Acordados de uma
longa hibernação de quase cinco anos de duração, o tridente ofensivo português Orangotango
está de regresso à produção de nova música com o lançamento do seu terceiro álbum
de estúdio, denominado ‘Empyrean’ e editado sob as formas de CD e digital
com o respectivo selo autoral. Baloiçada entre um delirante, mÃstico, afrodisÃaco
e intoxicante Psychedelic Rock de vertiginosa e estrepitosa propulsão
astral, e um arenoso, sisudo, fogoso e carnudo Desert Rock que surfa
voluptuosas e sedosas dunas, a cinematográfica, envolvente, eloquente e
seráfica sonoridade de ‘Empyrean’ comunga o mesmo ADN de bandas como Colour
Haze, Sungrazer, Karma to Burn, The Atomic Bitchwax e Somali
Yacht Club. Vibrante, entusiástica, bombástica e enfeitiçante, a colorida, entretida
e tropical sonoridade de Orangotango lança o ouvinte num aventuroso e emocionante
safari pelas exóticas e virginais selvas de um psicadelismo inflamante que lhe
subtrai a lucidez e o atesta de um febril estádio de intensa embriaguez. De cabeça
rodopiante, olhar semi-cerrado, narinas dilatadas e a pele bronzeada pelo
sedutor fulgor de ‘Empyrean’, somos desenraizados da gravidade terrestre
e catapultados para os braços da eterna noite cósmica. Uma admirável odisseia
espacial de afago sensorial, dilatação consciencial e floração espiritual que
nos jornadeia pelas distorcidas coordenadas do espaço-tempo, driblando o magnético
abraço de colossais e solitários planetas que se desenterram e desvelam no
negro solo sideral, trespassando fantasmagóricas e matizadas nebulosas que
vagueiam livremente pela vacuidade cósmica, e escorregando pelas alucinantes tubagens
de monstruosos buracos negros que tudo aspiram no seu caminho. Depois de dois álbuns povoados por temas
aparentados e integralmente instrumentais, este novo registo do trio portuense é
governado por uma surpreendente heterogeneidade que tem como principais inovações
o acréscimo de vocais em dois dos temas que o compõem (o convidado especial Miguel
Vieira cerra firmemente os dois punhos no microfone e empresta a sua elástica, avinagrada
e melódica voz ao antepenúltimo “None of Us Have Lived”, e o próprio
baterista da banda Filipe Ferreira enrijece, enegrece e estremece o
penúltimo “So Long” com recurso aos seus rugosos, urticantes e
cavernosos clamores), assim como a inesperada e carismática presença da tão nossa guitarra portuguesa de
musicados sentimentos superiormente dedilhados pelo músico convidado Dani
Valente. De resto, a base é a de sempre: uma escaldante guitarra de resinosos,
ondulados, torneados e infecciosos riffs – electrificados e chamejados pelo crocante
e flamejante efeito Fuzz – de onde são desatados solos fugidios, luzidios,
escorregadios e alucinados, um baixo monolÃtico de linhas sombreadas, tonificadas,
carregadas e reptilianas, e uma bateria potente de ritmos violentos, explosivos,
abrasivos e turbulentos. O chamativo artwork que nos convida a passar os
olhos pela lente de um poderoso telescópio com vista desimpedida para o coração
de um Cosmos pulsante e em constante transformação aponta os seus créditos de
autor à talentosa ilustradora portuguesa Echo Echo Illustrations. São 50
minutos saturados de um misticismo ultraterrestre que nos seduz, conduz e abandona
à deriva no espaço. Um banho de imersão na incandescente lava de um vulcão. Uma
sónica germinação perceptual pela infinidade astral. Uma estonteante aceleração
ao volante de um velho Ford Mustang – de vidros abertos, motor ronronante
e olhar afogueado, cravado no firmamento desfocado pelo Sol – a desbravar as poeirentas
estradas que trilham os imensos desertos da alma. Este é, de longe, o álbum mais sofisticado e progressista de Orangotango. Um registo simultâneamente viril e frágil, apressado e sossegado, rochoso e aquoso. Bem-vindos à Sumatra.
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