Depois de um impactante
álbum de estreia – lançado em 2018 e marcado por uma vibrante e irreverente
personalidade de abstractas feições Free Jazz’escas e cinzelado por uma principesca
caligrafia Avant-garde’sca –, o talentoso sexteto galego JUZZ
ancora agora a sua embarcação nas quietas e mornas águas do seu segundo
trabalho de longa duração, intitulado ‘JUZZ II’, nascido na embrumada e ainda
tímida madrugada de 2026 e carimbado pelo selo discográfico espanhol áMARXE.
Baloiçado entre um enfeitiçante, reflexivo, lenitivo e deslumbrante Jazz-Fusion
e um serpenteante, místico, esfíngico e enleante Prog Rock, neste novo
álbum da turma domiciliada em Pontevedra brilha um amarelecido
revivalismo de raios setentistas que homenageia clássicas e emblemáticas
referências da fusão entre estes dois sub-géneros como Return to Forever,
Soft Machine, John Abercrombie, Brand X e Weather Report.
Meditativa, imersiva e celestial, a seráfica e instrumental sonoridade de ‘JUZZ
II’ é borrifada por uma ensolarada, doce e arejada fragância oriental que
nos climatiza, seduz e eterniza num pleno estádio de imperturbável transe
espiritual. De pestanas rebaixadas, olhar embriagado, narinas dilatadas e
sorriso desenhado no rosto corado, somos levados – de velas içadas e sopradas ao
sabor dos ventos oníricos – até aos braços do nirvana e lá deixados. Embevecidos,
relaxados, apaixonados e adormecidos, levitamos e entramos em órbita das delicadas,
suaves e acolchoadas melodias que condimentam este belíssimo ‘JUZZ II’.
São 36 minutos sorvidos por uma esponjosa envolvência que nos prende e namora demorada e
desavergonhadamente. Um registo deveras divinal, suculento, pachorrento e
magistral, superiormente orquestrado por uma esplendorosa guitarra de acordes comoventes
e maviosos onde desaguam solos crescentes e angulosos, um baixo sombreado de
linhas murmurantes e maleáveis, uma cativante bateria tiquetaqueada a acurada precisão
jazzística, um elegante saxofone de serpenteantes e aliciantes bailados, uma romântica
flauta de sopros frescos e aveludados, e toda uma mágica profusão de perfumados
teclados que polvilham toda a ambiência sonora do disco com coloridas poeiras
cósmicas. Pincelado pelas garridas colorações crepusculares que antecedem o
aveludado, negro e estrelado manto de que se vestem as noites de Verão, ‘JUZZ
II’ é um álbum simultaneamente ambicioso e honesto, lustroso e desbotado, entorpecido
e acordado que em nós floresce uma leve embriaguez capaz de ludibriar a nossa
lucidez. Reconfortante, misterioso, hipnótico, luxuoso e de efeito calmante, este
segundo capítulo da homérica odisseia jazzística de JUZZ conquistara-me logo
à primeira audição que lhe dedicara. A bonança soberbamente musicada. Uma branda
deflagração de autêntico prazer capaz de nos abraçar, massajar e enternecer do
primeiro ao último tema. A milagrosa cura para corações preocupados, vidas
apressadas e sonhos terrenos com medo de alturas. Recostem-se, derretam-se e
deleitem-se neste verdadeiro oásis.
terça-feira, 26 de maio de 2026
Review: 🧜♂️ JUZZ - 'JUZZ II' (2026, áMARXE) 🧜♂️
segunda-feira, 25 de maio de 2026
domingo, 24 de maio de 2026
sexta-feira, 22 de maio de 2026
terça-feira, 19 de maio de 2026
segunda-feira, 18 de maio de 2026
Review: 🐶 God Saw I Was Dog - 'God Saw I Was Dog' (2026) 🐶
De inspiração musical
colhida na década de 1990 e nos primeiros anos do presente milénio, God Saw
I Was Dog nasce do reencontro temperado a nostalgia entre três velhos
amigos que num passado já distante e descolorido – entretanto desempoeirado e reavivado
– haviam tocado juntos e agora a esses tempos prestam uma genuína homenagem. Domiciliado na cidade italiana de Piacenza, este
tridente radical tem neste seu estreante álbum de denominação homónima e
essência exclusivamente instrumental – editado sob as formas de LP
(ultra-limitado numa edição de autor à prensagem de apenas 100 cópias físicas)
e digital – uma inextinguível combustão sonora que combina um empolgante, lubrificado,
motorizado e irresistível Alternative Rock / Metal desfiado e orientado numa encaracolada montanha-russa de groove esponjoso e viciante onde viajamos e
alucinamos, e um tórrido, fogoso, lustroso e vigoroso Desert Rock banhado
por um arenoso oceano de movediças dunas escaldantes onde de pés descalços surfamos.
Com indiscretos ecos trazidos de referências como Queens of the Stone Age,
The Melvins, Deftones, The Atomic Bitchwax, Karma to
Burn e The Shrine, a enérgica, ritmada, apimentada e estética
sonoridade deste irreverente power-trio italiano electrifica o ouvinte
do primeiro ao derradeiro tema. São loucos 40 minutos de uma vertigem centrifugada
e acelerada a alta rotação – ainda que se experienciem efémeras e delirantes passagens
reflexivas que nos alcoolizam com frescos e suculentos cálices de mescalina – pelas
poeirentas e infindáveis estradas do deserto californiano, farolizada por um
impiedoso Sol de sufocante bafagem que flameja no intangível horizonte. Varridos
por uma guitarra de dinâmicos, musculados, oleados e mastodônticos riffs
– deflagrados por uma distorção crocante, rugosa e flamejante – de onde são uivados
solos ecoantes, pontapeados por uma bateria de baquetas em chamas que desbrava
ritmos vivos, incisivos, excitantes e explosivos, e acalorados pela encorpada, elástica,
bombástica e férvida reverberação vociferada pelo baixo, somos atropelados e
levados na crista desta fogosa avalanche. ‘God Saw I Was Dog’ é uma
chave-mestra capaz de abrir a enferrujada fechadura que dá acesso ao baú sem
fundo de incontáveis memórias de todos aqueles que tiveram o privilégio de
viver a Primavera das suas vidas nos 90s e no início dos 2000’s. Duas mãos
cheias de temas incendiados, aparentados e de fácil digestão que nos fazem desabotoar a camisa e vibrar de emoção.













