quinta-feira, 29 de outubro de 2026
quarta-feira, 28 de outubro de 2026
Review: 🔥 Graveyard - 'Fever' (2026, Nuclear Blast) 🔥
Do
alto das suas duas décadas de marcante existência, os célebres Graveyard
continuam a trilhar o seu triunfante caminho discográfico ao sabor do que lhes
vai na alma sem nunca perderem os seus traços idiossincráticos. Depois de um começo
norteado por um enigmático, provocante e vampírico Proto-Doom de reconfortante
agasalho Folk vigiado e assombrado de perto pelas formosas, sedutoras e
gloriosas diabruras do Blues – como está bem presente nos seus carismáticos
e consagrados álbuns ‘Graveyard’ e ‘Hisingen Blues’ – que lhes
valera um meteórico salto olímpico na sua reputação, a talentosa banda sueca domiciliada
na cidade costeira de Gotemburgo foi modelando e metamorfoseando a sua
musicalidade sem nunca ancorá-la demoradamente num determinado estilo, e isso
revestia de surpresa a atmosfera reinante de cada novo álbum por eles lançado.
Foi com esse espírito aventureiro que em 2023 desembrulhara – e aqui avidamente
elogiara – o seu último trabalho ‘6’ (um álbum de natureza reflexiva,
passiva e sombria, abraçado por um pardo, húmido e fechado nevoeiro de forte
odor marítimo sem faróis que o consigam rasgar) e agora – na ressaca de múltiplas
degustações – vejo-me tomado e incendiado pela intensa ardência que deflagra e crepita no seu
recém-nascido sétimo registo de longa duração intitulado ‘Fever’ e
editado pela célebre companhia discográfica germânica Nuclear Blast Records.
Governada por um despojado, fogoso, rochoso e musculado Hard Rock de
tracção setentista, agrilhoado a um atrevido, picante, provocante e torneado Blues
Rock de sedução intimista, a impetuosa, crua, nua e garbosa sonoridade de ‘Fever’
– amarelecida e envelhecida pelo espírito vintage – transpira fogosidade
infernal, rugosidade e toda uma intensidade emocional que nos exorciza as
tormentas. Povoado por estimulantes, incisivas, corrosivas e viciantes canções de
fácil digestão – consumidas pela crocante, electrizante e abrasiva distorção do
efeito fuzz – que nos inquietam e inflamam sem moderação, esta arrogante,
sincera e apaixonante obra de Graveyard tem o dom de nos tomar de
assalto e incendiar o coração. Deixem-se caçar pelas guitarras predatórias de chamejantes,
dominantes e irresistíveis riffs que ficam retidos na ponta da nossa língua
e de onde são desatados solos escorregadios, fugidios e alucinados, um baixo
quente de linhas possantes, tensas e ondulantes, uma bateria dinâmica de ritmos
altivos, explosivos e desembaraçados, e uma voz urticante, felina e liderante de
rugidos com mélico hálito a bourbon. A fantástica ilustração que confere rosto
a esta poderosa erupção de endorfinas é da inconfundível autoria do dotado e afamado ilustrador holandês Maarten Donders. Viril, magnético, febril e
afrodisíaco, ‘Fever’ é um emocionante disco de total transparência
sentimental, acelerado a alta rotação e que em nós provoca toda uma redentora combustão
impossível de extinguir. O grito da Fénix. “Este pode tratar-se mesmo do nosso melhor álbum lançado
até à data.” – preconizou a banda no momento do anúncio do mesmo. Quanto a mim,
não consigo ascendê-lo ao sagrado patamar dos impossíveis ‘Graveyard’ (2008) e ‘Hisingen
Blues’ (2011), mas este ‘Fever’ é, decerto, um álbum que merece todo o
nosso colo, carinho e profunda admiração. Um disco que à sua imagem roça a
perfeição.
