quinta-feira, 22 de outubro de 2026

📸 Led Zeppelin @ Electric Magic Shows, Wembley Empire Pool (1971)

⛓️ Prisma Circus - 'Promethea's Armageddon' (2017)

Review: 😵 Hibushibire - 'Phantom Fuzzy Exotica' (2026, Riot Season) 😵

★★★★★

Oriunda da cidade japonesa de Osaka chega-nos a mastodôntica onda de choque resultante de mais uma psicotrópica explosão armadilhada e detonada pelo fantástico e irreverente quarteto Hibushibire. Formado em 2012 e já com mais de duas dezenas de trabalhos editados, este extravagante colectivo nipónico continua fiel à vistosa pirotecnia psicadélica que os caracteriza desde a sua criação. Intitulado ‘Phantom Fuzzy Exotica’ e lançado com o carimbo da britânica companhia discográfica independente Riot Season através dos formatos físicos de LP e CD-R, este novo álbum de Hibushibire é cozinhado num borbulhante, fogoso e fumegante caldeirão em constante e extravasante ebulição onde são remexidos e sorvidos um intoxicante, desgovernado, alucinado e electrizante Heavy Psych – fritado em gaseificada e abrasiva distorção – que nos ferve na sua multicolorida e faiscante efervescência condimentada a intensa turbulência e convida à sónica propulsão pelas autoestradas de um Cosmos em estado de sítio, e um letárgico, mavioso, cerimonioso e mágico Psychedelic Folk de paisagem pastoral e traje medieval que do interior das suas altas muralhas nos embevece, anestesia e adormece nas orvalhadas, verdejantes e arejadas planícies embrumadas pela tímida e embriagada madrugada de verão. Num incessante ricochete entre a exótica combustão e a messiânica mansidão, vagueamos e derrapamos – de olhar esfaimado, boca salivante e espírito imensamente fascinado – pelo criativo e desregrado experimentalismo que (des)norteia a camaleónica, expressiva, invasiva e catatónica sonoridade deste orgásmico ‘Phantom Fuzzy Exotica’. De rosto derretido, cabeça voadora e alma aturdida somos subjugados, cativados e embalados na caleidoscópica vertigem desta viagem desorientadora sem regresso garantido. Assombrados por esta fantasmagoria psicotrópica, somos varridos e engolidos por um furioso vórtice que nos viola a sanidade mental e reorganiza o nosso universo espiritual. São 38 minutos de um druídico ritual que nos seduz, conquista e conduz aos inexplorados territórios domiciliados nas longínquas costuras do espaço sideral. Aventurem-se e desventurem-se na atmosfera atordoante de Hibushibire à estonteante boleia sonora de uma guitarra monstruosa que chameja e gravita em torno de enfeitiçantes, ziguezagueantes e poderosos riffs saturados de um misticismo oriental, e vomita todo um furacão de venenosos, histéricos e sinuosos solos de elevada acidez, um dominante baixo de linhas bailantes, hipnóticas e ondeantes, uma bateria estimulante de ritmos excitados, suados e dinâmicos aliada a uma acrobática percussão de culto tribalista, um embruxado theremin que com as suas enigmáticas frequências alienígenas exorciza o Cosmos, e vocais ecoantes, distantes e celestiais de uma florescência espectral. O belíssimo portal aponta os seus créditos de autor à artista visual japonesa Nakatsuka Tomoco (também conhecida por aimaiworks). Uma imersiva e violenta radiação psicotrópica que nos encandeia, bronzeia a pele e bombardeia a lucidez. Este é muito provavelmente o meu álbum favorito desta prolífica banda japonesa e seguramente um dos registos mais espantosos e empolgantes de 2026. Vivenciem-no com total entrega e imoderada emoção.

