quinta-feira, 23 de julho de 2026
terça-feira, 21 de julho de 2026
Review: 🥃 Child - 'Rebirth' (2026, Heavy Psych Sounds) 🥃

Formado em 2012 na cidade australiana de Melbourne, este cativante trio representa uma declarada, empoeirada e apaixonada carta de amor ao rústico Blues de tom sépia nascido, chorado e colhido nos árduos campos de algodão do velho e tórrido Mississippi. Com três álbuns e um EP no alforge (todos eles aqui trazidos e desavergonhadamente namorados), estes indomáveis cavaleiros – que há muito saquearam, afoguearam e conquistaram o meu tenro coração – engatilham e disparam agora o seu muito aguardado quarto trabalho de longa duração intitulado ‘Rebirth’ e editado pelo consagrado selo discográfico romano Heavy Psych Sounds. Musicado por um rastejante, rugoso, libidinoso e serpenteante Heavy Blues desdobrado em slow-motion, de calor fumegante e suor brilhante que nos faz descair as pálpebras, morder os lábios e despertar a líbido, este desarmante novo álbum de Child é um urticante, mélico e queimante trago de bourbon sorvido ao rangente balcão de um antiquado, rural e abafado bar de atmosfera fumarenta que nos naufraga os pensamentos e deixa relaxadamente estacionados numa ébria sonolência. Apimentada, oleosa, afrodisíaca e tonificada, a irresistível sonoridade de ‘Rebirth’ alcooliza e dameja o ouvinte do primeiro ao derradeiro tema. Envolvidos, consumidos e inebriados pelas suas pausadas, açucaradas, embriagadas e sentimentais baladas incendiadas a selvagem paixão e calmamente galopadas por um cavalo cansado na direcção do avermelhado Sol posto que bruxuleia no inatingível firmamento do deserto, tropeçamos e mergulhamos nesta absorvente tentação. De pele arrepiada e o peito em chamas, somos demoradamente seduzidos por uma portentosa guitarra que se avoluma em poderosos, viciantes, enfeitiçantes e majestosos riffs – electrificados pela escaldante, crocante e infecciosa distorção – de onde desaguam fugidios, luzidios, escorregadios e ziguezagueantes solos, um arrogante baixo de reverberação encorpada, espessa e sombreada, uma bateria inflamada de empolgantes, desatados e provocantes ritmos, e uma voz dourada, cremosa, felina e caramelizada que lidera com carismática distinção toda esta sublimada oração aos deuses do Blues. São 35 minutos de transbordante melosidade e contagiante sedução, cozinhados em lume brando, que nos mantêm de fascinação acordada e embevecidos sem a mais pequena interrupção. ‘Rebirth’ é um disco verdadeiramente impactante e sensacional que em mim provocara todo um intenso sismo emocional. Uma obra íntima que nos confessa genuínas sensibilidades capazes de acender e derreter o mais trevoso e rochoso dos corações. Neste infalível “Don Juan” habita um tema pelo qual morro de amores “Damned Heart (Last Time)”, que me trespassara com uma autêntica flecha de cupido logo na primeira audição e tudo nele em mim ainda hoje provoca uma inextinguível combustão. Child é uma banda deveras especial que sempre estimulou as zonas erógenas do meu sistema nervoso central. Deliciem-se e prazenteiem-se neste seu novo néctar.
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segunda-feira, 20 de julho de 2026
sábado, 18 de julho de 2026
sexta-feira, 17 de julho de 2026
quinta-feira, 16 de julho de 2026
Review: 🌊 Jesus the Snake - 'Ethereal Waters' (2026) 🌊

Acordados de um demorado
silêncio que se adensara na ressaca deixada pelos lançamentos do seu homónimo EP
em 2017 (aqui trazido) e do seu primeiro álbum ‘Black Acid, Pink Rain’
em 2019 (aqui examinado), o apaixonante quinteto minhoto Jesus the
Snake regressa e exibe-se agora numa forma verdadeiramente invejável com a
apresentação do seu tão ansiado novo trabalho de longa duração intitulado ‘Ethereal
Waters’ e editado com carimbo autoral em formato vinil (bifurcado em duas estéticas,
coloridas e ultra-limitadas edições) e digital. De instrumentos apontados aos
insondáveis, inexplorados e admiráveis territórios alienígenas do Cosmos
bocejante, ‘Ethereal Waters’ banha o ouvinte num celestial, imersivo, reflexivo,
expansivo e ambiental universo sonoro que o inebria, conforta e extasia do
primeiro ao derradeiro tema. Filho de uma intensa relação entre um deslumbrante,
edénico, anestésico e viajante Psychedelic Rock trajado por um
misticismo astral, e um sentimental, lenitivo, curativo e cerimonial Progressive
Rock de ares sinfónicos e velas içadas e sopradas ao sabor da mais
destemida fantasia, este segundo álbum de Jesus the Snake representa uma
experiência divina que nos pacifica, massaja e purifica a alma. Refrescante, inebriante,
sublime e miraculoso, ‘Ethereal Waters’ é uma obra puramente
instrumental com sabor a mar e condimentado a poeira estelar que nos adormece,
seduz e embevece ao longo dos seus 47 minutos de encantamento. Com o seu azimute
de olhos postos em influências como Pink Floyd, Yes, Eloy,
Camel, Nektar, Cressida, Astra, Causa Sui, Ancestors,
Papir e Birth, esta aventurosa embarcação navega sem destino as
tranquilas águas do eterno oceano astral, engolida por uma mágica, onírica e
misteriosa nebulosidade que lentamente se vai dissipando e revelando, desamarrando-nos
do abraço gravitacional, libertando o nosso ego e em nós instaurando um
verdadeiro paraíso mental. Aprisionados nesta sagrada hipnose que no nosso
imaginário constrói todo um dourado areal que se perde na espumosa ondulação de
um diamantino mar azul-turquesa, debaixo de um imenso céu de beleza crepuscular,
farolizado por um avermelhado Sol desmaiado, sobrevoado por gaivotas grasnantes
e arejado por uma salgada brisa suspirada por Neptuno, somos os únicos
habitantes deste maravilhoso sonho de aura pelágica onde desafogadamente corremos,
rimos e gritamos. ‘Ethereal Waters’ é um registo perfumado, leve, livre
e delicado – de uma transparência deífica e aquosa – que nos livra de todas as
preocupações e em nós apenas deixa utópicas sensações de uma paz impossível de
perturbar. Ofuscados pela vibrante, ressonante e messiânica resplandecência
solar de Jesus the Snake, somos seduzidos e conduzidos aos altares da
ataraxia. Lá, de joelhos caídos, corações ao alto e mãos estendidas, louvamos
uma guitarra enfeitiçante de serpenteios enleantes, um baixo magnético de linhas
ondeantes, uma bateria ritualista de ritmos tribalistas, um teclado faustoso de
bailados harmoniosos, e um quimérico sintetizador criador de uma ambiência
genuinamente milagrosa. A sensacional fotografia que confere rosto a esta obra
sacramental e nos afunda até ao pescoço aponta o seu crédito autoral ao
talentoso fotógrafo francês Sébastien Zanella. Intimista, medicinal, ritualista
e sobrenatural, ‘Ethereal Waters’ ecoa pela eternidade do nosso universo
espiritual. Ancorem neste disco e mergulhem nas profundas águas de Jesus the Snake sem a mais pequena
vontade de á sua tona regressar. Um dos mais fortes candidatos a álbum português do
ano está aqui, na poderosa, epopeica e esplendorosa magnificência deste
quinteto bracarense.
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