sexta-feira, 23 de outubro de 2026
quinta-feira, 22 de outubro de 2026
Review: 😵 Hibushibire - 'Phantom Fuzzy Exotica' (2026, Riot Season) 😵
Oriunda
da cidade japonesa de Osaka chega-nos a mastodôntica onda de choque resultante
de mais uma psicotrópica explosão armadilhada e detonada pelo fantástico e irreverente
quarteto Hibushibire. Formado em 2012 e já com mais de duas dezenas de
trabalhos editados, este extravagante colectivo nipónico continua fiel à
vistosa pirotecnia psicadélica que os caracteriza desde a sua criação. Intitulado
‘Phantom Fuzzy Exotica’ e lançado com o carimbo da britânica companhia discográfica
independente Riot Season através dos formatos físicos de LP e CD-R, este
novo álbum de Hibushibire é cozinhado num borbulhante, fogoso e
fumegante caldeirão em constante e extravasante ebulição onde são remexidos e
sorvidos um intoxicante, desgovernado, alucinado e electrizante Heavy Psych
– fritado em gaseificada e abrasiva distorção – que nos ferve na sua multicolorida
e faiscante efervescência condimentada a intensa turbulência e convida à sónica
propulsão pelas autoestradas de um Cosmos em estado de sítio, e um letárgico,
mavioso, cerimonioso e mágico Psychedelic Folk de paisagem pastoral e
traje medieval que do interior das suas altas muralhas nos embevece, anestesia
e adormece nas orvalhadas, verdejantes e arejadas planícies embrumadas pela
tímida e embriagada madrugada de verão. Num incessante ricochete entre a
exótica combustão e a messiânica mansidão, vagueamos e derrapamos – de olhar
esfaimado, boca salivante e espírito imensamente fascinado – pelo criativo e desregrado experimentalismo
que (des)norteia a camaleónica, expressiva, invasiva e catatónica sonoridade deste
orgásmico ‘Phantom Fuzzy Exotica’. De rosto derretido, cabeça voadora e alma
aturdida somos subjugados, cativados e embalados na caleidoscópica vertigem desta viagem
desorientadora sem regresso garantido. Assombrados por esta fantasmagoria psicotrópica,
somos varridos e engolidos por um furioso vórtice que nos viola a sanidade
mental e reorganiza o nosso universo espiritual. São 38 minutos de um druídico ritual
que nos seduz, conquista e conduz aos inexplorados territórios domiciliados nas
longínquas costuras do espaço sideral. Aventurem-se e desventurem-se na
atmosfera atordoante de Hibushibire à estonteante boleia sonora de uma
guitarra monstruosa que chameja e gravita em torno de enfeitiçantes, ziguezagueantes
e poderosos riffs saturados de um misticismo oriental, e vomita todo um furacão
de venenosos, histéricos e sinuosos solos de elevada acidez, um dominante baixo
de linhas bailantes, hipnóticas e ondeantes, uma bateria estimulante de ritmos excitados,
suados e dinâmicos aliada a uma acrobática percussão de culto tribalista, um embruxado
theremin que com as suas enigmáticas frequências alienígenas exorciza o
Cosmos, e vocais ecoantes, distantes e celestiais de uma florescência espectral.
O belíssimo portal aponta os seus créditos de autor à artista visual japonesa Nakatsuka
Tomoco (também conhecida por aimaiworks). Uma imersiva e violenta radiação psicotrópica que nos encandeia, bronzeia a
pele e bombardeia a lucidez. Este é muito provavelmente o meu álbum favorito desta
prolífica banda japonesa e seguramente um dos registos mais espantosos e empolgantes de 2026.
Vivenciem-no com total entrega e imoderada emoção.
Links:
⬩➤ Facebook
⬩➤ Instagram
⬩➤ Bandcamp
⬩➤ Riot Season
quarta-feira, 21 de outubro de 2026
terça-feira, 20 de outubro de 2026
segunda-feira, 19 de outubro de 2026
domingo, 18 de outubro de 2026
sábado, 17 de outubro de 2026
sexta-feira, 16 de outubro de 2026
quinta-feira, 15 de outubro de 2026
terça-feira, 13 de outubro de 2026
domingo, 11 de outubro de 2026
sexta-feira, 9 de outubro de 2026
quinta-feira, 8 de outubro de 2026
Review: 🩸 Zorn - 'Return to Castle Death' EP (2026, Sorry State Records) 🩸
Da
histórica cidade de Filadélfia – a mais populosa do estado
norte-americano da Pensilvânia – chegam-nos as intensas e diabólicas lavaredas
cuspidas pelos infernais Zorn, que no passado verão forjaram o seu
novíssimo EP intitulado ‘Return to Castle Death’ e editado pelo selo discográfico americano Sorry
State Records. Destilado de um agressivo e disputado braço de ferro entre
um pesado, cru, sujo e apressado Crust Punk escoiceado a altíssima rotação e
um fogoso, incisivo, combativo e trevoso Black Metal de assombrada inflamação, este caótico, despótico e enfeitiçante registo de curta duração e alta tensão de Zorn é desalmadamente corrido a uma vertiginosa velocidade, trajado a carregada obscuridade, agredido
a monstruosa ferocidade e cozinhado a acrimoniosa fogosidade. A sua dramática,
sufocante, intrigante e distópica sonoridade aventura e desventura o ouvinte pelo intimidante, gélido e chocante interior do seu granítico, malfadado e vampírico castelo.
