sábado, 18 de dezembro de 2021
sexta-feira, 17 de dezembro de 2021
Review: ⚡ Madmess - 'Rebirth' (2021) ⚡
Na primavera
de 2019 testemunhava e descrevia a sónica colisão de um asteroide de grandes
dimensões e chamado ‘Madmess’ com o planeta Terra (fenómeno aqui
transposto para a escrita), e hoje – ainda impregnado num estado de transbordante fascinação
e febril torpor – vejo-me forçado a desdobrar elogiosas e apaixonadas palavras sobre
o novíssimo álbum deste electrizante power-trio português que acaba de me
proporcionar uma das mais prazerosas, longínquas e aventurosas evasões conscienciais
de que tenho memória. Intitulado ‘Rebirth’ e devidamente carimbado
com o selo da companhia discográfica londrina Hassle Records nos
formatos digital, CD e vinil, este segundo e portentoso trabalho de Madmess
– formação que alterna a sua morada de residência entre as cidades de Porto e Londres
– vem incensado por um intoxicante, cinematográfico, imersivo e viajante Heavy
Psych com vista para as estrelas, de mãos dadas com um labiríntico,
sinuoso, glorioso e místico Heavy Prog de nutridas composições. A sua
sonoridade desmedidamente deslumbrante, alucinógena e purificante – que pendula
entre uma orvalhada, reflexiva e enregelada letargia, e uma vulcânica, vibrante
e selvática euforia – rasga as amarras da gravidade terrestre e – montado num luminoso
cometa que perfura o negro tecido cósmico – embala o ouvinte numa
enlouquecedora vertigem, driblando o magnetismo de planetas solitários,
empoeirando a alma nas fantasmagóricas nebulosas que deambulam pela imensa
vacuidade, mergulhando no ofuscante brilho de abrasivas fornalhas estelares, e
resvalando nas costuras fronteiriças de um Universo bocejante. Toda uma fantástica
odisseia tridimensional – de libertação sensorial e consagração espiritual – que
nos exulta e catapulta à delirante boleia de uma guitarra messiânica –
gaseificada a crepitante distorção – que se robustece na majestosa ascensão de mastodônticos,
incandescentes, fumegantes e ciclónicos Riffs, e endoidece numa efervescente
inundação de solos ziguezagueantes, ácidos, venenosos e atordoantes, um possante
baixo de ventosa reverberação canalizada em linhas ondeantes, espessas, escuras
e hipnotizantes, uma impetuosa bateria de explosividade superiormente
domesticada a um toque rutilante, acrobático, enfático e retumbante, e vocais muito
esporádicos – de pele sideral, lustrosa e espectral – que apenas inflamam o derradeiro tema desta irretocável
obra-prima do psicadelismo actual. O seráfico artwork que confere rosto
a esta xamânica monção de aromas psicotrópicos aponta os seus créditos autorais
à talentosa ilustradora/tatuadora portuguesa Lory Cervi, e vem recordar que somos
seres espirituais a vivenciar uma experiência humana ao invés de seres humanos
a vivenciar uma experiência espiritual. São cerca de 45 minutos naufragados e centrifugados
num colorido, arrebatado e caleidoscópico rebuliço capaz de nos distorcer a sóbria
percepção do espaço-tempo. Um registo verdadeiramente afrodisíaco que percorre
e entope as zonas mais erógenas do nosso cérebro. Vai ser demasiado fácil
enquadrar estas quiméricas jams de sublimes roteiros intergalácticos por
entre os mais medalhados álbuns florescidos neste jardim musical de 2021.
