sexta-feira, 12 de abril de 2024

☀️ Causa Sui - 'Free Ride' (2007)

♨️ Warm Dust - "Warm Dust" (1972)

🌑 Moonstone - "Emerald" (live session)

🎁 John Kay // Steppenwolf (12/04/1944)

©️ PF Bentley

🎁 Herbie Hancock (12/04/1940)

Review: 🦂 White Dog - 'Double Dog Dare' (2024) 🦂

★★★★★

Depois de em 2020 ter ficado de queixo completamente caído ao deparar-me com o brilhante e irretocável álbum de estreia dos texanos White Dog (aqui devidamente escalpelizado e, mais tarde, aqui naturalmente premiado como um dos melhores registos nascidos nesse mesmo ano), regresso agora com renovadas palavras elogiosas destinadas ao seu tão aguardado sucessor, denominado ‘Double Dare Dog’ e captado de forma inteiramente analógica, que acaba de sair à rua pela insuspeita mão do influente selo londrino Rise Above Records através dos formatos físicos LP e CD. Com uma formação transfigurada (a substituição de vocalista e o acréscimo de um teclista) mas mantendo a sua roupagem clássica, o agora sexteto, enraizado na grande cidade de Austin (capital do estado norte-americano do Texas), continua a trilhar a sua gloriosa jornada musical com a bússola apontada ao dourado território setentista. Numa agradável, relaxada, ensolarada e adorável viagem – debaixo de uma intensa e amarelecida luzência vintage – que atravessa as deslumbrantes paisagens rurais de um apimentado, ritmado, invertebrado e afrodisíaco Blues Rock de condimentado sabor Tex-Mex, um empolgante, tórrido, suado e dançante Southern Rock de vaidade sulista, e ainda de um musculoso, fogoso, lustroso e torneado Hard Rock sarapintado por vibrantes colorações de um caleidoscópico psicadelismo californiano, ‘Double Dare Dog’ passeia o ouvinte – de texanas calçadas, pernas cruzadas, chapéu de aba larga reclinado na cabeça e um palito mordiscado na boca – pelas verdejantes pastagens que se desdobram até onde a vista pode alcançar, ajardinando toda uma nostálgica época há muito enterrada pelas areias do tempo. Homenageando os autóctones ZZ Top e bebendo influências de outras bandas carismáticas como Lynyrd Skynyrd, The Allman Brothers Band, Creedence Clearwater Revival, The Marshall Tucker Band, James Gang, The Outlaws, Quicksilver Messenger Service e Grateful Dead, assim como direccionando os holofotes para outras mais obscuras como Highway (Minnesota, EUA), Lightning (Minneapolis, EUA) e os canadianos Aaron Space, a quente, swingada, atraente e atrevida sonoridade de White Dog é como que uma fresca brisa de aroma oceânico que perfuma e aviva o ar seco e soalheiro do deserto. De olhar enternecido, sorriso desabrochado e espírito embevecido, embalamos à apaixonante, idílica e contagiante boleia de duas guitarras siamesas que florescem harmoniosos, veneráveis e cheirosos acordes de onde serpenteiam requintados, estonteantes e rendilhados solos, um baixo gingão de bafo pulsante, magnetizante e palpável, um carismático teclado Hammond bailado a polposos, melódicos e sumptuosos mugidos, uma afável bateria de sensibilidade jazzística, galopada, sem esporas, a um ritmo leve, solto e descontraído, e uma voz polida, aveludada e felina. A bonita arte gráfica que confere rosto a esta viciante iguaria texana tem como seu autor o talentoso ilustrador local Taylor W. Rushing. ‘Double Dog Dare’ é um western soberbamente musicado. Um registo tremendamente irresistível, pensado e executado à minha imagem, que decerto não dará descanso aos demais concorrentes pela acesa luta ao título de melhor álbum do ano. Entrem, ousados, neste poeirento e barulhento saloon com forte odor a pólvora – de coldre desapertado, dedo indicador repousado no gatilho e debaixo de olhares desconfiados que se erguem acima dos ombros – e beberiquem este mélico bourbon. Cinco cintilantes estrelas para estes temidos pistoleiros de fama firmada e disseminada por todo o tapete arenoso do velho oeste. Depois de dois disparos certeiros no meu coração, já salivo pelo terceiro.

