terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Review: 🔮 Marmalade Knives - 'Paradigm Lost' (2025, Electric Valley) 🔮

★★★★

Cinco anos após o lançamento do seu delicioso álbum de estreia – intitulado ‘Amnesia’ e aqui devidamente esmiuçado –, a formação norte-americana Marmalade Knives – originalmente formada nas montanhas de Santa Cruz (Califórnia), mas hoje desenraizada e movida numa espargata de costa a costa (com um pé firmado na Califórnia e o outro em Nova Iorque) – acaba de nos presentear com o seu segundo trabalho de longa duração, denominado ‘Paradigm Lost’ e carimbado pelo selo discográfico italiano Electric Valley Records. Este apaixonante tridente, que ocasionalmente conta com a participação de um quarto elemento, leva à nossa mesa uma colorida, apaladada e inventiva amálgama sonora onde facilmente se identificam e saboreiam um serpenteante, sensual, piramidal e enleante Prog Rock de vistosos bailados árabes e uma cósmica propulsão Eloy’ana, um envolvente, odoroso, eloquente e deslumbrante Psychedelic Rock oxigenado por um agradável, morno e afável clima west-coast e perfumado por uma indiscreta inspiração jazzística situada entre as margens dos germânicos Kraan e Annexus Quam, e ainda um hipnótico, bucólico, enfeitiçante e camaleónico Krautrock de radiosas e meditativas paisagens pastorais trazidas de Popol Vuh, exóticas passagens de condimentos alienígenas colhidos em Amon Düül II e um firme pulso motorik troteado à boa moda de Neu!. Submersos num xamânico e quimérico ritual, incensado por coloridas e fantasmagóricas poeiras estelares, estrelado pela estonteante pirotecnia celestial e centrifugado por luminosos e enérgicos quasares, que nos extasia, inebria e faz levitar pela sempiterna verticalidade cósmica, somos inundados pela radiação sacramental de ‘Paradigm Lost’ que nos electrifica todas as ramificações do nosso circuito espiritual. Farolizados pela messiânica luzência de Marmalade Knives somos cativados e desaguados nas nirvânicas praias do paraíso mental. O vislumbrar do maravilhoso romper da aurora cósmica. A inalação – de olhar selado e narinas dilatadas – da doce fragância oriental que nos desobstrói a autoestrada consciencial. São 39 minutos banhados por um misticismo seráfico que nos intoxica de lisérgica bruma estelar e faz gravitar um imperturbável estádio de plena ataraxia.  Um jogo de espelhos onde nos perdemos e encontramos. Na composição desta eucaristia astral, de essência instrumental, perfilam-se uma alucinógena guitarra de dançantes, caleidoscópicos, prismáticos e delirantes riffs de onde são desatados gritantes, ácidos, venenosos e bruxuleantes solos que ecoam pela infinidade extraterrestre, um baixo magnético de reverberação murmurante, vagueante, elástica e flutuante, uma bateria acrobática de suados, quentes, atraentes e desatados ritmos funky, e um admirável sintetizador, criador de majestosos, fantásticos e milagrosos cenários cósmicos, que nos convida ao escapismo sónico. ‘Paradigm Lost’ é um álbum divinal – maquilhado a beleza etérea e executado a disciplinada destreza – que nos cega com a sua sagrada rutilância. Autêntica tapeçaria persa que nos viaja no tempo e no espaço. Um dos registos mais extraordinários do ano está aqui, no intenso clarão de Marmalade Knives que chameja com vistosa distinção nos céus crepusculares do moribundo 2025.

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