segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

🌋 The Who - Live at Tanglewood 1970

Review: 🌿 Belzebong - 'The End is High' (2026, Heavy Psych Sounds) 🌿


★★★★☆

Depois de uma longa e silenciosa abstinência com oito anos de duração que se seguira na ressaca deixada pelo lançamento de ‘Light the Dankness’ (aqui trazido e elogiado), o fumarento quarteto polaco Belzebong dá novamente lume ao seu borbulhante bongo, e dele exala a esverdeada e vil fumaça do seu novo álbum intitulado ‘The End is High’, editado pela companhia discográfica romana Heavy Psych Sounds através dos formatos LP, CD e digital. Climatizada por um escaldante, rugoso, resinoso e intoxicante Stoner Doom de marcha lenta e um forte odor canábico, a brumosa, pesada, encorpada e pantanosa sonoridade deste tão aguardado novo trabalho de Belzegong provoca no ouvinte uma plena sensação de bem-estar, relaxamento, sonolência, sedação e a despersonalização. Incensado pelo quente e narcotizante bafo do demónio, ‘The End is High’ vem atestado de Tetrahidrocanabinol (THC) que nos enevoa a lucidez, turva a visão e incendeia de fascinação. De pálpebras tombadas, narinas dilatadas e cabeça pesadamente baloiçada de ombro em ombro, perseguimos compenetrada e devotamente as enleantes danças de duas guitarras diabrinas que se engrandecem, enegrecem e enrijecem em pegajosos, urticantes, trevosos e anestesiantes riffs – desdobrados em slow-motion, e flamejados pela incandescência e crocância do efeito Fuzz – de onde sobrevoam, gritam e ecoam avinagrados, virulentos, bolorentos e embruxados solos, a carregada reverberação de um baixo opressivo que se enaltece com base nas linhas sufocantes, hipnóticas, herméticas e possantes, e na violenta sismicidade de uma potente bateria locomovida a altiva, vulcânica, titânica e explosiva ritmicidade. Contando ainda com a sua já característica utilização de cirúrgicos recortes de samples oriundos de clássicos filmes de culto, os druidas Belzebong embrumam-nos num nebuloso, submerso, perverso e poderoso ritual de essência instrumental que nos seduz, cativa e conduz ao lado eclipsado da religião. São 35 minutos abrasivos, governados por uma psicotrópica, sorumbática e pestilenta feitiçaria que prontamente nos converte em seus fiéis peregrinos. Morfínico, alucinógeno, sisudo e ritualístico, ‘The End is High’ amortalha-nos num inescapável estado de letargia que mentalmente nos passeia numa devota romaria de encontro ao altar do profano. Este é um álbum intensamente avassalador, magnético, enfático e arrebatador que nos estremece e estarrece com as suas sísmicas vibrações demoníacas. A defumação da alma. Inalem os malignos e peçonhentos vapores de Belzebong e experienciem todo o inquebrável vigor deste seu apoteótico regresso ao fabrico de discos.

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🦅 Johnny Winter

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Grannie - "Coloured Armageddon" (1971)

