terça-feira, 6 de outubro de 2026
segunda-feira, 5 de outubro de 2026
Review: 🦂 Primitive Ring - 'Primitive Ring' (2026, In The Red Records) 🦂
Formado
por membros de bandas como Fuzz, Hooverii e Frankie & The
Witch Fingers, este irreverente tridente intitulado Primitive Ring e
domiciliado na cidade hollywoodesca de Los Angeles lançou na passada
primavera o seu escaldante, sexy e viciante homónimo álbum de estreia pela mão
da companhia discográfica local In The Red Records através do exclusivo
formato físico de vinil. Rodopiados e misturados numa frenética centrifugadora,
um fogoso, apimentado, ritmado e poderoso Garage Rock de intensidade
infernal a fazer recordar os velhos furacões The Stooges e MC5,
um inflamante, oleoso, aparatoso e intoxicante Heavy Psych de clima tropical
na senda dos dinossauros Blue Cheer, Captain Beyond e Leaf
Hound, e um rugoso, intrigante, arrepiante e assombroso Heavy Blues de perversos serpenteios e atemorizantes e pesados ecos Black Sabbath’icos envolvem-se
e revolvem-se num prazeroso, libidinoso e movediço groove que nos faz
cravar os dentes nos lábios, cerrar as pálpebras e soltar furiosamente a cabeça
em movimentos giratórios. Conectada por uma admirável simbiose – como pude
experienciar, de agitada e transpirada emoção, ao vivo na passada edição do festival musical
SonicBlast –, esta endemoninhada, bem conduzida e radical banda californiana bamboleia-se
numa provocante, vulcânica, exótica e excitante sonoridade de pele venéfica que
nos mantém entretidos, sobreaquecidos e em comoção do primeiro ao derradeiro
tema. São 42 minutos saturados de uma ácida fogosidade que nos pontapeia,
incendeia e euforiza sem piedade ou moderação. Envelhecida e envernizada por uma amarelecida luzência vintage de forte odor setentista, a propulsiva, afrodisíaca,
camaleónica e criativa musicalidade de Primitive Ring prende e embala o
ouvinte numa embriagante, vertiginosa e emocionante montanha-russa. Deixem-se embevecer,
apaixonar e enlouquecer pelas estonteantes danças de uma extraordinária guitarra
– empapada em crocante, abrasivo e borbulhante efeito fuzz – que se
manifesta em aprazíveis, maleáveis, adoráveis e irresistíveis riffs de onde se desprendem e esvoaçam vendavais de solos extravagantes, desgovernados, alucinados e derrapantes, pela
carregada reverberação emanada por um baixo obeso de linhas sombreadas,
fibrosas, gloriosas e encorpadas, pela contagiante explosividade de uma bateria dinâmica
galopada a ritmos impressionantes, acrobáticos, enfáticos e estimulantes, e pela venenosa
tentação de vocais diabrinos, avinagrados, esbranquiçados e joviais. ‘Primitive Ring’ é
um álbum verdadeiramente ciclónico, sísmico e bombástico que tudo em nós faz estremecer. Um
registo electrizante, escaldante e fumegante que nos banha na polposa e
incandescente lava de um vulcão em inesgotável erupção. Uma efervescência
psicotrópica onde nos dissolvemos e naufragamos. Vai ser demasiado fácil
reencontrá-lo perfilado e destacado na listagem que premeia os melhores discos
lançados em 2026.
