quarta-feira, 28 de outubro de 2026

🍂 Wishbone Ash - "Valediction" (1971)

Review: 🔥 Graveyard - 'Fever' (2026, Nuclear Blast) 🔥

★★★★★

Do alto das suas duas décadas de marcante existência, os célebres Graveyard continuam a trilhar o seu triunfante caminho discográfico ao sabor do que lhes vai na alma sem nunca perderem os seus traços idiossincráticos. Depois de um começo norteado por um enigmático, provocante e vampírico Proto-Doom de reconfortante agasalho Folk vigiado e assombrado de perto pelas formosas, sedutoras e gloriosas diabruras do Blues – como está bem presente nos seus carismáticos e consagrados álbuns ‘Graveyard’ e ‘Hisingen Blues’ – que lhes valera um meteórico salto olímpico na sua reputação, a talentosa banda sueca domiciliada na cidade costeira de Gotemburgo foi modelando e metamorfoseando a sua musicalidade sem nunca ancorá-la demoradamente num determinado estilo, e isso revestia de surpresa a atmosfera reinante de cada novo álbum por eles lançado. Foi com esse espírito aventureiro que em 2023 desembrulhara – e aqui avidamente elogiara – o seu último trabalho ‘6’ (um álbum de natureza reflexiva, passiva e sombria, abraçado por um pardo, húmido e fechado nevoeiro de forte odor marítimo sem faróis que o consigam rasgar) e agora – na ressaca de múltiplas degustações – vejo-me tomado e incendiado pela intensa ardência que deflagra e crepita no seu recém-nascido sétimo registo de longa duração intitulado ‘Fever’ e editado pela célebre companhia discográfica germânica Nuclear Blast Records. Governada por um despojado, fogoso, rochoso e musculado Hard Rock de tracção setentista, agrilhoado a um atrevido, picante, provocante e torneado Blues Rock de sedução intimista, a impetuosa, crua, nua e garbosa sonoridade de ‘Fever’ – amarelecida e envelhecida pelo espírito vintage – transpira fogosidade infernal, rugosidade e toda uma intensidade emocional que nos exorciza as tormentas. Povoado por estimulantes, incisivas, corrosivas e viciantes canções de fácil digestão – consumidas pela crocante, electrizante e abrasiva distorção do efeito fuzz – que nos inquietam e inflamam sem moderação, esta arrogante, sincera e apaixonante obra de Graveyard tem o dom de nos tomar de assalto e incendiar o coração. Deixem-se caçar pelas guitarras predatórias de chamejantes, dominantes e irresistíveis riffs que ficam retidos na ponta da nossa língua e de onde são desatados solos escorregadios, fugidios e alucinados, um baixo quente de linhas possantes, tensas e ondulantes, uma bateria dinâmica de ritmos altivos, explosivos e desembaraçados, e uma voz urticante, felina e liderante de rugidos com mélico hálito a bourbon. A fantástica ilustração que confere rosto a esta poderosa erupção de endorfinas é da inconfundível autoria do dotado e afamado ilustrador holandês Maarten Donders. Viril, magnético, febril e afrodisíaco, ‘Fever’ é um emocionante disco de total transparência sentimental, acelerado a alta rotação e que em nós provoca toda uma redentora combustão impossível de extinguir. O grito da Fénix. “Este pode tratar-se mesmo do nosso melhor álbum lançado até à data.” – preconizou a banda no momento do anúncio do mesmo. Quanto a mim, não consigo ascendê-lo ao sagrado patamar dos impossíveis ‘Graveyard’ (2008) e ‘Hisingen Blues’ (2011), mas este ‘Fever’ é, decerto, um álbum que merece todo o nosso colo, carinho e profunda admiração. Um disco que à sua imagem roça a perfeição.

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quinta-feira, 22 de outubro de 2026

📸 Led Zeppelin @ Electric Magic Shows, Wembley Empire Pool (1971)

⛓️ Prisma Circus - 'Promethea's Armageddon' (2017)

Review: 😵 Hibushibire - 'Phantom Fuzzy Exotica' (2026, Riot Season) 😵

★★★★★

Oriunda da cidade japonesa de Osaka chega-nos a mastodôntica onda de choque resultante de mais uma psicotrópica explosão armadilhada e detonada pelo fantástico e irreverente quarteto Hibushibire. Formado em 2012 e já com mais de duas dezenas de trabalhos editados, este extravagante colectivo nipónico continua fiel à vistosa pirotecnia psicadélica que os caracteriza desde a sua criação. Intitulado ‘Phantom Fuzzy Exotica’ e lançado com o carimbo da britânica companhia discográfica independente Riot Season através dos formatos físicos de LP e CD-R, este novo álbum de Hibushibire é cozinhado num borbulhante, fogoso e fumegante caldeirão em constante e extravasante ebulição onde são remexidos e sorvidos um intoxicante, desgovernado, alucinado e electrizante Heavy Psych – fritado em gaseificada e abrasiva distorção – que nos ferve na sua multicolorida e faiscante efervescência condimentada a intensa turbulência e convida à sónica propulsão pelas autoestradas de um Cosmos em estado de sítio, e um letárgico, mavioso, cerimonioso e mágico Psychedelic Folk de paisagem pastoral e traje medieval que do interior das suas altas muralhas nos embevece, anestesia e adormece nas orvalhadas, verdejantes e arejadas planícies embrumadas pela tímida e embriagada madrugada de verão. Num incessante ricochete entre a exótica combustão e a messiânica mansidão, vagueamos e derrapamos – de olhar esfaimado, boca salivante e espírito imensamente fascinado – pelo criativo e desregrado experimentalismo que (des)norteia a camaleónica, expressiva, invasiva e catatónica sonoridade deste orgásmico ‘Phantom Fuzzy Exotica’. De rosto derretido, cabeça voadora e alma aturdida somos subjugados, cativados e embalados na caleidoscópica vertigem desta viagem desorientadora sem regresso garantido. Assombrados por esta fantasmagoria psicotrópica, somos varridos e engolidos por um furioso vórtice que nos viola a sanidade mental e reorganiza o nosso universo espiritual. São 38 minutos de um druídico ritual que nos seduz, conquista e conduz aos inexplorados territórios domiciliados nas longínquas costuras do espaço sideral. Aventurem-se e desventurem-se na atmosfera atordoante de Hibushibire à estonteante boleia sonora de uma guitarra monstruosa que chameja e gravita em torno de enfeitiçantes, ziguezagueantes e poderosos riffs saturados de um misticismo oriental, e vomita todo um furacão de venenosos, histéricos e sinuosos solos de elevada acidez, um dominante baixo de linhas bailantes, hipnóticas e ondeantes, uma bateria estimulante de ritmos excitados, suados e dinâmicos aliada a uma acrobática percussão de culto tribalista, um embruxado theremin que com as suas enigmáticas frequências alienígenas exorciza o Cosmos, e vocais ecoantes, distantes e celestiais de uma florescência espectral. O belíssimo portal aponta os seus créditos de autor à artista visual japonesa Nakatsuka Tomoco (também conhecida por aimaiworks). Uma imersiva e violenta radiação psicotrópica que nos encandeia, bronzeia a pele e bombardeia a lucidez. Este é muito provavelmente o meu álbum favorito desta prolífica banda japonesa e seguramente um dos registos mais espantosos e empolgantes de 2026. Vivenciem-no com total entrega e imoderada emoção.

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