terça-feira, 22 de setembro de 2026
segunda-feira, 21 de setembro de 2026
domingo, 20 de setembro de 2026
sexta-feira, 18 de setembro de 2026
Review: 🪐 Crypt Trip - 'Hard Ride to Venus' EP (2026) 🪐

Inesperadamente
acordados de uma longa e desesperante hibernação com sete anos de duração, os remodelados
texanos Crypt Trip estão finalmente de volta – para minha indisfarçável
e extravasante emoção – às poeirentas estradas desbravadas e viajadas no
passado por inesquecíveis álbuns como ‘Rootstock’ de 2018 e ‘Haze County’ de 2019. ‘Hard Ride to Venus’ dá nome ao tão ansiado
regresso deste tridente domiciliado na cidade de Austin que vem até nós sob
a exclusiva forma digital com selo autoral, mas com a intenção declarada de um
futuro lançamento em formato físico de prensagem ultralimitada e editada de
forma independente. Amanhecido e entardecido à empolgante boleia de um maturado,
ornamentado e aventureiro Southern Rock de carisma no coldre que corre à
rédea solta e lado a lado com um musculado, excitante e oleado Hard Rock
de roupagem clássica e um charmoso, envelhecido e lustroso Texas Blues
de brilho vintage, este belíssimo EP de indiscreta inspiração colhida nos
gloriosos anos setenta anoitece serena e demoradamente debaixo da pálida luz
lunar de uma balada Folk onde se testemunha com imperturbável feitiço e
uma leve embriaguez um fascinante, simbiótico e apaixonante diálogo tricotado ao
relento pelas cordas. Liberal, rústico, nostálgico e sentimental, ‘Hard Ride
to Venus’ é um registo de curta duração, mas intensa sedução que nos
desarma e conquista do primeiro ao derradeiro tema. De engraxadas texanas
calçadas e chapéu de aba larga reclinado na cabeça, deambulamos e saltitamos – de
olhar içado e cravado no firmamento – nas costas de um cavalo cansado pelos
terrosos e sinuosos trilhos do arenoso coração rural do velho Texas. Ricocheteando
entre apressadas, ritmadas e entusiasmantes cavalgadas de esporas
ensanguentadas, e caramelizadas, tórridas e desérticas baladas de uma esbatida
coloração sépia, vagueamos, sem destino traçado, pela desamarrada, perfumada e galante
sonoridade de Crypt Trip. Banhem-se nos ofuscantes desertos de ‘Hard
Ride to Venus’ superiormente musicados por uma guitarra com um irresistível
swag que se bamboleia em desdobráveis, serpenteantes, picantes e adoráveis
riffs e ziguezagueia em deslumbrantes, entrançados, delicados e
derrapantes solos, um baixo groovy de reverberação pulsante,
magnetizante e elástica, uma galopante bateria de sensibilidade e habilidade jazzísticas,
e vocais amarelecidos, acetinados, melodiosos e emotivos. São 25 minutos verdadeiramente
viciantes de um caleidoscópico encantamento que nos mantém confortavelmente relaxados
num inamovível estádio de plena ataraxia. Este idílico EP representa a
banda-sonora perfeita para emoldurar o último suspiro de um verão moribundo que
se entrega aos braços agasalhados do Outono.
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quinta-feira, 17 de setembro de 2026
quarta-feira, 16 de setembro de 2026
segunda-feira, 14 de setembro de 2026
sábado, 12 de setembro de 2026
sexta-feira, 11 de setembro de 2026
Review: 🦌 Sex Magick Wizards - 'Suola ja Noaidi' (2026, Is It Jazz? Records) 🦌
Devo
admitir que a cada anúncio de um novo álbum dos noruegueses Sex Magick
Wizards deflagra em mim um faiscante e descontrolado fogo de entusiamo. Esta talentosa
banda domiciliada na cidade-capital Oslo – pela qual nutro uma grande
devoção e cuja criatividade parece não conhecer limites – acaba de lançar o seu
extravagante quarto álbum de estúdio denominado ‘Suola ja Noaidi’ (o ladrão
e o xamã) pela mão da emergente companhia discográfica local Is It Jazz?
Records através de estéticas e apetecíveis edições em LP e CD. Farolizada pela cultura Sami
– um povo indígena do norte da Europa que habita a região de Sápmi, abrangendo
o norte da Noruega, Suécia, Finlândia e a península de Kola na Rússia – e desenhada
em torno de temas como a colonização, a religião armada e a resiliência Sami, a
exótica, experimental, camaleónica e cerimonial sonoridade de ‘Suola ja Noaidi’
manifesta-se num pirotécnico curto-circuito jazzístico onde se cruzam na mesma
corrente eléctrica um desarrumado, caótico, labiríntico e desgrenhado Free
Jazz de instrumentos em selvática debandada, um tribal, afrodisíaco,
ritualístico e celestial Spiritual Jazz que nos alavanca a religiosidade
e um carnavalesco, espalhafatoso, poderoso e burlesco Avant-Garde Jazz
que em nós provoca uma relampejante tempestade cerebral. Mutante, hipnótico,
excêntrico e fascinante, este novo trabalho do sui generis quarteto nórdico é uma
obra verdadeiramente extraordinária, complexa e desafiante que obriga o ouvinte
a múltiplas audições para sua plena interpretação. Um bizarro puzzle sonoro da
mais elevada dificuldade que nos seduz, invade e conduz pelas suas portentosas,
admiráveis e gloriosas composições. Numa mistura entre a vanguarda e a erudição,
a estonteante complexidade rítmica, harmonias dissonantes e a livre improvisação,
‘Suola ja Noaidi’ conta ainda com a indiscreta influência do impopular
movimento Rock in Opposition (RIO) a fazer lembrar a sátira mordaz soberbamente musicada pelos suecos Samla
Mammas Manna e o tenso desassossego superiormente orquestrado pelos belgas Univers Zéro. Percam-se e encontrem-se,
tropecem e levantem-se, aventurem-se e desventurem-se à enleante boleia de uma guitarra alienígena que rabisca
– numa indecifrável caligrafia – neuróticos, esdrúxulos e claustrofóbicos riffs
de onde são escoados solos vertiginosos, sónicos e angulosos, uma bateria
circense de ritmos impressionantes, arriscados, acrobáticos e mirabolantes, um magnético
baixo de linhas pulsantes, elásticas, enigmáticas e marcantes, um incisivo saxofone
de gritos tresloucados, discordantes e assanhados, uma melodiosa flauta de sopros arejados, leves e aveludados, cantos étnicos, místicos e ancestrais de uma acentuada bipolaridade que baloiça entre sangrentos gritos histéricos e robóticas declamações monocórdicas, e enfeitiçantes sintetizadores
que embrumam e perfumam a opressiva, estranha e inventiva atmosfera do álbum com a sua
bizarria electrónica. Este é um registo sem fronteiras ou barreiras que o inibem. A irreverência
no seu nível máximo. Uma obra estimulante, sufocante e desorientadora que nos rouba o ar do peito e domina
ao longo dos seus extensos 72 minutos de duração. Uma inquebrável sedução. Envolvam-se e revolvam-se nesta
compenetrada, incansável e sagrada dança tribal sob a messiânica luzência de um dos álbuns mais
fenomenais do ano.
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