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quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Review: 🩸 Zorn - 'Return to Castle Death' EP (2026, Sorry State Records) 🩸

★★★★★

Da histórica cidade de Filadélfia – a mais populosa do estado norte-americano da Pensilvânia – chegam-nos as intensas e diabólicas lavaredas cuspidas pelos infernais Zorn, que no passado verão forjaram o seu novíssimo EP intitulado ‘Return to Castle Death’ e editado pelo selo discográfico americano Sorry State Records. Destilado de um agressivo e disputado braço de ferro entre um pesado, cru, sujo e apressado Crust Punk escoiceado a altíssima rotação e um fogoso, incisivo, combativo e trevoso Black Metal de assombrada inflamação, este caótico, despótico e enfeitiçante registo de curta duração e alta tensão de Zorn é desalmadamente corrido a uma vertiginosa velocidade, trajado a carregada obscuridade, agredido a monstruosa ferocidade e cozinhado a acrimoniosa fogosidade. A sua dramática, sufocante, intrigante e distópica sonoridade aventura e desventura o ouvinte pelo intimidante, gélido e chocante interior do seu granítico, malfadado e vampírico castelo. Uma trágica, sádica e amaldiçoada digressão até às medievais masmorras desta dantesca casa do terror onde os silêncios despertam, as paredes apertam, as aranhas tecem, os ratos guincham e as sombras dançam e crescem na nossa direcção. ‘Return to Castle Death’ é um EP de natureza brutal, sem portal de saída, que crava os seus afiados caninos na nossa jugular e nos faz desmaiar no pentagrâmico e afogueado palco desta gótica e profana sedução. Um claustrofóbico, fantasmagórico e sinistro labirinto onde nos apavoramos, descabelamos e perdemos toda a nossa sanidade mental. De religiosidade eclipsada, alma profanada e pele enregelada, vagueamos – de olhar vendado, semblante esbranquiçado e coração angustiado – pela abissal negritude de Zorn onde a luz não ousa pisar e a esperança não arrisca espreitar. Um pesadelo sem fim que nos mumifica e terrifica a cada invasivo, perturbador e nocivo tema dos seus selváticos 20 minutos de durabilidade. Testemunhem a revoltosa e demoníaca possessão do vosso espírito anoitecido e derrotado ao transformador som de duas guitarras predatórias que hasteiam urticantes, ciclópicos, coléricos e flamejantes riffs encrostados por uma fervente distorção e desprendem solos bruxuleantes, endemoninhados, azedados e electrizantes, um potente baixo de linhas possantes, sisudas, carnudas e magnetizantes, uma endiabrada bateria metralhada a ritmos turbulentos, inflamados, desenfreados e alucinantes, e uma voz desesperada, sangrenta, sarnenta e depravada. A insustentável e fulminante raiva há muito em nós acumulada é agora armadilhada, gritada e detonada no nosso peito. Deixem-se ceifar, esfarrapar e sepultar pelos impiedosos e sanguinários carrascos Zorn nas insondáveis profundezas da sua luciférica pretura que vos inundará e guiará para sempre o espírito.

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⛧ Liz Buckingham • Electric Wizard

Teonanácatl - "Buscando una Razón" (2026)

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

🌸 Janis Joplin

🎙️ Josh Homme: The Architect of Desert Rock

⭕ Primitive Ring - "The Callous Man" (2026)

