sexta-feira, 26 de junho de 2026

Review: 🍹 Smokemaster - 'In the Temple' (2026, Tonzonen Records) 🍹


★★★★☆

Oriunda da cidade de Colónia chega-nos a aragem primaveril suspirada pelo quinteto germânico Smokemaster com o recém-nascido ‘In the Temple’ embalado nos seus braços. Lançado sob a influência da companhia discográfica – sua conterrânea – Tonzonen Records, este terceiro álbum da turma alemã vem ensolarado e nutrido por um fluído, leve, espirituoso e colorido Neo-Psychedelic Rock de caleidoscópica tintura sessentista e espírito pacifista que mantém o ouvinte entretido e fascinado do primeiro ao derradeiro tema. A sua musicalidade florida, radiosa, sorridente e aromatizada vagueia livre e graciosamente pelos nove temas que o compõem, deixando-nos de olhar sonhador, sorriso estampado no rosto e ancorados numa imperturbável sensação de pleno bem-estar. Emoldurado por um místico, alucinógeno e ritualístico revivalismo espelhado pelos mágicos 60’s, ‘In the Temple’ é um paraíso virginal e naturista – incensado a aromas tropicais, trajado por tecidos orientais e de uma envolvência intimista – que nos dilata o senso consciencial e revoluciona o universo sensorial. Electrificados pela sinestesia e aureolados por um êxtase religioso é fácil perdermo-nos neste deslumbrante, frondoso e estonteante jardim de cores vibrantes e estímulos que se multiplicam onde nos banhamos no seu polposo, frutado e açucarado néctar. Levemente anestesiados, de narinas dilatadas, maçãs do rosto coradas e pálpebras semi-cerradas sobrevoamos – com um ligeiro bater de asa – as reconfortantes, edénicas, melódicas e intoxicantes composições de Smokemaster. A frescura, a leveza, a delicadeza e a formosura conjugadas e centrifugadas num louco rodopio onde escorregamos, fantasiamos e esvaziamos a lucidez. Místico, exótico e cerimonial, ‘In the Temple’ é uma iguaria de índole sacramental que ninguém recusará comungar. Recostem-se confortavelmente nas acolchoadas planícies sonoras deste belíssimo disco superiormente pincelado por uma delirante guitarra de temulentos devaneios, um viçoso teclado de harmonias provocantes, um baloiçante baixo de reverberação marcante, uma agradável bateria de ritmos contagiantes e uma voz simpática, etérea e reinante. São 43 minutos radiantes, atestados de um deífico esplendor que nos bronzeia a pele e de uma milagrosa humidade que nos aduba a alma. Uma miraculosa e transformadora revelação divina sublimemente musicada e por nós disseminada. Um quimérico sonho dado à costa da nossa realidade.

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 Tonzonen Records

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Review: 🐄 Bushman's Revenge - 'Ah, Les Vaches!' (2026, Is It Jazz? Records) 🐄


★★★★★

Com duas décadas de prolífica actividade – onde frutificaram duas mãos repletas de suculentos álbuns editados –, os noruegueses Bushman’s Revenge – um talentoso tridente domiciliado na cidade-capital Oslo – acabam de presentear todos os seus fiéis seguidores com o lançamento do novíssimo ‘Ah, Les Vaches!’ (título inspirado naquelas que, supostamente, foram as últimas palavras proferidas pelo célebre e excêntrico compositor francês Erik Satie no seu leito de morte) com o carimbo da jovem companhia discográfica local Is It Jazz? Records. Se o seu gélido e cristalino antecessor ‘All The Better For Seeing You’ (aqui trazido e desavergonhadamente namorado) senta os seus ouvintes no cume de uma monolítica montanha granítica de olhar embriagado e dissolvido na imensa brancura pincelada pelo rigoroso inverno escandinavo, ‘Ah, Les Vaches!’ fá-los sobrevoar o arenoso tapete dos dourados desertos norte-americanos bronzeados pelos impiedosos raios de um Sol desabrigado. Sem nunca perder de vista a sua estrela orientadora (um cuidado, elegante, estonteante e perfumado Contemporary Jazz) que a faroliza desde que desancorara e se entregara aos secretos desígnios dos mares, esta aventurosa embarcação viking perde-se e encontra-se agora por entre as revoltas ondas do experimentalismo sonoro dando à costa de um deslumbrante, exótico, tórrido e apaixonante Alternative Country de suor latino e sabor Tex-Mex. Conseguem imaginar os desérticos Calexico saídos de uma academia de Jazz com o doutoramento debaixo do braço? Se sim, estão aptos para avistar, com total clareza, as endeusadas paisagens sonoras de ‘Ah, Les Vaches!’. A sua enfeitiçante, camaleónica, meiga, hedónica e ambulante musicalidade – banhada a um lustroso misticismo que nos encandeia e ventilada por um doce sentimento de nostalgia que nos seduz e conduz à ébria sonolência crepuscular do enrugado e amarelecido coração do velho oeste americano – transporta-nos para os poeirentos e emblemáticos palcos cinematográficos do Spaghetti Western debaixo da superior orientação do realizador italiano Sergio Leone. Delicado, contemplativo, leve, lenitivo e sagrado é o reinante clima visual desta obra-prima puramente instrumental que nos iça as velas e veleja pelos serpenteantes desfiladeiros do infindável universo espiritual. ‘Ah, Les Vaches!’ é um registo ascético, anestésico, poético e ambiental para ser comungado de olhos fechados, sorriso imortalizado e sonhos desembrulhados. Um sábio contador de magnéticas histórias. Um postal musical do deserto florido. Uma obra comovente, de luzência milagrosa, que vive na santificada quietude e na consumada beatitude das suas refinadas composições. Deixem-se embevecer, enternecer e derreter à fascinante boleia de uma guitarra trovadora – discípula de Ry Cooder – que se manifesta em ensolarados, lisérgicos, estéticos e aromatizados acordes levados pela suave brisa do deserto, um baixo pachorrento que boceja aveludadas, vagueantes, intrigantes e sombreadas linhas, uma elegante bateria movida a leveza, sentimento e destreza, e um tocante pedal steel que com os seus arrepiantes, harmoniosos e ecoantes uivos nos faz salivar os ouvidos e desmaiar de prazer. São 43 minutos governados por uma imperante, imperturbável e contagiante paz onde, confortavelmente, nos recostamos, relaxamos e idealizamos uma existência exclusivamente nutrida pelos prazeres sensoriais. ‘Ah, Les Vaches!’ é um calmante natural e um sacramento mental que nos faz alhear da realidade e não mais dele querer despertar.

