Apesar
de toda a radiosa vibração emanada pelo intenso Sol das seis da tarde que
deflagrava ainda bem alto nos céus de Âncora, o tridente norte-americano
Midnight eclipsara e engolira o astro-rei com a sua impactante,
monolítica e chamejante pretura que a todos os presentes sombreara o semblante
e profanara a alma. De caras tapadas, roupas enlutadas e montados num
alucinante, corrosivo, agressivo e trepidante Black Metal de incansável coice
Punk Rock, a banda originária da cidade de Cleveland (no Ohio)
abrira um profundo e rodopiante buraco negro no meio da agitada plateia,
varrendo-a e naufragando-a do primeiro ao derradeiro tema. De lucidez ceifada e
alma arrastada para o epicentro do selvático caos, fomos esporeados, inflamados
e euforizados pelo potente, frenético e incandescente Black and Roll
destes três cavaleiros do apocalipse. Amotinados por uma poderosa guitarra de riffs
atiçados, mordazes e apressados, um implacável baixo de reverberação fibrosa,
umbrosa e maciça, uma bateria excitante a galope de uma ritmicidade apimentada,
impositiva e destravada, e vocais sangrentos, urticantes e cavernosos, fomos convocados
pelas doze badaladas de Midnight e aprisionados nas catacumbas da sua
abrasiva, diabólica e intrusiva sonoridade. Uma performance verdadeiramente
exclamativa, nociva e conquistadora que não deixara ninguém indiferente. No
final ergueram-se bem alto os copos de cerveja transbordante, os punhos
cerrados e os gritos de guerra.

O profano Sacramento de Mephistofeles
Foi
já sob a pálida luz lunar que comungámos a intrigante eucaristia de preces
ocultistas superiormente celebrada pelos argentinos Mephistofeles.
Discípulo de Electric Wizard, este virulento power-trio serviu-nos
um irresistível cálice de fumarento, resinoso, rugoso e bolorento Proto-Metal
assombrado por sombreados ecos Black Sabbath’icos e de intoxicante,
musculado, oleado e empolgante Heavy Rock carburado a alta rotação Motörhead’eana
que prontamente nos enevoou, enfeitiçou e conduziu ao lado oculto da religião.
De olhar embriagado, pele esbranquiçada e espírito integralmente rendido à
esfíngica sonoridade de Mephistofeles, mergulhámos num imperturbável
estado mesmérico sem porta de saída. Sedados, pasmados e seduzidos pela imersiva
fantasmagoria destes bruxos sul-americanos, baloiçámos lentamente os nossos
corpos ociosos à apaixonante boleia de uma guitarra necromante que se
manifestava em imperiosos, viscosos, bafientos e montanhosos riffs de
onde esvoaçavam alucinados, ziguezagueantes, desarmantes e invertebrados solos,
um enigmático baixo de indiscreta inspiração Geezer Butler’eana que –
com as suas linhas fibrosas, densas, tensas e trabalhosas – soletrava todas as
sílabas do riff-base, uma pujante bateria corrida a expressiva, altiva e
desembaraçada ritmicidade, e uma liderante voz de tez avinagrada, ácida e
vampírica. Mephistofeles ao vivo foi um esponjoso, transformador e
glorioso ritual de magia negra capaz de revirar olhos, desenraizar demónios e
tombar cruzes. Foi tão fácil cair nesta tentação.

