terça-feira, 29 de novembro de 2022
segunda-feira, 28 de novembro de 2022
Review: 🪐 КОМВУИАТ ЯОВОТЯОИ - 'Dickfehler Studio Treffen 2' (2022) 🪐
Dois anos após
o lançamento da primeira parte da sublimada e exploratória jam-session intitulada
‘Dickfehler Studio Treffen’ (aqui vivamente experienciada e textualmente
narrada), eis que os cosmonautas germânicos de instrumentos empunhados Kombynat
Robotron disponibilizam agora o tão aguardado segundo capítulo desta
fantástica odisseia. Lançado nos formatos digital e LP pela mão da fértil
discográfica britânica Drone Rock Records, este fascinante registo de
essência instrumental – o vigésimo do quarteto sediado na cidade de Kiel
em apenas quatro anos de inesgotável criatividade e imparável produção discográfica
– gravita em órbita de um magnético, esponjoso e morfínico Krautrock de
propulsão astral – aliado a um intoxicante, balsâmico e delirante Psychedelic
Rock de absorvente textura Drone’sca, e um deslumbrante,
etéreo e viajante Space Rock com vista panorâmica para as estrelas.
Irrigada por generosas doses de um alienígena e refrescante experimentalismo que
se manifesta de forma livre, sem fronteiras que o espartilhem, a apaziguante,
embrumada e narcotizante sonoridade de ‘Dickfehler Studio Treffen 2’
desenraíza o ouvinte da gravidade terrestre e embala-o numa adorável, inescapável
e transcendente hipnose pela desmesurada vacuidade de um Cosmos sonolento. De
pálpebras seladas, narinas dilatadas, cabeça entorpecida e pesadamente
baloiçada de ombro a ombro, e espírito profundamente enfeitiçado, vagueamos e naufragamos
prazerosamente na eterna vertigem de Kombynat Robotron sem garantias de
um regresso ao ponto de partida. Capturados e relaxados pela lisérgica sedução
que as suas intuitivas, ácidas e evolutivas jams exalam, embalamos numa ataráxica
levitação – reproduzida em slow-motion – de encontro ao tão almejado
transe espiritual. Na composição deste poderoso opiáceo estão duas guitarras
embriagadas que se envolvem e revolvem num flirt de obcecantes, libidinosos
e contagiosos acordes de onde são destilados solos mirabolantes, frígidos e ecoantes,
um baixo liderante – balanceado a linhas pulsantes, hipnóticas e ondeantes – que
soletra repetida e incansavelmente todas as sílabas do riff-base, e uma bateria minimal – tiquetaqueada a uma repetitiva precisão robótica – que pauta toda esta
entontecida narcose com o inflexível rigor de um relógio suíço. São 44 minutos –
compartimentados em quatro longas faixas – dissolvidos na abissal intimidade de
um sono profundo que nos massaja o cerebelo e estaciona num inamovível estádio
de transe. Não vai ser nada fácil – ou sequer desejado – despertar disto.
domingo, 27 de novembro de 2022
sábado, 26 de novembro de 2022
sexta-feira, 25 de novembro de 2022
quinta-feira, 24 de novembro de 2022
quarta-feira, 23 de novembro de 2022
Review: 🐫 Stones Of Babylon - 'Ishtar Gate' (2022) 🐫
Encarada com petrificado
assombro toda a ofuscante beleza arquitectónica de que fora feito o escultural,
ostentoso e monumental Portal de Ishtar – a oitava e principal porta de
entrada para a edénica cidade da Babilónia, construída com tijolos
cozidos e vidrados, ornamentada por azulejos de coloração azul profundo e
brilho diamantino, e erigida em homenagem à deusa acádia Ishtar (deusa
da vitalidade, do amor e da guerra) – estamos prontos para atravessá-lo e
comungar toda a santificada liturgia pesadamente incensada pelo fumarento e
baloiçante turíbulo de Stones Of Babylon. Editado pelo insuspeito selo
discográfico português Raging Planet através dos formatos LP, CD e digital,
este segundo trabalho intitulado ‘Ishtar Gate’ destes três califas sediados
na cidade-capital de Lisboa vem dar a tão ansiada continuidade à sua milagrosa odisseia pela enigmática, seráfica e mitológica Pérsia ancestral
principiada com o frondoso, odoroso e ajardinado ‘Hanging Gardens’ (aqui
desconstruído e reverenciado). Embrumado por um canábico, obscurantista,
ritualista e mântrico Psychedelic Doom de fragância oriental, ardência desértica,
