Na iminência de
completarem quatro décadas de frutífera actividade – onde contabilizam cerca de
duas dezenas de álbuns lançados –, os californianos The Mermen (uma das
minhas bandas favoritas, importa salientar) continuam num permanente estado de
maré alta a surfar a crista da onda. Natural da icónica cidade de San
Francisco, este já histórico tridente vive acima de uma ponte que interliga
um ritmado, bronzeado e dançante Surf Rock de postura vanguardista a um caleidoscópico,
exótico e enfeitiçante Psychedelic Rock de inspiração trazida do jardim sessentista,
e é dessa tão sua amálgama musical de essência puramente instrumental que nasce
o seu mais recente trabalho intitulado ‘Akwa Mmiri’, editado sob as
formas de CD e digital pela independente companhia discográfica local KMA
Records. Com salgadas pitadas de um misticismo pelágico e regada a um experimentalismo
sem fronteiras, a lenitiva, alucinógena, erógena e reflexiva sonoridade de ‘Akwa
Mmiri’ passeia o ouvinte dos radiosos, sagrados e gloriosos desertos cavalgados
pelo célebre cineasta italiano Sergio Leone às mais paradisíacas, deíficas e
virginais praias de areias douradas e cristalinas águas de um azul diamantino.
É aqui que o calor desértico se mistura com a frescura oceânica. Um nirvânico
estado de alma que nos perpetua sentados à beira-mar, de olhar maravilhado e
naufragado nas quentes e vibrantes colorações crepusculares, narinas dilatadas
a aspirar a salgada e perfumada brisa suspirada pelo oceano, e a desgostar um doce
e sumarento cocktail de aroma tropical. Um verdadeiro oásis mental de consagração
espiritual onde nos perdemos e encontramos. The Mermen tem o raro dom de
nos travar a respiração, içar a imaginação e em nós instaurar um inesgotável verão.
Deslumbrante, nostálgico, ataráxico e inebriante, ‘Akwa Mmiri’
representa toda uma miraculosa experiência que nos amolece, entorpece e
embevece. Respirável, leve, livre e reverenciável. São 76 minutos de uma transbordante
sedução que nos faroliza e canaliza a um imperturbável estádio de pleno êxtase.
Deixem-se namorar e encantar pelos enleantes serpenteios de uma guitarra autenticamente
sensacional – de irresistível charme oriental – que se manifesta através de esponjosos,
aquosos e fascinantes acordes que desaguam em ecoantes, uivantes e extraordinários
solos de uma desarmante beleza irreal, pelo hipnótico baloiçar de um murmurante
baixo de linhas sombreadas, elásticas e almofadadas, e pelo repetitivo,
imersivo e relaxado galope de uma bateria tribal. Este é um álbum neptuniano onde
nos banhamos, descontraímos e expurgamos todos os nossos males. Um registo
ternurento, comovente, arejado e pachorrento que nos baixa a pressão arterial.
Um calmante natural de odor a maresia e propensão transcendental. Um tsunami de boas sensações. ‘Akwa
Mmiri’ é o disco perfeito para emoldurar tropicais finais de tarde com os
olhos ofuscados pelo amarelecido brilho solar e os pés beijados pela espumosa
água do mar. O canto da sereia. A banda-sonora perfeita para musicar o Verão e lavar a alma das impurezas da vida.
segunda-feira, 6 de abril de 2026
Review: 🏄 The Mermen - 'Akwa Mmiri' (2026, KMA Records) 🏄
domingo, 5 de abril de 2026
sábado, 4 de abril de 2026
quinta-feira, 2 de abril de 2026
quarta-feira, 1 de abril de 2026
terça-feira, 31 de março de 2026
segunda-feira, 30 de março de 2026
domingo, 29 de março de 2026
sábado, 28 de março de 2026
quinta-feira, 26 de março de 2026
quarta-feira, 25 de março de 2026
Review: 👁️ Fangus - 'Emerald Dream' (2026, From the Urn Records) 👁️
Conseguem
imaginar uma enérgica e sinérgica jam session entre Deep Purple e Black
Sabbath? Se sim, acabam de alcançar os pentagrâmicos domínios de Fangus:
um impressivo quinteto canadiano que acaba de lançar o seu poderoso álbum de
estreia intitulado ‘Emerald Dream’ e editado pela mão do independente
selo discográfico local From the Urn através dos formatos LP e digital.
Escudada num trevoso, arrogante, maldoso e enfeitiçante Proto-Metal de carregadas
feições demoníacas, um montanhoso, musculado, torneado e aparatoso Hard Rock
de bíceps tonificados, e um electrizante, delirante, alucinógeno e intoxicante Heavy
Psych de ácida caleidoscopia, a evangelista, clássica, majestática e
ritualista sonoridade de ‘Emerald Dream’ vem envernizada pela brilhante
graxa setentista. Com uma produção intencionalmente suja e primitiva – que nos
faz duvidar se este álbum não terá sido gravado há meio século no interior abafado
de uma escura, húmida, bolorenta e decrépita cave, e só agora fora desenterrado e desempoeirado
à luz do dia –, este primeiro trabalho de longa duração da formação domiciliada
na cidade de Montreal vem aureolado por uma carismática fragância de essência
vintage que me cativara e conquistara logo à primeira audição. De inspiração
colhida em egrégias referências como Deep Purple, Black Sabbath, Uriah
Heep, Atomic Rooster, Captain Beyond, Lucifer's Friend, Jerusalem, Nigh
Sun, High Tide, Granicus e Clear Blue Sky, a intriguista,
cerimonial, arrepiante e ocultista musicalidade de ‘Emerald Dream’ é conduzida
em excesso de velocidade, repleta de desvios bruscos e repentinos, fazendo com
que o ouvinte se sobreaqueça, naufrague e enlouqueça na funda goela de uma
diabólica espiral. Atordoados, derrotados e caídos aos pés de Fangus, confessamo-nos
uma presa demasiado fácil perante os embruxados, vaidosos, majestosos e empolados
bailados de um nobre e liderante teclado Hammond de presença proeminente,
os enleantes serpenteios de uma guitarra que se empodera em dominantes,
nervudos, sisudos e exuberantes riffs – escaldados a borbulhante, rugosa,
arenosa e flamejante distorção – de onde esvoaçam ácidos, coloridos,
tresloucados e avinagrados solos num pesado bater de asa, a intimidante sombra
de um encorpado baixo embalado a linhas magnéticas, tesas, coesas e enigmáticas,
o implacável galope de uma incisiva bateria – de espírito combativo – escoiceada
a uma ritmicidade alucinante, escaldante, estimulante e tonitruante, e o irreverente
swag de uma vistosa voz que transpira sedução felina e se baloiça entre urticantes,
chamejantes e rouquenhos rugidos, e melosos, elegantes e harmoniosos bramidos. São
35 minutos saturados de uma ininterrupta fascinação governada por uma imersiva liturgia
de índole teatral que nos encandeia e incendeia do primeiro ao derradeiro tema.
Uma ciclópica avalanche de fumarento misticismo que nos persegue, atropela e
incensa a alma. Um influente ritual de magia negra que nos mumifica e
mortifica. Comunguem com total devoção este psicadélico cálice de Fangus
e mergulhem nas infindáveis profundezas do vosso Cosmos interior.
Links:
👁️ Facebook
👁️ Instagram
👁️ Bandcamp
👁️ From the Urn











.jpg)



