Devo
admitir que a cada anúncio de um novo álbum dos noruegueses Sex Magick
Wizards deflagra em mim um faiscante e descontrolado fogo de entusiamo. Esta talentosa
banda domiciliada na cidade-capital Oslo – pela qual nutro uma grande
devoção e cuja criatividade parece não conhecer limites – acaba de lançar o seu
extravagante quarto álbum de estúdio denominado ‘Suola ja Noaidi’ (o ladrão
e o xamã) pela mão da emergente companhia discográfica local Is It Jazz?
Records através de estéticas e apetecÃveis edições em LP e CD. Farolizada pela cultura Sami
– um povo indÃgena do norte da Europa que habita a região de Sápmi, abrangendo
o norte da Noruega, Suécia, Finlândia e a penÃnsula de Kola na Rússia – e desenhada
em torno de temas como a colonização, a religião armada e a resiliência Sami, a
exótica, experimental, camaleónica e cerimonial sonoridade de ‘Suola ja Noaidi’
manifesta-se num pirotécnico curto-circuito jazzÃstico onde se cruzam na mesma
corrente eléctrica um desarrumado, caótico, labirÃntico e desgrenhado Free
Jazz de instrumentos em selvática debandada, um tribal, afrodisÃaco,
ritualÃstico e celestial Spiritual Jazz que nos alavanca a religiosidade
e um carnavalesco, espalhafatoso, poderoso e burlesco Avant-Garde Jazz
que em nós provoca uma relampejante tempestade cerebral. Mutante, hipnótico,
excêntrico e fascinante, este novo trabalho do sui generis quarteto nórdico é uma
obra verdadeiramente extraordinária, complexa e desafiante que obriga o ouvinte
a múltiplas audições para sua plena interpretação. Um bizarro puzzle sonoro da
mais elevada dificuldade que nos seduz, invade e conduz pelas suas portentosas,
admiráveis e gloriosas composições. Numa mistura entre a vanguarda e a erudição,
a estonteante complexidade rÃtmica, harmonias dissonantes e a livre improvisação,
‘Suola ja Noaidi’ conta ainda com a indiscreta influência do impopular
movimento Rock in Opposition (RIO) a fazer lembrar a sátira mordaz soberbamente musicada pelos suecos Samla
Mammas Manna e o tenso desassossego superiormente orquestrado pelos belgas Univers Zéro. Percam-se e encontrem-se,
tropecem e levantem-se, aventurem-se e desventurem-se à enleante boleia de uma guitarra alienÃgena que rabisca
– numa indecifrável caligrafia – neuróticos, esdrúxulos e claustrofóbicos riffs
de onde são escoados solos vertiginosos, sónicos e angulosos, uma bateria
circense de ritmos impressionantes, arriscados, acrobáticos e mirabolantes, um magnético
baixo de linhas pulsantes, elásticas, enigmáticas e marcantes, um incisivo saxofone
de gritos tresloucados, discordantes e assanhados, uma melodiosa flauta de sopros arejados, leves e aveludados, cantos étnicos, mÃsticos e ancestrais de uma acentuada bipolaridade que baloiça entre sangrentos gritos histéricos e robóticas declamações monocórdicas, e enfeitiçantes sintetizadores
que embrumam e perfumam a opressiva, estranha e inventiva atmosfera do álbum com a sua
bizarria electrónica. Este é um registo sem fronteiras ou barreiras que o inibem. A irreverência
no seu nÃvel máximo. Uma obra estimulante, sufocante e desorientadora que nos rouba o ar do peito e domina
ao longo dos seus extensos 72 minutos de duração. Uma inquebrável sedução. Envolvam-se e revolvam-se nesta
compenetrada, incansável e sagrada dança tribal sob a messiânica luzência de um dos álbuns mais
fenomenais do ano.
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