Review: 🍽️ Sacri Suoni - 'Time to Harvest' (2026, Electric Valley Records) 🍽️


★★★★★

De Itália chega-nos o novo álbum da formação milanesa Sacri Suoni, intitulado ‘Time to Harvest’ e editado pelo influente selo discográfico local Electric Valley Records através dos formatos LP, cassete e digital. Este quarteto italiano encarvoa-se num esfíngico, lento, carregado, cinzento e monolítico Psychedelic Doom de propulsão cósmica que pendula entre dramáticas ambiências infernais de intimidante negrura e fantasmagóricas paisagens invernais de silêncios sepulcrais. Numa constante alternância entre o leve e o pesado, o tenso e o relaxado, o sufocante e o arejado, ‘Time to Harvest’ tanto revolve o ouvinte numa violenta, virulenta e demoníaca combustão infernal que o flameja sem só nem piedade, como o envolve numa embriagante, onírica e devaneante suspensão sacramental que o desamarra da gravidade terrestre. Conjugando a sorumbática e esmagadora explosividade de bandas como Electric Wizard, Windhand, Monolord, YOB e Bongripper com a mística e transformadora religiosidade de outras referências como OM e White Buzz, a enfeitiçante, melancólica, catártica e atemorizante sonoridade de Sacri Suoni mumifica-nos num perfeito estádio mesmérico que nos aterra e soterra na abissal pretura do vazio sidérico. Uma inescapável hipnose – oxigenada por um incenso psicotrópico – que nos faz levitar e gravitar em torno de duas guitarras soberanas que se agigantam em arrastados, rugosos, trevosos e encorpados riffs – consumidos pela queimante distorção – de onde são filtrados fluorescentes, fugidios, escorregadios e delgados solos de condimentada acidez, um baixo obeso de nervudas, tesas, coesas e sisudas linhas desenhadas a negrito, e uma trovejante bateria detonada a vigorosa, bombástica, enfática e fogosa ritmicidade. ‘Time to Harvest’ é um álbum altivo, massivo, morfínico, fúnebre e opressivo que nos anoitece, enluta e empalidece de desolada letargia. São 38 minutos viciantes – de uma imersiva e invasiva sedução – que nos envidraça o olhar e prende a respiração. Uma fascinante dança entre a tormenta e a quietude. Cerimonial, ocultista, intimista e emocional, este é um registo soberano que nos estarrece com a sua vil arrogância e amolece com a sua sensível elegância. Um disco de climas contrastados que vive de tempestades e bonanças. É impossível ouvi-lo apenas uma vez, duas ou três.

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 Electric Valley Records

🎯 Beggar's Opera @ Beat-Club (1971)

🦇 Tony Iommi // Black Sabbath

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

❤️ Deep Purple - "Child In Time" (Live, 1970)

🧹 All Them Witches - "Red Rocking Chair" (2026)

🦂 Scorpions - "Lonesome Crow" (1972)

