sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Review: ☠️ SonicBlast 2026: Beach & Riffs ☠️

Agora que a ressaca deixada pela 14ª edição do festival SonicBlast parece curada, é hora de dar voz às tantas emoções transpiradas e intensamente vividas durante aqueles três dias na simpática e acolhedora freguesia minhota de Âncora (município de Caminha). Outrora domiciliado durante largos anos na freguesia vizinha Moledo e agora ancorado junto ao extenso areal da Praia da Duna do Caldeirão desde o verão de 2022, o SonicBlast é tão mais do que um festival musical. É uma verdadeira meca psicadélica que motiva a sagrada peregrinação de milhares e milhares de melómanos oriundos dos “quatro cantos” do planeta que todos os anos ali se (re)encontram para uma verdadeira celebração de amizade batizada pela música. Há uma clara sensação de especial cumplicidade entre os incontáveis rostos que se cruzam e descruzam no interior do recinto, bem como a caminho / de regresso do mesmo. Uma verdadeira irmandade SonicBlast’eana que por cada ano que passa fica mais forte. Até os californianos Deathchant – visivelmente emocionados e declaradamente apaixonados pela aliciante atmosfera do festival – confessaram durante a sua actuação que haviam conhecido mais pessoas naqueles três dias apenas de SonicBlast do que durante um ano inteiro nos EUA. O SonicBlast é casa, família e o local onde cada um de nós mais quer estar. A par do que já sucedera em cada uma das restantes edições, nesta 14ª edição do festival foi palpável o transbordante entusiasmo experienciado pelos múltiplos festivaleiros que a inundaram e – previsivelmente – esgotaram. Foram três dias (quatro, se contabilizarmos o warm-up), farolizados por um intenso Sol reinante de bafo ardente, sobrevoados pela fresca e salgada brisa oceânica suspirada por Poseidon, e vigiados de perto por um diamantino céu repleto de uma coloração azul-turquesa durante o dia e que à noite se trajava de um negro aveludado com vista desabrigada para as fornalhas estelares. O clima agradável reinou até à derradeira noite do festival onde os até então cristalinos céus se poluíram de carregadas nuvens cinzentas e choraram uma súbita e torrencial chuva que parecia lamentar a despedida de mais uma marcante edição carregada de tão felizes memórias que nem o esquecimento se esquecerá de as lembrar. Desta sua exótica ementa sonora – capaz de agradar tanto a gregos como a troianos – ansiava experienciar a redentora explosividade de HÖG, a melancolia outonal de Dead Meadow (infelizmente cancelados pelos próprios no decorrer do festival alegando motivos de saúde), a luciférica assombração de Early Moods, a insolação infernal de High on Fire e a psicotrópica exalação de Bongzilla (que, inesperadamente, viriam a revelar-se uma autêntica desilusão). Sem mais delongas, eis os meus concertos favoritos escalpelizados por ordem cronológica:

Midnight: O eclipse total do Sol

Apesar de toda a radiosa vibração emanada pelo intenso Sol das seis da tarde que deflagrava ainda bem alto nos céus de Âncora, o tridente norte-americano Midnight eclipsara e engolira o astro-rei com a sua impactante, monolítica e chamejante pretura que a todos os presentes sombreara o semblante e profanara a alma. De caras tapadas, roupas enlutadas e montados num alucinante, corrosivo, agressivo e trepidante Black Metal de incansável coice Punk Rock, a banda originária da cidade de Cleveland (no Ohio) abrira um profundo e rodopiante buraco negro no meio da agitada plateia, varrendo-a e naufragando-a do primeiro ao derradeiro tema. De lucidez ceifada e alma arrastada para o epicentro do selvático caos, fomos esporeados, inflamados e euforizados pelo potente, frenético e incandescente Black and Roll destes três cavaleiros do apocalipse. Amotinados por uma poderosa guitarra de riffs atiçados, mordazes e apressados, um implacável baixo de reverberação fibrosa, umbrosa e maciça, uma bateria excitante a galope de uma ritmicidade apimentada, impositiva e destravada, e vocais sangrentos, urticantes e cavernosos, fomos convocados pelas doze badaladas de Midnight e aprisionados nas catacumbas da sua abrasiva, diabólica e intrusiva sonoridade. Uma performance verdadeiramente exclamativa, nociva e conquistadora que não deixara ninguém indiferente. No final ergueram-se bem alto os copos de cerveja transbordante, os punhos cerrados e os gritos de guerra.