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sábado, 3 de outubro de 2026
quinta-feira, 1 de outubro de 2026
quarta-feira, 30 de setembro de 2026
terça-feira, 29 de setembro de 2026
segunda-feira, 28 de setembro de 2026
Review: ⚓ Dead Sea Apes - 'Psychic Tension' (2026, Cardinal Fuzz & Feeding Tube) ⚓

Proveniente da cidade-berço da revolução industrial – Manchester – vem até nós a negra fumaça baforada por Dead Sea Apes com a apresentação do seu novíssimo álbum intitulado ‘Psychic
Tension’ e editado a duas mãos pela britânica Cardinal Fuzz e pela
americana Feeding Tube Records sob a forma física de LP e CD-R. Na iminência
de celebrar duas décadas de imparável produção discográfica – que conta já com a
histórica marca de 25 registos lançados até à data –, este tridente inglês
continua com a veia criativa bem movimentada e dilatada. Contaminado por um pantanoso,
narcotizante, inflamante e brumoso Heavy Psych de imersivo balanço Krautrock
e vertiginosa propulsão espacial que nos inquieta e projecta para a garganta do negro abismo
cósmico, enfeitiçado por um hipnótico, cinzento, pachorrento e melancólico Drone
de imagética Western que nos mumifica com a sua morfínica teia de camadas
repetitivas, e perturbado por um dissonante, anárquico, tóxico e tonitruante Noise
Rock de desenfreados ritmos Garage que nos desenraíza e extravia a
sanidade mental, ‘Psychic Tension’ provoca no ouvinte alucinações
visuais, descargas de endorfina, assombrações espirituais, inundações
reflexivas, convulsões epilépticas e tempestades cerebrais. Todo um vasto
sortido de emoções que nos baloiça da catártica e febril euforia, capaz de nos
sobreaquecer e endoidecer, à mesmérica e embriagante letargia que nos amolece e
anoitece o espírito. A sua sonoridade sedutora, misteriosa, camaleónica e emancipadora
– integralmente instrumental – dá-nos as rugosas e gélidas mãos e passeia-nos por misantrópicas,
sombrias, embrumadas e distópicas atmosferas onde a luz e a esperança não ousam
entrar, acordadas por dramáticos, incisivos e enfáticos sirenes do apocalipse
que soam e ecoam pela fantasmagórica brancura da paisagem. Outonal e simultaneamente
infernal, ‘Psychic Tension’ é um álbum sonolento, pesado, enevoado e
temulento que dá voz aos nossos silêncios e traz calma às nossas tormentas. Dos
bucólicos pântanos orvalhados pela muda, fresca e húmida madrugada da
melancolia às crepitantes, fumegantes e intensas lavaredas da insanável revolta,
somos persuadidos e levados numa admirável e desorientadora viagem pelo
desconhecido. Balançados pelas fascinantes danças de uma guitarra que se meneia
em atordoantes, giratórios e magnetizantes riffs – encrostados pela espinhosa
e urticante distorção e remexidos num profundo e polposo vórtice que se abre
furiosamente no oceano – de onde esvoaçam delirantes, ácidos e borbulhantes solos,
sombreados pela espessa pretura de um baixo locomovido a linhas pulsantes, sísmicas
e possantes, e escoiceados pela turbulência de uma bateria ritmada a vulcânica explosividade,
caminhamos de olhos vendados e passos amedrontados pelos tristes e escurecidos vales
de ‘Psychic Tension’. São 37 minutos ancorados num umbroso, esfíngico e esponjoso
ritual que arrasta a carregada nebulosidade marítima até à costa da nossa
existência. Deixem-se cegar e encantar pela mística musicalidade dos
marinheiros britânicos Dead Sea Apes sem faróis que rasguem e acordem as
suas reconfortantes trevas.
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domingo, 27 de setembro de 2026
sábado, 26 de setembro de 2026
sexta-feira, 25 de setembro de 2026
quinta-feira, 24 de setembro de 2026
quarta-feira, 23 de setembro de 2026
terça-feira, 22 de setembro de 2026
segunda-feira, 21 de setembro de 2026
domingo, 20 de setembro de 2026
sexta-feira, 18 de setembro de 2026
Review: 🪐 Crypt Trip - 'Hard Ride to Venus' EP (2026) 🪐

Inesperadamente
acordados de uma longa e desesperante hibernação com sete anos de duração, os remodelados
texanos Crypt Trip estão finalmente de volta – para minha indisfarçável
e extravasante emoção – às poeirentas estradas desbravadas e viajadas no
passado por inesquecíveis álbuns como ‘Rootstock’ de 2018 e ‘Haze County’ de 2019. ‘Hard Ride to Venus’ dá nome ao tão ansiado
regresso deste tridente domiciliado na cidade de Austin que vem até nós sob
a exclusiva forma digital com selo autoral, mas com a intenção declarada de um
futuro lançamento em formato físico de prensagem ultralimitada e editada de
forma independente. Amanhecido e entardecido à empolgante boleia de um maturado,
ornamentado e aventureiro Southern Rock de carisma no coldre que corre à
rédea solta e lado a lado com um musculado, excitante e oleado Hard Rock
de roupagem clássica e um charmoso, envelhecido e lustroso Texas Blues
de brilho vintage, este belíssimo EP de indiscreta inspiração colhida nos
gloriosos anos setenta anoitece serena e demoradamente debaixo da pálida luz
lunar de uma balada Folk onde se testemunha com imperturbável feitiço e
uma leve embriaguez um fascinante, simbiótico e apaixonante diálogo tricotado ao
relento pelas cordas. Liberal, rústico, nostálgico e sentimental, ‘Hard Ride
to Venus’ é um registo de curta duração, mas intensa sedução que nos
desarma e conquista do primeiro ao derradeiro tema. De engraxadas texanas
calçadas e chapéu de aba larga reclinado na cabeça, deambulamos e saltitamos – de
olhar içado e cravado no firmamento – nas costas de um cavalo cansado pelos
terrosos e sinuosos trilhos do arenoso coração rural do velho Texas. Ricocheteando
entre apressadas, ritmadas e entusiasmantes cavalgadas de esporas
ensanguentadas, e caramelizadas, tórridas e desérticas baladas de uma esbatida
coloração sépia, vagueamos, sem destino traçado, pela desamarrada, perfumada e galante
sonoridade de Crypt Trip. Banhem-se nos ofuscantes desertos de ‘Hard
Ride to Venus’ superiormente musicados por uma guitarra com um irresistível
swag que se bamboleia em desdobráveis, serpenteantes, picantes e adoráveis
riffs e ziguezagueia em deslumbrantes, entrançados, delicados e
derrapantes solos, um baixo groovy de reverberação pulsante,
magnetizante e elástica, uma galopante bateria de sensibilidade e habilidade jazzísticas,
e vocais amarelecidos, acetinados, melodiosos e emotivos. São 25 minutos verdadeiramente
viciantes de um caleidoscópico encantamento que nos mantém confortavelmente relaxados
num inamovível estádio de plena ataraxia. Este idílico EP representa a
banda-sonora perfeita para emoldurar o último suspiro de um verão moribundo que
se entrega aos braços agasalhados do Outono.
