
Com duas décadas
de prolífica actividade – onde frutificaram duas mãos repletas de suculentos álbuns
editados –, os noruegueses Bushman’s Revenge – um talentoso tridente domiciliado
na cidade-capital Oslo – acabam de presentear todos os seus fiéis
seguidores com o lançamento do novíssimo ‘Ah, Les Vaches!’ (título
inspirado naquelas que, supostamente, foram as últimas palavras proferidas pelo
célebre e excêntrico compositor francês Erik Satie no seu leito de morte)
com o carimbo da jovem companhia discográfica local Is It Jazz? Records.
Se o seu gélido e cristalino antecessor ‘All The Better For Seeing You’
(aqui trazido e desavergonhadamente namorado) senta os seus ouvintes no
cume de uma monolítica montanha granítica de olhar embriagado e dissolvido na imensa
brancura pincelada pelo rigoroso inverno escandinavo, ‘Ah, Les Vaches!’ fá-los
sobrevoar o arenoso tapete dos dourados desertos norte-americanos bronzeados pelos
impiedosos raios de um Sol desabrigado. Sem nunca perder de vista a sua estrela
orientadora (um cuidado, elegante, estonteante e perfumado Contemporary
Jazz) que a faroliza desde que desancorara e se entregara aos secretos desígnios dos
mares, esta aventurosa embarcação viking perde-se e encontra-se agora por
entre as revoltas ondas do experimentalismo sonoro dando à costa de um deslumbrante,
exótico, tórrido e apaixonante Alternative Country de suor latino e
sabor Tex-Mex. Conseguem imaginar os desérticos Calexico saídos de uma
academia de Jazz com o doutoramento debaixo do braço? Se sim, estão
aptos para avistar, com total clareza, as endeusadas paisagens sonoras de ‘Ah,
Les Vaches!’. A sua enfeitiçante, camaleónica, meiga, hedónica e ambulante musicalidade
– banhada a um lustroso misticismo que nos encandeia e ventilada por um doce
sentimento de nostalgia que nos seduz e conduz à ébria sonolência crepuscular
do enrugado e amarelecido coração do velho oeste americano – transporta-nos
para os poeirentos e emblemáticos palcos cinematográficos do Spaghetti
Western debaixo da superior orientação do realizador italiano Sergio
Leone. Delicado, contemplativo, leve, lenitivo e sagrado é o reinante clima
visual desta obra-prima puramente instrumental que nos iça as velas e veleja
pelos serpenteantes desfiladeiros do infindável universo espiritual. ‘Ah,
Les Vaches!’ é um registo ascético, anestésico, poético e ambiental para
ser comungado de olhos fechados, sorriso imortalizado e sonhos desembrulhados. Um
sábio contador de magnéticas histórias. Um postal musical do deserto florido. Uma obra comovente, de luzência
milagrosa, que vive na santificada quietude e na consumada beatitude das suas refinadas
composições. Deixem-se embevecer, enternecer e derreter à fascinante boleia de
uma guitarra trovadora – discípula de Ry Cooder – que se manifesta em ensolarados,
lisérgicos, estéticos e aromatizados acordes levados pela suave brisa do
deserto, um baixo pachorrento que boceja aveludadas, vagueantes, intrigantes e
sombreadas linhas, uma elegante bateria movida a leveza, sentimento e destreza,
e um tocante pedal steel que com os seus arrepiantes, harmoniosos e ecoantes
uivos nos faz salivar os ouvidos e desmaiar de prazer. São 43 minutos
governados por uma imperante, imperturbável e contagiante paz onde,
confortavelmente, nos recostamos, relaxamos e idealizamos uma existência exclusivamente
nutrida pelos prazeres sensoriais. ‘Ah, Les Vaches!’ é um calmante
natural e um sacramento mental que nos faz alhear da realidade e não mais dele querer despertar.
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