Review: 🦂 Primitive Ring - 'Primitive Ring' (2026, In The Red Records) 🦂

★★★★★

Formado por membros de bandas como Fuzz, Hooverii e Frankie & The Witch Fingers, este irreverente tridente intitulado Primitive Ring e domiciliado na cidade hollywoodesca de Los Angeles lançou na passada primavera o seu escaldante, sexy e viciante homónimo álbum de estreia pela mão da companhia discográfica local In The Red Records através do exclusivo formato físico de vinil. Rodopiados e misturados numa frenética centrifugadora, um fogoso, apimentado, ritmado e poderoso Garage Rock de intensidade infernal a fazer recordar os velhos furacões The Stooges e MC5, um inflamante, oleoso, aparatoso e intoxicante Heavy Psych de clima tropical na senda dos dinossauros Blue Cheer, Captain Beyond e Leaf Hound, e um rugoso, intrigante, arrepiante e assombroso Heavy Blues de perversos serpenteios e atemorizantes e pesados ecos Black Sabbath’icos envolvem-se e revolvem-se num prazeroso, libidinoso e movediço groove que nos faz cravar os dentes nos lábios, cerrar as pálpebras e soltar furiosamente a cabeça em movimentos giratórios. Conectada por uma admirável simbiose – como pude experienciar, de agitada e transpirada emoção, ao vivo na passada edição do festival musical SonicBlast –, esta endemoninhada, bem conduzida e radical banda californiana bamboleia-se numa provocante, vulcânica, exótica e excitante sonoridade de pele venéfica que nos mantém entretidos, sobreaquecidos e em comoção do primeiro ao derradeiro tema. São 42 minutos saturados de uma ácida fogosidade que nos pontapeia, incendeia e euforiza sem piedade ou moderação. Envelhecida e envernizada por uma amarelecida luzência vintage de forte odor setentista, a propulsiva, afrodisíaca, camaleónica e criativa musicalidade de Primitive Ring prende e embala o ouvinte numa embriagante, vertiginosa e emocionante montanha-russa. Deixem-se embevecer, apaixonar e enlouquecer pelas estonteantes danças de uma extraordinária guitarra – empapada em crocante, abrasivo e borbulhante efeito fuzz – que se manifesta em aprazíveis, maleáveis, adoráveis e irresistíveis riffs de onde se desprendem e esvoaçam vendavais de solos extravagantes, desgovernados, alucinados e derrapantes, pela carregada reverberação emanada por um baixo obeso de linhas sombreadas, fibrosas, gloriosas e encorpadas, pela contagiante explosividade de uma bateria dinâmica galopada a ritmos impressionantes, acrobáticos, enfáticos e estimulantes, e pela venenosa tentação de vocais diabrinos, avinagrados, esbranquiçados e joviais. ‘Primitive Ring’ é um álbum verdadeiramente ciclónico, sísmico e bombástico que tudo em nós faz estremecer. Um registo electrizante, escaldante e fumegante que nos banha na polposa e incandescente lava de um vulcão em inesgotável erupção. Uma efervescência psicotrópica onde nos dissolvemos e naufragamos. Vai ser demasiado fácil reencontrá-lo perfilado e destacado na listagem que premeia os melhores discos lançados em 2026.

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☕ Asia Minor - 'Between Flesh and Divine' (1980)

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

🌲 Mephistofeles

Review: ⚓ Dead Sea Apes - 'Psychic Tension' (2026, Cardinal Fuzz & Feeding Tube) ⚓


★★★★★

Proveniente da cidade-berço da revolução industrial – Manchester – vem até nós a negra fumaça baforada por Dead Sea Apes com a apresentação do seu novíssimo álbum intitulado ‘Psychic Tension’ e editado a duas mãos pela britânica Cardinal Fuzz e pela americana Feeding Tube Records sob a forma física de LP e CD-R. Na iminência de celebrar duas décadas de imparável produção discográfica – que conta já com a histórica marca de 25 registos lançados até à data –, este tridente inglês continua com a veia criativa bem movimentada e dilatada. Contaminado por um pantanoso, narcotizante, inflamante e brumoso Heavy Psych de imersivo balanço Krautrock e vertiginosa propulsão espacial que nos inquieta e projecta para a garganta do negro abismo cósmico, enfeitiçado por um hipnótico, cinzento, pachorrento e melancólico Drone de imagética Western que nos mumifica com a sua morfínica teia de camadas repetitivas, e perturbado por um dissonante, anárquico, tóxico e tonitruante Noise Rock de desenfreados ritmos Garage que nos desenraíza e extravia a sanidade mental, ‘Psychic Tension’ provoca no ouvinte alucinações visuais, descargas de endorfina, assombrações espirituais, inundações reflexivas, convulsões epilépticas e tempestades cerebrais. Todo um vasto sortido de emoções que nos baloiça da catártica e febril euforia, capaz de nos sobreaquecer e endoidecer, à mesmérica e embriagante letargia que nos amolece e anoitece o espírito. A sua sonoridade sedutora, misteriosa, camaleónica e emancipadora – integralmente instrumental – dá-nos as rugosas e gélidas mãos e passeia-nos por misantrópicas, sombrias, embrumadas e distópicas atmosferas onde a luz e a esperança não ousam entrar, acordadas por dramáticos, incisivos e enfáticos sirenes do apocalipse que soam e ecoam pela fantasmagórica brancura da paisagem. Outonal e simultaneamente infernal, ‘Psychic Tension’ é um álbum sonolento, pesado, enevoado e temulento que dá voz aos nossos silêncios e traz calma às nossas tormentas. Dos bucólicos pântanos orvalhados pela muda, fresca e húmida madrugada da melancolia às crepitantes, fumegantes e intensas lavaredas da insanável revolta, somos persuadidos e levados numa admirável e desorientadora viagem pelo desconhecido. Balançados pelas fascinantes danças de uma guitarra que se meneia em atordoantes, giratórios e magnetizantes riffs – encrostados pela espinhosa e urticante distorção e remexidos num profundo e polposo vórtice que se abre furiosamente no oceano – de onde esvoaçam delirantes, ácidos e borbulhantes solos, sombreados pela espessa pretura de um baixo locomovido a linhas pulsantes, sísmicas e possantes, e escoiceados pela turbulência de uma bateria ritmada a vulcânica explosividade, caminhamos de olhos vendados e passos amedrontados pelos tristes e escurecidos vales de ‘Psychic Tension’. São 37 minutos ancorados num umbroso, esfíngico e esponjoso ritual que arrasta a carregada nebulosidade marítima até à costa da nossa existência. Deixem-se cegar e encantar pela mística musicalidade dos marinheiros britânicos Dead Sea Apes sem faróis que rasguem e acordem as suas reconfortantes trevas.