caligrafia arábica e consagração espiritual, este ‘Ishtar Gate’ teve em
mim o mesmo poder hipnotizante que a encantadora dança da flauta indiana tem
sobre a serpente Naja. De pés desnudos e soterrados nas aveludadas, finas e douradas
areias do deserto, olhos postos no Sol poente de bafo morno e luzência ardente,
e alma rendida às bíblicas vibrações de idioma acádio, viajamos e embalamos à aliciante
boleia sonora de uma guitarra messiânica que se meneia em imperiosos, sísmicos,
esotéricos e fogosos riffs de onde serpenteiam solos magnetizantes, oleosos,
luminosos, e intoxicantes, um umbroso baixo encarvoado a tensa e densa negrura
que se orienta por entre encorpadas, fibrosas e onduladas linhas desenhadas a
negrito, e uma bateria expressiva, empolgante, faíscante e incisiva de pratos flamejantes
e tambores tribalistas. O mirífico artwork que emoldura na perfeição
toda esta divina romaria à velha Mesopotâmia é rubricado pelo talentoso ilustrador
português Soares Artwork. São 55 minutos de uma deífica cintilação que
nos converte a todos em seus devotos peregrinos. Um álbum de atmosfera sonâmbula
que vagueia livre e graciosamente entre a morfínica letargia e a vulcânica
euforia. Banhem-se no diluviano misticismo de ‘Ishtar Gate’ e vivenciem
com inteira devoção todo o santificado esplendor de um dos mais fortes candidatos
a melhor álbum português do ano.
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terça-feira, 22 de novembro de 2022
segunda-feira, 21 de novembro de 2022
Review: ❄️ EF - 'We salute you, you and you!' (2022) ❄️
A um pequeníssimo
passo de completarem duas décadas de fértil existência, onde encheram duas mãos
de lançamentos, os suecos EF perfilam-se hoje como uma das bandas mais respeitadas
e incontornáveis do panorama Post-Rock. E é justamente nesta orvalhada madrugada
do seu vigésimo aniversário, que o colectivo nórdico – enraizado na cidade de Gotemburgo
– nos presenteia com aquele que considero ser o seu mais vistoso, sincero,
fresco e ambicioso registo lançado até à data: ‘We salute you, you and you!’,
editado pela influente mão da germânica Pelagic Records através dos formatos LP,
CD e digital (este último com a sempre estimável possibilidade de download
gratuito). Climatizado por um emotivo, melancólico, cinematográfico e imersivo Post-Rock
de brancura invernal, este sexto trabalho de longa duração de EF tem o
dom de agasalhar o ouvinte com um quente sentimento de nostalgia, capaz de
consolar corações amarrotados e abrilhantar olhares marejados de lágrimas. Superiormente
costurada por composições tristemente belas que nos sufocam num inquebrável estádio
de resplandecente arrebatamento, a delicada, sonhadora, libertadora e sublimada
sonoridade de ‘We salute you, you and you!’ balanceia quem a comunga
entre a ensolarada crença e a anoitecida descrença. Sintonizados nas mesmas
frequências sonoras e sentimentais de outras grandes referências do género,
tais como Explosions in the Sky, Mogwai e Godspeed You! Black Emperor,
os EF encasulam-nos no seu poético, frágil e onírico universo do qual
não mais queremos sair. Toda uma transformadora depuração emocional, levada a cabo
pela harmoniosa conjugação orquestral de lapidar beleza ambiental dialogada
entre os vocais amainados, acetinados e angelicais, guitarras de acordes tricotados
a desarmante ternura e magnetizante finura, teclados de formosos, celestiais e
odorosos bailados, uma bateria de ritmo cativante que amplifica toda esta
catarse emocional, um baixo de linhas robustecidas, murmurantes e obscurecidas,
um violino de dramáticas, plangentes e fatídicas lamúrias que nos cortam a
respiração, um violoncelo de soturnidade chorada, um trombone de mugidos
lúgubres, e um trompete de luminosos, dourados e gloriosos sopros. São 44
minutos farolizados por uma pálida luzência que tanto nos esmorece e entristece
como desperta e sobreaquece de uma inabalável catarse. No final permanecem a força,
a determinação, o fogo, a esperança e o triunfo.
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