Com
mais de duas décadas de existência – a primeira das quais caracterizada por uma assinalável produtividade discográfica, enquanto que a segunda fora marcada por
longos períodos de esterilidade –, esta aventurosa embarcação viking denominada
The Samuel Jackson Five (nome saído de um inventivo trocadilho entre o actor hollywoodesco Samuel L. Jackson e o supergrupo musical The Jackson Five) e ancorada na cidade-capital norueguesa de Oslo
acaba de surpreender todos os seus seguidores com o lançamento do seu muito
aguardado novo álbum intitulado ‘A Passage to Elsewhere’ e editado nos
formatos físicos de LP e CD com o carimbo da influente editora escandinava Karisma
Records. Farolizada por um melancólico, imaginativo, contemplativo e cinematográfico
Post-Rock que nos anoitece e entristece a alma, um fantasista, enleante,
cativante e intimista Prog Rock de morno e amarelecido brilho vintage, e
um experimental, criativo, emotivo e magistral Art Rock de composições
eruditas, alquimistas e cerebrais, a expansiva, expressiva e exploratória
sonoridade de ‘A Passage to Elsewhere’ – oxigenada por uma reconfortante,
espirituosa e apaixonante aura jazzística de essência puramente instrumental e maquilhagem celestial – representa
uma infindável e estonteante escadaria percorrida em espiral, de camadas
renovadas que se sobrepõem criando atmosferas hipnóticas e evolutivas, que nos seduz e conduz,
sonâmbulos e num empolgante crescendo, da arrefecida e deprimida noite aos dilacerantes e triunfantes
raios solares que inauguram o despertar de um novo dia. Quimérico, enfeitiçante,
tocante e camaleónico, esta nova obra do quinteto nórdico The Samuel Jackson
Five – a minha favorita da banda, devo admitir – vem repleta de aventuras e
desventuras. Uma deslumbrante fábula soberbamente narrada pelas guitarras
entrançadas de acordes romanescos, um baixo carnudo de linhas baloiçantes, uma
bateria omnipresente de ritmos versáteis e harmoniosos teclados de feitiçaria
electrónica, aos quais se juntam duas mãos cheias de convidados – munidos de
instrumentos como violinos, saxofone, trompete, trombone, clarinete e contrabaixo
– emprestando assim toda uma virtuosa e majestosa ambiência orquestral a este
registo verdadeiramente magistral. Místico, poético, profético e onírico, este imersivo
álbum da formação norueguesa tem o dom de nos transportar para um universo só
dele, desligado da realidade, onde reina o surrealismo e os ponteiros do
relógio não tiquetaqueiam, em que nos perdemos e encontramos. ‘A Passage to
Elsewhere’ simboliza uma peça da mais alta costura musical. Uma obra verdadeiramente
sensacional que remexe a magia e a fantasia num multicolorido caldeirão cuja
fumaça se agiganta e desagua nas cintilantes estrelas de um imenso Cosmos em pulsante dilatação. Um
disco que nos acalma a inquietação e pavimenta de luz a escuridão. Este é o
agasalho sonoro perfeito para nos aquecer e confortar nestes frios, sombrios e
chuvosos dias de Outono passado dentro da toca em que a doce nostalgia nos
abraça, amordaça e sufoca.
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