
Inesperadamente
acordados de uma longa e desesperante hibernação com sete anos de duração, os remodelados
texanos Crypt Trip estão finalmente de volta – para minha indisfarçável
e extravasante emoção – às poeirentas estradas desbravadas e viajadas no
passado por inesquecíveis álbuns como ‘Rootstock’ de 2018 e ‘HazeCounty’ de 2019. ‘Hard Ride to Venus’ dá nome ao tão ansiado
regresso deste tridente domiciliado na cidade de Austin que vem até nós sob
a exclusiva forma digital com selo autoral, mas com a intenção declarada de um
futuro lançamento em formato físico de prensagem ultralimitada e editada de
forma independente. Amanhecido e entardecido à empolgante boleia de um maturado,
ornamentado e aventureiro Southern Rock de carisma no coldre que corre à
rédea solta e lado a lado com um musculado, excitante e oleado Hard Rock
de roupagem clássica e um charmoso, envelhecido e lustroso Texas Blues
de brilho vintage, este belíssimo EP de indiscreta inspiração colhida nos
gloriosos anos setenta anoitece serena e demoradamente debaixo da pálida luz
lunar de uma balada Folk onde se testemunha com imperturbável feitiço e
uma leve embriaguez um fascinante, simbiótico e apaixonante diálogo tricotado ao
relento pelas cordas. Liberal, rústico, nostálgico e sentimental, ‘Hard Ride
to Venus’ é um registo de curta duração, mas intensa sedução que nos
desarma e conquista do primeiro ao derradeiro tema. De engraxadas texanas
calçadas e chapéu de aba larga reclinado na cabeça, deambulamos e saltitamos – de
olhar içado e cravado no firmamento – nas costas de um cavalo cansado pelos
terrosos e sinuosos trilhos do arenoso coração rural do velho Texas. Ricocheteando
entre apressadas, ritmadas e entusiasmantes cavalgadas de esporas
ensanguentadas, e caramelizadas, tórridas e desérticas baladas de uma esbatida
coloração sépia, vagueamos, sem destino traçado, pela desamarrada, perfumada e galante
sonoridade de Crypt Trip. Banhem-se nos ofuscantes desertos de ‘Hard
Ride to Venus’ superiormente musicados por uma guitarra com um irresistível
swag que se bamboleia em desdobráveis, serpenteantes, picantes e adoráveis
riffs e ziguezagueia em deslumbrantes, entrançados, delicados e
derrapantes solos, um baixo groovy de reverberação pulsante,
magnetizante e elástica, uma galopante bateria de sensibilidade e habilidade jazzísticas,
e vocais amarelecidos, acetinados, melodiosos e emotivos. São 25 minutos verdadeiramente
viciantes de um caleidoscópico encantamento que nos mantém confortavelmente relaxados
num inamovível estádio de plena ataraxia. Este idílico EP representa a
banda-sonora perfeita para emoldurar o último suspiro de um verão moribundo que
se entrega aos braços agasalhados do Outono.
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