sexta-feira, 11 de setembro de 2026

ᨒ Earth & Fire - "In The Mountains" (1972)

Review: 🦌 Sex Magick Wizards - 'Suola ja Noaidi' (2026, Is It Jazz? Records) 🦌

★★★★★

Devo admitir que a cada anúncio de um novo álbum dos noruegueses Sex Magick Wizards deflagra em mim um faiscante e descontrolado fogo de entusiamo. Esta talentosa banda domiciliada na cidade-capital Oslo – pela qual nutro uma grande devoção e cuja criatividade parece não conhecer limites – acaba de lançar o seu extravagante quarto álbum de estúdio denominado ‘Suola ja Noaidi’ (o ladrão e o xamã) pela mão da emergente companhia discográfica local Is It Jazz? Records através de estéticas e apetecíveis edições em LP e CD. Farolizada pela cultura Sami – um povo indígena do norte da Europa que habita a região de Sápmi, abrangendo o norte da Noruega, Suécia, Finlândia e a península de Kola na Rússia – e desenhada em torno de temas como a colonização, a religião armada e a resiliência Sami, a exótica, experimental, camaleónica e cerimonial sonoridade de ‘Suola ja Noaidi’ manifesta-se num pirotécnico curto-circuito jazzístico onde se cruzam na mesma corrente eléctrica um desarrumado, caótico, labiríntico e desgrenhado Free Jazz de instrumentos em selvática debandada, um tribal, afrodisíaco, ritualístico e celestial Spiritual Jazz que nos alavanca a religiosidade e um carnavalesco, espalhafatoso, poderoso e burlesco Avant-Garde Jazz que em nós provoca uma relampejante tempestade cerebral. Mutante, hipnótico, excêntrico e fascinante, este novo trabalho do sui generis quarteto nórdico é uma obra verdadeiramente extraordinária, complexa e desafiante que obriga o ouvinte a múltiplas audições para sua plena interpretação. Um bizarro puzzle sonoro da mais elevada dificuldade que nos seduz, invade e conduz pelas suas portentosas, admiráveis e gloriosas composições. Numa mistura entre a vanguarda e a erudição, a estonteante complexidade rítmica, harmonias dissonantes e a livre improvisação, ‘Suola ja Noaidi’ conta ainda com a indiscreta influência do impopular movimento Rock in Opposition (RIO) a fazer lembrar a sátira mordaz soberbamente musicada pelos suecos Samla Mammas Manna e o tenso desassossego superiormente orquestrado pelos belgas Univers Zéro. Percam-se e encontrem-se, tropecem e levantem-se, aventurem-se e desventurem-se à enleante boleia de uma guitarra alienígena que rabisca – numa indecifrável caligrafia – neuróticos, esdrúxulos e claustrofóbicos riffs de onde são escoados solos vertiginosos, sónicos e angulosos, uma bateria circense de ritmos impressionantes, arriscados, acrobáticos e mirabolantes, um magnético baixo de linhas pulsantes, elásticas, enigmáticas e marcantes, um incisivo saxofone de gritos tresloucados, discordantes e assanhados, uma melodiosa flauta de sopros arejados, leves e aveludados, cantos étnicos, místicos e ancestrais de uma acentuada bipolaridade que baloiça entre sangrentos gritos histéricos e robóticas declamações monocórdicas, e enfeitiçantes sintetizadores que embrumam e perfumam a opressiva, estranha e inventiva atmosfera do álbum com a sua bizarria electrónica. Este é um registo sem fronteiras ou barreiras que o inibem. A irreverência no seu nível máximo. Uma obra estimulante, sufocante e desorientadora que nos rouba o ar do peito e domina ao longo dos seus extensos 72 minutos de duração. Uma inquebrável sedução. Envolvam-se e revolvam-se nesta compenetrada, incansável e sagrada dança tribal sob a messiânica luzência de um dos álbuns mais fenomenais do ano.

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segunda-feira, 7 de setembro de 2026

♟️ Phil Lynott - "Can’t Get Away" (1985)

Review: 🌅 Edena Gardens - 'Quintessence' (2026, El Paraiso Records) 🌅

★★★★★

Formado em 2022 e tendo como sua única missão o lançamento de uma trilogia de álbuns (Edena Gardensde 2022, Agar de 2023 e Dens também de 2023), este talentoso quinteto escandinavo – que conta com músicos provenientes de consagradas bandas como Causa Sui e Papir – passara a fronteira da sua (e da nossa) expectativa em relação à sua durabilidade e ao seu sentido de existência com o inesperado nascimento do seu quarto trabalho de estúdio Dispossessed no passado ano de 2025, e agora envia-nos um sinal sob a forma musical da longínqua exosfera e viajando a toda a velocidade para as profundezas da garganta do espaço sideral com o aparecimento do seu quinto álbum de estúdio intitulado ‘Quintessence’, editado e carimbado pela insuspeita El Paraiso Records numa estética e irresistível edição física em LP e CD que embelezará e valorizará a colecção de qualquer melómano que se preze. Num caloroso abraço gravitacional entre um reflexivo, cinematográfico, anestésico e imersivo Post-Rock condimentado com sal marinho e um embriagante, charmoso, radioso e apaixonante Psychedelic Rock de deslumbrante maquilhagem celestial, este novo álbum de Edena Gardens perfila-se como o trabalho mais expansivo, camaleónico, exótico e expressivo lançado até à data pela banda dinamarquesa. Contando ainda com aventuras e desventuras nos territórios alienígenas da música Jazz, o cativante hipnotismo do Krautrock e o aroma tropical do sumarento Funk, a paradisíaca, sonhadora, trovadora e ritualística sonoridade de ‘Quintessence’ passeia-se graciosa e livremente num evolutivo, lenitivo e arejado slow-motion de proféticas, lisérgicas e intuitivas jams instrumentais que tocam os universos musicais de Soft Machine, Jimi Hendrix, Herbie Hancock, Ry Cooder, Agitation Free, The Mermen e Pelican. Detidos pela invisível radiação da introspecção e mistificados pela desarmante beleza que este disco irradia, somos levados a experienciar um multicolorido e vibrante arco-íris de desiguais sensações. ‘Quintessence’ é uma manhã refrescante de pele arrepiada e olhar perdido na timidez de um Sol distante, uma tarde abafada de corpos bronzeados e suados farolizada por um Sol chamejante, um mágico crepúsculo de céus pincelados a colorações quentes e um Sol de rosto derretido e perdido no firmamento, e uma quieta e arejada noite trajada de um aveludado e negro manto com vista desabrigada para a pálida luzência da Lua. A praia das nossas vidas. Enfeitiçante, purificante e transformador, ‘Quintessence’ é um abrigo sagrado onde choramos as nossas feridas e nos curamos. São 80 minutos de uma experiência verdadeiramente gratificante que nos faz sorrir de cabeça pensante e olhar lacrimejante. Velejem este sonho soberbamente musicado à afrodisíaca boleia de uma guitarra reptiliana e exploratória que se serpenteia em oleosos, viciantes, libidinosos e temperados riffs de onde são vertidos uivantes, ofuscantes, comoventes e encaracolados solos de uma beleza sem igual, um dançante baixo de bafo pausado, quente e sombreado, e uma acrobática bateria de ritmos livres, leves e desatados. O experimentalismo, a delicadeza, a destreza e o misticismo de mãos dadas. Deixem-se inundar pelos ondeantes, psicotrópicos e messiânicos raios ultravioletas de Edena Gardens e testemunhem com total admiração e religiosa veneração todo o santificado esplendor de um dos mais edénicos e terapêuticos álbuns desabrochados neste jardim musical de 2026.

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