Uma trágica, sádica e amaldiçoada digressão até às medievais masmorras desta dantesca
casa do terror onde os silêncios despertam, as paredes apertam, as aranhas tecem, os ratos guincham e as sombras dançam e crescem
na nossa direcção. ‘Return to Castle Death’ é um EP de natureza brutal, sem portal
de saída, que crava os seus afiados caninos na nossa jugular e nos faz desmaiar
no pentagrâmico e afogueado palco desta gótica e profana sedução. Um claustrofóbico, fantasmagórico e sinistro
labirinto onde nos apavoramos, descabelamos e perdemos toda a nossa sanidade
mental. De religiosidade eclipsada, alma profanada e pele enregelada, vagueamos
– de olhar vendado, semblante esbranquiçado e coração angustiado – pela abissal
negritude de Zorn onde a luz não ousa pisar e a esperança não arrisca
espreitar. Um pesadelo sem fim que nos mumifica e terrifica a cada invasivo,
perturbador e nocivo tema dos seus selváticos 20 minutos de durabilidade. Testemunhem
a revoltosa e demoníaca possessão do vosso espírito anoitecido e derrotado ao transformador
som de duas guitarras predatórias que hasteiam urticantes, ciclópicos, coléricos
e flamejantes riffs encrostados por uma fervente distorção e desprendem solos bruxuleantes, endemoninhados, azedados e electrizantes, um potente baixo de linhas possantes,
sisudas, carnudas e magnetizantes, uma endiabrada bateria metralhada a ritmos turbulentos,
inflamados, desenfreados e alucinantes, e uma voz desesperada, sangrenta, sarnenta
e depravada. A insustentável e fulminante raiva há muito em nós acumulada é agora armadilhada,
gritada e detonada no nosso peito. Deixem-se ceifar, esfarrapar e sepultar pelos
impiedosos e sanguinários carrascos Zorn nas insondáveis profundezas da sua luciférica pretura que vos inundará e guiará para sempre o espírito.
Links:
⬩➤ Facebook
⬩➤ Instagram
⬩➤ Bandcamp
⬩➤ Sorry State Records
quarta-feira, 7 de outubro de 2026
terça-feira, 6 de outubro de 2026
segunda-feira, 5 de outubro de 2026
Review: 🦂 Primitive Ring - 'Primitive Ring' (2026, In The Red Records) 🦂
Formado
por membros de bandas como Fuzz, Hooverii e Frankie & The
Witch Fingers, este irreverente tridente intitulado Primitive Ring e
domiciliado na cidade hollywoodesca de Los Angeles lançou na passada
primavera o seu escaldante, sexy e viciante homónimo álbum de estreia pela mão
da companhia discográfica local In The Red Records através do exclusivo
formato físico de vinil. Rodopiados e misturados numa frenética centrifugadora,
um fogoso, apimentado, ritmado e poderoso Garage Rock de intensidade
infernal a fazer recordar os velhos furacões The Stooges e MC5,
um inflamante, oleoso, aparatoso e intoxicante Heavy Psych de clima tropical
na senda dos dinossauros Blue Cheer, Captain Beyond e Leaf
Hound, e um rugoso, intrigante, arrepiante e assombroso Heavy Blues de perversos serpenteios e atemorizantes e pesados ecos Black Sabbath’icos envolvem-se
e revolvem-se num prazeroso, libidinoso e movediço groove que nos faz
cravar os dentes nos lábios, cerrar as pálpebras e soltar furiosamente a cabeça
em movimentos giratórios. Conectada por uma admirável simbiose – como pude
experienciar, de agitada e transpirada emoção, ao vivo na passada edição do festival musical
SonicBlast –, esta endemoninhada, bem conduzida e radical banda californiana bamboleia-se
numa provocante, vulcânica, exótica e excitante sonoridade de pele venéfica que
nos mantém entretidos, sobreaquecidos e em comoção do primeiro ao derradeiro
tema. São 42 minutos saturados de uma ácida fogosidade que nos pontapeia,
incendeia e euforiza sem piedade ou moderação. Envelhecida e envernizada por uma amarelecida luzência vintage de forte odor setentista, a propulsiva, afrodisíaca,
camaleónica e criativa musicalidade de Primitive Ring prende e embala o
ouvinte numa embriagante, vertiginosa e emocionante montanha-russa. Deixem-se embevecer,
apaixonar e enlouquecer pelas estonteantes danças de uma extraordinária guitarra
– empapada em crocante, abrasivo e borbulhante efeito fuzz – que se
manifesta em aprazíveis, maleáveis, adoráveis e irresistíveis riffs de onde se desprendem e esvoaçam vendavais de solos extravagantes, desgovernados, alucinados e derrapantes, pela
