sexta-feira, 20 de março de 2026
quinta-feira, 19 de março de 2026
Review: 🐙 Harvey Rushmore & the Octopus - 'Mindsuckers' (2026, Taxi Gauche Records) 🐙
Da Suíça –
mais concretamente da cidade de Basel – dão à nossa costa as boas
vibrações irradiadas pelo irreverente quarteto helvético Harvey Rushmore
& the Octopus com a apresentação do seu novo álbum intitulado ‘Mindsuckers’
e editado pelo selo discográfico independente – seu conterrâneo – Taxi Gauche
Records através dos formatos LP, CD, cassete e digital. Baseada numa
multicolorida amálgama musical de onde se reconhece e apalada um caleidoscópico,
matizado, ensolarado e exótico Neo-Psychedelic Rock de leveza e doçura Indie
Rock, um dançante, ritmado, transpirado e excitante Garage Rock de magnéticos
serpenteios Surf Rock, e um enfeitiçante, esponjoso, infeccioso e
estimulante Krautrock, a sua reconfortante, aconchegante e sonhadora sonoridade
– de aroma tropical, brisa oceânica e climatizada a caramelizada nostalgia – emoldura
mágicos crepúsculos musicados pelo penetrante grasnar de gaivotas esvoaçantes e
vislumbrados por olhares maravilhados, desfocados pelas profusas lágrimas salgadas
que discorrem, difusas, pelas rosadas maçãs do nosso rosto e se perdem no interior
do nosso tímido sorriso. De influências colhidas em bandas como The Black
Angels, Black Mountain, Wooden Shjips, Moon Duo, Rose
City Band, Dommengang, Night Beats, Arbouretum, Magic
Machine e Acid Rooster, a aventurosa, onírica, mística e radiosa música
de Harvey Rushmore & the Octopus leva-nos das cálidas, sedosas e
bronzeadas dunas de um amarelecido deserto vigiado de perto por um impiedoso
Sol às refrescantes, espumosas e revigorantes ondas de um imenso e ventilado oceano
azul-turquesa. Num febril estádio de sonambulismo vagueamos, alcoolizados e arrebatados,
pelo prismático, extático e imersivo psicadelismo de calor desértico e odor a
maresia de ‘Mindsuckers’. Fascinados, aspirados e canalizados até ao
estômago de Harvey Rushmore & the Octopus, somos demoradamente digeridos
por uma embaciada, pálida, frágil e avinagrada voz de pele orvalhada e presença
flutuante, uma intoxicante guitarra – de distorção urticante e chamejante – que
surfa encaracolados, bailantes, provocantes e inflamados riffs de onde bruxuleiam
efervescentes, ácidos, derrapantes e alucinógenos solos, um baixo invertebrado de
linhas elásticas, meneantes, ondeantes e hipnóticas, um teclado fantasista de enleante,
sedutora, libertadora e inebriante formosura electrónica, e uma bateria galopante,
animada e pulsante a trote de eloquentes ritmos com a robótica precisão de um
relógio suíço. ‘Mindsuckers’ é um álbum de natureza camaleónica, composto por temas desiguais, que
tanto nos incendeia, pontapeia e euforiza numa agitada e suada dança, como nos anoitece,
entristece e eteriza nos caramelizados braços da melancolia. Um disco de beleza
sem fronteiras que se engrandece a cada renovada audição que lhe dedicamos.
Deixem-se derreter na lisérgica melosidade que este registo destila e embevecer
na atordoante centrifugadora onde o mesmo rodopia. ‘Mindsuckers’ é um vulcão
em erupção no Ártico. Um gigantesco tsunami num lago. Um eco no espaço. Uma
obra irresistível, inverosímil e viciante que estará, seguramente, perfilada
entre as mais medalhadas do ano. Gravitem-na com total veneração.
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quarta-feira, 18 de março de 2026
terça-feira, 17 de março de 2026
domingo, 15 de março de 2026
sábado, 14 de março de 2026
sexta-feira, 13 de março de 2026
Review: 🐉 Corima - 'Hunab Ku' (2026, Soleil Zeuhl) 🐉
Acordados de uma
longa hibernação com uma década de duração, os exóticos californianos Corima
– quinteto residente na cidade de Los Angeles – acaba de surpreender e
maravilhar todos os seus seguidores com o inesperado lançamento do seu tão
ansiado novo álbum intitulado ‘Hunab Ku’ e editado pelo carismático selo
discográfico francês – especializado no género – Soleil Zeuhl através de
uma bonita edição em CD. De denominação colhida no seio da ancestral civilização Maia, que
significa a fonte primordial, o coração da criação, ‘Hunab Ku’ simboliza uma miraculosa,
radiosa e curativa viagem no tempo e no espaço. Alicerçada num serpenteante, magnético,
profético e enleante Prog Rock de extravagante caligrafia Zeuhl e
alienígena idioma Kobaïan (linguagem artística criada e patenteada pelo engenhoso
baterista e compositor francês Christian Vander ao serviço dos seus enigmáticos
Magma), num combativo, arrojado, acicatado e impositivo Rock In
Opposition (RIO) de instrumentação desarrumada e em contramão, e
ainda num rebuscado, mirabolante, enfeitiçante e azafamado Avant-garde Jazz
sintonizado na frequência de John Coltrane e deflagrado numa colorida
combustão, a cerimonial, camaleónica, hipnótica e sensacional sonoridade de ‘Hunab
Ku’ passeia-nos, montados nas costas de um ziguezagueante dragão chinês, pelos frondosos, labirínticos, esfíngicos e formosos
jardins de Corima. De bússolas apontadas aos seminais Magma, bem
como a outras bandas francesas como Eskaton, Weidorje, Eider
