quinta-feira, 30 de julho de 2026

Review: 🦋 Las Robertas - 'All We Need is Now' (2026, Spinda Recs / Kanine Recs) 🦋


★★★★★

Proveniente da inesperada capital costa-riquenha San José, atraca na minha costa uma das mais agradáveis surpresas sonoras do ano. ‘All We Need is Now’ é o quinto trabalho de estúdio do sexteto Las Robertas, recém-lançado pela parceria discográfica que coliga a espanhola Spinda Records (responsável pela distribuição na Europa) e a nova-iorquina independente Kanine Records (responsável pela distribuição em solo americano). Orvalhada por um dormente, etéreo e absorvente Shoegaze de esbatida e embriagada melancolia trazida dos 90’s, colorida por um açucarado, sonhador e ritmado Psychedelic Pop que evoca a estética britânica dos florescidos 60’s e remexida por um caleidoscópico, alucinógeno e exótico Neo-Psychedelic Rock de experimentação imersiva, delirante e invasiva, a sonoridade de Las Robertas deixa no ouvinte um inapagável senso de caramelizada nostalgia que o desenraíza do presente e o naufraga num turbilhão de reminiscências domiciliadas no pretérito. De olhos lacrimosos e sorriso desabrochado no rosto, vagueamos livremente pelo universo onírico de ‘All We Need is Now’, completamente vencidos e cativados pela saturação emocional que o mesmo irradia. Colhendo ainda (in)discretas influências no Madchester (movimento musical e cultural inglês vivido entre o final da década de 1980 e o início da década de 1990 na cidade industrial de Manchester que combinava o Rock Alternativo, o Rock Psicadélico e a música electrónica) a cremosa, dançante, viciante e lustrosa musicalidade de Las Robertas partilha o código genético com outras referências como a britânica The Crystal Teardrop, a norte-americana Shadow Show e a mexicana La Era de Acuario. Um prismático jogo de espelhos onde nos perdemos e encontramos. Um irresistível feitiço que nos engole e digere demoradamente. Uma miraculosa viagem de cura e transformação pessoal. De cabeça febril – baloiçada de ombro em ombro –, olhar alcoolizado – içado na direcção da introspecção –, e espírito enternecido e sublimado pela sagrada luzência de ‘All We Need is Now’, somos seduzidos e conduzidos a despertar do passado e a estabelecer uma conexão com o presente. Na composição deste fármaco natural usado para fins terapêuticos podemos encontrar três aparentadas guitarras – embrulhadas entre si – que se aventuram em deleitosos, ajardinados e cheirosos riffs e desventuram em fluorescentes, ácidos e transcendentes solos, um baixo meneante de linhas oleadas, coesas e onduladas, uma bateria estimulante de ritmos expressivos, expansivos e magnetizantes, um teclado quimérico de deslumbrante ambiência cósmica que nos borrifa com matéria de que os sonhos são feitos e vocais fascinantes, ecoantes e espaciais que se espreguiçam por todo o corpo temporal deste álbum verdadeiramente sensacional. O metamórfico artwork de ‘All We Need is Now’ pertence à artista local Juliana Quesada e veste na perfeição a sua música. É igualmente importante referir que neste preciso momento esta apaixonante banda da Costa Rica se encontra numa mini tour europeia entre Espanha e França. Estamos, indubitavelmente, na afável presença de um dos mais belos discos florescidos em 2026. Pousem nele e banhem-se no seu melífluo néctar.

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terça-feira, 21 de julho de 2026

💜 Black Sabbath - 'Master Of Reality' (1971)

Review: 🥃 Child - 'Rebirth' (2026, Heavy Psych Sounds) 🥃


★★★★★

Formado em 2012 na cidade australiana de Melbourne, este cativante trio representa uma declarada, empoeirada e apaixonada carta de amor ao rústico Blues de tom sépia nascido, chorado e colhido nos árduos campos de algodão do velho e tórrido Mississippi. Com três álbuns e um EP no alforge (todos eles aqui trazidos e desavergonhadamente namorados), estes indomáveis cavaleiros – que há muito saquearam, afoguearam e conquistaram o meu tenro coração – engatilham e disparam agora o seu muito aguardado quarto trabalho de longa duração intitulado ‘Rebirth’ e editado pelo consagrado selo discográfico romano Heavy Psych Sounds. Musicado por um rastejante, rugoso, libidinoso e serpenteante Heavy Blues desdobrado em slow-motion, de calor fumegante e suor brilhante que nos faz descair as pálpebras, morder os lábios e despertar a líbido, este desarmante novo álbum de Child é um urticante, mélico e queimante trago de bourbon sorvido ao rangente balcão de um antiquado, rural e abafado bar de atmosfera fumarenta que nos naufraga os pensamentos e deixa relaxadamente estacionados numa ébria sonolência. Apimentada, oleosa, afrodisíaca e tonificada, a irresistível sonoridade de ‘Rebirth’ alcooliza e dameja o ouvinte do primeiro ao derradeiro tema. Envolvidos, consumidos e inebriados pelas suas pausadas, açucaradas, embriagadas e sentimentais baladas incendiadas a selvagem paixão e calmamente galopadas por um cavalo cansado na direcção do avermelhado Sol posto que bruxuleia no inatingível firmamento do deserto, tropeçamos e mergulhamos nesta absorvente tentação. De pele arrepiada e o peito em chamas, somos demoradamente seduzidos por uma portentosa guitarra que se avoluma em poderosos, viciantes, enfeitiçantes e majestosos riffs – electrificados pela escaldante, crocante e infecciosa distorção – de onde desaguam fugidios, luzidios, escorregadios e ziguezagueantes solos, um arrogante baixo de reverberação encorpada, espessa e sombreada, uma bateria inflamada de empolgantes, desatados e provocantes ritmos, e uma voz dourada, cremosa, felina e caramelizada que lidera com carismática distinção toda esta sublimada oração aos deuses do Blues. São 35 minutos de transbordante melosidade e contagiante sedução, cozinhados em lume brando, que nos mantêm de fascinação acordada e embevecidos sem a mais pequena interrupção. ‘Rebirth’ é um disco verdadeiramente impactante e sensacional que em mim provocara todo um intenso sismo emocional. Uma obra íntima que nos confessa genuínas sensibilidades capazes de acender e derreter o mais trevoso e rochoso dos corações. Neste infalível “Don Juan” habita um tema pelo qual morro de amores “Damned Heart (Last Time)”, que me trespassara com uma autêntica flecha de cupido logo na primeira audição e tudo nele em mim ainda hoje provoca uma inextinguível combustão. Child é uma banda deveras especial que sempre estimulou as zonas erógenas do meu sistema nervoso central. Deliciem-se e prazenteiem-se neste seu novo néctar.

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🌶️ The Sword - "Cloak Of Feathers" @ Freak Valley Festival 2025