O profano Sacramento de Mephistofeles

Foi já sob a pálida luz lunar que comungámos a intrigante eucaristia de preces ocultistas superiormente celebrada pelos argentinos Mephistofeles. Discípulo de Electric Wizard, este virulento power-trio serviu-nos um irresistível cálice de fumarento, resinoso, rugoso e bolorento Proto-Metal assombrado por sombreados ecos Black Sabbath’icos e de intoxicante, musculado, oleado e empolgante Heavy Rock carburado a alta rotação Motörhead’eana que prontamente nos enevoou, enfeitiçou e conduziu ao lado oculto da religião. De olhar embriagado, pele esbranquiçada e espírito integralmente rendido à esfíngica sonoridade de Mephistofeles, mergulhámos num imperturbável estado mesmérico sem porta de saída. Sedados, pasmados e seduzidos pela imersiva fantasmagoria destes bruxos sul-americanos, baloiçámos lentamente os nossos corpos ociosos à apaixonante boleia de uma guitarra necromante que se manifestava em imperiosos, viscosos, bafientos e montanhosos riffs de onde esvoaçavam alucinados, ziguezagueantes, desarmantes e invertebrados solos, um enigmático baixo de indiscreta inspiração Geezer Butler’eana que – com as suas linhas fibrosas, densas, tensas e trabalhosas – soletrava todas as sílabas do riff-base, uma pujante bateria corrida a expressiva, altiva e desembaraçada ritmicidade, e uma liderante voz de tez avinagrada, ácida e vampírica. Mephistofeles ao vivo foi um esponjoso, transformador e glorioso ritual de magia negra capaz de revirar olhos, desenraizar demónios e tombar cruzes. Foi tão fácil cair nesta tentação.


A afrodisíaca combustão de HÖG

Devo antecipar que da vigente edição do SonicBlast o concerto dos norte-americanos HÖG era aquele que mais atiçava o meu coração. Progenitor daquele que considerei tratar-se do melhor álbum nascido no passado ano de 2025 (listagem completa aqui) intitulado ‘Blackhole’, este electrizante power-trio domiciliado na cidade de Portland (estado do Oregon) subia ao palco naquela radiosa tarde do segundo dia de festival, saudando a ainda fragmentada plateia que – respondendo ao chamamento da banda – se aproximava timidamente do gradeamento frontal. Eu carregava no peito os mais urgentes anseios por poder experienciar in loco tamanha sobredosagem de adrenalina. Flamejada, inflamada e esporeada por um fogoso, tonificado, lubrificado e libidinoso Hard Rock de tentador balanço boogie, um combativo, colérico, eufórico e altivo Heavy Metal em intensa e irrespirável combustão, um tétrico, rugoso, trevoso e diabólico Proto-Doom que nos encarvoa a alma, e ainda um vertiginoso, aparatoso, irascível e incansável Punk Rock de espírito indomável, a excitante, impiedosa, monstruosa e viciante sonoridade de HÖG foi irrepreensivelmente executada em cima de palco e fora dele vivia-se um ambiente de febril e epidémica euforia. Um bélico, incendiário e fulminante cocktail molotov onde flagram e crepitam clássicas influências como Motörhead, Blue Cheer, The Stooges, Judas Priest, AC/DC, Ramones, Budgie, Toad e Grand Funk Railroad arremessado na nossa direcção que nos inflamara e carbonizara. Eu rodopiava furiosamente a cabeça e gritava as letras das músicas que tão bem conhecia. HÖG é um barulhento e potente muscle car – de turbo ligado e acelerado a alta rotação – que derrete o alcatrão e nos faz fervilhar de emoção. A ferocidade e a fogosidade de mãos dadas, disparadas num enlouquecedor vórtice que nos desaparafusa a sanidade mental. Pura dinamite. Um sismo emocional. Alimentados por uma guitarra predatória de danças giratórias – discípula de Angus Young – que acelerando e desacelerando se manifesta em musculosos, abrasivos, explosivos e furiosos riffs forjados no fogo de onde esvoaçam, num orgásmico grito, derrapantes, histéricos, caóticos e alucinantes solos em eufórica e selvática debandada, um baixo denso, tenso e encorpado de linhas baloiçantes, atléticas, elásticas e magnetizantes, uma bateria expressiva, incisiva e bombástica – de ritmicidade metralhada a imparável agilidade e infernal impetuosidade – que nos vergasta com um chicote em chamas, e uma voz urticante, cavernosa, felina e liderante – de rouquenhos rugidos Lemmy’escos – que ressoa, ecoa e nos guia pela tenebrosa infinidade da sua musicalidade. Com uns 75% da sua setlist dedicada ao ‘Blackhole’, a banda desembrulhou ainda um par de novos temas que me deixaram de ouvidos salivantes, assim como comunicou a tão aguardada notícia do lançamento de um novo álbum calendarizado para 2027. De HÖG tudo esperava e tudo eles entregaram. No final, ainda tomado pela intensa euforia, dizia – convictamente – a todos os meus amigos ali presentes que havia sido um dos melhores concertos da minha vida. E foi mesmo.


