segunda-feira, 21 de junho de 2021

🎁 Jon Hiseman // Colosseum & Tempest (21/06/1944 🎗 12/06/2018)

Review: ⚡ Yagow - 'The Mess' (2021) ⚡

★★★★☆

Quatro anos após o lançamento do seu muito aplaudido álbum de estreia (aqui trazido e elogiado), o tridente germânico Yagow – localizado na cidade fronteiriça de Saarbrücken – ressurge agora com a apresentação do seu segundo álbum apelidado de ‘The Mess’ e lançado pelo selo discográfico alemão Crazysane Records através dos formatos digital, CD e vinil. Replicando os mesmos ingredientes que colorizam e condimentam o seu primeiro trabalho, Yagow conduz ‘The Mess’ pela bruma psicotrópica de um lisérgico, embriagado, orvalhado e sidérico Neo-psychedelic emoldurado por um lenitivo, místico, ritualístico e obsessivo Krautrock de ornamentos orientais. Contando ainda com um discreto corante Shoegaze que embacia a atmosfera de uma sedutora, reflexiva e sonhadora melancolia, este enfeitiçante registo é oxigenado por uma misteriosa, narcótica e brumosa obscuridade de essência xamânica que nos desfoca os sentidos e os mergulha nas pesadas, pastosas e paradas águas de um pântano outonal. De cabeça febril, vagarosamente bamboleada em movimentos circulares, olhar distante e semi-selado, semblante pálido e espírito intensamente aturdido, somos intoxicados pela druídica exalação de Yagow e amortalhados num profundo e inescapável estado de sonambulismo. De lucidez despistada e capturada por uma poderosa narcose, dançamos em slow motion ao aliciante som de uma irresistível guitarra que se envaidece na condução de arábicos, cremosos, libidinosos e magnéticos Riffs efervescidos pelo fogoso, crocante e arenoso efeito Fuzz, e se enlouquece na evacuação de solos delirados, ácidos, uivantes e desatados, um murmurante baixo bombeado a linhas ondeantes, pausadas, tonificadas e vagueantes, uma bateria tribalista de ritmo galopante, repetitivo, imersivo e revigorante, um envolvente teclado que se adensa em intrigantes, polposos, lustrosos e esvoaçantes bailados, e ainda uma voz diabrina, avinagrada, fantasmagórica e enregelada que ressoa e ecoa pela vaporosa, temulenta e acrimoniosa aura de ‘The Mess’. São 40 minutos de uma encantadora, alucinógena e entorpecedora hipnose que nos arremessa para fora da órbita consciencial. Naufraguem nas areias movediças de Yagow e experienciem com inquebrável apego e inapagável devoção todo o transcendente arrebatamento transpirado por este seu novo trabalho. Não vai ser nada fácil despertar deste sonho acordado. Reconfortem-se e espreguicem-se nele.

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sexta-feira, 18 de junho de 2021

🎁 Paul McCartney // The Beatles (18/06/1942)

🦇 Tony Iommi // Black Sabbath (1971)

🌑 The Doors

©️ Frank Frazetta, 1972

Review: ⚡ Elara Sunstreak Band - 'Vostok 1' (2021) ⚡

★★★★☆

No 60º aniversário da primeira missão espacial tripulada da história – apelidada de Vostok 1, promovida pelo programa espacial soviético Vostok, e dirigida pelo afamado cosmonauta e piloto da força aérea soviética Yuri Gagarin – o tridente germânico Elara Sunstreak Band decidira propulsionar o seu segundo álbum ‘Vostok 1’ em homenagem a este tão importante acontecimento para a humanidade. Carimbado pelo fértil selo discográfico alemão Sulatron Records e exteriorizado através dos formatos físicos de CD e duplo vinil (ambos limitados a 500 cópias cada), este fantástico registo que se segue ao muito estimado ‘Deli Bal’ (lançado em 2017 e aqui devidamente escalpelizado) traz-nos toda uma conflagração de intoxicante, místico, ritualístico e euforizante Heavy Psych com vista para o Cosmos, e a palidez glacial de um meditativo, anestésico, lírico e imaginativo Post-Rock de arrebatadoras paisagens cinematográficas. Estes três astronautas de instrumentos empunhados e miras apontadas à perpétua vacuidade sideral, têm o dom de nos desenraizar da gravidade terrestre e içar na vertiginosa direcção dos mais recônditos territórios do espaço alienígena. Embarcados numa futurista odisseia – carburada a duas velocidades contrastadas – que tanto nos atesta de uma morfínica sonolência como inquieta numa turbulenta efervescência, somos sublimados e evangelizados pelo profético psicadelismo de Elara Sunstreak Band. São 72 minutos – compartimentados em quatro embriagantes, longas e viajantes faixas – de uma catártica experiência que nos ofusca o olhar com uma expressão sonhadora, reconforta o espírito num nirvânico oásis sensorial, e soterra a cabeça nas fantasmagóricas poeiras estelares que deambulam pela imersiva negrura espacial. Deixem-se enfeitiçar e extasiar nesta sonhadora teia primorosamente tecida por uma maravilhosa guitarra que alterna entre suavizantes, lenitivos, contemplativos e apaziguantes acordes e escaldantes, nervudos, espadaúdos e chamejantes riffs de onde são escoados solos alucinógenos, sinuosos, ostentosos e trepidantes, um baixo diligente de sombreadas, murmurantes, pulsantes e lubrificadas linhas, uma bateria operante de ritmicidade expressiva, cuidada e cintilante, e uma voz messiânica que nos faroliza nesta interminável noite cósmica. Num plano secundário, hasteiam-se ainda os oníricos mugidos de um quimérico mellotron, a perfumada frescura de um melódico órgão Hammond, e os requintados, detalhados e cerebrais bailados de uma cítara de idioma oriental. ‘Vostok 1’ é um registo altamente psicotrópico que nos despista a lucidez e dilata a consciência. Atrelem toda a vossa fascinação a esta nave que se infiltra no denso tecido espacial, e explorem o lado eclipsado do vosso cosmos interior. Depois de um roteiro tão mágico e transformador, não vai ser nada fácil – ou sequer desejado – reentrar e pousar em Terra.

