sábado, 4 de julho de 2026
sexta-feira, 3 de julho de 2026
quinta-feira, 2 de julho de 2026
Review: 🔥 Red Kite - 'This Too Shall Pass' (2026, Is It Jazz? Records) 🔥

Abrangendo talentosos
músicos provenientes de outros projectos vizinhos como Shining, Elephant9,
Grand General, Bushman’s Revenge e Soft Ffog na sua formação,
os Red Kite são hoje uma das bandas mais respeitadas dentro do prolífico
universo Jazz norueguês. Acordados de uma hibernação de cinco anos de
duração (no que à produção de trabalhos de estúdio diz respeito), este apaixonante
quarteto regressa agora com o seu terceiro esforço intitulado ‘This Too
Shall Pass’ e editado pelo emergente selo discográfico local Is It Jazz?
Records. Como o seu nome assim o sugere, este álbum foi concebido num
momento de profunda transformação e resiliência para esta embarcação viking
que atravessara o abominável cabo das tormentas devido a uma amaldiçoada série
de eventos sombrios que descolorara as vidas pessoais dos seus integrantes. Foi
nesse difícil processo de consternação e subsequente superação que os inventivos Red
Kite tiveram a capacidade de metamorfosear a sua dor pessoal numa autêntica
obra de arte piramidal. Capitaneado a duas mãos por um umbroso, melancólico, letárgico
e misterioso Contemporary Jazz – de uma inelutável sedução noir a
fazer recordar a intrigante atmosfera cinematográfica de Twin Peaks – que
ocasionalmente se aventura e desventura nos desbastados territórios do electrizante
Jazz Rock, e um enleante, místico, labiríntico e desafiante Prog Rock
de extravagante caligrafia avant-garde, esta última criação da erudita turma
formada e domiciliada na cidade de Oslo preencheu e extravasou as minhas
medidas. Red Kite é a versão gótica de Mahavishnu Orchestra. As
suas intelectuais, transcendentes, solenes e excepcionais composições – mareadas
por um virtuoso experimentalismo sem fronteiras que o espartilhem – imortaliza no
ouvinte um imperturbável estádio de reinante petrificação e ofuscante fascinação
que o climatiza e alcooliza do primeiro ao derradeiro tema. Levemente
inebriados, entontecidos e enfeitiçados, somos conquistados e levados pela
espirituosa mestria instrumental de ‘This Too Shall Pass’ dos refrescantes,
sedosos e reconfortantes lençóis onde prazerosamente nos alongamos e espreguiçamos
aos turbulentos mares de um naufrágio mental que nos arrefece, inquieta e anoitece
a alma. Alumiado pela pálida luzência lunar, este novo registo de Red Kite
é abraçado por uma elegância nocturna que nos rouba o ar do peito e leva à rendição. Comovente,
esfíngico, dramático e absorvente, ‘This Too Shall Pass’ é um disco
imensamente apoteótico que não deixará ninguém indiferente. Baloiçada entre anestésicas,
bucólicas e reflexivas passagens que nos massajam e adormecem os sentidos, e aparatosas,
estrondosas e selváticas debandadas instrumentais – viajadas em contramão – que
nos incendeiam de eufórica emoção, a exótica, sofisticada e camaleónica
sonoridade deste expressivo álbum desfila vaidosa e graciosamente num bizarro cabaret.
Na composição deste sacramento jazzístico podemos encontrar uma guitarra langorosa
de acordes luminosos, cristalinos e casualmente rugosos de onde florescem solos
esguios, escorregadios e angulosos, um saxofone lúgubre de sopros ziguezagueantes,
esquivos e ocasionalmente agressivos, uma bateria deliciosa – tanto ociosa como
em polvorosa – que lhe confere uma ritmicidade acrobática, dinâmica e
impressiva, um baixo pulsante de linhas flexíveis, oleosas e palpáveis e um
teclado harmonioso de frescos, romanescos e cheirosos bailados. Um dos mais
belos discos nascidos em 2026 está aqui, na poderosa veia emocional de ‘This
Too Shall Pass’. Não quero acordar deste álbum.
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quarta-feira, 1 de julho de 2026
terça-feira, 30 de junho de 2026
domingo, 28 de junho de 2026
sábado, 27 de junho de 2026
sexta-feira, 26 de junho de 2026
Review: 🍹 Smokemaster - 'In the Temple' (2026, Tonzonen Records) 🍹

★★★★☆
Oriunda da
cidade de Colónia chega-nos a aragem primaveril suspirada pelo quinteto germânico
Smokemaster com o recém-nascido ‘In the Temple’ embalado nos seus
braços. Lançado sob a influência da companhia discográfica – sua conterrânea – Tonzonen
Records, este terceiro álbum da turma alemã vem ensolarado e nutrido por um fluído,
leve, espirituoso e colorido Neo-Psychedelic Rock de caleidoscópica
tintura sessentista e espírito pacifista que mantém o ouvinte entretido e fascinado
do primeiro ao derradeiro tema. A sua musicalidade florida, radiosa, sorridente
e aromatizada vagueia livre e graciosamente pelos nove temas que o compõem,
deixando-nos de olhar sonhador, sorriso estampado no rosto e ancorados numa imperturbável
sensação de pleno bem-estar. Emoldurado por um místico, alucinógeno e
ritualístico revivalismo espelhado pelos mágicos 60’s, ‘In the Temple’ é
um paraíso virginal e naturista – incensado a aromas tropicais, trajado por
tecidos orientais e de uma envolvência intimista – que nos dilata o senso
consciencial e revoluciona o universo sensorial. Electrificados pela sinestesia
e aureolados por um êxtase religioso é fácil perdermo-nos neste deslumbrante, frondoso
e estonteante jardim de cores vibrantes e estímulos que se multiplicam onde nos
banhamos no seu polposo, frutado e açucarado néctar. Levemente anestesiados, de
narinas dilatadas, maçãs do rosto coradas e pálpebras semi-cerradas sobrevoamos
– com um ligeiro bater de asa – as reconfortantes, edénicas, melódicas e
intoxicantes composições de Smokemaster. A frescura, a leveza, a delicadeza
e a formosura conjugadas e centrifugadas num louco rodopio onde escorregamos, fantasiamos e
esvaziamos a lucidez. Místico, exótico e cerimonial, ‘In the Temple’ é
uma iguaria de índole sacramental que ninguém recusará comungar. Recostem-se
confortavelmente nas acolchoadas planícies sonoras deste belíssimo disco superiormente
pincelado por uma delirante guitarra de temulentos devaneios, um viçoso teclado
de harmonias provocantes, um baloiçante baixo de reverberação marcante, uma agradável
bateria de ritmos contagiantes e uma voz simpática, etérea e reinante. São 43 minutos
radiantes, atestados de um deífico esplendor que nos bronzeia a pele e de uma
milagrosa humidade que nos aduba a alma. Uma miraculosa e transformadora revelação divina
sublimemente musicada e por nós disseminada. Um quimérico sonho dado à costa da nossa realidade.
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