
Acordados de um demorado
silêncio que se adensara na ressaca deixada pelos lançamentos do seu homónimo EP
em 2017 (aqui trazido) e do seu primeiro álbum ‘Black Acid, Pink Rain’
em 2019 (aqui examinado), o apaixonante quinteto minhoto Jesus the
Snake regressa e exibe-se agora numa forma verdadeiramente invejável com a
apresentação do seu tão ansiado novo trabalho de longa duração intitulado ‘Ethereal
Waters’ e editado com carimbo autoral em formato vinil (bifurcado em duas estéticas,
coloridas e ultra-limitadas edições) e digital. De instrumentos apontados aos
insondáveis, inexplorados e admiráveis territórios alienÃgenas do Cosmos
bocejante, ‘Ethereal Waters’ banha o ouvinte num celestial, imersivo, reflexivo,
expansivo e ambiental universo sonoro que o inebria, conforta e extasia do
primeiro ao derradeiro tema. Filho de uma intensa relação entre um deslumbrante,
edénico, anestésico e viajante Psychedelic Rock trajado por um
misticismo astral, e um sentimental, lenitivo, curativo e cerimonial Progressive
Rock de ares sinfónicos e velas içadas e sopradas ao sabor da mais
destemida fantasia, este segundo álbum de Jesus the Snake representa uma
experiência divina que nos pacifica, massaja e purifica a alma. Refrescante, inebriante,
sublime e miraculoso, ‘Ethereal Waters’ é uma obra puramente
instrumental com sabor a mar e condimentado a poeira estelar que nos adormece,
seduz e embevece ao longo dos seus 47 minutos de encantamento. Com o seu azimute
de olhos postos em influências como Pink Floyd, Yes, Eloy,
Camel, Nektar, Cressida, Astra, Causa Sui, Ancestors,
Papir e Birth, esta aventurosa embarcação navega sem destino as
tranquilas águas do eterno oceano astral, engolida por uma mágica, onÃrica e
misteriosa nebulosidade que lentamente se vai dissipando e revelando, desamarrando-nos
do abraço gravitacional, libertando o nosso ego e em nós instaurando um
verdadeiro paraÃso mental. Aprisionados nesta sagrada hipnose que no nosso
imaginário constrói todo um dourado areal que se perde na espumosa ondulação de
um diamantino mar azul-turquesa, debaixo de um imenso céu de beleza crepuscular,
farolizado por um avermelhado Sol desmaiado, sobrevoado por gaivotas grasnantes
e arejado por uma salgada brisa suspirada por Neptuno, somos os únicos
habitantes deste maravilhoso sonho de aura pelágica onde desafogadamente corremos,
rimos e gritamos. ‘Ethereal Waters’ é um registo perfumado, leve, livre
e delicado – de uma transparência deÃfica e aquosa – que nos livra de todas as
preocupações e em nós apenas deixa utópicas sensações de uma paz impossÃvel de
perturbar. Ofuscados pela vibrante, ressonante e messiânica resplandecência
solar de Jesus the Snake, somos seduzidos e conduzidos aos altares da
ataraxia. Lá, de joelhos caÃdos, corações ao alto e mãos estendidas, louvamos
uma guitarra enfeitiçante de serpenteios enleantes, um baixo magnético de linhas
ondeantes, uma bateria ritualista de ritmos tribalistas, um teclado faustoso de
bailados harmoniosos, e um quimérico sintetizador criador de uma ambiência
genuinamente milagrosa. A sensacional fotografia que confere rosto a esta obra
sacramental e nos afunda até ao pescoço aponta o seu crédito autoral ao
talentoso fotógrafo francês Sébastien Zanella. Intimista, medicinal, ritualista
e sobrenatural, ‘Ethereal Waters’ ecoa pela eternidade do nosso universo
espiritual. Ancorem neste disco e mergulhem nas profundas águas de Jesus the Snake sem a mais pequena
vontade de á sua tona regressar. Um dos mais fortes candidatos a álbum português do
ano está aqui, na poderosa, epopeica e esplendorosa magnificência deste
quinteto bracarense.
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