Depois do
impressivo álbum de estreia (aqui trazido e examinado) desabrochado na
primavera de 2024, o virtuoso, estudioso e dotado multi-instrumentista francês Tom
Penaguin está novamente de regresso com o lançamento do seu segundo
trabalho de estúdio. Simplesmente chamado de ‘Tom Penaguin II’ e editado
pelo selo discográfico espanhol áMARXE, este refinado, arrojado e
notável trabalho arquitectado pelo disciplinado músico francês baloiça harmoniosamente
entre um quimérico, enleante, enfeitiçante e cénico Prog Rock de ensolarado
clima Canterbury’esco e doce fragância italiana, e um majestoso,
cerebral, sensacional e aparatoso Jazz Fusion de ecos trazidos da
dourada década de 1970. Ambiciosa, imaginativa, sensitiva e ostentosa, a magistral,
sentimental e soberbamente detalhada sonoridade de ‘Tom Penaguin II’
traz no seu estômago mastigadas e misturadas influências de vultosas
referências como Soft Machine, Mahavishnu Orchestra, Return to
Forever, Hatfield and the North, National Health, Caravan,
Soft Heap, Egg, Colosseum II, Isotope, Perigeo,
Iceberg, Etna, Arti & Mestieri, Il Baricentro, Apoteosi
e L'Uovo di Colombo. Ajardinado por complexas, grandiosas, triunfantes e
portentosas composições – que têm na épica suite dividida em quatro movimentos
denominada “The Ornamental Hermit” o seu pináculo criativo – este estupendo e maturado registo de Tom Penaguin invadira-me, pilhara-me e conquistara-me com
tremenda facilidade. Borrifado por um imersivo sentimento de orvalhada e
melancólica nostalgia que nos aspira o ar do peito, cativa e seduz, bem como
vagueado por uma misteriosa e fantasmagórica bruma que se adensa e nos conduz –
de olhar esfaimado e boquiabertos – pelos seus frondosos e inescapáveis labirintos, ‘Tom
Penaguin II’ é uma aventurosa, eclética, poética e fabulosa obra cuidadosa e
pormenorizadamente cinzelada a duas mãos. Na constituição desta irretocável e venerável
obra-prima de essência instrumental estão uma guitarra endeusada de envolventes,
camaleónicos, babilónicos e eloquentes riffs – que ocasionalmente se enrijecem,
agigantam e centrifugam em ventosos, empolgantes e aparatosos crescendos – e espantosos,
escorregadios, fugidios e intelectuais solos que correm graciosa e livremente,
um baixo meneante de linhas enfáticas, oleadas, encaracoladas e elásticas, uma
bateria leve e solta de ritmos acrobáticos, desatados, desgrenhados e
hipnóticos, um melodioso teclado de teclas saltitantes e mugidos polposos, dramáticos
e gloriosos, e ainda a efémera comparência de astrais, ecoantes e
angelicais coros vocais da exclusiva responsabilidade da artista convidada Maureen Piercy (também a autora da belÃssima fotografia que resulta na capa do disco) que conferem
toda uma aura fantasista, intimista e sacramental. Este é um álbum de proporções monumentais,
pensado com absoluta ousadia e executado com sofisticada maestria. Uma distinta
peça de alta costura musical e realeza orquestral que, decerto, saciará os ouvidos
mais exigentes. Os meus salivam sempre que ouço este ‘Tom Penaguin II’.
Um dos grandes discos de 2026 está aqui, na controlada detonação de pura genialidade
de Tom Penaguin.
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