Do
alto das suas duas décadas de marcante existência, os célebres Graveyard
continuam a trilhar o seu triunfante caminho discográfico ao sabor do que lhes
vai na alma sem nunca perderem os seus traços idiossincráticos. Depois de um começo
norteado por um enigmático, provocante e vampÃrico Proto-Doom de reconfortante
agasalho Folk vigiado e assombrado de perto pelas formosas, sedutoras e
gloriosas diabruras do Blues – como está bem presente nos seus carismáticos
e consagrados álbuns ‘Graveyard’ e ‘Hisingen Blues’ – que lhes
valera um meteórico salto olÃmpico na sua reputação, a talentosa banda sueca domiciliada
na cidade costeira de Gotemburgo foi modelando e metamorfoseando a sua
musicalidade sem nunca ancorá-la demoradamente num determinado estilo, e isso
revestia de surpresa a atmosfera reinante de cada novo álbum por eles lançado.
Foi com esse espÃrito aventureiro que em 2023 desembrulhara – e aqui avidamente
elogiara – o seu último trabalho ‘6’ (um álbum de natureza reflexiva,
passiva e sombria, abraçado por um pardo, húmido e fechado nevoeiro de forte
odor marÃtimo sem faróis que o consigam rasgar) e agora – na ressaca de múltiplas
degustações – vejo-me tomado e incendiado pela intensa ardência que deflagra e crepita no seu
recém-nascido sétimo registo de longa duração intitulado ‘Fever’ e
editado pela célebre companhia discográfica germânica Nuclear Blast Records.
Governada por um despojado, fogoso, rochoso e musculado Hard Rock de
tracção setentista, agrilhoado a um atrevido, picante, provocante e torneado Blues
Rock de sedução intimista, a impetuosa, crua, nua e garbosa sonoridade de ‘Fever’
– amarelecida e envelhecida pelo espÃrito vintage – transpira fogosidade
infernal, rugosidade e toda uma intensidade emocional que nos exorciza as
tormentas. Povoado por estimulantes, incisivas, corrosivas e viciantes canções de
fácil digestão – consumidas pela crocante, electrizante e abrasiva distorção do
efeito fuzz – que nos inquietam e inflamam sem moderação, esta arrogante,
sincera e apaixonante obra de Graveyard tem o dom de nos tomar de
assalto e incendiar o coração. Deixem-se caçar pelas guitarras predatórias de chamejantes,
dominantes e irresistÃveis riffs que ficam retidos na ponta da nossa lÃngua
e de onde são desatados solos escorregadios, fugidios e alucinados, um baixo
quente de linhas possantes, tensas e ondulantes, uma bateria dinâmica de ritmos
altivos, explosivos e desembaraçados, e uma voz urticante, felina e liderante de
rugidos com mélico hálito a bourbon. A fantástica ilustração que confere rosto
a esta poderosa erupção de endorfinas é da inconfundÃvel autoria do dotado e afamado ilustrador holandês Maarten Donders. Viril, magnético, febril e
afrodisÃaco, ‘Fever’ é um emocionante disco de total transparência
sentimental, acelerado a alta rotação e que em nós provoca toda uma redentora combustão
impossÃvel de extinguir. O grito da Fénix. “Este pode tratar-se mesmo do nosso melhor álbum lançado
até à data.” – preconizou a banda no momento do anúncio do mesmo. Quanto a mim,
não consigo ascendê-lo ao sagrado patamar dos impossÃveis ‘Graveyard’ (2008) e ‘Hisingen
Blues’ (2011), mas este ‘Fever’ é, decerto, um álbum que merece todo o
nosso colo, carinho e profunda admiração. Um disco que à sua imagem roça a
perfeição.
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