segunda-feira, 21 de junho de 2021
Review: ⚡ Yagow - 'The Mess' (2021) ⚡
Quatro anos
após o lançamento do seu muito aplaudido álbum de estreia (aqui trazido
e elogiado), o tridente germânico Yagow – localizado na cidade
fronteiriça de Saarbrücken – ressurge agora com a apresentação do seu
segundo álbum apelidado de ‘The Mess’ e lançado pelo selo
discográfico alemão Crazysane Records através dos formatos digital, CD e
vinil. Replicando os mesmos ingredientes que colorizam e condimentam o seu primeiro
trabalho, Yagow conduz ‘The Mess’ pela bruma psicotrópica
de um lisérgico, embriagado, orvalhado e sidérico Neo-psychedelic emoldurado
por um lenitivo, místico, ritualístico e obsessivo Krautrock de
ornamentos orientais. Contando ainda com um discreto corante Shoegaze
que embacia a atmosfera de uma sedutora, reflexiva e sonhadora melancolia, este
enfeitiçante registo é oxigenado por uma misteriosa, narcótica e brumosa obscuridade
de essência xamânica que nos desfoca os sentidos e os mergulha nas pesadas,
pastosas e paradas águas de um pântano outonal. De cabeça febril, vagarosamente
bamboleada em movimentos circulares, olhar distante e semi-selado, semblante
pálido e espírito intensamente aturdido, somos intoxicados pela druídica exalação
de Yagow e amortalhados num profundo e inescapável estado de
sonambulismo. De lucidez despistada e capturada por uma poderosa narcose,
dançamos em slow motion ao aliciante som de uma irresistível guitarra
que se envaidece na condução de arábicos, cremosos, libidinosos e magnéticos Riffs
efervescidos pelo fogoso, crocante e arenoso efeito Fuzz, e se enlouquece
na evacuação de solos delirados, ácidos, uivantes e desatados, um murmurante baixo
bombeado a linhas ondeantes, pausadas, tonificadas e vagueantes, uma bateria
tribalista de ritmo galopante, repetitivo, imersivo e revigorante, um envolvente
teclado que se adensa em intrigantes, polposos, lustrosos e esvoaçantes bailados,
e ainda uma voz diabrina, avinagrada, fantasmagórica e enregelada que ressoa e
ecoa pela vaporosa, temulenta e acrimoniosa aura de ‘The Mess’.
São 40 minutos de uma encantadora, alucinógena e entorpecedora hipnose que nos
arremessa para fora da órbita consciencial. Naufraguem nas areias movediças de Yagow
e experienciem com inquebrável apego e inapagável devoção todo o transcendente arrebatamento transpirado por este
seu novo trabalho. Não vai ser nada fácil despertar deste sonho acordado.
Reconfortem-se e espreguicem-se nele.
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➥ Crazysane Records
domingo, 20 de junho de 2021
sábado, 19 de junho de 2021
sexta-feira, 18 de junho de 2021
Review: ⚡ Elara Sunstreak Band - 'Vostok 1' (2021) ⚡
No 60º aniversário da
primeira missão espacial tripulada da história – apelidada de Vostok 1,
promovida pelo programa espacial soviético Vostok, e dirigida pelo afamado
cosmonauta e piloto da força aérea soviética Yuri Gagarin – o tridente germânico
Elara Sunstreak Band decidira propulsionar o seu segundo álbum ‘Vostok
1’ em homenagem a este tão importante acontecimento para a humanidade. Carimbado
pelo fértil selo discográfico alemão Sulatron Records e exteriorizado através dos formatos
físicos de CD e duplo vinil (ambos limitados a 500 cópias cada), este
fantástico registo que se segue ao muito estimado ‘Deli Bal’
(lançado em 2017 e aqui devidamente escalpelizado) traz-nos toda uma
conflagração de intoxicante, místico, ritualístico e euforizante Heavy Psych
com vista para o Cosmos, e a palidez glacial de um meditativo, anestésico, lírico
e imaginativo Post-Rock de arrebatadoras paisagens cinematográficas.
Estes três astronautas de instrumentos empunhados e miras apontadas à perpétua vacuidade
sideral, têm o dom de nos desenraizar da gravidade terrestre e içar na
vertiginosa direcção dos mais recônditos territórios do espaço alienígena.