carregada reverberação emanada por um baixo obeso de linhas sombreadas,
fibrosas, gloriosas e encorpadas, pela contagiante explosividade de uma bateria dinâmica
galopada a ritmos impressionantes, acrobáticos, enfáticos e estimulantes, e pela venenosa
tentação de vocais diabrinos, avinagrados, esbranquiçados e joviais. ‘Primitive Ring’ é
um álbum verdadeiramente ciclónico, sísmico e bombástico que tudo em nós faz estremecer. Um
registo electrizante, escaldante e fumegante que nos banha na polposa e
incandescente lava de um vulcão em inesgotável erupção. Uma efervescência
psicotrópica onde nos dissolvemos e naufragamos. Vai ser demasiado fácil
reencontrá-lo perfilado e destacado na listagem que premeia os melhores discos
lançados em 2026.
Links:
⬩➤ Instagram
⬩➤ Bandcamp
⬩➤ In The Red Records
sábado, 3 de outubro de 2026
quinta-feira, 1 de outubro de 2026
quarta-feira, 30 de setembro de 2026
terça-feira, 29 de setembro de 2026
segunda-feira, 28 de setembro de 2026
Review: ⚓ Dead Sea Apes - 'Psychic Tension' (2026, Cardinal Fuzz & Feeding Tube) ⚓

Proveniente da cidade-berço da revolução industrial – Manchester – vem até nós a negra fumaça baforada por Dead Sea Apes com a apresentação do seu novíssimo álbum intitulado ‘Psychic
Tension’ e editado a duas mãos pela britânica Cardinal Fuzz e pela
americana Feeding Tube Records sob a forma física de LP e CD-R. Na iminência
de celebrar duas décadas de imparável produção discográfica – que conta já com a
histórica marca de 25 registos lançados até à data –, este tridente inglês
continua com a veia criativa bem movimentada e dilatada. Contaminado por um pantanoso,
narcotizante, inflamante e brumoso Heavy Psych de imersivo balanço Krautrock
e vertiginosa propulsão espacial que nos inquieta e projecta para a garganta do negro abismo
cósmico, enfeitiçado por um hipnótico, cinzento, pachorrento e melancólico Drone
de imagética Western que nos mumifica com a sua morfínica teia de camadas
repetitivas, e perturbado por um dissonante, anárquico, tóxico e tonitruante Noise
Rock de desenfreados ritmos Garage que nos desenraíza e extravia a
sanidade mental, ‘Psychic Tension’ provoca no ouvinte alucinações
visuais, descargas de endorfina, assombrações espirituais, inundações
reflexivas, convulsões epilépticas e tempestades cerebrais. Todo um vasto
sortido de emoções que nos baloiça da catártica e febril euforia, capaz de nos
sobreaquecer e endoidecer, à mesmérica e embriagante letargia que nos amolece e
anoitece o espírito. A sua sonoridade sedutora, misteriosa, camaleónica e emancipadora
– integralmente instrumental – dá-nos as rugosas e gélidas mãos e passeia-nos por misantrópicas,
sombrias, embrumadas e distópicas atmosferas onde a luz e a esperança não ousam
entrar, acordadas por dramáticos, incisivos e enfáticos sirenes do apocalipse
que soam e ecoam pela fantasmagórica brancura da paisagem. Outonal e simultaneamente
infernal, ‘Psychic Tension’ é um álbum sonolento, pesado, enevoado e
temulento que dá voz aos nossos silêncios e traz calma às nossas tormentas. Dos
bucólicos pântanos orvalhados pela muda, fresca e húmida madrugada da
melancolia às crepitantes, fumegantes e intensas lavaredas da insanável revolta,
somos persuadidos e levados numa admirável e desorientadora viagem pelo
desconhecido. Balançados pelas fascinantes danças de uma guitarra que se meneia
em atordoantes, giratórios e magnetizantes riffs – encrostados pela espinhosa
e urticante distorção e remexidos num profundo e polposo vórtice que se abre
furiosamente no oceano – de onde esvoaçam delirantes, ácidos e borbulhantes solos,
sombreados pela espessa pretura de um baixo locomovido a linhas pulsantes, sísmicas
e possantes, e escoiceados pela turbulência de uma bateria ritmada a vulcânica explosividade,
caminhamos de olhos vendados e passos amedrontados pelos tristes e escurecidos vales
de ‘Psychic Tension’. São 37 minutos ancorados num umbroso, esfíngico e esponjoso
ritual que arrasta a carregada nebulosidade marítima até à costa da nossa
existência. Deixem-se cegar e encantar pela mística musicalidade dos
marinheiros britânicos Dead Sea Apes sem faróis que rasguem e acordem as
suas reconfortantes trevas.