A destravada Montanha-Russa de Deathchant

Foi já com a noite instalada que estes rostos bem nossos conhecidos (ou aquela não fosse já a sua quarta presença no festival) subiram a palco de punhos cerrados, olhares confiantes e a promessa tácita de que iriam brindar-nos com uma das performances mais memoráveis desta 14ª edição do SonicBlast. E, devo adiantar, que os californianos cumpriram. Este irreverente quarteto proveniente da cidade de Los Angeles não demorou a rodar a chave na ignição e a acordar um robusto e barulhento motor de uma velha Harley-Davidson que nos viajara a toda a velocidade pelas sinuosas estradas do seu carnudo, dinâmico, entusiástico e sisudo Heavy Rock de tontura Punk acorrentado a um turbulento, ferrugento, endiabrado e rabugento Proto-Metal de tracção setentista. Situada a meio da ponte entre a impetuosidade de Motörhead e a celeridade de Thin Lizzy, a tonitruante, corrosiva e contagiante sonoridade destes selváticos motards traz a ela colada um forte odor a gasolina e um penetrante cheiro a pneu queimado. Deathchant ao vivo foi um revigorado tsunami de endorfinas que rebentara em nós. Acalorada e inflamada, a numerosa plateia debatia-se prazerosamente na instintiva resposta comportamental aos ataques em catadupa desta cavalaria pesada. As guitarras siamesas agigantavam-se em faiscantes, ciclónicos e fumegantes riffs de alta voltagem e libertavam todo um giratório vendaval de encaracolados, histéricos e desvairados solos, o baixo edificava elevadas paredes de filamentosa, poderosa e sufocante reverberação, a aparatosa bateria de baquetas em chamas soltava incandescentes faúlhas e os vocais espinhosos, rouquenhos, ecoantes e rochosos acordavam a noite de Âncora. Numa digressão apressada pelos seus trabalhos já editados e algumas incursões pelo seu novo álbum que está na iminência de ser lançado, os Deathchant exibiram toda a sua apoteótica pujança ao vivo e a entrega da banda foi de tal ordem, que um dos guitarristas – para surpresa de todos os presentes – escalou mesmo a teia metálica que suporta as grandes colunas laterais no exterior do palco e saltou mesmo de guitarra empunhada, sem receios e de costas para cima da tumultuosa maré humana que o levara em braços de regresso à costa. No final, despediram-se de todos nós com os instrumentos bem içados e debaixo de um emocionado coro de gritos e palavras encorajadoras.