Review: 🦧 Orangotango - 'Empyrean' (2026) 🦧

★★★★

Acordados de uma longa hibernação de quase cinco anos de duração, o tridente ofensivo português Orangotango está de regresso à produção de nova música com o lançamento do seu terceiro álbum de estúdio, denominado ‘Empyrean’ e editado sob as formas de CD e digital com o respectivo selo autoral. Baloiçada entre um delirante, místico, afrodisíaco e intoxicante Psychedelic Rock de vertiginosa e estrepitosa propulsão astral, e um arenoso, sisudo, fogoso e carnudo Desert Rock que surfa voluptuosas e sedosas dunas, a cinematográfica, envolvente, eloquente e seráfica sonoridade de ‘Empyrean’ comunga o mesmo ADN de bandas como Colour Haze, Sungrazer, Karma to Burn, The Atomic Bitchwax e Somali Yacht Club. Vibrante, entusiástica, bombástica e enfeitiçante, a colorida, entretida e tropical sonoridade de Orangotango lança o ouvinte num aventuroso e emocionante safari pelas exóticas e virginais selvas de um psicadelismo inflamante que lhe subtrai a lucidez e o atesta de um febril estádio de intensa embriaguez. De cabeça rodopiante, olhar semi-cerrado, narinas dilatadas e a pele bronzeada pelo sedutor fulgor de ‘Empyrean’, somos desenraizados da gravidade terrestre e catapultados para os braços da eterna noite cósmica. Uma admirável odisseia espacial de afago sensorial, dilatação consciencial e floração espiritual que nos jornadeia pelas distorcidas coordenadas do espaço-tempo, driblando o magnético abraço de colossais e solitários planetas que se desenterram e desvelam no negro solo sideral, trespassando fantasmagóricas e matizadas nebulosas que vagueiam livremente pela vacuidade cósmica, e escorregando pelas alucinantes tubagens de monstruosos buracos negros que tudo aspiram no seu caminho. Depois de dois álbuns povoados por temas aparentados e integralmente instrumentais, este novo registo do trio portuense é governado por uma surpreendente heterogeneidade que tem como principais inovações o acréscimo de vocais em dois dos temas que o compõem (o convidado especial Miguel Vieira cerra firmemente os dois punhos no microfone e empresta a sua elástica, avinagrada e melódica voz ao antepenúltimo “None of Us Have Lived”, e o próprio baterista da banda Filipe Ferreira enrijece, enegrece e estremece o penúltimo “So Long” com recurso aos seus rugosos, urticantes e cavernosos clamores), assim como a inesperada e carismática presença da tão nossa guitarra portuguesa de musicados sentimentos superiormente dedilhados pelo músico convidado Dani Valente. De resto, a base é a de sempre: uma escaldante guitarra de resinosos, ondulados, torneados e infecciosos riffs – electrificados e chamejados pelo crocante e flamejante efeito Fuzz – de onde são desatados solos fugidios, luzidios, escorregadios e alucinados, um baixo monolítico de linhas sombreadas, tonificadas, carregadas e reptilianas, e uma bateria potente de ritmos violentos, explosivos, abrasivos e turbulentos. O chamativo artwork que nos convida a passar os olhos pela lente de um poderoso telescópio com vista desimpedida para o coração de um Cosmos pulsante e em constante transformação aponta os seus créditos de autor à talentosa ilustradora portuguesa Echo Echo Illustrations. São 50 minutos saturados de um misticismo ultraterrestre que nos seduz, conduz e abandona à deriva no espaço. Um banho de imersão na incandescente lava de um vulcão. Uma sónica germinação perceptual pela infinidade astral. Uma estonteante aceleração ao volante de um velho Ford Mustang – de vidros abertos, motor ronronante e olhar afogueado, cravado no firmamento desfocado pelo Sol – a desbravar as poeirentas estradas que trilham os imensos desertos da alma. Este é, de longe, o álbum mais sofisticado e progressista de Orangotango. Um registo simultâneamente viril e frágil, apressado e sossegado, rochoso e aquoso. Bem-vindos à Sumatra.

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terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Review: 🌞 Rostro del Sol - 'Universo 25' (2026, Stoners Dealer Records) 🌞

