quarta-feira, 31 de dezembro de 2025
đ 2025: TOP 25 đ
terça-feira, 30 de dezembro de 2025
Review: đź Marmalade Knives - 'Paradigm Lost' (2025, Electric Valley) đź
Cinco anos apĂłs
o lançamento do seu delicioso ĂĄlbum de estreia – intitulado ‘Amnesia’ e aqui
devidamente esmiuçado –, a formação norte-americana Marmalade Knives –
originalmente formada nas montanhas de Santa Cruz (CalifĂłrnia),
mas hoje desenraizada e movida numa espargata de costa a costa (com um pé
firmado na CalifĂłrnia e o outro em Nova Iorque) – acaba de nos
presentear com o seu segundo trabalho de longa duração, denominado ‘Paradigm
Lost’ e carimbado pelo selo discogrĂĄfico italiano Electric Valley
Records. Este apaixonante tridente, que ocasionalmente conta com a
participação de um quarto elemento, leva à nossa mesa uma colorida, apaladada e inventiva
amĂĄlgama sonora onde facilmente se identificam e saboreiam um serpenteante, sensual,
piramidal e enleante Prog Rock de vistosos bailados ĂĄrabes e uma cĂłsmica
propulsĂŁo Eloy’ana, um envolvente, odoroso, eloquente e deslumbrante Psychedelic
Rock oxigenado por um agradĂĄvel, morno e afĂĄvel clima west-coast e perfumado
por uma indiscreta inspiração jazzĂstica situada entre as margens dos
germĂąnicos Kraan e Annexus Quam, e ainda um hipnĂłtico, bucĂłlico,
enfeitiçante e camaleónico Krautrock de radiosas e meditativas paisagens
pastorais trazidas de Popol Vuh, exĂłticas passagens de condimentos
alienĂgenas colhidos em Amon Düül II e um firme pulso
motorik troteado Ă boa moda de Neu!. Submersos num xamĂąnico e
quimérico ritual, incensado por coloridas e fantasmagóricas poeiras estelares,
estrelado pela estonteante pirotecnia celestial e centrifugado por luminosos e
enérgicos quasares, que nos extasia, inebria e faz levitar pela sempiterna
verticalidade cĂłsmica, somos inundados pela radiação sacramental de ‘Paradigm
Lost’ que nos electrifica todas as ramificaçÔes do nosso circuito espiritual.
Farolizados pela messiĂąnica luzĂȘncia de Marmalade Knives somos cativados
e desaguados nas nirvĂąnicas praias do paraĂso mental. O vislumbrar do maravilhoso
romper da aurora cĂłsmica. A inalação – de olhar selado e narinas dilatadas – da doce
fragĂąncia oriental que nos desobstrĂłi a autoestrada consciencial. SĂŁo 39
minutos banhados por um misticismo seråfico que nos intoxica de lisérgica bruma estelar e
faz gravitar um imperturbĂĄvel estĂĄdio de plena ataraxia. Um jogo de espelhos onde nos perdemos e
encontramos. Na composição desta eucaristia astral, de essĂȘncia instrumental, perfilam-se
uma alucinógena guitarra de dançantes, caleidoscópicos, prismåticos e delirantes
riffs de onde sĂŁo desatados gritantes, ĂĄcidos, venenosos e bruxuleantes solos
que ecoam pela infinidade extraterrestre, um baixo magnético de reverberação murmurante,
vagueante, elĂĄstica e flutuante, uma bateria acrobĂĄtica de suados, quentes, atraentes
e desatados ritmos funky, e um admirĂĄvel sintetizador, criador de majestosos,
fantĂĄsticos e milagrosos cenĂĄrios cĂłsmicos, que nos convida ao escapismo sĂłnico.
‘Paradigm Lost’ Ă© um ĂĄlbum divinal – maquilhado a beleza etĂ©rea e
executado a disciplinada destreza – que nos cega com a sua sagrada rutilĂąncia. AutĂȘntica
tapeçaria persa que nos viaja no tempo e no espaço. Um dos registos mais
extraordinĂĄrios do ano estĂĄ aqui, no intenso clarĂŁo de Marmalade Knives
que chameja com vistosa distinção nos céus crepusculares do moribundo 2025.
