nutrida pelos prazeres sensoriais. ‘Ah, Les Vaches!’ é um calmante natural e um sacramento mental que nos faz alhear da realidade e não mais dele querer despertar.

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🛰️ Sleep - "Have Spacesuit Will Travel (4:20 Flexi Edit)" (Single, 2026)