A elevada radiação ultravioleta de Primitive Ring

Ofuscados e escaldados pelos impiedosos raios solares da tarde do terceiro e derradeiro dia de festival, vimos subir a palco uma das grandes surpresas (pela positiva) desta edição do SonicBlast. Liderada pelo talentoso e afamado guitarrista Charles Moothart (companheiro de Ty Segall em Fuzz), esta jovem banda californiana chamada Primitive Ring arrancou para uma performance verdadeiramente atraente, convincente e conquistadora. Um exótico e camaleónico refresco musical de onde se reconheceu e saboreou um estiloso, garboso e provocante Hard Rock de roupagem clássica, um caleidoscópico, hipnótico e relampejante Heavy Psych e ainda um ritmado, apimentado e dançante Garage Rock. A sua sonoridade enleante, bem-disposta e viciante manteve a plateia de sorriso no rosto e corpo baloiçante do primeiro ao último minuto. Conseguem imaginar uma simbiótica jam session entre Black Sabbath, Grand Funk Railroad e The Stooges? Se sim, chegaram aos domínios de Primitive Ring. Com apenas um álbum debaixo do braço, este tridente angelino presenteou-nos com um apaixonante concerto de psicotrópicas vibrações que em todos deixara agradáveis sensações. Foi nas asas de uma guitarra bailante que se superava em serpenteantes, deliciosos e deslumbrantes riffs electrificados pelo urticante, granulado e crocante efeito Fuzz e efervescia em borbulhantes, derrapantes e ácidos solos, um baixo soberbamente groovy conduzido por linhas pulsantes, fluídas e ondulantes, uma bateria imensamente cativante de ritmos quentes, alegres e saltitantes, e harmoniosos vocais que se cruzam e descruzam na maré instrumental, que surfámos os mares encaracolados de Primitive Ring. Na recta final houve ainda espaço para a ousada interpretação de uma versão incendiária do clássico da música Blues “I Just Want to Make Love to You” (tema escrito por Willie Dixon e originalmente gravado em 1954 por Muddy Waters) que fora prontamente reconhecido e entoado, motivando sorrisos e prazerosos suspiros da plateia a eles rendida.


Elder: Odisseia no Espaço

Com a responsabilidade de inaugurar a última noite do SonicBlast, os consagrados Elder subiram ao palco principal (pela terceira vez na história do festival) de olhos postos no vasto oceano de multidão que se distendia até onde a vista conseguia alcançar, inundando o recinto até às costuras, e que deles esperava um dos grandes concertos da presente edição. De instrumentos apontados ao Cosmos, o agora quinteto progressivo (outrora um trio de alma vendida ao Doom) dedicou a totalidade da sua performance ao vivo a esta sua nova fase sonora que tem vindo a maturar e a aprimorar desde a ressaca deixada pelo seu impactante segundo álbum ‘Dead Roots Stirring’ (o meu registo favorito da banda, importa referir) lançado no já longínquo ano de 2011. Com especial enfoque no seu recém-nascido ‘Through Zero’ (o seu novíssimo álbum editado no final de Maio que ainda precisa do embalo do colo da banda para ganhar estatuto dentro da sua já respeitável discografia), os Elder desdobraram no nosso imaginário todo um infindável tapete com vista desabrigada para a eterna noite cósmica onde confortavelmente sentados e à boleia do seu expansivo, lenitivo, meditativo e ambiental Prog Rock de tintura psicadélica e aura espacial fomos viajados – de pupilas dilatadas e fascinação esfomeada – pelos virginais territórios alienígenas, atravessando flamejantes fornalhas estelares, driblando o abraço gravitacional de idosos e solitários astros mergulhados no negro solo celestial e perfurando a colorida e poeirenta malha de fantasmagóricas nebulosas que vagueiam a vacuidade sideral. Absorvente, envolvente e cinematográfica, a sonoridade dos Elder desancorou-nos da gravidade terrestre e içou-nos para o centro da fascinante narrativa de um fantasista romance de ficção científica. Pesadamente hipnotizados e levemente embriagados pela musicalidade onírica destes astronautas de instrumentos empunhados e baptizados pelas estrelas, levitámos à harmoniosa boleia de duas guitarras sublimadas, um baixo anoitecido, uma bateria ritmada, um sintetizador mágico e uma voz acordada numa reflexiva, admirável e imaginativa digressão interior sem início nem fim. Não foi nada fácil acordar deste sonho que nos havia levado para tão longe da realidade e agora abandonava, atordoados, no desconfortável silêncio.


