quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Grannie - "Coloured Armageddon" (1971)

Review: 🍽️ Sacri Suoni - 'Time to Harvest' (2026, Electric Valley Records) 🍽️


★★★★★

De Itália chega-nos o novo álbum da formação milanesa Sacri Suoni, intitulado ‘Time to Harvest’ e editado pelo influente selo discográfico local Electric Valley Records através dos formatos LP, cassete e digital. Este quarteto italiano encarvoa-se num esfíngico, lento, carregado, cinzento e monolítico Psychedelic Doom de propulsão cósmica que pendula entre dramáticas ambiências infernais de intimidante negrura e fantasmagóricas paisagens invernais de silêncios sepulcrais. Numa constante alternância entre o leve e o pesado, o tenso e o relaxado, o sufocante e o arejado, ‘Time to Harvest’ tanto revolve o ouvinte numa violenta, virulenta e demoníaca combustão infernal que o flameja sem só nem piedade, como o envolve numa embriagante, onírica e devaneante suspensão sacramental que o desamarra da gravidade terrestre. Conjugando a sorumbática e esmagadora explosividade de bandas como Electric Wizard, Windhand, Monolord, YOB e Bongripper com a mística e transformadora religiosidade de outras referências como OM e White Buzz, a enfeitiçante, melancólica, catártica e atemorizante sonoridade de Sacri Suoni mumifica-nos num perfeito estádio mesmérico que nos aterra e soterra na abissal pretura do vazio sidérico. Uma inescapável hipnose – oxigenada por um incenso psicotrópico – que nos faz levitar e gravitar em torno de duas guitarras soberanas que se agigantam em arrastados, rugosos, trevosos e encorpados riffs – consumidos pela queimante distorção – de onde são filtrados fluorescentes, fugidios, escorregadios e delgados solos de condimentada acidez, um baixo obeso de nervudas, tesas, coesas e sisudas linhas desenhadas a negrito, e uma trovejante bateria detonada a vigorosa, bombástica, enfática e fogosa ritmicidade. ‘Time to Harvest’ é um álbum altivo, massivo, morfínico, fúnebre e opressivo que nos anoitece, enluta e empalidece de desolada letargia. São 38 minutos viciantes – de uma imersiva e invasiva sedução – que nos envidraça o olhar e prende a respiração. Uma fascinante dança entre a tormenta e a quietude. Cerimonial, ocultista, intimista e emocional, este é um registo soberano que nos estarrece com a sua vil arrogância e amolece com a sua sensível elegância. Um disco de climas contrastados que vive de tempestades e bonanças. É impossível ouvi-lo apenas uma vez, duas ou três.

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🎯 Beggar's Opera @ Beat-Club (1971)

🦇 Tony Iommi // Black Sabbath

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

❤️ Deep Purple - "Child In Time" (Live, 1970)

🧹 All Them Witches - "Red Rocking Chair" (2026)

🦂 Scorpions - "Lonesome Crow" (1972)

Review: 🦧 Orangotango - 'Empyrean' (2026) 🦧

★★★★

Acordados de uma longa hibernação de quase cinco anos de duração, o tridente ofensivo português Orangotango está de regresso à produção de nova música com o lançamento do seu terceiro álbum de estúdio, denominado ‘Empyrean’ e editado sob as formas de CD e digital com o respectivo selo autoral. Baloiçada entre um delirante, místico, afrodisíaco e intoxicante Psychedelic Rock de vertiginosa e estrepitosa propulsão astral, e um arenoso, sisudo, fogoso e carnudo Desert Rock que surfa voluptuosas e sedosas dunas, a cinematográfica, envolvente, eloquente e seráfica sonoridade de ‘Empyrean’ comunga o mesmo ADN de bandas como Colour Haze, Sungrazer, Karma to Burn, The Atomic Bitchwax e Somali Yacht Club. Vibrante, entusiástica, bombástica e enfeitiçante, a colorida, entretida e tropical sonoridade de Orangotango lança o ouvinte num aventuroso e emocionante safari pelas exóticas e virginais selvas de um psicadelismo inflamante que lhe subtrai a lucidez e o atesta de um febril estádio de intensa embriaguez. De cabeça rodopiante, olhar semi-cerrado, narinas dilatadas e a pele bronzeada pelo sedutor fulgor de ‘Empyrean’, somos desenraizados da gravidade terrestre e catapultados para os braços da eterna noite cósmica. Uma admirável odisseia espacial de afago sensorial, dilatação consciencial e floração espiritual que nos jornadeia pelas distorcidas coordenadas do espaço-tempo, driblando o magnético abraço de colossais e solitários planetas que se desenterram e desvelam no negro solo sideral, trespassando fantasmagóricas e matizadas nebulosas que vagueiam livremente pela vacuidade cósmica, e escorregando pelas alucinantes tubagens de monstruosos buracos negros que tudo aspiram no seu caminho. Depois de dois álbuns povoados por temas aparentados e integralmente instrumentais, este novo registo do trio portuense é governado por uma surpreendente heterogeneidade que tem como principais inovações o acréscimo de vocais em dois dos temas que o compõem (o convidado especial Miguel Vieira cerra firmemente os dois punhos no microfone e empresta a sua elástica, avinagrada e melódica voz ao antepenúltimo “None of Us Have Lived”, e o próprio baterista da banda Filipe Ferreira enrijece, enegrece e estremece o penúltimo “So Long” com recurso aos seus rugosos, urticantes e cavernosos clamores), assim como a inesperada e carismática presença da tão nossa guitarra portuguesa de musicados sentimentos superiormente dedilhados pelo músico convidado Dani Valente. De resto, a base é a de sempre: uma escaldante guitarra de resinosos, ondulados, torneados e infecciosos riffs – electrificados e chamejados pelo crocante e flamejante efeito Fuzz – de onde são desatados solos fugidios, luzidios, escorregadios e alucinados, um baixo monolítico de linhas sombreadas, tonificadas, carregadas e reptilianas, e uma bateria potente de ritmos violentos, explosivos, abrasivos e turbulentos. O chamativo artwork que nos convida a passar os olhos pela lente de um poderoso telescópio com vista desimpedida para o coração de um Cosmos pulsante e em constante transformação aponta os seus créditos de autor à talentosa ilustradora portuguesa Echo Echo Illustrations. São 50 minutos saturados de um misticismo ultraterrestre que nos seduz, conduz e abandona à deriva no espaço. Um banho de imersão na incandescente lava de um vulcão. Uma sónica germinação perceptual pela infinidade astral. Uma estonteante aceleração ao volante de um velho Ford Mustang – de vidros abertos, motor ronronante e olhar afogueado, cravado no firmamento desfocado pelo Sol – a desbravar as poeirentas estradas que trilham os imensos desertos da alma. Este é, de longe, o álbum mais sofisticado e progressista de Orangotango. Um registo simultâneamente viril e frágil, apressado e sossegado, rochoso e aquoso. Bem-vindos à Sumatra.

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