A afrodisíaca combustão de HÖG
Devo
antecipar que da vigente edição do SonicBlast o concerto dos
norte-americanos HÖG era aquele que mais
atiçava o meu coração. Progenitor daquele que considerei tratar-se do melhor
álbum nascido no passado ano de 2025 (listagem completa aqui) intitulado
‘Blackhole’, este electrizante power-trio domiciliado na cidade
de Portland (estado do Oregon) subia ao palco naquela radiosa
tarde do segundo dia de festival, saudando a ainda fragmentada plateia que –
respondendo ao chamamento da banda – se aproximava timidamente do gradeamento
frontal. Eu carregava no peito os mais urgentes anseios por poder experienciar in
loco tamanha sobredosagem de adrenalina. Flamejada, inflamada e esporeada
por um fogoso, tonificado, lubrificado e libidinoso Hard Rock de
tentador balanço boogie, um combativo, colérico, eufórico e altivo Heavy
Metal em intensa e irrespirável combustão, um tétrico, rugoso, trevoso e
diabólico Proto-Doom que nos encarvoa a alma, e ainda um vertiginoso,
aparatoso, irascível e incansável Punk Rock de espírito indomável, a
excitante, impiedosa, monstruosa e viciante sonoridade de HÖG foi irrepreensivelmente executada em cima
de palco e fora dele vivia-se um ambiente de febril e epidémica euforia. Um
bélico, incendiário e fulminante cocktail molotov onde flagram e
crepitam clássicas influências como Motörhead, Blue Cheer, The
Stooges, Judas Priest, AC/DC, Ramones, Budgie, Toad
e Grand Funk Railroad arremessado na nossa direcção que nos inflamara e
carbonizara. Eu rodopiava furiosamente a cabeça e gritava as letras das músicas
que tão bem conhecia. HÖG é um barulhento e potente muscle car –
de turbo ligado e acelerado a alta rotação – que derrete o alcatrão e nos faz
fervilhar de emoção. A ferocidade e a fogosidade de mãos dadas, disparadas num
enlouquecedor vórtice que nos desaparafusa a sanidade mental. Pura dinamite. Um
sismo emocional. Alimentados por uma guitarra predatória de danças giratórias –
discípula de Angus Young – que acelerando e desacelerando se manifesta
em musculosos, abrasivos, explosivos e furiosos riffs forjados no fogo
de onde esvoaçam, num orgásmico grito, derrapantes, histéricos, caóticos e
alucinantes solos em eufórica e selvática debandada, um baixo denso, tenso e
encorpado de linhas baloiçantes, atléticas, elásticas e magnetizantes, uma
bateria expressiva, incisiva e bombástica – de ritmicidade metralhada a
imparável agilidade e infernal impetuosidade – que nos vergasta com um chicote
em chamas, e uma voz urticante, cavernosa, felina e liderante – de rouquenhos
rugidos Lemmy’escos – que ressoa, ecoa e nos guia pela tenebrosa
infinidade da sua musicalidade. Com uns 75% da sua setlist dedicada ao ‘Blackhole’,
a banda desembrulhou ainda um par de novos temas que me deixaram de ouvidos
salivantes, assim como comunicou a tão aguardada notícia do lançamento de um
novo álbum calendarizado para 2027. De HÖG tudo esperava e tudo eles
entregaram. No final, ainda tomado pela intensa euforia, dizia – convictamente
– a todos os meus amigos ali presentes que havia sido um dos melhores concertos
da minha vida. E foi mesmo.

A destravada Montanha-Russa de Deathchant
Foi
já com a noite instalada que estes rostos bem nossos conhecidos (ou aquela não
fosse já a sua quarta presença no festival) subiram a palco de punhos cerrados,
olhares confiantes e a promessa tácita de que iriam brindar-nos com uma das
performances mais memoráveis desta 14ª edição do SonicBlast. E, devo
adiantar, que os californianos cumpriram. Este irreverente quarteto proveniente
da cidade de Los Angeles não demorou a rodar a chave na ignição e a
acordar um robusto e barulhento motor de uma velha Harley-Davidson que nos
viajara a toda a velocidade pelas sinuosas estradas do seu carnudo, dinâmico,
entusiástico e sisudo Heavy Rock de tontura Punk acorrentado a um
turbulento, ferrugento, endiabrado e rabugento Proto-Metal de tracção
setentista. Situada a meio da ponte entre a impetuosidade de Motörhead e
a celeridade de Thin Lizzy, a tonitruante, corrosiva e contagiante sonoridade
destes selváticos motards traz a ela colada um forte odor a gasolina e
um penetrante cheiro a pneu queimado. Deathchant ao vivo foi um
revigorado tsunami de endorfinas que rebentara em nós. Acalorada e
inflamada, a numerosa plateia debatia-se prazerosamente na instintiva resposta
comportamental aos ataques em catadupa desta cavalaria pesada. As guitarras
siamesas agigantavam-se em faiscantes, ciclónicos e fumegantes riffs de
alta voltagem e libertavam todo um giratório vendaval de encaracolados,
histéricos e desvairados solos, o baixo edificava elevadas paredes de filamentosa,
poderosa e sufocante reverberação, a aparatosa bateria de baquetas em chamas
soltava incandescentes faúlhas e os vocais espinhosos, rouquenhos, ecoantes e
rochosos acordavam a noite de Âncora. Numa digressão apressada pelos
seus trabalhos já editados e algumas incursões pelo seu novo álbum que está na
iminência de ser lançado, os Deathchant exibiram toda a sua apoteótica
pujança ao vivo e a entrega da banda foi de tal ordem, que um dos guitarristas
– para surpresa de todos os presentes – escalou mesmo a teia metálica que
suporta as grandes colunas laterais no exterior do palco e saltou mesmo de
guitarra empunhada, sem receios e de costas para cima da tumultuosa maré humana
que o levara em braços de regresso à costa. No final, despediram-se de todos
nós com os instrumentos bem içados e debaixo de um emocionado coro de gritos e
palavras encorajadoras.