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🛰️ Sleep - "Have Spacesuit Will Travel (4:20 Flexi Edit)" (Single, 2026)

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Review: 🔥 Goldfish Kaseem - 'For A Bryter Future' (2026, Saturn Eye Records / Morbid And Miserable Records) 🔥

★★★★★

Dos subúrbios de Lisboa chega-nos o bombástico álbum de estreia dinamitado pelo electrizante tridente Goldfish Kaseem intitulado ‘For A Bryter Future’ e editado a duas mãos pelas editoras Saturn Eye Records (LP e cassete) e Morbid And Miserable Records (CD e digital). Electrificado por um vulcânico, imersivo, invasivo e caleidoscópico Heavy Psych de tracção Hard Rock que baloiça entre a lisérgica contemplação e a eufórica combustão, e pontapeado por um caótico, ardente, irreverente e selvático Garage Rock de transpirada e violenta fúria Punk e inspiração Detroit’eana, este fogoso, enérgico e aparatoso power-trio português – liderado pelo guitarrista/vocalista Rodrigo Vaz – agiganta-se e revolta-se numa ciclópica centrifugação que tudo varre na sua direcção. A sua sonoridade ritmada, camaleónica, sónica e visceral – condimentada a uma efervescência astral – embala o ouvinte numa vertiginosa propulsão mental que o desenraíza da gravidade terrestre, expande o seu universo consciencial e lhe escancara as portas da percepção. De dentes cerrados, olhos selados e cabeças rodopiantes, somos atropelados, agredidos e levados pelos psicotrópicos ventos de Goldfish Kaseem. Dominado e acelerado pela motorizada fogosidade de inspiração colhida nos radicais californianos Fu Manchu – e contando, apenas, com uma inicial e final paragem de curta duração na arejada tranquilidade que muito me fizera recordar a mística sonoridade dos druidas suecos Hills –, este buliçoso, viçoso e virulento ‘For A Bryter Future’ encerra uma experiência intensamente impactante que não deixará ninguém recostado à indiferença. Empolgante, venenoso, cerimonioso e deveras contagiante, este primeiro passo discográfico da jovem formação nacional representa uma alucinante montanha-russa que, sem travões, nos viaja numa emoção gritada. Contendo uma surpreendente e impressionante versão cover do clássico “Situation” – tema originário da banda texana Josefus, retirado do seu carismático álbum ‘Dead Man’ (1980) – ‘For A Bryter Future’ sobreaquece-nos e endoidece-nos sem qualquer moderação. É um incisivo foguetão que rasga as vestes da noite cósmica. Uma trip sacramental de LSD que nos conduz à redenção. Na composição deste poderoso alucinógeno podemos testemunhar a psicadélica inflamação de uma guitarra reptiliana – fervida em crocante, rugoso e borbulhante efeito Fuzz – que se lança numa louca correria de delirantes, desatados, dinâmicos e viciantes riffs que nos implodem de entusiasmo e percorre apressadamente toda uma hipnótica escadaria em espiral de derrapantes, efervescentes, ácidos e trepidantes solos que nos engolem e revolvem, o firme pulso de um possante baixo locomovido a linhas tonificadas, encorpadas e coesas que nos mumificam e sufocam, a excitante impetuosidade de uma bateria energicamente metralhada a ritmos galopantes que nos tomam de assalto e cavalgam, e a revolta megafónica de vocais tresloucados, avinagrados e urticantes que nos conduzem ao epicentro do motim. ‘For A Bryter Future’ é um álbum verdadeiramente estimulante, desconcertante e incendiário que nos afogueia e atira para um violento estado de total insurreição sem qualquer policiamento à vista. O florescimento da liberdade na sua forma mais crua e desregrada. Uma visão desanuviada do futuro.

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