Os vulcânicos High On Fire em Erupção

Foi com o seu recinto completamente lotado que o SonicBlast recebeu os titânicos High On Fire no seu tão aguardado regresso a uma casa onde já haviam estado na edição de 2024. Eram eles os reis daquele derradeiro dia de festival e isso sentia-se no palpável entusiasmo impossível de esconder pelos milhares de festivaleiros que com alguns tiques nervosos aguardavam, ansiosos, a entrada deste tridente ofensivo em palco. Apesar da expectativa generalizada ser elevadíssima, o que se seguiu à entrada da banda norte-americana em palco foi algo completamente inesperado que a todos arrasou e tomou de assalto. Assim que a banda liderada pelo carismático Matt Pike se posicionou em palco e ligou toda uma monolítica parede de amplificadores, arrancaram a toda a velocidade e intensidade na nossa direcção, qual buldózer desgovernado. Com um mastodôntico, intoxicante, euforizante e ciclónico Stoner Doom que ocasionalmente se enlameia nos nimbosos pântanos do Sludge Metal e um poderoso, agressivo, corrosivo e raivoso Heavy Metal de vertiginosa pedalada Punk engatilhados, o poderoso trio de San Francisco (Califórnia) dizimou toda uma plateia despreparada para toda aquela brutalidade. Engolidos por um crepitante vulcão e carbonizados por um autêntico lança-chamas, reagíamos como podíamos perante aquela bombástica, fogosa e caótica ferocidade. O próprio Matt Pike parecia possuído por um espírito demoníaco que o dominou durante toda aquela avassaladora performance. Se no interior do palco detonava uma infernal euforia, fora dele os corpos rodopiavam e embatiam violentamente entre si criando verdadeiros tornados humanos por toda a plateia. A loucura era total e sem cura. Uma impiedosa marcha militar ao som de uma guitarra exterminadora que nos fulminou com riffs abrasivos, impetuosos, tempestuosos e combativos de onde desaguavam solos ziguezagueantes, excitados e electrizantes, um baixo sufocante de linhas massivas, tensas e invasivas, uma insana bateria metralhada a alucinante, desarmante e inflamada ritmicidade, e uma voz felina de rugidos revoltosos, urticantes e fervorosos. High On Fire foi de uma agressividade, arrogância e intensidade quase desumanas. Uma performance verdadeiramente enlouquecedora e triunfante que ecoará para sempre na memória de quem lá esteve. No final, estávamos todos combalidos, aturdidos e pasmados com a dimensão daquela avalanche de adrenalina que nos havia atropelado sem qualquer misericórdia.


Early Moods: A chuva de Morcegos

Foi com o pesado e intimidante bater de asa dos californianos Early Moods que as portas desta edição do SonicBlast se fecharam para mim. Neto de Black Sabbath e filho de Candlemass, este trevoso quarteto transformou o palco principal do festival num autêntico altar onde sacrificara e glorificara um intrigante, hermético, luciférico e atemorizante Proto-Doom de forte fragância vintage que convertera todos os presentes em seus fiéis discípulos. A misantrópica, pálida e épica sonoridade de Early Moods – mumificada por fibrosas teias de aranha e sobrevoada por incontáveis morcegos sedentos – tem o raro dom de nos enfeitiçar e embalsamar num inquebrável estádio de profundo sonambulismo. Uma infecciosa, horripilante e cerimoniosa feitiçaria que nos soterra de braços cruzados, pousados sobre o peito, no negro e profundo solo do lado eclipsado da religiosidade. Só a repentina chuva nos conseguiu arrancar das trevas de Early Moods e forçar a distanciar do palco para procurar abrigo. Mas nem ela conseguiu lavar a nossa alma manchada pela assombrada pretura doutrinada por estes sacerdotes do paraíso perdido. Norteado e conduzido por duas essências e velocidades contrastadas, este rito foi tão moroso, dramático, carregado e pesaroso como vertiginoso, galopante, excitante e aparatoso. Assim que a chuva abrandou, apressei-me a regressar à frente do palco para testemunhar de perto à profana unção celebrada por duas guitarras gémeas – de opulenta caligrafia Iommi’esca – que se amontoavam em endiabrados, claustrofóbicos e encarvoados riffs de marcha tirânica e de onde esvoaçavam numa hipnótica espiral alucinados e presunçosos solos de virulenta acidez, um baixo pesadamente sombreado de bafagem acentuada, sisuda, carnuda e aterrorizante, uma bateria flamejante de coice incisivo, ostensivo, acirrante e explosivo, e uma voz liderante de tez frígida, pálida, melódica e avinagrada. Gótica sedução. Early Moods foi o encerrar com chave de ouro o meu SonicBlast. Que chegue depressa a tão aguardada 15ª edição!