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quinta-feira, 17 de setembro de 2026
quarta-feira, 16 de setembro de 2026
segunda-feira, 14 de setembro de 2026
sábado, 12 de setembro de 2026
sexta-feira, 11 de setembro de 2026
Review: 🦌 Sex Magick Wizards - 'Suola ja Noaidi' (2026, Is It Jazz? Records) 🦌
Devo
admitir que a cada anúncio de um novo álbum dos noruegueses Sex Magick
Wizards deflagra em mim um faiscante e descontrolado fogo de entusiamo. Esta talentosa
banda domiciliada na cidade-capital Oslo – pela qual nutro uma grande
devoção e cuja criatividade parece não conhecer limites – acaba de lançar o seu
extravagante quarto álbum de estúdio denominado ‘Suola ja Noaidi’ (o ladrão
e o xamã) pela mão da emergente companhia discográfica local Is It Jazz?
Records através de estéticas e apetecíveis edições em LP e CD. Farolizada pela cultura Sami
– um povo indígena do norte da Europa que habita a região de Sápmi, abrangendo
o norte da Noruega, Suécia, Finlândia e a península de Kola na Rússia – e desenhada
em torno de temas como a colonização, a religião armada e a resiliência Sami, a
exótica, experimental, camaleónica e cerimonial sonoridade de ‘Suola ja Noaidi’
manifesta-se num pirotécnico curto-circuito jazzístico onde se cruzam na mesma
corrente eléctrica um desarrumado, caótico, labiríntico e desgrenhado Free
Jazz de instrumentos em selvática debandada, um tribal, afrodisíaco,
ritualístico e celestial Spiritual Jazz que nos alavanca a religiosidade
e um carnavalesco, espalhafatoso, poderoso e burlesco Avant-Garde Jazz
que em nós provoca uma relampejante tempestade cerebral. Mutante, hipnótico,
excêntrico e fascinante, este novo trabalho do sui generis quarteto nórdico é uma
obra verdadeiramente extraordinária, complexa e desafiante que obriga o ouvinte
a múltiplas audições para sua plena interpretação. Um bizarro puzzle sonoro da
mais elevada dificuldade que nos seduz, invade e conduz pelas suas portentosas,
admiráveis e gloriosas composições. Numa mistura entre a vanguarda e a erudição,
a estonteante complexidade rítmica, harmonias dissonantes e a livre improvisação,
‘Suola ja Noaidi’ conta ainda com a indiscreta influência do impopular
movimento Rock in Opposition (RIO) a fazer lembrar a sátira mordaz soberbamente musicada pelos suecos Samla
Mammas Manna e o tenso desassossego superiormente orquestrado pelos belgas Univers Zéro. Percam-se e encontrem-se,
tropecem e levantem-se, aventurem-se e desventurem-se à enleante boleia de uma guitarra alienígena que rabisca
– numa indecifrável caligrafia – neuróticos, esdrúxulos e claustrofóbicos riffs
de onde são escoados solos vertiginosos, sónicos e angulosos, uma bateria
circense de ritmos impressionantes, arriscados, acrobáticos e mirabolantes, um magnético
baixo de linhas pulsantes, elásticas, enigmáticas e marcantes, um incisivo saxofone
de gritos tresloucados, discordantes e assanhados, uma melodiosa flauta de sopros arejados, leves e aveludados, cantos étnicos, místicos e ancestrais de uma acentuada bipolaridade que baloiça entre sangrentos gritos histéricos e robóticas declamações monocórdicas, e enfeitiçantes sintetizadores
que embrumam e perfumam a opressiva, estranha e inventiva atmosfera do álbum com a sua
bizarria electrónica. Este é um registo sem fronteiras ou barreiras que o inibem. A irreverência
no seu nível máximo. Uma obra estimulante, sufocante e desorientadora que nos rouba o ar do peito e domina
ao longo dos seus extensos 72 minutos de duração. Uma inquebrável sedução. Envolvam-se e revolvam-se nesta
compenetrada, incansável e sagrada dança tribal sob a messiânica luzência de um dos álbuns mais
fenomenais do ano.