★★★★

Cinco anos após o lançamento do seu impactante álbum de estreia ‘Rostro del Sol’ (aqui analisado) e sensivelmente dois anos após a projecção do sedutor sucessor ‘Blue Storm’ (aqui examinado), a minha banda mexicana de eleição Rostro del Sol edita agora o seu tão aguardado novo álbum intitulado ‘Universo 25’ que merecera a confiança das companhias discográficas Echodelick Records, Clostridium Records, Stoners Dealer Records e Smogles Records. Este registo de dimensão piramidal, tipologia puramente instrumental e natureza conceptual – inspirado no cruel experimento laboratorial com esse mesmo nome que na década de 1960 levara ao trágico colapso de toda uma populosa e desregrada comunidade de roedores vigiada sob a orientação do psicólogo e etólogo americano John B. Calhoun que na ressaca desse vil estudo viria a constatar que “os efeitos da superpopulação em ratos de laboratório foram um sombrio modelo experimental para prever o futuro da raça humana.” –, trata-se da obra mais completa e desafiante criada até à data pela banda domiciliada na Cidade do México. Com base numa formação de habilidosos músicos parcialmente renovada e uma cuidada e inspirada concepção arquitectada e executada entre 2024 e 2025, este talentoso, aventureiro e espirituoso sexteto azteca tem em ‘Universo 25’ uma pitoresca, colorida, ritmada e carnavalesca fanfarra de reluzente brilho vintage, doce fragância oriental, emancipação sensorial e consagração espiritual, que mistura um elegante, extravagante, majestoso e desarmante Jazz-Rock irrepreensivelmente executado na senda de vultosas referências do género tais como Colosseum, Soft Machine, Ian Carr’s Nucleus, Mahavishnu Orchestra, Frank Zappa, Sweet Smoke, Soft Heap, Iceberg e Psicomagia, um condimentado, cerebral, sensacional e caprichado Progressive Rock de graciosas feições sinfónicas que colhe inspiração em clássicas referências como Mogul Thrash, Matching Mole, Arti & Mestieri, Nuova Idea, Banco del Mutuo Soccorso, Semiramis e Sloche, e um caleidoscópico, deslumbrante, reconfortante e exótico Psychedelic Rock de radioso clima Canterbury’esco com agradáveis ecos de Caravan, suor e calor latino a fazer recordar os picantes Chango, e um dançante e apimentado corante Funk à boa moda de Cymande. Místico, prismático, delirante e afrodisíaco, este terceiro trabalho de Rostro del Sol é um psicotrópico banquete onde nos divertimos e saciamos os mais ousados e exigentes desejos de requinte. Um registo verdadeiramente conquistador – de essência cerimonial e presença monumental – que nos incendeia e prazenteia numa sagrada devoção. Estonteante, nutritiva, inventiva e enfeitiçante, a camaleónica e histriónica sonoridade de ‘Universo 25’ trauteia por industriosas, movediças, portentosas e inebriantes composições que nos deixam de pupilas dilatadas, queixos tombados e bocas salivantes. Um emaranhado novelo de instrumentos em sónica e simbiótica debandada que se vai deslindando, organizando e desfilando sob o nosso olhar esbugalhado, ouvidos esfaimados, espírito empolgado e dominado por uma inapagável sensação de ardente fascinação que nos trava a respiração. Neste borbulhante, multicolorido e fumegante caldeirão são remexidos uma maravilhosa guitarra de vistosa e extravagante caligrafia árabe que se manifesta vaidosamente em enleantes, magnéticos, estéticos e serpenteantes riffs de onde são desatados angulosos, virtuosos, caleidoscópicos e ácidos solos, um hipnótico baixo que nos incita a percorrer e sussurrar as suas pulsantes, elásticas, enfáticas e vagueantes linhas, uma bateria circense de desembaraçadas, aparatosas, vertiginosas e alucinadas acrobacias realizadas a fina sensibilidade jazzística, um embruxado teclado de absorventes e harmoniosos bailados eruditos e imponentes e polposos mugidos cósmicos, um esdrúxulo saxofone de gritos estimulantes, histéricos, burlescos e ziguezagueantes, e bailantes congas tribais de provocantes ritmos tropicais. A distinta ilustração de atmosfera alienígena e mutante que confere rosto a esta irretocável criação musical é da responsabilidade da artista espanhola Elena Ibañez. São 50 minutos desassossegados de um sensacional, mirabolante e vibrante carnaval – de poderosa absorção e constante mutação – que nos prende e surpreende a cada audição. Um álbum tremendamente sedutor, oxigenado a criatividade sem fronteiras e administrado por um experimentalismo sem barreiras, que pendula entre misteriosas, brumosas e sonolentas ambiências mergulhadas em anestésica introspecção, e transpiradas, desavergonhadas e luxuriosas galopadas de instrumentos hiperativos que se lançam em entusiásticas e garridas correrias desenfreadas. Muito eu esperava deste novo rasgo criativo de Rostro del Sol e tudo ele meu deu. ‘Universo 25’ é um álbum assombroso que toca a perfeição e um fortíssimo candidato a melhor álbum de um ano de 2026 que promete vir a ser musicalmente abastado.

Links:

Presenteio-vos com alguns códigos para download gratuito que poderão ser usados em: www.bandcamp.com/yum


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