quinta-feira, 1 de outubro de 2026
quarta-feira, 30 de setembro de 2026
terça-feira, 29 de setembro de 2026
segunda-feira, 28 de setembro de 2026
Review: ⚓ Dead Sea Apes - 'Psychic Tension' (2026, Cardinal Fuzz & Feeding Tube) ⚓

Proveniente da cidade-berço da revolução industrial – Manchester – vem até nós a negra fumaça baforada por Dead Sea Apes com a apresentação do seu novíssimo álbum intitulado ‘Psychic
Tension’ e editado a duas mãos pela britânica Cardinal Fuzz e pela
americana Feeding Tube Records sob a forma física de LP e CD-R. Na iminência
de celebrar duas décadas de imparável produção discográfica – que conta já com a
histórica marca de 25 registos lançados até à data –, este tridente inglês
continua com a veia criativa bem movimentada e dilatada. Contaminado por um pantanoso,
narcotizante, inflamante e brumoso Heavy Psych de imersivo balanço Krautrock
e vertiginosa propulsão espacial que nos inquieta e projecta para a garganta do negro abismo
cósmico, enfeitiçado por um hipnótico, cinzento, pachorrento e melancólico Drone
de imagética Western que nos mumifica com a sua morfínica teia de camadas
repetitivas, e perturbado por um dissonante, anárquico, tóxico e tonitruante Noise
Rock de desenfreados ritmos Garage que nos desenraíza e extravia a
sanidade mental, ‘Psychic Tension’ provoca no ouvinte alucinações
visuais, descargas de endorfina, assombrações espirituais, inundações
reflexivas, convulsões epilépticas e tempestades cerebrais. Todo um vasto
sortido de emoções que nos baloiça da catártica e febril euforia, capaz de nos
sobreaquecer e endoidecer, à mesmérica e embriagante letargia que nos amolece e
anoitece o espírito. A sua sonoridade sedutora, misteriosa, camaleónica e emancipadora
– integralmente instrumental – dá-nos as rugosas e gélidas mãos e passeia-nos por misantrópicas,
sombrias, embrumadas e distópicas atmosferas onde a luz e a esperança não ousam
entrar, acordadas por dramáticos, incisivos e enfáticos sirenes do apocalipse
que soam e ecoam pela fantasmagórica brancura da paisagem. Outonal e simultaneamente
infernal, ‘Psychic Tension’ é um álbum sonolento, pesado, enevoado e
temulento que dá voz aos nossos silêncios e traz calma às nossas tormentas. Dos
bucólicos pântanos orvalhados pela muda, fresca e húmida madrugada da
melancolia às crepitantes, fumegantes e intensas lavaredas da insanável revolta,
somos persuadidos e levados numa admirável e desorientadora viagem pelo
desconhecido. Balançados pelas fascinantes danças de uma guitarra que se meneia
em atordoantes, giratórios e magnetizantes riffs – encrostados pela espinhosa
e urticante distorção e remexidos num profundo e polposo vórtice que se abre
furiosamente no oceano – de onde esvoaçam delirantes, ácidos e borbulhantes solos,
sombreados pela espessa pretura de um baixo locomovido a linhas pulsantes, sísmicas
e possantes, e escoiceados pela turbulência de uma bateria ritmada a vulcânica explosividade,
caminhamos de olhos vendados e passos amedrontados pelos tristes e escurecidos vales
de ‘Psychic Tension’. São 37 minutos ancorados num umbroso, esfíngico e esponjoso
ritual que arrasta a carregada nebulosidade marítima até à costa da nossa
existência. Deixem-se cegar e encantar pela mística musicalidade dos
marinheiros britânicos Dead Sea Apes sem faróis que rasguem e acordem as
suas reconfortantes trevas.
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domingo, 27 de setembro de 2026
sábado, 26 de setembro de 2026
sexta-feira, 25 de setembro de 2026
quinta-feira, 24 de setembro de 2026
quarta-feira, 23 de setembro de 2026
terça-feira, 22 de setembro de 2026
segunda-feira, 21 de setembro de 2026
domingo, 20 de setembro de 2026
sexta-feira, 18 de setembro de 2026
Review: 🪐 Crypt Trip - 'Hard Ride to Venus' EP (2026) 🪐

Inesperadamente
acordados de uma longa e desesperante hibernação com sete anos de duração, os remodelados
texanos Crypt Trip estão finalmente de volta – para minha indisfarçável
e extravasante emoção – às poeirentas estradas desbravadas e viajadas no
passado por inesquecíveis álbuns como ‘Rootstock’ de 2018 e ‘Haze County’ de 2019. ‘Hard Ride to Venus’ dá nome ao tão ansiado
regresso deste tridente domiciliado na cidade de Austin que vem até nós sob
a exclusiva forma digital com selo autoral, mas com a intenção declarada de um
futuro lançamento em formato físico de prensagem ultralimitada e editada de
forma independente. Amanhecido e entardecido à empolgante boleia de um maturado,
ornamentado e aventureiro Southern Rock de carisma no coldre que corre à
rédea solta e lado a lado com um musculado, excitante e oleado Hard Rock
de roupagem clássica e um charmoso, envelhecido e lustroso Texas Blues
de brilho vintage, este belíssimo EP de indiscreta inspiração colhida nos
gloriosos anos setenta anoitece serena e demoradamente debaixo da pálida luz
lunar de uma balada Folk onde se testemunha com imperturbável feitiço e
uma leve embriaguez um fascinante, simbiótico e apaixonante diálogo tricotado ao
relento pelas cordas. Liberal, rústico, nostálgico e sentimental, ‘Hard Ride
to Venus’ é um registo de curta duração, mas intensa sedução que nos
desarma e conquista do primeiro ao derradeiro tema. De engraxadas texanas
calçadas e chapéu de aba larga reclinado na cabeça, deambulamos e saltitamos – de
olhar içado e cravado no firmamento – nas costas de um cavalo cansado pelos
terrosos e sinuosos trilhos do arenoso coração rural do velho Texas. Ricocheteando
entre apressadas, ritmadas e entusiasmantes cavalgadas de esporas
ensanguentadas, e caramelizadas, tórridas e desérticas baladas de uma esbatida
coloração sépia, vagueamos, sem destino traçado, pela desamarrada, perfumada e galante
sonoridade de Crypt Trip. Banhem-se nos ofuscantes desertos de ‘Hard
Ride to Venus’ superiormente musicados por uma guitarra com um irresistível
swag que se bamboleia em desdobráveis, serpenteantes, picantes e adoráveis
riffs e ziguezagueia em deslumbrantes, entrançados, delicados e
derrapantes solos, um baixo groovy de reverberação pulsante,
magnetizante e elástica, uma galopante bateria de sensibilidade e habilidade jazzísticas,
e vocais amarelecidos, acetinados, melodiosos e emotivos. São 25 minutos verdadeiramente
viciantes de um caleidoscópico encantamento que nos mantém confortavelmente relaxados
num inamovível estádio de plena ataraxia. Este idílico EP representa a
banda-sonora perfeita para emoldurar o último suspiro de um verão moribundo que
se entrega aos braços agasalhados do Outono.
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