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quarta-feira, 16 de junho de 2021

🎹 Herbie Hancock - "Sly" (1973)

Review: ⚡ Expo Seventy - 'Evolution' (2021) ⚡

★★★★☆

O prolífico projecto Expo Seventy – localizado em Kansas City (Missouri), superiormente liderado pelo músico norte-americano Justin Wright e que conta com uma abundante discografia – está de regresso com o lançamento do seu novo álbum designado ‘Evolution’ e que fora devidamente promovido pela brasileira Essence Music em formato digital e na forma física de CD e vinil (ambos ultra-limitados a parcas, mas largamente apelativas, edições que farão seguramente salivar qualquer coleccionador que se preze). Orvalhado por uma densa nebulosidade psicotrópica e magicado por um imaginativo experimentalismo sónico, ‘Evolution’ representa todo um exótico sortido sonoro que combina um hipnótico, misterioso e caleidoscópico Krautrock de propensão estelar, um absorvente, mântrico e convincente Drone de deslumbramento sensorial, e ainda um fumarento, obscuro e lamacento Psych Doom de intensa toxicidade. De radares apontados à contemplativa digressão pelos desertos galácticos dos australianos Ahkmed e à incisiva combustão deflagrada pelos efervescentes britânicos Blown Out, este druídico power-trio com bateristas rotativos dissolve e revolve o ouvinte numa inescapável narcose sem fim à vista. Uma demorada, embriagada e evolutiva viagem de efeito desorientador e clima devocional, que tanto nos afaga e embala numa lisérgica e meditativa hipnose pelo admirável e interminável negrume cósmico, como naufraga e electrifica numa apocalíptica tempestade que atormenta um relampejante quasar. Entorpecidos, magnetizados e embevecidos pelas espaçosas, venenosas e intuitivas jam’s de essência enfeitiçante e orientação instrumental, somos convidados a testemunhar e comungar todo um extraordinário ritual num altar estelar que nos gravita em torno de um imperturbável estádio de transe espiritual. Empoeirem-se neste trevoso, poderoso e fantasmagórico misticismo de feições alienígenas à imersiva boleia de uma guitarra profética que se manifesta em imperiosos, fibrados e umbrosos Riffs de onde são vertidos solos uivantes, ácidos e ecoantes que se perdem na infinidade cósmica, um murmurante baixo de reverberação motorizada a linhas sombreadas, tonificadas e flutuantes, uma bateria tribalista de ritmicidade pulsante, expressiva e rutilante, e ainda um enigmático sintetizador de natureza analógica que ausculta e exorciza a angustiada alma dos solitários corpos celestes sepultados no negro solo do universo. De alastrar ainda elogiosas palavras aos fantásticos artworks, sublimemente ilustrados a duas mãos pelo talentoso holandês Maarten Donders (presente no rosto do vinil) e pelo próprio timoneiro da banda Justin Wright (presente na edição em CD), que embelezam toda esta abstracta odisseia pelos labirínticos desfiladeiros da intimidade celestial. ‘Evolution’ é uma experiência imensamente redentora, obsessiva, explorativa e enlouquecedora que nos dilata a consciência e emudece os sentidos. Percam-se e encontrem-se por entre a morfínica euforia de Expo Seventy, e vivenciem com inquebrável fascinação um dos opiáceos sonoros mais poderosos do presente ano.

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