terça-feira, 21 de julho de 2026

Review: 🥃 Child - 'Rebirth' (2026, Heavy Psych Sounds) 🥃


★★★★★

Formado em 2012 na cidade australiana de Melbourne, este cativante trio representa uma declarada e apaixonada carta de amor ao Blues de tom sépia nascido, chorado e colhido nos árduos campos de algodão do velho e tórrido Mississippi. Com três álbuns e um EP no alforge (todos eles aqui trazidos e desavergonhadamente namorados), estes indomáveis cavaleiros – que há muito saquearam, afoguearam e conquistaram o meu tenro coração – engatilham e disparam agora o seu muito aguardado quarto trabalho de longa duração intitulado ‘Rebirth’ e editado pelo consagrado selo discográfico romano Heavy Psych Sounds. Musicado por um rastejante, rugoso, libidinoso e serpenteante Heavy Blues desdobrado em slow-motion, de calor fumegante e suor brilhante que nos faz descair as pálpebras, morder os lábios e despertar a líbido, este desarmante novo álbum de Child é um urticante, mélico e queimante trago de bourbon que nos deixa estacionados e relaxados numa ébria sonolência. Apimentada, oleosa, afrodisíaca e tonificada, a irresistível sonoridade de ‘Rebirth’ alcooliza e dameja o ouvinte do primeiro ao derradeiro tema. Envolvidos, consumidos e inebriados pelas suas pausadas, açucaradas, embriagadas e sentimentais baladas incendiadas a selvagem paixão e calmamente galopadas por um cavalo cansado na direcção do avermelhado Sol posto que bruxuleia no inatingível firmamento do deserto, tropeçamos e mergulhamos nesta absorvente tentação. De pele arrepiada e o peito em chamas, somos demoradamente seduzidos por uma portentosa guitarra que se avoluma em poderosos, viciantes, enfeitiçantes e majestosos riffs – electrificados pela escaldante, crocante e infecciosa distorção – de onde desaguam fugidios, luzidios, escorregadios e ziguezagueantes solos, um arrogante baixo de reverberação encorpada, espessa e sombreada, uma bateria inflamada de empolgantes, desatados e provocantes ritmos, e uma voz dourada, cremosa, felina e caramelizada que lidera com carismática distinção toda esta sublimada oração aos deuses do Blues. São 35 minutos de transbordante e contagiante sedução, cozinhada em lume brando, que nos mantém fascinados e embevecidos sem a mais pequena interrupção. ‘Rebirth’ é um disco verdadeiramente impactante e sensacional que em mim provocara todo um intenso sismo emocional. Uma obra íntima que nos confessa genuínas sensibilidades capazes de acender e derreter o mais trevoso e rochoso dos corações. Neste infalível “Don Juan” habita um tema pelo qual morro de amores “Damned Heart (Last Time)”, que me trespassara com uma autêntica flecha de cupido logo na primeira audição e tudo nele em mim ainda hoje provoca uma inextinguível combustão. Child é uma banda deveras especial que sempre estimulou as zonas erógenas do meu sistema nervoso central. Deliciem-se e prazenteiem-se neste seu novo néctar.

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🌶️ The Sword - "Cloak Of Feathers" @ Freak Valley Festival 2025

quinta-feira, 16 de julho de 2026

❤️ Led Zeppelin

Review: 🌊 Jesus the Snake - 'Ethereal Waters' (2026) 🌊


★★★★★

Acordados de um demorado silêncio que se adensara na ressaca deixada pelos lançamentos do seu homónimo EP em 2017 (aqui trazido) e do seu primeiro álbum ‘Black Acid, Pink Rain’ em 2019 (aqui examinado), o apaixonante quinteto minhoto Jesus the Snake regressa e exibe-se agora numa forma verdadeiramente invejável com a apresentação do seu tão ansiado novo trabalho de longa duração intitulado ‘Ethereal Waters’ e editado com carimbo autoral em formato vinil (bifurcado em duas estéticas, coloridas e ultra-limitadas edições) e digital. De instrumentos apontados aos insondáveis, inexplorados e admiráveis territórios alienígenas do Cosmos bocejante, ‘Ethereal Waters’ banha o ouvinte num celestial, imersivo, reflexivo, expansivo e ambiental universo sonoro que o inebria, conforta e extasia do primeiro ao derradeiro tema. Filho de uma intensa relação entre um deslumbrante, edénico, anestésico e viajante Psychedelic Rock trajado por um misticismo astral, e um sentimental, lenitivo, curativo e cerimonial Progressive Rock de ares sinfónicos e velas içadas e sopradas ao sabor da mais destemida fantasia, este segundo álbum de Jesus the Snake representa uma experiência divina que nos pacifica, massaja e purifica a alma. Refrescante, inebriante, sublime e miraculoso, ‘Ethereal Waters’ é uma obra puramente instrumental com sabor a mar e condimentado a poeira estelar que nos adormece, seduz e embevece ao longo dos seus 47 minutos de encantamento. Com o seu azimute de olhos postos em influências como Pink Floyd, Yes, Eloy, Camel, Nektar, Cressida, Astra, Causa Sui, Ancestors, Papir e Birth, esta aventurosa embarcação navega sem destino as tranquilas águas do eterno oceano astral, engolida por uma mágica, onírica e misteriosa nebulosidade que lentamente se vai dissipando e revelando, desamarrando-nos do abraço gravitacional, libertando o nosso ego e em nós instaurando um verdadeiro paraíso mental. Aprisionados nesta sagrada hipnose que no nosso imaginário constrói todo um dourado areal que se perde na espumosa ondulação de um diamantino mar azul-turquesa, debaixo de um imenso céu de beleza crepuscular, farolizado por um avermelhado Sol desmaiado, sobrevoado por gaivotas grasnantes e arejado por uma salgada brisa suspirada por Neptuno, somos os únicos habitantes deste maravilhoso sonho de aura pelágica onde desafogadamente corremos, rimos e gritamos. ‘Ethereal Waters’ é um registo perfumado, leve, livre e delicado – de uma transparência deífica e aquosa – que nos livra de todas as preocupações e em nós apenas deixa utópicas sensações de uma paz impossível de perturbar. Ofuscados pela vibrante, ressonante e messiânica resplandecência solar de Jesus the Snake, somos seduzidos e conduzidos aos altares da ataraxia. Lá, de joelhos caídos, corações ao alto e mãos estendidas, louvamos uma guitarra enfeitiçante de serpenteios enleantes, um baixo magnético de linhas ondeantes, uma bateria ritualista de ritmos tribalistas, um teclado faustoso de bailados harmoniosos, e um quimérico sintetizador criador de uma ambiência genuinamente milagrosa. A sensacional fotografia que confere rosto a esta obra sacramental e nos afunda até ao pescoço aponta o seu crédito autoral ao talentoso fotógrafo francês Sébastien Zanella. Intimista, medicinal, ritualista e sobrenatural, ‘Ethereal Waters’ ecoa pela eternidade do nosso universo espiritual. Ancorem neste disco e mergulhem nas profundas águas de Jesus the Snake sem a mais pequena vontade de á sua tona regressar. Um dos mais fortes candidatos a álbum português do ano está aqui, na poderosa, epopeica e esplendorosa magnificência deste quinteto bracarense.

