quinta-feira, 16 de julho de 2026

Review: 🌊 Jesus the Snake - 'Ethereal Waters' (2026) 🌊


★★★★★

Acordados de um demorado silêncio que se adensara na ressaca deixada pelos lançamentos do seu homónimo EP em 2017 (aqui trazido) e do seu primeiro álbum ‘Black Acid, Pink Rain’ em 2019 (aqui examinado), o apaixonante quinteto minhoto Jesus the Snake regressa e exibe-se agora numa forma verdadeiramente invejável com a apresentação do seu tão ansiado novo trabalho de longa duração intitulado ‘Ethereal Waters’ e editado com carimbo autoral em formato vinil (bifurcado em duas estéticas, coloridas e ultra-limitadas edições) e digital. De instrumentos apontados aos insondáveis, inexplorados e admiráveis territórios alienígenas do Cosmos bocejante, ‘Ethereal Waters’ banha o ouvinte num celestial, imersivo, reflexivo, expansivo e ambiental universo sonoro que o inebria, conforta e extasia do primeiro ao derradeiro tema. Filho de uma intensa relação entre um deslumbrante, edénico, anestésico e viajante Psychedelic Rock trajado por um misticismo astral, e um sentimental, lenitivo, curativo e cerimonial Progressive Rock de ares sinfónicos e velas içadas e sopradas ao sabor da mais destemida fantasia, este segundo álbum de Jesus the Snake representa uma experiência divina que nos pacifica, massaja e purifica a alma. Refrescante, inebriante, sublime e miraculoso, ‘Ethereal Waters’ é uma obra puramente instrumental com sabor a mar e condimentado a poeira estelar que nos adormece, seduz e embevece ao longo dos seus 47 minutos de encantamento. Com o seu azimute de olhos postos em influências como Pink Floyd, Yes, Eloy, Camel, Nektar, Cressida, Astra, Causa Sui, Ancestors, Papir e Birth, esta aventurosa embarcação navega sem destino as tranquilas águas do eterno oceano astral, engolida por uma mágica, onírica e misteriosa nebulosidade que lentamente se vai dissipando e revelando, desamarrando-nos do abraço gravitacional, libertando o nosso ego e em nós instaurando um verdadeiro paraíso mental. Aprisionados nesta sagrada hipnose que no nosso imaginário constrói todo um dourado areal que se perde na espumosa ondulação de um diamantino mar azul-turquesa, debaixo de um imenso céu de beleza crepuscular, farolizado por um avermelhado Sol desmaiado, sobrevoado por gaivotas grasnantes e arejado por uma salgada brisa suspirada por Neptuno, somos os únicos habitantes deste maravilhoso sonho de aura pelágica onde desafogadamente corremos, rimos e gritamos. ‘Ethereal Waters’ é um registo perfumado, leve, livre e delicado – de uma transparência deífica e aquosa – que nos livra de todas as preocupações e em nós apenas deixa utópicas sensações de uma paz impossível de perturbar. Ofuscados pela vibrante, ressonante e messiânica resplandecência solar de Jesus the Snake, somos seduzidos e conduzidos aos altares da ataraxia. Lá, de joelhos caídos, corações ao alto e mãos estendidas, louvamos uma guitarra enfeitiçante de serpenteios enleantes, um baixo magnético de linhas ondeantes, uma bateria ritualista de ritmos tribalistas, um teclado faustoso de bailados harmoniosos, e um quimérico sintetizador criador de uma ambiência genuinamente milagrosa. A sensacional fotografia que confere rosto a esta obra sacramental e nos afunda até ao pescoço aponta o seu crédito autoral ao talentoso fotógrafo francês Sébastien Zanella. Intimista, medicinal, ritualista e sobrenatural, ‘Ethereal Waters’ ecoa pela eternidade do nosso universo espiritual. Ancorem neste disco e mergulhem nas profundas águas de Jesus the Snake sem a mais pequena vontade de á sua tona regressar. Um dos mais fortes candidatos a álbum português do ano está aqui, na poderosa, epopeica e esplendorosa magnificência deste quinteto bracarense.

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