A elevada radiação ultravioleta de Primitive Ring
Ofuscados
e escaldados pelos impiedosos raios solares da tarde do terceiro e derradeiro
dia de festival, vimos subir a palco uma das grandes surpresas (pela positiva)
desta edição do SonicBlast. Liderada pelo talentoso e afamado
guitarrista Charles Moothart (companheiro de Ty Segall em Fuzz), esta
jovem banda californiana chamada Primitive Ring arrancou para uma
performance verdadeiramente atraente, convincente e conquistadora. Um exótico e
camaleónico refresco musical de onde se reconheceu e saboreou um estiloso,
garboso e provocante Hard Rock de roupagem clássica, um caleidoscópico,
hipnótico e relampejante Heavy Psych e ainda um ritmado, apimentado e
dançante Garage Rock. A sua sonoridade enleante, bem-disposta e viciante
manteve a plateia de sorriso no rosto e corpo baloiçante do primeiro ao último
minuto. Conseguem imaginar uma simbiótica jam session entre Black
Sabbath, Grand Funk Railroad e The Stooges? Se sim, chegaram
aos domínios de Primitive Ring. Com apenas um álbum debaixo do braço,
este tridente angelino presenteou-nos com um apaixonante concerto de
psicotrópicas vibrações que em todos deixara agradáveis sensações. Foi nas asas
de uma guitarra bailante que se superava em serpenteantes, deliciosos e
deslumbrantes riffs electrificados pelo urticante, granulado e crocante
efeito Fuzz e efervescia em borbulhantes, derrapantes e ácidos solos, um
baixo soberbamente groovy conduzido por linhas pulsantes, fluídas e
ondulantes, uma bateria imensamente cativante de ritmos quentes, alegres e
saltitantes, e harmoniosos vocais que se cruzam e descruzam na maré
instrumental, que surfámos os mares encaracolados de Primitive Ring. Na
recta final houve ainda espaço para a ousada interpretação de uma versão
incendiária do clássico da música Blues “I Just Want to Make Love to You”
(tema escrito por Willie Dixon e originalmente gravado em 1954 por Muddy
Waters) que fora prontamente reconhecido e entoado, motivando sorrisos e prazerosos
suspiros da plateia a eles rendida.

Elder:
Odisseia no Espaço
Com
a responsabilidade de inaugurar a última noite do SonicBlast, os
consagrados Elder subiram ao palco principal (pela terceira vez na
história do festival) de olhos postos no vasto oceano de multidão que se
distendia até onde a vista conseguia alcançar, inundando o recinto até às
costuras, e que deles esperava um dos grandes concertos da presente edição. De
instrumentos apontados ao Cosmos, o agora quinteto progressivo (outrora um trio
de alma vendida ao Doom) dedicou a totalidade da sua performance ao vivo
a esta sua nova fase sonora que tem vindo a maturar e a aprimorar desde a
ressaca deixada pelo seu impactante segundo álbum ‘Dead Roots Stirring’ (o
meu registo favorito da banda, importa referir) lançado no já longínquo ano de
2011. Com especial enfoque no seu recém-nascido ‘Through Zero’ (o seu
novíssimo álbum editado no final de Maio que ainda precisa do embalo do colo da
banda para ganhar estatuto dentro da sua já respeitável discografia), os Elder
desdobraram no nosso imaginário todo um infindável tapete com vista desabrigada
para a eterna noite cósmica onde confortavelmente sentados e à boleia do seu expansivo,
lenitivo, meditativo e ambiental Prog Rock de tintura psicadélica e aura
espacial fomos viajados – de pupilas dilatadas e fascinação esfomeada – pelos
virginais territórios alienígenas, atravessando flamejantes fornalhas
estelares, driblando o abraço gravitacional de idosos e solitários astros
mergulhados no negro solo celestial e perfurando a colorida e poeirenta malha
de fantasmagóricas nebulosas que vagueiam a vacuidade sideral. Absorvente,
envolvente e cinematográfica, a sonoridade dos Elder desancorou-nos da
gravidade terrestre e içou-nos para o centro da fascinante narrativa de um
fantasista romance de ficção científica. Pesadamente hipnotizados e levemente
embriagados pela musicalidade onírica destes astronautas de instrumentos
empunhados e baptizados pelas estrelas, levitámos à harmoniosa boleia de duas
guitarras sublimadas, um baixo anoitecido, uma bateria ritmada, um sintetizador
mágico e uma voz acordada numa reflexiva, admirável e imaginativa digressão
interior sem início nem fim. Não foi nada fácil acordar deste sonho que nos
havia levado para tão longe da realidade e agora abandonava, atordoados, no
desconfortável silêncio.