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sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Review: 🪐 Crypt Trip - 'Hard Ride to Venus' EP (2026) 🪐


★★★★★

Inesperadamente acordados de uma longa e desesperante hibernação com sete anos de duração, os remodelados texanos Crypt Trip estão finalmente de volta – para minha indisfarçável e extravasante emoção – às poeirentas estradas desbravadas e viajadas no passado por inesquecíveis álbuns como ‘Rootstock’ de 2018 e ‘Haze County’ de 2019. ‘Hard Ride to Venus’ dá nome ao tão ansiado regresso deste tridente domiciliado na cidade de Austin que vem até nós sob a exclusiva forma digital com selo autoral, mas com a intenção declarada de um futuro lançamento em formato físico de prensagem ultralimitada e editada de forma independente. Amanhecido e entardecido à empolgante boleia de um maturado, ornamentado e aventureiro Southern Rock de carisma no coldre que corre à rédea solta e lado a lado com um musculado, excitante e oleado Hard Rock de roupagem clássica e um charmoso, envelhecido e lustroso Texas Blues de brilho vintage, este belíssimo EP de indiscreta inspiração colhida nos gloriosos anos setenta anoitece serena e demoradamente debaixo da pálida luz lunar de uma balada Folk onde se testemunha com imperturbável feitiço e uma leve embriaguez um fascinante, simbiótico e apaixonante diálogo tricotado ao relento pelas cordas. Liberal, rústico, nostálgico e sentimental, ‘Hard Ride to Venus’ é um registo de curta duração, mas intensa sedução que nos desarma e conquista do primeiro ao derradeiro tema. De engraxadas texanas calçadas e chapéu de aba larga reclinado na cabeça, deambulamos e saltitamos – de olhar içado e cravado no firmamento – nas costas de um cavalo cansado pelos terrosos e sinuosos trilhos do arenoso coração rural do velho Texas. Ricocheteando entre apressadas, ritmadas e entusiasmantes cavalgadas de esporas ensanguentadas, e caramelizadas, tórridas e desérticas baladas de uma esbatida coloração sépia, vagueamos, sem destino traçado, pela desamarrada, perfumada e galante sonoridade de Crypt Trip. Banhem-se nos ofuscantes desertos de ‘Hard Ride to Venus’ superiormente musicados por uma guitarra com um irresistível swag que se bamboleia em desdobráveis, serpenteantes, picantes e adoráveis riffs e ziguezagueia em deslumbrantes, entrançados, delicados e derrapantes solos, um baixo groovy de reverberação pulsante, magnetizante e elástica, uma galopante bateria de sensibilidade e habilidade jazzísticas, e vocais amarelecidos, acetinados, melodiosos e emotivos. São 25 minutos verdadeiramente viciantes de um caleidoscópico encantamento que nos mantém confortavelmente relaxados num inamovível estádio de plena ataraxia. Este idílico EP representa a banda-sonora perfeita para emoldurar o último suspiro de um verão moribundo que se entrega aos braços agasalhados do Outono.