Links:
➥ Facebook
➥ Bandcamp
➥ Hassle Records
quinta-feira, 16 de dezembro de 2021
quarta-feira, 15 de dezembro de 2021
Review: ⚡ Solarius - 'Universal Trial' EP (2021) ⚡
A infatigável companhia
discográfica romana Heavy Psych Sounds acaba de exumar e revelar uma verdadeira
relíquia sonora que estivera perdida nos abismos do esquecimento durante longos
quinze anos. Gravado de forma inteiramente analógica no já remoto ano de 2006
dentro dos estúdios Don Pierre – situados na cidade de Gotemburgo
– e produzido pelo renomado Don Alsterberg (responsável pela orientação de
consagradas bandas suecas como Graveyard, Blues Pills, Horisont
e Junip), o renascido ‘Universal Trial’ representa o EP de
estreia da então jovem e desconhecida banda sueca Solarius, liderada
pelo virtuoso guitarrista/vocalista Jonatan Ramm que, logo após a
conclusão deste pequeno registo, acabaria por ingressar nos recém-formados Graveyard
e – como consequência disso – desmantelar este quarteto tão promissor. Contando
com pouco mais de uns ingratos 20 minutos de duração – compartimentados em apenas
quatro temas que se complementam na perfeição – este belíssimo EP de Solarius
desprende toda uma adorável fragância vintage de onde facilmente se
reconhece, apalada e saboreia um encorpado, cativante, chamejante e oleado Hard
Rock simbioticamente entrelaçado num majestoso, requintado, serpenteado e
libidinoso Heavy Blues. A sua sonoridade de vigor, tonalidade e primor setentistas
– que espelha influências extraídas de clássicas referências como Led
Zeppelin, Leaf Hound, May Blitz e Captain Beyond, e é
detentora de um forte vínculo genético a bandas da contemporaneidade nórdica
como os próprios Graveyard, Brutus, Blues Pills, Horisont e Siena
Root – baloiça-se de forma harmoniosa entre reconfortantes, deslumbrantes e
melífluas baladas que nos fazem salivar os ouvidos, e portentosas, sinuosas e
empolgantes galopadas que nos fazem vibrar os membros e sentidos. Na composição
deste poderoso afrodisíaco de curta durabilidade, mas irretocável sagacidade e transbordante
veneração, envaidece-se uma guitarra luxuosa de provocantes, aprumados,
inflamantes e lubrificados Riffs contaminados pelo arenoso efeito Fuzz,
e solos electrizantes, orgiásticos, bombásticos e euforizantes, murmura um
baixo irresistivelmente groovy de reverberação motorizada a linhas
protuberantes, elásticas, magnéticas e palpitantes, uma inaudita bateria de
ritmicidade apimentada, sofisticada, vivaz e expedita, um carismático órgão de mugidos
polposos, empinados, opulentos e melodiosos, e duas vozes reinantes, proféticas
e contrastantes – uma áspera e cáustica de rugidos felinos, e a outra sóbria e
polida de vestes aristocráticas – que ora alternam o seu protagonismo, ora se
auxiliam num formidável coro vocal. ‘Universal Trial’ é um EP confecionado
à minha imagem. Um registo glamoroso que residira demasiado tempo na penumbrosa
solidão e que agora vê todos os holofotes para si apontados. Ofusquem-se no seu
brilho diamantino e satisfaçam o vosso desejo de requinte.
Links:
➥ Bandcamp
➥ Heavy Psych Sounds
terça-feira, 14 de dezembro de 2021
segunda-feira, 13 de dezembro de 2021
Review: ⚡ Hypnotic Floor - 'Odd Conjectures' (2021) ⚡
No início de
2020 escrevia aqui apaixonadas palavras acerca do apetitoso álbum de
estreia dos austríacos Hypnotic Floor – intitulado ‘Foggy Bog Eyes’
– e hoje sinto-me impelido a replicar o elogio ao seu muito aguardado sucessor ‘Odd
Conjectures’, acabado de ser lançado sob a alçada do influente selo
discográfico local StoneFree Records nos formatos digital, CD e vinil. Sobrevoado
por um odoroso, relaxante, deslumbrante e ensolarado Psychedelic Rock de
beleza West Coast, tiquetaqueado por um absorvente, imersivo, contemplativo
e eloquente Krautrock de aroma oriental, e apimentado por um efervescente,
movediço, vulcânico e contagiante Garage Rock de satélites apontados a
referências australianas como King Gizzard & the Lizard Wizard, The
Murlocs e ORB, este camaleónico, divertido e caramelizado ‘Odd