Stellaire, Bernard Paganotti, Shub-Niggurath e Dün, às
nipónicas Ruins, Bondage Fruit e Koenji Hyakkei, e à belga
Univers Zéro, estes cinco druidas magicam cerebrais, esdrúxulas,
imprevisíveis e magistrais composições – de tempos acrobáticos – que nos
surpreendem e deslumbram a cada esquina. São 37 minutos de um caos superiormente
organizado por talentosos músicos disciplinados que se envolvem e revolvem em fascinantes
diálogos condimentados a afrodisíaca simbiose. A transcendência da alma aos límpidos
e ensolarados céus do Nirvana. Uma iguaria gourmet capaz de satisfazer os mais ousados
desejos de requinte dos ouvidos mais exigentes. Na génese deste sacramental fármaco de estirpe natural perfilam-se mântricos, angelicais e operáticos coros vocais que desfilam, hirtos, numa marcha marcial, fantásticos teclados de ofuscante magia metamorfoseada em
estado musical, um liderante violino de alucinantes, esvoaçantes e sedosos serpenteios,
um rebelde saxofone de excêntricos, psicóticos e berrantes devaneios, uma lunática
guitarra de solos esponjosos, sinuosos e angulares, um sombreado baixo de pulsantes,
bailantes e possantes linhas desenhadas a negrito, e uma flamejante bateria – deliciosamente
jazzy – de tarola rufante, timbalões galopantes e pratos cintilantes. A sublime,
estonteante e pormenorizada ilustração de tradicional inspiração oriental
aponta o seu crédito autoral ao artista Jee-Shaun Wang. Estamos na
presença de um singular álbum de inefável beleza, clima tribal e dimensão piramidal. Um
registo divinal, verdadeiramente sedutor, arrebatador e resplandecente, que cativa
o ouvinte num imaculado paraíso mental. O exotismo e o misticismo de mãos dadas
e sorriso no rosto. Um dos mais sérios candidatos a melhor álbum de 2026 está
aqui, no triunfante regresso dos notáveis Corima. Comunguem-no num transe religioso e expurguem-se
nele.
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quinta-feira, 12 de março de 2026
quarta-feira, 11 de março de 2026
terça-feira, 10 de março de 2026
segunda-feira, 9 de março de 2026
Review: ⚡ Zepter - 'Zepter' (2026, High Roller Records) ⚡
Proveniente da cidade austríaca de Linz chega-nos a excitante fogosidade cuspida pelo jovem e irreverente quarteto Zepter, formado em 2024, que nos apresenta o seu electrizante, lustroso e impactante álbum de estreia com denominação homónima, carimbado pela companhia editorial germânica High Roller Records através dos formatos LP, CD, cassete e digital. Baseada num desenfreado, irado e implacável rolo compressor – locomovido por um transpirado, picante, excitado e alucinante Heavy Metal de clara inspiração tradicional e energia combativa, atrelado a um fogoso, melódico, atlético e libidinoso Hard Rock de açucarada saudade oitentista e postura altiva –, a condutora, galopante, relampejante e sedutora sonoridade de ‘Zepter’ pendula o ouvinte entre caramelizadas baladas de emoções condimentadas e endiabradas cavalgadas de esporas ensanguentadas. De alento colhido em clássicas referências como Iron maiden, Saxon, Witchfinder General, Cirith Ungol, Saracen, Ostrogoth, UFO (da era Michael Schenker), Thin Lizzy, Manilla Road, April Wine, Angel Witch e Acid, este primeiro trabalho de longa duração da turma austríaca é alimentado a alta voltagem e acelerado a alta rotação. Um registo selvagem que enterra os seus longos e afiados caninos na nossa veia jugular e nos vê desmaiar, rendidos, nos seus braços. Um álbum forjado no fogo e marcado na nossa pele. São entusiásticos e epidémicos 35 minutos de inapagável combustão que nos incendeia e pontapeia de incontida euforia e boa disposição. Uma louca correria à empolgante boleia de duas predatórias guitarras siamesas que se perseguem a alta velocidade num turbulento galope de felinos, fervorosos, imperiosos e viperinos riffs desdobrados em catadupa e de onde esvoaçam selváticos enxames de vertiginosos, ziguezagueantes, estimulantes e aparatosos solos, um baixo musculado de linhas insufladas, sísmicas, graníticas e inflamadas, uma incansável e indomesticável bateria metralhada por ritmos instigantes, frenéticos, psicóticos e mirabolantes, e uma liderante voz de pele fresca, sedosa, harmoniosa e levemente rouquenha. A velocidade, a técnica e a autenticidade de mãos dadas numa viva e emocionante gritaria pelos encaracolados carris de uma atordoante montanha-russa. Uma injecção de pura adrenalina. Escaldante, estonteante, viciante e sensacional, ‘Zepter’ trata-se de um álbum verdadeiramente arrebatador, de espírito bravo e conquistador, que cravara uma flecha de cupido no meu tenro coração logo à primeira audição. Um irresistível disco de brilho apoteótico – de roupagem clássica e saturado por um dulcificado sentimento nostálgico – que nos senta confortavelmente ao volante de um barulhento Pontiac Firebird Trans Am de 1982, de vidros embaciados e motor ronronante, desbravando, sem destino, nevadas, solitárias e sinuosas estradas de montanha e acordando a fria noite de um inverno pincelado a azulada melancolia. Zepter é uma banda a não perder de vista.
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