domingo, 28 de dezembro de 2025
sĂĄbado, 27 de dezembro de 2025
sexta-feira, 26 de dezembro de 2025
Review: đ¶️ Requiem Blues - 'Same Old Story' EP (2025, Helium Head) đ¶️
Depois de no
inĂcio do presente ano o explosivo tridente ofensivo britĂąnico Requiem Blues
– residente na cidade de Liverpool – ter detonado o seu entusiĂĄstico EP
de estreia (aqui trazido e imoderadamente reverenciado), o mesmo regressa
agora com mais um bombĂĄstico registo de curta duração intitulado ‘Same Old
Story’ e editado pela Helium Head Records no exclusivo formato digital. A par do que acontece com
o seu irmĂŁo mais velho, ‘Same Old Story’ Ă© orientado e chamejado por um incrĂvel, picante,
provocante e irresistĂvel Blues Rock de libidinoso balanço boogie
e mĂŁos dadas a um exuberante, tonificado, electrizante e lubrificado Hard Rock de amarelecido
brilho vintage. Uma bebida espirituosa – de trago mĂ©lico e urticante – que nos seduz,
alcooliza e conduz à rendição. A sua sonoridade ardente, movediça, atiradiça e atraente
– atestada de testosterona – presta uma descarada homenagem a Rory
Gallagher’s Taste (como o nome do EP, a versĂŁo cover desse mesmo tema
originårio de Taste (proveniente do ålbum de estreia lançado em 1969) aqui
presente e o belo artwork assim o sugerem), bem como a outros dinossauros da
segunda metade da década de 1960 e da primeira metade da década de 1970 como Budgie,
Blue Cheer, Cactus, ZZ Top, Sir Lord Baltimore, Captain
Beyond, Pentagram, Iron Claw, Jerusalem, Bang, Leaf
Hound e Truth & Janey. Vibrante, delirante, apimentado e
viciante, ‘Same Old Story’ Ă© um EP abrasivo que nos incendeia em afrodisĂaca
tentação e esporeia de selvåtica comoção. São apenas 12 minutos sobrecarregados
de endorfinas, banhados a tintura psicotrĂłpica e inflamados a fritura cĂłsmica,
que nos fazem salivar por mais, muito, muito mais. Uma vertiginosa, extasiante,
aparatosa e sĂłnica galopada – de desenfreados instrumentos em caĂłtica debandada
– que em nĂłs provoca um poderoso sismo emocional. Deixem-se entontecer,
inebriar e ferver Ă estimulante boleia uma guitarra reptiliana que se bamboleia
num erĂłtico deboche de enleantes, carnudos, encaracolados e galvanizantes riffs
que se desdobram em catadupa, e endoidece numa åcida e psicadélica gritaria de ciclónicos,
assanhados, desgarrados e histéricos solos, um baixo insuflado que se meneia em
linhas baloiçadas, elåsticas, esféricas e empoladas, uma endiabrada bateria
escoiceada a virtuosos, leves, livres e espalhafatosos malabarismos rĂtmicos, uma
voz reinante, ecoante e melodiosa de pele acrimoniosa, ferrugenta e venenosa
que se equilibra sem nunca perder a postura nas sacudidas costas deste buliçoso
rodeo, e um teclado propulsivo de mugidos polposos, enigmĂĄticos,
anĂĄrquicos e gloriosos que arremessa a toda a velocidade o derradeiro tema deste
EP na vertiginosa direcção da deslumbrante medula estelar. Este é um registo
verdadeiramente impactante e arrebatador que nos engole e centrifuga numa emancipadora,
desorientadora e alucinante viagem. Um poderoso vĂłrtice onde todo o cosmos Ă© aspirado
e remexido numa enlouquecedora espiral de cores berrantes, caleidoscĂłpicas e pulsantes.
Estou de coração flechado pelo cupido Requiem Blues.
quinta-feira, 25 de dezembro de 2025
segunda-feira, 22 de dezembro de 2025
Review: đ° Homegrown - 'Homegrown' (2025, Majestic Mountain) đ°
Dos encantados bosques suecos
chega-nos o enfeitiçante ritual Wicca soberbamente musicado pelo habilidoso quarteto
escandinavo Homegrown, de denominação homónima e editado pela sua compatriota
Majestic Mountain Records. Este segundo ĂĄlbum da turma residente na
cidade de Gotemburgo vem incensado por uma mĂĄgica sonoridade – cozinhada
num fervilhante e borbulhante caldeirão, abraçado por dançantes lavaredas e no
qual sĂŁo submergidas e remexidas ervas curativas que libertam densos vapores de
odores silvestres – onde gravitam entre si um meloso, sedutor, trovador e formoso Psychedelic
Rock de deslumbrante atmosfera rural, um ostentoso, enleante, dançante e majestoso Progressive
Rock de ornamentada moldura medieval e um outonal, bucĂłlico, druĂdico e devocional Folk
de forte inspiração ancestral. Fresco, rĂșstico, mĂ©lico e romanesco – banhado
por um amarelecido brilho vintage –, ‘Homegrown’ Ă© um apaixonante
registo de misticidade cerimoniosa e sublimidade fantasiosa que nos amolece o