Links:
⬩➤ Facebook
⬩➤ Instagram
⬩➤ Bandcamp
⬩➤ Cardinal Fuzz
⬩➤ Feeding Tube Records
domingo, 27 de setembro de 2026
sábado, 26 de setembro de 2026
sexta-feira, 25 de setembro de 2026
quinta-feira, 24 de setembro de 2026
quarta-feira, 23 de setembro de 2026
terça-feira, 22 de setembro de 2026
segunda-feira, 21 de setembro de 2026
domingo, 20 de setembro de 2026
sexta-feira, 18 de setembro de 2026
Review: 🪐 Crypt Trip - 'Hard Ride to Venus' EP (2026) 🪐

Inesperadamente
acordados de uma longa e desesperante hibernação com sete anos de duração, os remodelados
texanos Crypt Trip estão finalmente de volta – para minha indisfarçável
e extravasante emoção – às poeirentas estradas desbravadas e viajadas no
passado por inesquecíveis álbuns como ‘Rootstock’ de 2018 e ‘Haze County’ de 2019. ‘Hard Ride to Venus’ dá nome ao tão ansiado
regresso deste tridente domiciliado na cidade de Austin que vem até nós sob
a exclusiva forma digital com selo autoral, mas com a intenção declarada de um
futuro lançamento em formato físico de prensagem ultralimitada e editada de
forma independente. Amanhecido e entardecido à empolgante boleia de um maturado,
ornamentado e aventureiro Southern Rock de carisma no coldre que corre à
rédea solta e lado a lado com um musculado, excitante e oleado Hard Rock
de roupagem clássica e um charmoso, envelhecido e lustroso Texas Blues
de brilho vintage, este belíssimo EP de indiscreta inspiração colhida nos
gloriosos anos setenta anoitece serena e demoradamente debaixo da pálida luz
lunar de uma balada Folk onde se testemunha com imperturbável feitiço e
uma leve embriaguez um fascinante, simbiótico e apaixonante diálogo tricotado ao
relento pelas cordas. Liberal, rústico, nostálgico e sentimental, ‘Hard Ride
to Venus’ é um registo de curta duração, mas intensa sedução que nos
desarma e conquista do primeiro ao derradeiro tema. De engraxadas texanas
calçadas e chapéu de aba larga reclinado na cabeça, deambulamos e saltitamos – de
olhar içado e cravado no firmamento – nas costas de um cavalo cansado pelos
terrosos e sinuosos trilhos do arenoso coração rural do velho Texas. Ricocheteando
entre apressadas, ritmadas e entusiasmantes cavalgadas de esporas
ensanguentadas, e caramelizadas, tórridas e desérticas baladas de uma esbatida
coloração sépia, vagueamos, sem destino traçado, pela desamarrada, perfumada e galante
sonoridade de Crypt Trip. Banhem-se nos ofuscantes desertos de ‘Hard
Ride to Venus’ superiormente musicados por uma guitarra com um irresistível
swag que se bamboleia em desdobráveis, serpenteantes, picantes e adoráveis
riffs e ziguezagueia em deslumbrantes, entrançados, delicados e
derrapantes solos, um baixo groovy de reverberação pulsante,
magnetizante e elástica, uma galopante bateria de sensibilidade e habilidade jazzísticas,
e vocais amarelecidos, acetinados, melodiosos e emotivos. São 25 minutos verdadeiramente
viciantes de um caleidoscópico encantamento que nos mantém confortavelmente relaxados
num inamovível estádio de plena ataraxia. Este idílico EP representa a
banda-sonora perfeita para emoldurar o último suspiro de um verão moribundo que
se entrega aos braços agasalhados do Outono.