Conjectures’ balanceia-se entre etéreas passagens de profética
sublimidade e eufóricas pirotecnias de enérgica fogosidade. A sua sonoridade imensamente
vaporosa, charmosa e excitante – condimentada a climas distintos e desdobrada a
ritmos desiguais – mantém-nos a ela atrelados, bem como reféns de um inapagável
estádio de rutilante encantamento, do primeiro ao derradeiro tema. Mergulhados nas
profundezas da doce fascinação, somos seduzidos e dançados por duas primorosas guitarras
de tintura e textura psicadélicas que se entrançam na rendilhada edificação de amarelecidos,
obcecantes, serpenteantes e aprumados Riffs – encrostados pelo crocante
efeito Fuzz – e destrançam na vistosa caligrafia de solos venenosos, arábicos,
seráficos e desorientadores, um baixo bamboleante de linhas magnetizantes, bulbosas,
fibrosas e saltitantes, uma elegante bateria de pendor jazzístico que se
envolve e revolve em cadências expressivas, tribais, desembaraçadas e criativas,
e uma voz timoneira de pele acidificada, robotizada, espectral e aristocrática,
ocasionalmente sombreada de perto por um celestial coro vocal que se estende aos
restantes membros da banda. Este é um álbum desaforado, atraente e bem-humorado,
aspergido por uma melódica frescura e remexido por uma cósmica fervura, que não
deixará ninguém recostado à indiferença. Nunca a fria letargia e a escaldante euforia
se confundiram tanto como em ‘Odd Conjectures’. Permitam-se cortejar
pela buliçosa graciosidade de Hypnotic Floor, e embarquem neste extravagante,
temulento e extasiante carnaval de plena satisfação sensorial.
Links:
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➥ Bandcamp
➥ StoneFree Records
domingo, 12 de dezembro de 2021
sexta-feira, 10 de dezembro de 2021
Review: ⚡ Glowing Brain - 'Brain Dust' (2021) ⚡
Com o
epicentro localizado na cidade de Oakland (Califórnia, EUA)
chegam-nos as ondas sísmicas do radical power-trio Glowing Brain que
acabara de desabrochar e dinamitar o seu muito aguardado álbum de estreia. Denominado
‘Brain Dust’ e oficialmente lançado hoje mesmo pela mão do selo discográfico
The Ghost Is Clear Records sob as formas digital e vinil, este seu primeiro
registo de longa duração presenteia e inflama o ouvinte com uma efervescente
combustão de pura adrenalina. Munido de um enérgico, vibrante, possante e
frenético Heavy Rock de revoltosa atitude Punk e um electrizante, fogoso, rumoroso
e alucinante Thrash Metal de destravado galope Hardcore, este borbulhante, vulcânico
e fumegante ‘Brain Dust’ combina a impetuosidade de Motörhead,
a ferocidade de High on Fire e a ardência de Kylesa num brutal
explosivo de ingestão imprópria para cardíacos. São dez temas de pavio curto, mas
de uma devastadora potência sem escape possível, que nos pontapeiam, esmurram e
afogueiam num selvático motim centrifugado a enlouquecedora intensidade. Com o
mercúrio a cabecear os píncaros dos termómetros, sem fôlego e corações acelerados,
somos embalados, engolidos e trucidados na febril vertigem valvulada à sónica boleia de
uma guitarra voraz – escaldada em chamejante distorção – que dispara estonteantes,
combativos, incisivos e fulminantes Riffs de onde redemoinham solos ácidos,
ziguezagueantes, esvoaçantes e delirados, um baixo viril de linhas quentes,
pesadas, empoladas e potentes, uma incansável bateria metralhada a alta rotação
e escoiçada a tonitruante comoção, e uma voz bélica – gritada a sangrenta e
acintosa rugosidade – que apimenta e estimula todo este fogo impossível de extinguir.
Um implacável rolo compressor que não deixará ninguém ileso. O artwork que
representa a evasão consciencial – sarapintado a psicadélica coloração – pela incomensurável
vastidão espacial aponta os seus créditos de autor ao ilustrador Clint
Baechle / Boca de Fuma Studio. Regressem deste fervoroso ‘Brain
Dust’ esgotados, combalidos e derrotados, com os punhos ensanguentados, sobrolhos abertos e maxilares deslocados.
Links:
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➥ Bandcamp
➥ The Ghost Is Clear Records