sexta-feira, 7 de outubro de 2022

Review: ⛧ Lord of Confusion - 'Evil Mystery' (2022) ⛧

★★★★

Da cidade portuguesa de Leiria chegam-nos as ressonâncias luciféricas do druídico quarteto Lord of Confusion que acaba de exumar o seu álbum de estreia ‘Evil Mystery’. Lançado a duas mãos pela editora lusa Gruesome Records (responsável pela distribuição em solo europeu) e pela companhia discográfica norte-americana Morbid and Miserable Records (responsável pela distribuição em solo americano) nos formatos CD, cassete e digital, ‘Evil Mystery’ vem incensado e atormentado por um enfeitiçante, ocultista, ritualista e intrigante Psychedelic Doom em formato de pentagrama e de reverenciadas orações arremessadas para o lado eclipsado da religiosidade. A sua sonoridade altiva, amaldiçoada, vampírica e opressiva – lacrimejada em tons purpúreos e vigiada de perto por uma pesada e asfixiante obscuridade – enluta e profana a alma do ouvinte, embrulhando-a numa inescapável teia. De olhar encovado, semblante esbranquiçado, queixo tombado e espírito pasmado, ingressamos nas abissais profundezas de um sono mesmérico, sem garantias de um retorno, que nos passeia pelas distópicas, nebulosas e melancólicas paisagens líricas de Edgar Allan Poe. No borbulhante, fogoso e fumegante caldeirão onde a magia negra – superiormente liderada pelos Lord of Confusion – é cozinhada, emergem os pálidos, melódicos, frígidos e messiânicos vocais, ocasionalmente substituídos pelo surgimento de rugidos espinhosos, violentos, ferrugentos e cavernosos, que lideram este hermético rito, um litúrgico teclado de melodias enigmáticas, atemorizantes, magnetizantes e fantasmagóricas que ensombram toda a tensa e misantrópica atmosfera do álbum, uma guitarra imperiosa que se hasteia em maléficos, amargurosos, infecciosos e esotéricos Riffs, e redemoinha em dilacerantes, ácidos, atordoantes e alucinógenos solos, um baixo denso de feições sisudas e linhas inchadas, ventosas, rugosas e musculadas, e uma bateria impetuosa que esporeia, sobreaquece e bombardeia esta enlouquecedora paranoia de desígnios obscurantistas. São 45 minutos de uma fúnebre radiação, farolizada a flamejantes candelabros, que nos persegue, eclipsa e afoga na trevosa e pantanosa pretura. ‘Evil Mystery’ é um álbum verdadeiramente desorientador, impiedoso e avassalador que nos soterra num penetrante estádio de inquebrável sonambulismo, atormentado por insanas e perversas diabruras bruxuleantes. Encarvoem-se nele.

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quinta-feira, 6 de outubro de 2022

terça-feira, 4 de outubro de 2022

🪐 Black Sabbath

✝️ Janis Joplin (19/01/1943 🌹 04/10/1970)

Review: ⚓️ Mythic Sunship - 'Light/Flux' (2022) ⚓️

★★★★

É justo começar por referir que os dinamarqueses Mythic Sunship são uma das minhas bandas contemporâneas de eleição, e, portanto, foi com um sentimento de frustração que reagi ao inesperado cancelamento da sua actuação (por motivos de saúde) na passada edição do SonicBlast Fest, adiando para data indefinida a minha estreia no que diz respeito a experienciá-los ao vivo. Com mais de uma década de produtiva existência onde plantaram e colheram duas mãos cheias de álbuns, o quinteto escandinavo acaba de nos presentear com o lançamento do seu décimo trabalho, intitulado ‘Light/Flux’ e promovido sob a alçada do renomado selo discográfico nova-iorquino Tee Pee Records através os formatos físicos de LP e CD. Navegando pelas tranquilas águas de um pastoral, contemplativo, imaginativo e ambiental Psychedelic Rock com vista para a perpétua noite astral, e pelas areias movediças de um extravagante, sedutor, libertador e deslumbrante Avant-Garde Jazz (in)disciplinado por um exótico experimentalismo, a fluída, etérea e lânguida sonoridade de ‘Light/Flux’ acaba invariável e ocasionalmente por desaguar nas paradisíacas praias do seu autoproclamado Anaconda Rock, caracterizado por Riffs volumosos, musculosos e serpenteantes que nos caçam, abraçam e asfixiam. De olhar semi-selado, revestido a uma embriagada expressão sonhadora, sorriso inquebrável, corpo baloiçante e espírito enternecido por um transbordante estádio de perfeito bem-estar, somos envolvidos, sublimados e canalizados pelos nirvânicos trilhos de Mythic Sunship sem a mais pequena vontade deles regressar. São 43 minutos onde as distâncias entre a gélida e vaporosa dormência e a vulcânica e gasosa efervescência se encurtam, embalando o ouvinte numa extasiante hipnose de beleza crepuscular. Farolizados pelos estonteantes ziguezagues rabiscados por um irreverente saxofone de sopros gritantes, luminosos, sedosos e mirabolantes, pelos cativantes diálogos travados entre duas guitarras aquosas e ecoantes que se perseguem em admiráveis, esvoaçantes, encaracolados e inesgotáveis solos de toxicidade a perder de vista, pelos polposos murmúrios bafejados por um ondeante baixo de linhas magnéticas, sombreadas, oleadas e elásticas, e ainda pelo imersivo tic-tac de uma bateria soberbamente jazzística que trauteia entre o quente brilho dos pratos, o acrobático rufar da tarola e o galope tribal dos timbalões, somos engolidos pela negra boca do Cosmos e deixados à deriva na infindável vacuidade. ‘Light/Flux’ é um álbum de natureza anestésica, arejada, dilatada e sidérica que nos enleia e inebria com a sua reconfortante, quimérica e enfeitiçante maviosidade. Recostem-se confortavelmente e dissolvam-se tranquilamente no universo de um álbum sem fundo, oxigenado a incontáveis propriedades terapêuticas.

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