sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Review: 🦧 Orangotango - 'Empyrean' (2026) 🦧

★★★★

Acordados de uma longa hibernação de quase cinco anos de duração, o tridente ofensivo português Orangotango está de regresso à produção de nova música com o lançamento do seu terceiro álbum de estúdio, denominado ‘Empyrean’ e editado sob as formas de CD e digital com o respectivo selo autoral. Baloiçada entre um delirante, místico, afrodisíaco e intoxicante Psychedelic Rock de vertiginosa e estrepitosa propulsão astral, e um arenoso, sisudo, fogoso e carnudo Desert Rock que surfa voluptuosas e sedosas dunas, a cinematográfica, envolvente, eloquente e seráfica sonoridade de ‘Empyrean’ comunga o mesmo ADN de bandas como Colour Haze, Sungrazer, Karma to Burn, The Atomic Bitchwax e Somali Yacht Club. Vibrante, entusiástica, bombástica e enfeitiçante, a colorida, entretida e tropical sonoridade de Orangotango lança o ouvinte num aventuroso e emocionante safari pelas exóticas e virginais selvas de um psicadelismo inflamante que lhe subtrai a lucidez e o atesta de um febril estádio de intensa embriaguez. De cabeça rodopiante, olhar semi-cerrado, narinas dilatadas e a pele bronzeada pelo sedutor fulgor de ‘Empyrean’, somos desenraizados da gravidade terrestre e catapultados para os braços da eterna noite cósmica. Uma admirável odisseia espacial de afago sensorial, dilatação consciencial e floração espiritual que nos jornadeia pelas distorcidas coordenadas do espaço-tempo, driblando o magnético abraço de colossais e solitários planetas que se desenterram e desvelam no negro solo sideral, trespassando fantasmagóricas e matizadas nebulosas que vagueiam livremente pela vacuidade cósmica, e escorregando pelas alucinantes tubagens de monstruosos buracos negros que tudo aspiram no seu caminho. Depois de dois álbuns povoados por temas aparentados e integralmente instrumentais, este novo registo do trio portuense é governado por uma surpreendente heterogeneidade que tem como principais inovações o acréscimo de vocais em dois dos temas que o compõem (o convidado especial Miguel Vieira cerra firmemente os dois punhos no microfone e empresta a sua elástica, avinagrada e melódica voz ao antepenúltimo “None of Us Have Lived”, e o próprio baterista da banda Filipe Ferreira enrijece, enegrece e estremece o penúltimo “So Long” com recurso aos seus rugosos, urticantes e cavernosos clamores), assim como a inesperada e carismática presença da tão nossa guitarra portuguesa de musicados sentimentos superiormente dedilhados pelo músico convidado Dani Valente. De resto, a base é a de sempre: uma escaldante guitarra de resinosos, ondulados, torneados e infecciosos riffs – electrificados e chamejados pelo crocante e flamejante efeito Fuzz – de onde são desatados solos fugidios, luzidios, escorregadios e alucinados, um baixo monolítico de linhas sombreadas, tonificadas, carregadas e reptilianas, e uma bateria potente de ritmos violentos, explosivos, abrasivos e turbulentos. O chamativo artwork que nos convida a passar os olhos pela lente de um poderoso telescópio com vista desimpedida para o coração de um Cosmos pulsante e em constante transformação aponta os seus créditos de autor à talentosa ilustradora portuguesa Echo Echo Illustrations. São 50 minutos saturados de um misticismo ultraterrestre que nos seduz, conduz e abandona à deriva no espaço. Um banho de imersão na incandescente lava de um vulcão. Uma sónica germinação perceptual pela infinidade astral. Uma estonteante aceleração ao volante de um velho Ford Mustang – de vidros abertos, motor ronronante e olhar afogueado, cravado no firmamento desfocado pelo Sol – a desbravar as poeirentas estradas que trilham os imensos desertos da alma. Este é, de longe, o álbum mais sofisticado e progressista de Orangotango. Um registo simultâneamente viril e frágil, apressado e sossegado, rochoso e aquoso. Bem-vindos à Sumatra.

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