Links:
⬩➤ Facebook
⬩➤ Instagram
⬩➤ Bandcamp
⬩➤ Nuclear Blast
terça-feira, 27 de outubro de 2026
sexta-feira, 23 de outubro de 2026
quinta-feira, 22 de outubro de 2026
Review: 😵 Hibushibire - 'Phantom Fuzzy Exotica' (2026, Riot Season) 😵
Oriunda
da cidade japonesa de Osaka chega-nos a mastodôntica onda de choque resultante
de mais uma psicotrópica explosão armadilhada e detonada pelo fantástico e irreverente
quarteto Hibushibire. Formado em 2012 e já com mais de duas dezenas de
trabalhos editados, este extravagante colectivo nipónico continua fiel à
vistosa pirotecnia psicadélica que os caracteriza desde a sua criação. Intitulado
‘Phantom Fuzzy Exotica’ e lançado com o carimbo da britânica companhia discográfica
independente Riot Season através dos formatos físicos de LP e CD-R, este
novo álbum de Hibushibire é cozinhado num borbulhante, fogoso e
fumegante caldeirão em constante e extravasante ebulição onde são remexidos e
sorvidos um intoxicante, desgovernado, alucinado e electrizante Heavy Psych
– fritado em gaseificada e abrasiva distorção – que nos ferve na sua multicolorida
e faiscante efervescência condimentada a intensa turbulência e convida à sónica
propulsão pelas autoestradas de um Cosmos em estado de sítio, e um letárgico,
mavioso, cerimonioso e mágico Psychedelic Folk de paisagem pastoral e
traje medieval que do interior das suas altas muralhas nos embevece, anestesia
e adormece nas orvalhadas, verdejantes e arejadas planícies embrumadas pela
tímida e embriagada madrugada de verão. Num incessante ricochete entre a
exótica combustão e a messiânica mansidão, vagueamos e derrapamos – de olhar
esfaimado, boca salivante e espírito imensamente fascinado – pelo criativo e desregrado experimentalismo
que (des)norteia a camaleónica, expressiva, invasiva e catatónica sonoridade deste
orgásmico ‘Phantom Fuzzy Exotica’. De rosto derretido, cabeça voadora e alma
aturdida somos subjugados, cativados e embalados na caleidoscópica vertigem desta viagem
desorientadora sem regresso garantido. Assombrados por esta fantasmagoria psicotrópica,
somos varridos e engolidos por um furioso vórtice que nos viola a sanidade
mental e reorganiza o nosso universo espiritual. São 38 minutos de um druídico ritual
que nos seduz, conquista e conduz aos inexplorados territórios domiciliados nas
longínquas costuras do espaço sideral. Aventurem-se e desventurem-se na
atmosfera atordoante de Hibushibire à estonteante boleia sonora de uma
guitarra monstruosa que chameja e gravita em torno de enfeitiçantes, ziguezagueantes
e poderosos riffs saturados de um misticismo oriental, e vomita todo um furacão
de venenosos, histéricos e sinuosos solos de elevada acidez, um dominante baixo
de linhas bailantes, hipnóticas e ondeantes, uma bateria estimulante de ritmos excitados,
suados e dinâmicos aliada a uma acrobática percussão de culto tribalista, um embruxado
theremin que com as suas enigmáticas frequências alienígenas exorciza o
Cosmos, e vocais ecoantes, distantes e celestiais de uma florescência espectral.
O belíssimo portal aponta os seus créditos de autor à artista visual japonesa Nakatsuka
Tomoco (também conhecida por aimaiworks). Uma imersiva e violenta radiação psicotrópica que nos encandeia, bronzeia a
pele e bombardeia a lucidez. Este é muito provavelmente o meu álbum favorito desta
prolífica banda japonesa e seguramente um dos registos mais espantosos e empolgantes de 2026.
Vivenciem-no com total entrega e imoderada emoção.
Links:
⬩➤ Facebook
⬩➤ Instagram
⬩➤ Bandcamp
⬩➤ Riot Season