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🍄 Jimi Hendrix


📸 Rock & Folk magazine (1972)

🍂 Neil Young & The Chrome Hearts - "Day After Day" (2026)

😎 Sacred Buzz - "Nothing to Hide" (2026)

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

ᨒ Earth & Fire - "In The Mountains" (1972)

Review: 🦌 Sex Magick Wizards - 'Suola ja Noaidi' (2026, Is It Jazz? Records) 🦌

★★★★★

Devo admitir que a cada anúncio de um novo álbum dos noruegueses Sex Magick Wizards deflagra em mim um faiscante e descontrolado fogo de entusiamo. Esta talentosa banda domiciliada na cidade-capital Oslo – pela qual nutro uma grande devoção e cuja criatividade parece não conhecer limites – acaba de lançar o seu extravagante quarto álbum de estúdio denominado ‘Suola ja Noaidi’ (o ladrão e o xamã) pela mão da emergente companhia discográfica local Is It Jazz? Records através de estéticas e apetecíveis edições em LP e CD. Farolizada pela cultura Sami – um povo indígena do norte da Europa que habita a região de Sápmi, abrangendo o norte da Noruega, Suécia, Finlândia e a península de Kola na Rússia – e desenhada em torno de temas como a colonização, a religião armada e a resiliência Sami, a exótica, experimental, camaleónica e cerimonial sonoridade de ‘Suola ja Noaidi’ manifesta-se num pirotécnico curto-circuito jazzístico onde se cruzam na mesma corrente eléctrica um desarrumado, caótico, labiríntico e desgrenhado Free Jazz de instrumentos em selvática debandada, um tribal, afrodisíaco, ritualístico e celestial Spiritual Jazz que nos alavanca a religiosidade e um carnavalesco, espalhafatoso, poderoso e burlesco Avant-Garde Jazz que em nós provoca uma relampejante tempestade cerebral. Mutante, hipnótico, excêntrico e fascinante, este novo trabalho do sui generis quarteto nórdico é uma obra verdadeiramente extraordinária, complexa e desafiante que obriga o ouvinte a múltiplas audições para sua plena interpretação. Um bizarro puzzle sonoro da mais elevada dificuldade que nos seduz, invade e conduz pelas suas portentosas, admiráveis e gloriosas composições. Numa mistura entre a vanguarda e a erudição, a estonteante complexidade rítmica, harmonias dissonantes e a livre improvisação, ‘Suola ja Noaidi’ conta ainda com a indiscreta influência do impopular movimento Rock in Opposition (RIO) a fazer lembrar a sátira mordaz soberbamente musicada pelos suecos Samla Mammas Manna e o tenso desassossego superiormente orquestrado pelos belgas Univers Zéro. Percam-se e encontrem-se, tropecem e levantem-se, aventurem-se e desventurem-se à enleante boleia de uma guitarra alienígena que rabisca – numa indecifrável caligrafia – neuróticos, esdrúxulos e claustrofóbicos riffs de onde são escoados solos vertiginosos, sónicos e angulosos, uma bateria circense de ritmos impressionantes, arriscados, acrobáticos e mirabolantes, um magnético baixo de linhas pulsantes, elásticas, enigmáticas e marcantes, um incisivo saxofone de gritos tresloucados, discordantes e assanhados, uma melodiosa flauta de sopros arejados, leves e aveludados, cantos étnicos, místicos e ancestrais de uma acentuada bipolaridade que baloiça entre sangrentos gritos histéricos e robóticas declamações monocórdicas, e enfeitiçantes sintetizadores que embrumam e perfumam a opressiva, estranha e inventiva atmosfera do álbum com a sua bizarria electrónica. Este é um registo sem fronteiras ou barreiras que o inibem. A irreverência no seu nível máximo. Uma obra estimulante, sufocante e desorientadora que nos rouba o ar do peito e domina ao longo dos seus extensos 72 minutos de duração. Uma inquebrável sedução. Envolvam-se e revolvam-se nesta compenetrada, incansável e sagrada dança tribal sob a messiânica luzência de um dos álbuns mais fenomenais do ano.

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