coração, enternece o olhar e inebria de uma sagrada fascinação. Com reminiscĂȘncias trazidas dos britĂąnicos Wishbone
Ash e ecos contemporĂąneos colhidos nos seus conterrĂąneos MontgolfiĂšre, bem
como nos seus vizinhos noruegueses Needlepoint, este miraculoso trabalho
dos xamĂŁs suecos causara em mim um tremendo impacto e o mesmo continua a
crescer e a surpreender com o acumular de renovadas audiçÔes. Deliciosamente detalhado,
delicadamente esculpido e elegantemente trajado, ‘Homegrown’ Ă© um virginal
paraĂso natural de aura fabular onde a magia acontece e permanece. Verdadeira poesia
instrumental. Rendidos, extasiados e embevecidos, caminhamos livremente de
olhar esfaimado pelas verdejantes planĂcies trilhadas por aventurosos cavaleiros
de lanças empunhadas, habitadas por frondosas florestas que escondem feiticeiras
e animais lendĂĄrios, e vigiadas de perto por imponentes castelos que recortam o
firmamento. Com duas mĂŁos repletas de galantes, maviosos, pomposos e
semelhantes temas de contagiante meneio celta, ‘Homegrown’ toma-nos de
assalto durante 52 minutos. Munidos de duas irresistĂveis guitarras siamesas
que se entrançam numa ritualĂstica e afrodisĂaca dança de formosos, vistosos, polidos
e envernizados acordes que nos namoram desavergonhadamente, e minuciosos,
delgados, refinados e primorosos solos que nos fazem revirar o olhar e cravar
os dentes nos lĂĄbios, um baixo bamboleante de linhas vagueantes, fluĂdas,
entretidas e magnetizantes, e uma deliciosa bateria de ritmos desembaraçados,
leves, atraentes e condimentados, este quarteto nĂłrdico acaba de fabricar uma autĂȘntica obra-prima. Este Ă© um ĂĄlbum piramidal, de admirĂĄvel destreza,
erudita fineza e beleza escultural, que me proibira de pestanejar e fizera
salivar entre o primeiro e o derradeiro tema que o balizam. Uma tocante, provocante e imersiva liturgia
– arejada, aromĂĄtica e caramelizada – que nos seduz, envolve e conduz Ă nirvĂąnica
salvação. Um dos grandiosos ålbuns forjados em 2025 estå aqui. Purifiquem-se
nele.
Links:
➥ Instagram
➥ Bandcamp
➥ Majestic Mountain Records
domingo, 21 de dezembro de 2025
sĂĄbado, 20 de dezembro de 2025
sexta-feira, 19 de dezembro de 2025
Review: đœ Black Pig Meat - 'Symbiotic Dream' (2025, Raging Planet) đœ
Ă de origem
portuguesa uma das maiores surpresas sonoras de 2025. Sendo eu um indefectĂvel entusiasta
do Jazz Fusion gerado e electrificado na dourada década de 1970, e que hå
muito lamentava tratar-se de um subgénero musical sem representação nacional nos tempos que correm,
foi boquiaberto, de olhar incendiado e ouvidos salivantes que experienciei o espantoso
ĂĄlbum de estreia de Black Pig Meat – talentoso quarteto domiciliado na
cidade de Coimbra – denominado ‘Symbiotic Dream’ e editado pela
influente companhia discogråfica lusitana Raging Planet através dos
formatos CD e digital. Baloiçando entre um atmosférico, estético, cinematogråfico
e sedutor Contemporary Jazz a fazer recordar as agradĂĄveis paisagens
nevadas de John Abercrombie, Bill Frisell, Jakob Bro e Edena
Gardens, e um cerebral, magnetizante, provocante e sensacional Jazz
Fusion com clĂĄssicos ecos de Mahavishnu Orchestra, Weather Report, Return
to Forever, Frank Zappa e Soft Machine, a sumptuosa,
enfeitiçante, espalhafatosa e cerimonial sonoridade de Black Pig Meat
embarca ainda num ousado safari pelas labirĂnticas selvas de um exĂłtico, colorido,
carnavalesco e caleidoscĂłpico Psychedelic Rock de apimentado suor latino e
influĂȘncia colhida em Carlos Santana. Norteadas por um experimentalismo
sem fronteiras e um magnetismo simbiĂłtico, as intuitivas, esponjosas, aventurosas
e evolutivas jams instrumentais de ‘Symbiotic Dream’ induzem e conduzem o
ouvinte pelos mĂsticos territĂłrios de um afrodisĂaco sonho. Ziguezagueando
entre passagens lenitivas, envolventes e reflexivas que nos travam a respiração
e soterram nos abismos da introspecção, e espalhafatosas, ritmadas e buliçosas
cavalgadas de instrumentos em sĂłnica debandada que nos sobreaquecem e embevecem
o espĂrito, este Ă© um ĂĄlbum magistral que se agiganta e supera a cada renovada
audição. Edénico, sidérico e divinal, este primeiro passo discogråfico da turma
conimbricense mais se assemelha a um histĂłrico salto olĂmpico. Uma estreia
auspiciosa que em mim causara um verdadeiro sismo emocional de elevada magnitude.