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 Rise Above Records

segunda-feira, 8 de abril de 2024

❂ Screaming Trees - "Black Sun Morning" (1989)

Review: 🪐 Iron Blanket - 'Astral Wanderer' (2024) 🪐

★★★★☆

Da cidade australiana de Sydney chega-nos a incandescente lava vulcânica expelida pelo jovem e irreverente quinteto Iron Blanket, que acaba de lançar o seu impactante álbum de estreia denominado ‘Astral Wanderer’ e editado a duas mãos pela britânica Copper Feast Records e pela grega Sound Effect Records nos formatos digital e LP. Combinando as dominantes forças gravitacionais de um musculoso, enérgico, titânico e polposo Heavy Rock de luciféricos ecos Green Lung’escos, de um quente, arenoso, fogoso e efervescente Desert Rock de alta octanagem a fazer recordar os suecos Dozer, e ainda de um montanhoso, pantanoso, sombrio e impiedoso Psychedelic Doom de incensos morfínicos e um pesado galope Sleep’eano num vistoso, admirável e glorioso bailado, ‘Astral Wanderer’ é um álbum imponente – tomado por ácidas e negras lavaredas que cospem crepitantes faúlhas – capaz de abalar e naufragar o ouvinte num revolto mar de vulcânica euforia. Não dispensando misteriosas incursões nocturnas pelo lado mais intrigante, letárgico, ritualístico e intoxicante do mastodôntico Proto-Doom de tração setentista e uma imersiva pretura Black Sabbath’ica, este triunfante primeiro trabalho dos australianos Iron Blanket simboliza uma monolítica, granítica e demolidora avalanche sonora que nos profana a alma, anoitece o espírito e enfeitiça do primeiro ao derradeiro tema. Uma torrencial chuva de estrelas chamejantes que cruzam os céus enquanto que relampejantes fissuras golpeiam o solo espasmódico. Embarquem nesta selvática, bombástica e vertiginosa alucinação à empolgante boleia de duas guitarras endemoninhadas – fervidas em crocante, espinhoso e electrizante efeito Fuzz – que conduzem abrasivos, rugosos, majestosos e invasivos riffs de onde esvoaçam solos luzidios, escorregadios, salgados e fugidios, um hipnótico baixo de linhas palpáveis, obesas, coesas e intimidantes, uma bateria enérgica de ritmos explosivos, provocantes, fulgurantes e altivos, e de uma voz assanhada e diabrina – de tez ácida, melódica, magnética e gélida – que contrasta com a ardência infernal do instrumental. São 45 minutos capitaneados por um groove contagiante que ziguezagueia entre a potência e a indolência, a luminosidade e a obscuridade, a agitação e a prostração. ‘Astral Wanderer’ é um álbum verdadeiramente vultoso, assombroso e desconcertante que, decerto, não deixará ninguém indiferente.

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terça-feira, 2 de abril de 2024

Review: 🌞 Thomas Greenwood and the Talismans - 'Ates' (2024) 🌞

★★★★☆

Da cidade de Bérgamo (situada no norte de Itália) chega-nos a fragância primaveril transudada pela ensolarada banda Thomas Greenwood and the Talismans que nos aquece, enternece e inebria com o seu novo álbum intitulado ‘ATEŞ’ e lançado pela mão do selo discográfico romano Subsound Records através dos formatos LP, CD e digital. Velejando os majestosos, ondeantes e espumosos mares – pincelados a um azul diamantino e sobrevoados por uma suave brisa refrescante – de um ofuscante, maravilhoso, lustroso e apaixonante Neo Psychedelic Rock sarapintado de avermelhados temperos turcos e de inspiração colhida no fértil território sessentista, que se passeia livre e graciosamente lado a lado com um bucólico, refinado, melódico e rural Folk de clima tropical, este segundo álbum da formação italiana bronzeia o ouvinte de um fulgurante misticismo que o cega do primeiro ao derradeiro tema. Representando uma cidade imaginária, escondida sob as montanhas da Turquia, um lugar mágico enterrado pelo tempo onde os homens encontraram abrigo e conforto durante as mais duras catástrofes ambientais, ‘ATEŞ’ é um autêntico oásis espiritual que purifica quem nas suas mornas águas se banhar. São 39 minutos oxigenados a colorida acidez, tímida luzência crepuscular e caleidoscópica embriaguez. Uma atmosfera etérea, anestésica e ataráxica, de um paradisíaco sonho acordado, que nos abranda o ritmo cardíaco, ventila a alma, desabrocha o sorriso e abrilhanta o olhar com matéria estelar. Um deslumbrante ritual de consagração e expurgação espiritual que nos transcende ao misterioso universo sideral. Icem as velas ao sabor de duas guitarras surfistas que deambulam em enleantes, açucarados, sagrados e magnetizantes serpenteios de exuberante caligrafia árabe, de um bailante baixo reverberado a um bafo swingado, ondeante, elástico e pululante, de uma requintada bateria tiquetaqueada a um galope relaxado, cativante, enfeitiçante e cuidado, e ainda de uma voz caramelizada, espectral, celestial e aveludada que ecoa pelos róseos firmamentos de um crepúsculo que nunca se rende aos negros véus da noite. ‘ATEŞ’ é um álbum tremendamente sedutor que nos intoxica de reconfortante lisergia e gravita em torno da beatitude. Um registo irresistível que se equilibra elegantemente em simetria sem por um pé fora da acalmia. Uma terapia com toques de magia, sublimemente musicada, que nos manterá protegidos, adormecidos e à distância de qualquer desassossego. O nirvana encontrado e comungado.

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