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quinta-feira, 10 de setembro de 2026
quarta-feira, 9 de setembro de 2026
terça-feira, 8 de setembro de 2026
segunda-feira, 7 de setembro de 2026
Review: 🌅 Edena Gardens - 'Quintessence' (2026, El Paraiso Records) 🌅
Formado
em 2022 e tendo como sua única missão o lançamento de uma trilogia de álbuns (‘Edena Gardens’ de 2022, ‘Agar’ de 2023 e ‘Dens’ também de 2023),
este talentoso quinteto escandinavo – que conta com músicos provenientes de consagradas
bandas como Causa Sui e Papir – passara a fronteira da sua (e da nossa)
expectativa em relação à sua durabilidade e ao seu sentido de existência com o inesperado
nascimento do seu quarto trabalho de estúdio ‘Dispossessed’ no passado
ano de 2025, e agora envia-nos um sinal sob a forma musical da longínqua exosfera
e viajando a toda a velocidade para as profundezas da garganta do espaço
sideral com o aparecimento do seu quinto álbum de estúdio intitulado ‘Quintessence’,
editado e carimbado pela insuspeita El Paraiso Records numa estética e
irresistível edição física em LP e CD que embelezará e valorizará a colecção de
qualquer melómano que se preze. Num caloroso abraço gravitacional entre um reflexivo,
cinematográfico, anestésico e imersivo Post-Rock condimentado com sal
marinho e um embriagante, charmoso, radioso e apaixonante Psychedelic Rock
de deslumbrante maquilhagem celestial, este novo álbum de Edena Gardens
perfila-se como o trabalho mais expansivo, camaleónico, exótico e expressivo lançado
até à data pela banda dinamarquesa. Contando ainda com aventuras e desventuras nos
territórios alienígenas da música Jazz, o cativante hipnotismo do Krautrock
e o aroma tropical do sumarento Funk, a paradisíaca, sonhadora,
trovadora e ritualística sonoridade de ‘Quintessence’ passeia-se
graciosa e livremente num evolutivo, lenitivo e arejado slow-motion de proféticas,
lisérgicas e intuitivas jams instrumentais que tocam os universos
musicais de Soft Machine, Jimi Hendrix, Herbie Hancock, Ry
Cooder, Agitation Free, The Mermen e Pelican. Detidos
pela invisível radiação da introspecção e mistificados pela desarmante beleza
que este disco irradia, somos levados a experienciar um multicolorido e
vibrante arco-íris de desiguais sensações. ‘Quintessence’ é uma manhã
refrescante de pele arrepiada e olhar perdido na timidez de um Sol distante, uma
tarde abafada de corpos bronzeados e suados farolizada por um Sol chamejante,
um mágico crepúsculo de céus pincelados a colorações quentes e um Sol de rosto
derretido e perdido no firmamento, e uma quieta e arejada noite trajada de um
aveludado e negro manto com vista desabrigada para a pálida luzência da Lua. A praia
das nossas vidas. Enfeitiçante, purificante e transformador, ‘Quintessence’
é um abrigo sagrado onde choramos as nossas feridas e nos curamos. São 80 minutos
de uma experiência verdadeiramente gratificante que nos faz sorrir de cabeça
pensante e olhar lacrimejante. Velejem este sonho soberbamente musicado à afrodisíaca
boleia de uma guitarra reptiliana e exploratória que se serpenteia em oleosos,
viciantes, libidinosos e temperados riffs de onde são vertidos uivantes,
ofuscantes, comoventes e encaracolados solos de uma beleza sem igual, um dançante
baixo de bafo pausado, quente e sombreado, e uma acrobática bateria de ritmos
livres, leves e desatados. O experimentalismo, a delicadeza, a destreza e o
misticismo de mãos dadas. Deixem-se inundar pelos ondeantes, psicotrópicos e
messiânicos raios ultravioletas de Edena Gardens e testemunhem com total
admiração e religiosa veneração todo o santificado esplendor de um dos mais edénicos e terapêuticos álbuns desabrochados neste jardim musical de 2026.
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