Na composição deste criativo vulcão em diluviana erupção podemos testemunhar as
vistosas danças de uma guitarra devaneante que nos mumifica numa sedosa teia de
embriagantes, fascinantes e empolgantes riffs e descarrila num rodopiante
vendaval de solos derrapantes, estonteantes e angulosos, a dominante reverberação
de um baixo sombreado, obeso e coeso que pulsa e soletra o riff-base numa
repetição absorvente, a quimérica sublimidade suspirada por um adoråvel teclado
de polposos mugidos e bailados entretidos que nos borrifa com brilhantes e
fantasmagĂłricas poeiras cĂłsmicas, e as extraordinĂĄrias acrobacias jazzĂsticas
de uma endiabrada bateria vivamente locomovida a ritmos animados, excitantes e desembaraçados.
‘Symbiotic Dream’ Ă© um registo verdadeiramente irresistĂvel, embebido em
chamejante exotismo e desarmante tecnicismo, que toca as longĂnquas e tĂŁo cobiçadas fronteiras
da perfeição. Aos meus ouvidos, o melhor ĂĄlbum portuguĂȘs do ano.
Links:
➥ Instagram
➥ Bandcamp
➥ Raging Planet
quinta-feira, 18 de dezembro de 2025
quarta-feira, 17 de dezembro de 2025
terça-feira, 16 de dezembro de 2025
Review: đ Frozen Planet 1969 - 'Echoland' (2025, Pepper Shaker Records) đ
Com mais de duas
dĂ©cadas de existĂȘncia e duas mĂŁos cheias de ĂĄlbuns editados, o irreverente tridente
australiano Frozen Planet 1969 – domiciliado
na cidade artĂstica de Sydney – desperta agora de uma inĂ©dita hibernação
que se seguira ao lançamento em 2022 de ‘Not From 1969’ (aqui
trazido e merecidamente enaltecido) para descansar e presentear todos os seus fiéis
seguidores com o descortinar de um novo capĂtulo discogrĂĄfico da sua maravilhosa
odisseia espacial intitulado ‘Echoland’ e previsivelmente promovido pelo
seu selo caseiro Pepper Shaker Records através dos formatos CD e digital.
Continuando a fazer da libertadora configuração jam a sua estrela
orientadora, os australianos neste seu novo ĂĄlbum nĂŁo deixam de atribuir uma
estrutura mais raciocinada e cinzelada aos desiguais temas que o povoam. CamaleĂłnica,
alucinĂłgena, sĂłnica e devaneante, a desamarrada sonoridade de ‘Echoland’
vagueia livre e vaidosamente pela sempiterna vacuidade cĂłsmica de um narcotizante,
aventuroso, odoroso e viajante Space Rock que se embebeda de influĂȘncias
nos clĂĄssicos germĂąnicos UFO, Agitation Free e Cosmic Jokers, e incendeia-se na incandescente lava de um
electrizante, propulsivo, explorativo e excitante Heavy Psych
sintonizado nas mesmas frequĂȘncias de relevantes referĂȘncias da actualidade como
os californianos Earthless, os texanos Tia Carrera ou os parisienses
Domadora. Ricocheteando entre a gélida e contemplativa lisergia que nos faz
levitar, sonolentos e sem destino, pelos deslumbrantes e inexplorados jardins alienĂgenas,
e a vulcĂąnica e imersiva euforia que nos embala na centrifugante vertigem
sideral, somos encandeados, magnetizados e engolidos pela feitiçaria instrumental
de Frozen Planet 1969. Este caldeirĂŁo cĂłsmico – de espuma transbordante
e coloração pulsante – que encerra chamejantes fornalhas estelares, planetas
sombrios, enxames de asteroides e cometas luzidios – Ă© revolvido por uma
guitarra åcida que se meneia em dançantes, oleados, tonificados e provocantes riffs
que desaguam num mirabolante manancial de solos serpenteantes, escorregadios,
enleantes e fugidios, um baixo motorizado de linhas empoladas, elĂĄsticas, enfĂĄticas
e sombreadas, e uma bateria soberbamente groovy de ritmos quentes, agitados,
fluĂdos e atraentes. SĂŁo 42 minutos de incessante sedução que nos mantĂ©m de
fascinação atrelada a este foguetĂŁo do primeiro ao derradeiro tema. ‘Echoland’
Ă© um ĂĄlbum sofisticado, envolvente e apaixonante – condimentado pelo sal do
oceano astral – que farĂĄ dos seus ouvintes verdadeiros astronautas no seu infindĂĄvel
Cosmos espiritual.











































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