Links:
⬩➤ Facebook
⬩➤ Instagram
⬩➤ Bandcamp
quinta-feira, 17 de setembro de 2026
quarta-feira, 16 de setembro de 2026
segunda-feira, 14 de setembro de 2026
sábado, 12 de setembro de 2026
sexta-feira, 11 de setembro de 2026
Review: 🦌 Sex Magick Wizards - 'Suola ja Noaidi' (2026, Is It Jazz? Records) 🦌
Devo
admitir que a cada anúncio de um novo álbum dos noruegueses Sex Magick
Wizards deflagra em mim um faiscante e descontrolado fogo de entusiamo. Esta talentosa
banda domiciliada na cidade-capital Oslo – pela qual nutro uma grande
devoção e cuja criatividade parece não conhecer limites – acaba de lançar o seu
extravagante quarto álbum de estúdio denominado ‘Suola ja Noaidi’ (o ladrão
e o xamã) pela mão da emergente companhia discográfica local Is It Jazz?
Records através de estéticas e apetecíveis edições em LP e CD. Farolizada pela cultura Sami
– um povo indígena do norte da Europa que habita a região de Sápmi, abrangendo
o norte da Noruega, Suécia, Finlândia e a península de Kola na Rússia – e desenhada
em torno de temas como a colonização, a religião armada e a resiliência Sami, a
exótica, experimental, camaleónica e cerimonial sonoridade de ‘Suola ja Noaidi’
manifesta-se num pirotécnico curto-circuito jazzístico onde se cruzam na mesma
corrente eléctrica um desarrumado, caótico, labiríntico e desgrenhado Free
Jazz de instrumentos em selvática debandada, um tribal, afrodisíaco,
ritualístico e celestial Spiritual Jazz que nos alavanca a religiosidade
e um carnavalesco, espalhafatoso, poderoso e burlesco Avant-Garde Jazz
que em nós provoca uma relampejante tempestade cerebral. Mutante, hipnótico,
excêntrico e fascinante, este novo trabalho do sui generis quarteto nórdico é uma
obra verdadeiramente extraordinária, complexa e desafiante que obriga o ouvinte
a múltiplas audições para sua plena interpretação. Um bizarro puzzle sonoro da
mais elevada dificuldade que nos seduz, invade e conduz pelas suas portentosas,
admiráveis e gloriosas composições. Numa mistura entre a vanguarda e a erudição,
a estonteante complexidade rítmica, harmonias dissonantes e a livre improvisação,
‘Suola ja Noaidi’ conta ainda com a indiscreta influência do impopular
movimento Rock in Opposition (RIO) a fazer lembrar a sátira mordaz soberbamente musicada pelos suecos Samla
Mammas Manna e o tenso desassossego superiormente orquestrado pelos belgas Univers Zéro. Percam-se e encontrem-se,
tropecem e levantem-se, aventurem-se e desventurem-se à enleante boleia de uma guitarra alienígena que rabisca
– numa indecifrável caligrafia – neuróticos, esdrúxulos e claustrofóbicos riffs
de onde são escoados solos vertiginosos, sónicos e angulosos, uma bateria
circense de ritmos impressionantes, arriscados, acrobáticos e mirabolantes, um magnético
baixo de linhas pulsantes, elásticas, enigmáticas e marcantes, um incisivo saxofone
de gritos tresloucados, discordantes e assanhados, uma melodiosa flauta de sopros arejados, leves e aveludados, cantos étnicos, místicos e ancestrais de uma acentuada bipolaridade que baloiça entre sangrentos gritos histéricos e robóticas declamações monocórdicas, e enfeitiçantes sintetizadores
que embrumam e perfumam a opressiva, estranha e inventiva atmosfera do álbum com a sua
bizarria electrónica. Este é um registo sem fronteiras ou barreiras que o inibem. A irreverência
no seu nível máximo. Uma obra estimulante, sufocante e desorientadora que nos rouba o ar do peito e domina
ao longo dos seus extensos 72 minutos de duração. Uma inquebrável sedução. Envolvam-se e revolvam-se nesta
compenetrada, incansável e sagrada dança tribal sob a messiânica luzência de um dos álbuns mais
fenomenais do ano.
Links:
➸ Facebook
➸ Instagram
➸ Bandcamp
➸ Is It Jazz? Records















