Embarcados numa futurista odisseia – carburada a duas velocidades contrastadas –
que tanto nos atesta de uma morfínica sonolência como inquieta numa turbulenta
efervescência, somos sublimados e evangelizados pelo profético psicadelismo de Elara
Sunstreak Band. São 72 minutos – compartimentados em quatro embriagantes, longas
e viajantes faixas – de uma catártica experiência que nos ofusca o olhar com
uma expressão sonhadora, reconforta o espírito num nirvânico oásis sensorial, e
soterra a cabeça nas fantasmagóricas poeiras estelares que deambulam pela imersiva
negrura espacial. Deixem-se enfeitiçar e extasiar nesta sonhadora teia primorosamente
tecida por uma maravilhosa guitarra que alterna entre suavizantes, lenitivos, contemplativos
e apaziguantes acordes e escaldantes, nervudos, espadaúdos e chamejantes riffs
de onde são escoados solos alucinógenos, sinuosos, ostentosos e trepidantes, um
baixo diligente de sombreadas, murmurantes, pulsantes e lubrificadas linhas,
uma bateria operante de ritmicidade expressiva, cuidada e cintilante, e uma voz
messiânica que nos faroliza nesta interminável noite cósmica. Num plano secundário,
hasteiam-se ainda os oníricos mugidos de um quimérico mellotron, a
perfumada frescura de um melódico órgão Hammond, e os requintados,
detalhados e cerebrais bailados de uma cítara de idioma oriental. ‘Vostok
1’ é um registo altamente psicotrópico que nos despista a lucidez e dilata
a consciência. Atrelem toda a vossa fascinação a esta nave que se infiltra no
denso tecido espacial, e explorem o lado eclipsado do vosso cosmos interior. Depois
de um roteiro tão mágico e transformador, não vai ser nada fácil – ou sequer
desejado – reentrar e pousar em Terra.
Links:
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➥ Bandcamp
➥ Sulatron Records
quarta-feira, 16 de junho de 2021
Review: ⚡ Expo Seventy - 'Evolution' (2021) ⚡
O prolífico projecto
Expo Seventy – localizado em Kansas City (Missouri), superiormente
liderado pelo músico norte-americano Justin Wright e que conta com uma abundante
discografia – está de regresso com o lançamento do seu novo álbum designado ‘Evolution’
e que fora devidamente promovido pela brasileira Essence Music em
formato digital e na forma física de CD e vinil (ambos ultra-limitados a parcas,
mas largamente apelativas, edições que farão seguramente salivar qualquer
coleccionador que se preze). Orvalhado por uma densa nebulosidade psicotrópica
e magicado por um imaginativo experimentalismo sónico, ‘Evolution’
representa todo um exótico sortido sonoro que combina um hipnótico, misterioso e
caleidoscópico Krautrock de propensão estelar, um absorvente, mântrico e
convincente Drone de deslumbramento sensorial, e ainda um fumarento,
obscuro e lamacento Psych Doom de intensa toxicidade. De radares apontados
à contemplativa digressão pelos desertos galácticos dos australianos Ahkmed
e à incisiva combustão deflagrada pelos efervescentes britânicos Blown Out,
este druídico power-trio com bateristas rotativos dissolve e revolve o
ouvinte numa inescapável narcose sem fim à vista. Uma demorada, embriagada e evolutiva viagem de
efeito desorientador e clima devocional, que tanto nos afaga e embala numa lisérgica e meditativa hipnose
pelo admirável e interminável negrume cósmico, como naufraga e electrifica numa
apocalíptica tempestade que atormenta um relampejante quasar. Entorpecidos,
magnetizados e embevecidos pelas espaçosas, venenosas e intuitivas jam’s
de essência enfeitiçante e orientação instrumental, somos convidados a
testemunhar e comungar todo um extraordinário ritual num altar estelar que nos
gravita em torno de um imperturbável estádio de transe espiritual. Empoeirem-se
neste trevoso, poderoso e fantasmagórico misticismo de feições alienígenas à imersiva
boleia de uma guitarra profética que se manifesta em imperiosos, fibrados e
umbrosos Riffs de onde são vertidos solos uivantes, ácidos e ecoantes
que se perdem na infinidade cósmica, um murmurante baixo de reverberação
motorizada a linhas sombreadas, tonificadas e flutuantes, uma bateria tribalista
de ritmicidade pulsante, expressiva e rutilante, e ainda um enigmático sintetizador
de natureza analógica que ausculta e exorciza a angustiada alma dos solitários corpos
celestes sepultados no negro solo do universo. De alastrar ainda elogiosas
palavras aos fantásticos artworks, sublimemente ilustrados a duas mãos
pelo talentoso holandês Maarten Donders (presente no rosto do vinil) e
pelo próprio timoneiro da banda Justin Wright (presente na edição em CD),
que embelezam toda esta abstracta odisseia pelos labirínticos desfiladeiros da
intimidade celestial. ‘Evolution’ é uma experiência imensamente
redentora, obsessiva, explorativa e enlouquecedora que nos dilata a consciência
e emudece os sentidos. Percam-se e encontrem-se por entre a morfínica euforia
de Expo Seventy, e vivenciem com inquebrável fascinação um dos opiáceos
sonoros mais poderosos do presente ano.
Links:
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➥ Essence Music
