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🐸 Dead Meadow - "Lost to Light" (2026)

🪐 Pink Floyd

💡 Richard & Linda Thompson ‎- 'Shoot Out The Lights' (1982)

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Review: 🔥 Red Kite - 'This Too Shall Pass' (2026, Is It Jazz? Records) 🔥


★★★★★

Abrangendo talentosos músicos provenientes de outros projectos vizinhos como Shining, Elephant9, Grand General, Bushman’s Revenge e Soft Ffog na sua formação, os Red Kite são hoje uma das bandas mais respeitadas dentro do prolífico universo Jazz norueguês. Acordados de uma hibernação de cinco anos de duração (no que à produção de trabalhos de estúdio diz respeito), este apaixonante quarteto regressa agora com o seu terceiro esforço intitulado ‘This Too Shall Pass’ e editado pelo emergente selo discográfico local Is It Jazz? Records. Como o seu nome assim o sugere, este álbum foi concebido num momento de profunda transformação e resiliência para esta embarcação viking que atravessara o abominável cabo das tormentas devido a uma amaldiçoada série de eventos sombrios que descolorara as vidas pessoais dos seus integrantes. Foi nesse difícil processo de consternação e subsequente superação que os inventivos Red Kite tiveram a capacidade de metamorfosear a sua dor pessoal numa autêntica obra de arte piramidal. Capitaneado a duas mãos por um umbroso, melancólico, letárgico e misterioso Contemporary Jazz – de uma inelutável sedução noir a fazer recordar a intrigante atmosfera cinematográfica de Twin Peaks – que ocasionalmente se aventura e desventura nos desbastados territórios do electrizante Jazz Rock, e um enleante, místico, labiríntico e desafiante Prog Rock de extravagante caligrafia avant-garde, esta última criação da erudita turma formada e domiciliada na cidade de Oslo preencheu e extravasou as minhas medidas. Red Kite é a versão gótica de Mahavishnu Orchestra. As suas intelectuais, transcendentes, solenes e excepcionais composições – mareadas por um virtuoso experimentalismo sem fronteiras que o espartilhem – imortaliza no ouvinte um imperturbável estádio de reinante petrificação e ofuscante fascinação que o climatiza e alcooliza do primeiro ao derradeiro tema. Levemente inebriados, entontecidos e enfeitiçados, somos conquistados e levados pela espirituosa mestria instrumental de ‘This Too Shall Pass’ dos refrescantes, sedosos e reconfortantes lençóis onde prazerosamente nos alongamos e espreguiçamos aos turbulentos mares de um naufrágio mental que nos arrefece, inquieta e anoitece a alma. Alumiado pela pálida luzência lunar, este novo registo de Red Kite é abraçado por uma elegância nocturna que nos rouba o ar do peito e leva à rendição. Comovente, esfíngico, dramático e absorvente, ‘This Too Shall Pass’ é um disco imensamente apoteótico que não deixará ninguém indiferente. Baloiçada entre anestésicas, bucólicas e reflexivas passagens que nos massajam e adormecem os sentidos, e aparatosas, estrondosas e selváticas debandadas instrumentais – viajadas em contramão – que nos incendeiam de eufórica emoção, a exótica, sofisticada e camaleónica sonoridade deste expressivo álbum desfila vaidosa e graciosamente num bizarro cabaret. Na composição deste sacramento jazzístico podemos encontrar uma guitarra langorosa de acordes luminosos, cristalinos e casualmente rugosos de onde florescem solos esguios, escorregadios e angulosos, um saxofone lúgubre de sopros ziguezagueantes, esquivos e ocasionalmente agressivos, uma bateria deliciosa – tanto ociosa como em polvorosa – que lhe confere uma ritmicidade acrobática, dinâmica e impressiva, um baixo pulsante de linhas flexíveis, oleosas e palpáveis e um teclado harmonioso de frescos, romanescos e cheirosos bailados. Um dos mais belos discos nascidos em 2026 está aqui, na poderosa veia emocional de ‘This Too Shall Pass’. Não quero acordar deste álbum.

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