sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Review: 🦌 Sex Magick Wizards - 'Suola ja Noaidi' (2026, Is It Jazz? Records) 🦌

★★★★★

Devo admitir que a cada anúncio de um novo álbum dos noruegueses Sex Magick Wizards deflagra em mim um faiscante e descontrolado fogo de entusiamo. Esta talentosa banda domiciliada na cidade-capital Oslo – pela qual nutro uma grande devoção e cuja criatividade parece não conhecer limites – acaba de lançar o seu extravagante quarto álbum de estúdio denominado ‘Suola ja Noaidi’ (o ladrão e o xamã) pela mão da emergente companhia discográfica local Is It Jazz? Records através de estéticas e apetecíveis edições em LP e CD. Farolizada pela cultura Sami – um povo indígena do norte da Europa que habita a região de Sápmi, abrangendo o norte da Noruega, Suécia, Finlândia e a península de Kola na Rússia – e desenhada em torno de temas como a colonização, a religião armada e a resiliência Sami, a exótica, experimental, camaleónica e cerimonial sonoridade de ‘Suola ja Noaidi’ manifesta-se num pirotécnico curto-circuito jazzístico onde se cruzam na mesma corrente eléctrica um desarrumado, caótico, labiríntico e desgrenhado Free Jazz de instrumentos em selvática debandada, um tribal, afrodisíaco, ritualístico e celestial Spiritual Jazz que nos alavanca a religiosidade e um carnavalesco, espalhafatoso, poderoso e burlesco Avant-Garde Jazz que em nós provoca uma relampejante tempestade cerebral. Mutante, hipnótico, excêntrico e fascinante, este novo trabalho do sui generis quarteto nórdico é uma obra verdadeiramente extraordinária, complexa e desafiante que obriga o ouvinte a múltiplas audições para sua plena interpretação. Um bizarro puzzle sonoro da mais elevada dificuldade que nos seduz, invade e conduz pelas suas portentosas, admiráveis e gloriosas composições. Numa mistura entre a vanguarda e a erudição, a estonteante complexidade rítmica, harmonias dissonantes e a livre improvisação, ‘Suola ja Noaidi’ conta ainda com a indiscreta influência do impopular movimento Rock in Opposition (RIO) a fazer lembrar a sátira mordaz soberbamente musicada pelos suecos Samla Mammas Manna e o tenso desassossego superiormente orquestrado pelos belgas Univers Zéro. Percam-se e encontrem-se, tropecem e levantem-se, aventurem-se e desventurem-se à enleante boleia de uma guitarra alienígena que rabisca – numa indecifrável caligrafia – neuróticos, esdrúxulos e claustrofóbicos riffs de onde são escoados solos vertiginosos, sónicos e angulosos, uma bateria circense de ritmos impressionantes, arriscados, acrobáticos e mirabolantes, um magnético baixo de linhas pulsantes, elásticas, enigmáticas e marcantes, um incisivo saxofone de gritos tresloucados, discordantes e assanhados, uma melodiosa flauta de sopros arejados, leves e aveludados, cantos étnicos, místicos e ancestrais de uma acentuada bipolaridade que baloiça entre sangrentos gritos histéricos e robóticas declamações monocórdicas, e enfeitiçantes sintetizadores que embrumam e perfumam a opressiva, estranha e inventiva atmosfera do álbum com a sua bizarria electrónica. Este é um registo sem fronteiras ou barreiras que o inibem. A irreverência no seu nível máximo. Uma obra estimulante, sufocante e desorientadora que nos rouba o ar do peito e domina ao longo dos seus extensos 72 minutos de duração. Uma inquebrável sedução. Envolvam-se e revolvam-se nesta compenetrada, incansável e sagrada dança tribal sob a messiânica luzência de um dos álbuns mais fenomenais do ano.

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