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Review: 🦋 Las Robertas - 'All We Need is Now' (2026, Spinda Recs / Kanine Recs) 🦋


★★★★★

Proveniente da inesperada capital costa-riquenha San José, atraca na minha costa uma das mais agradáveis surpresas sonoras do ano. ‘All We Need is Now’ é o quinto trabalho de estúdio do sexteto Las Robertas, recém-lançado pela parceria discográfica que coliga a espanhola Spinda Records (responsável pela distribuição na Europa) e a nova-iorquina independente Kanine Records (responsável pela distribuição em solo americano). Orvalhada por um dormente, etéreo e absorvente Shoegaze de esbatida e embriagada melancolia trazida dos 90’s, colorida por um açucarado, sonhador e ritmado Psychedelic Pop que evoca a estética britânica dos florescidos 60’s e remexida por um caleidoscópico, alucinógeno e exótico Neo-Psychedelic Rock de experimentação imersiva, delirante e invasiva, a sonoridade de Las Robertas deixa no ouvinte um inapagável senso de caramelizada nostalgia que o desenraíza do presente e o naufraga num turbilhão de reminiscências domiciliadas no pretérito. De olhos lacrimosos e sorriso desabrochado no rosto, vagueamos livremente pelo universo onírico de ‘All We Need is Now’, completamente vencidos e cativados pela saturação emocional que o mesmo irradia. Colhendo ainda (in)discretas influências no Madchester (movimento musical e cultural inglês vivido entre o final da década de 1980 e o início da década de 1990 na cidade industrial de Manchester que combinava o Rock Alternativo, o Rock Psicadélico e a música electrónica) a cremosa, dançante, viciante e lustrosa musicalidade de Las Robertas partilha o código genético com outras referências como a britânica The Crystal Teardrop, a norte-americana Shadow Show e a mexicana La Era de Acuario. Um prismático jogo de espelhos onde nos perdemos e encontramos. Um irresistível feitiço que nos engole e digere demoradamente. Uma miraculosa viagem de cura e transformação pessoal. De cabeça febril – baloiçada de ombro em ombro –, olhar alcoolizado – içado na direcção da introspecção –, e espírito enternecido e sublimado pela sagrada luzência de ‘All We Need is Now’, somos seduzidos e conduzidos a despertar do passado e a estabelecer uma conexão com o presente. Na composição deste fármaco natural usado para fins terapêuticos podemos encontrar três aparentadas guitarras – embrulhadas entre si – que se aventuram em deleitosos, ajardinados e cheirosos riffs e desventuram em fluorescentes, ácidos e transcendentes solos, um baixo meneante de linhas oleadas, coesas e onduladas, uma bateria estimulante de ritmos expressivos, expansivos e magnetizantes, um teclado quimérico de deslumbrante ambiência cósmica que nos borrifa com matéria de que os sonhos são feitos e vocais fascinantes, ecoantes e espaciais que se espreguiçam por todo o corpo temporal deste álbum verdadeiramente sensacional. O metamórfico artwork de ‘All We Need is Now’ pertence à artista local Juliana Quesada e veste na perfeição a sua música. É igualmente importante referir que neste preciso momento esta apaixonante banda da Costa Rica se encontra numa mini tour europeia entre Espanha e França. Estamos, indubitavelmente, na afável presença de um dos mais belos discos florescidos em 2026. Pousem nele e banhem-se no seu melífluo néctar.

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