Os vulcânicos High
On Fire em Erupção
Foi
com o seu recinto completamente lotado que o SonicBlast recebeu os
titânicos High On Fire no seu tão aguardado regresso a uma casa onde já
haviam estado na edição de 2024. Eram eles os reis daquele derradeiro dia de
festival e isso sentia-se no palpável entusiasmo impossível de esconder pelos
milhares de festivaleiros que com alguns tiques nervosos aguardavam, ansiosos,
a entrada deste tridente ofensivo em palco. Apesar da expectativa generalizada
ser elevadíssima, o que se seguiu à entrada da banda norte-americana em palco
foi algo completamente inesperado que a todos arrasou e tomou de assalto. Assim
que a banda liderada pelo carismático Matt Pike se posicionou em palco e
ligou toda uma monolítica parede de amplificadores, arrancaram a toda a
velocidade e intensidade na nossa direcção, qual buldózer desgovernado. Com um mastodôntico,
intoxicante, euforizante e ciclónico Stoner Doom que ocasionalmente se
enlameia nos nimbosos pântanos do Sludge Metal e um poderoso, agressivo,
corrosivo e raivoso Heavy Metal de vertiginosa pedalada Punk engatilhados,
o poderoso trio de San Francisco (Califórnia) dizimou toda uma
plateia despreparada para toda aquela brutalidade. Engolidos por um crepitante
vulcão e carbonizados por um autêntico lança-chamas, reagíamos como podíamos
perante aquela bombástica, fogosa e caótica ferocidade. O próprio Matt Pike
parecia possuído por um espírito demoníaco que o dominou durante toda aquela
avassaladora performance. Se no interior do palco detonava uma infernal
euforia, fora dele os corpos rodopiavam e embatiam violentamente entre si
criando verdadeiros tornados humanos por toda a plateia. A loucura era total e
sem cura. Uma impiedosa marcha militar ao som de uma guitarra exterminadora que
nos fulminou com riffs abrasivos, impetuosos, tempestuosos e combativos
de onde desaguavam solos ziguezagueantes, excitados e electrizantes, um baixo
sufocante de linhas massivas, tensas e invasivas, uma insana bateria metralhada
a alucinante, desarmante e inflamada ritmicidade, e uma voz felina de rugidos
revoltosos, urticantes e fervorosos. High On Fire foi de uma
agressividade, arrogância e intensidade quase desumanas. Uma performance
verdadeiramente enlouquecedora e triunfante que ecoará para sempre na memória
de quem lá esteve. No final, estávamos todos combalidos, aturdidos e pasmados
com a dimensão daquela avalanche de adrenalina que nos havia atropelado sem qualquer
misericórdia.

Early Moods: A chuva de Morcegos
Foi com o pesado e intimidante bater de asa dos
californianos Early Moods que as portas desta edição do SonicBlast
se fecharam para mim. Neto de Black Sabbath e filho de Candlemass,
este trevoso quarteto transformou o palco principal do festival num autêntico
altar onde sacrificara e glorificara um intrigante, hermético, luciférico e
atemorizante Proto-Doom de forte fragância vintage que convertera todos
os presentes em seus fiéis discípulos. A misantrópica, pálida e épica
sonoridade de Early Moods – mumificada por fibrosas teias de aranha e
sobrevoada por incontáveis morcegos sedentos – tem o raro dom de nos enfeitiçar
e embalsamar num inquebrável estádio de profundo sonambulismo. Uma infecciosa,
horripilante e cerimoniosa feitiçaria que nos soterra de braços cruzados,
pousados sobre o peito, no negro e profundo solo do lado eclipsado da
religiosidade. Só a repentina chuva nos conseguiu arrancar das trevas de Early
Moods e forçar a distanciar do palco para procurar abrigo. Mas nem ela
conseguiu lavar a nossa alma manchada pela assombrada pretura doutrinada por
estes sacerdotes do paraíso perdido. Norteado e conduzido por duas essências e
velocidades contrastadas, este rito foi tão moroso, dramático, carregado e
pesaroso como vertiginoso, galopante, excitante e aparatoso. Assim que a chuva
abrandou, apressei-me a regressar à frente do palco para testemunhar de perto à
profana unção celebrada por duas guitarras gémeas – de opulenta caligrafia Iommi’esca
– que se amontoavam em endiabrados, claustrofóbicos e encarvoados riffs de
marcha tirânica e de onde esvoaçavam numa hipnótica espiral alucinados e
presunçosos solos de virulenta acidez, um baixo pesadamente sombreado de
bafagem acentuada, sisuda, carnuda e aterrorizante, uma bateria flamejante de
coice incisivo, ostensivo, acirrante e explosivo, e uma voz liderante de tez
frígida, pálida, melódica e avinagrada. Gótica sedução. Early Moods foi
o encerrar com chave de ouro o meu SonicBlast. Que chegue depressa a tão
aguardada 15ª edição!