terça-feira, 9 de junho de 2009

Promessa de uma nova Lua

Terça, final de tarde.
Com a chuva vem o cinzento. Em pé, atrás da janela indiscreta, observo a rua.
Sobre as minhas costas descansa um silêncio perturbador. Jazz da Etiópia. Aumento o volume.
Sinto-me ser fumado pelo vazio que me rodeia. As árvores dançam ao ritmo do vento. Melancolia bruta. Sombras. As chamas do fogo arrasam a madeira sem piedade. Sacrificio. Está frio. Solto as longas cortinas e abandono o quarto. De olhar convicto e passos direccionais, dirigo-me para a porta de entrada. Abandono a casa. Encolho os ombros e observo toda a rua. Está deserta. De cabisbaixo dirigo-me para o carro. Atiro-me contra o confortável banco e procuro acalmar a instabilidade que me visitara. Serenidade. Entrego a minha alma ao inconsciente, desprovido de qualquer ética. De cabeça desmaiada sobre o volante, fitando a ataraxia. Num gesto brusco, alguém abre a porta do carro e entra. É Ela...

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Dead Meadow - At Her Open Door

A chuva acalmou...
As ervas daninhas, que habitam o verde vale, estão de cabisbaixo.
A serenidade local é, então, interrompida. Longos e pesados passos massacram o solo. Arrastando um velho pinheiro consigo, o lenhador constrói caminho (aleatóriamente)... rumo á incerteza. Olhar cansado. Semi-cerrado. Incisivo. Determinado. Já há muito que os seus braços convivem com a força. Na sua retaguarda, aproxima-se um cão. Seu fiel companheiro. Daria a sua crua existência pela defesa do velho lenhador perante qualquer tipo de adversidade. Já há muito que o lenhador o alimenta com ossos encontrados ao longo de todo o vale. A chuva lança mais um forte ataque que, em nada afecta, a marcha inconsciente dos selvagens. Floresta. Densa. Escura. Húmida. As grandes torres que a protegem abordam os invasores. Estão, apenas, de passagem... Vazios de maléficas pretensões, apesar do aparato frio que denota o desfile fúnebre. Em seu redor, habita um sufocante silêncio. Suspeição. Defesa. De "mão no coldre" - espreita a Floresta. Arrastando o seu cadáver. O lenhador pára. Olha o céu. Estranhamente, um abutre circula a floresta, e contempla o lenhador. Cheiro a Morte. Pobre lenhador. Só o medo conseguiu mover aquelas pesadas pálpebras e se curvar perante o altar da vida. O cão, num meticuloso e rápido golpe mortal, julga o lenhador. Castigo acordado. Duros anos de paladar seco. Agora, poderás usufruir de toda essa exposição de Prazer... vasta panóplia de sabores. Ressuscita o teu instinto e sacia toda essa fome no sangue, antes que o húmido solo o afogue. Floresta! A mais lúcida testemunha.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Amusing the Amazing

Os, negros, bosques que radicam na Terra. Arvores arcaicas. Os, calorosos, desertos americanos que empoeiram a Terra. Coyotes asfixiados. Os pesados rios que se arrastam pela, enrugada, Terra. Águas opacas. As, elevadas, montanhas que descansam sobre os ombros da Terra e tocam o outro lado do céu. Aves absortas. As, enferrujadas, garagens que contemplam as cidades chuvosas e cinzentas. Ford Mustang, em, enfadonha, quarentena hibernal. Os sótãos sépia, sem vida. Guitarra desmaiada sobre o chão, cordas castigadas.

Sem um fim. Sem um inicio… Viagem vivencial pela ligação finita entre os termos infinitos.

domingo, 26 de abril de 2009

We can't get no satisfaction

Domingo

Pela, cansada, calçada junto ao rio Tejo, emerge-se uma sombra de um Homem. O seu olhar contempla as, fortes, ondas que embatem na costa. Um, repetido, cortejo de corpos despista o, vago, horizonte que Ele aborda. Felicidade inexperiente. Uma tarde cinzenta, uma tarde ventosa. Um teleférico vazio está imóvel sob os, pesados, céus e sobre a sua cabeça. Correntes familiares que se arrastam, deixando espectros de ferrugem nas, já pisadas, pedras da calçada marítima.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Sol

Deambular pela inconsciência. Corpo este, que pisa as longas estradas do sentido vivencial. Olhar endurecido. Cabeça anestesiada, desfalecida sobre os ombros. Anos que cansam as minhas têmporas. Nostalgias que mastigam os meus pulmões. Pálpebras entorpecidas. Cruas olheiras que afundam o horizonte, e me direccionam para os mais densos e escuros céus. É o velho drama que veste os palcos de cinzento e as personagens de tragédia, precipitação, … Um amanhã convicto, isento de ambiguidades.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Crown Of Thorns, Mother Love Bone

Estou sentado em frente á, calorosa, lareira. As velhas meias de lã desmaiam sobre os meus pés. Na rua está frio, e chove. Adoro o frio, a chuva, as nuvens negras… Desgosto pelo meu corpo não gostar. Estou doente. Exposição arriscada, na tentativa de uma aproximação familiar com o meu “melhor amigo”. Já estou habituado. Hoje tenho observado, do interior de casa, as nuvens, a chuva e o vento. Quarentena. O pequeno cachorro vadio foi vítima do castrador da liberdade. A minha visão, embora ensonada e anestesiada pela medicação, consegue penetrar pelos velhos e grandes carvalhos, e chegar às montanhas onde radicam os pinheiros. Não poderia ter melhor vizinhança. Estar aqui mais de um fim-de-semana, faz com que braços severos e mão capazes me impeçam de regressar a Lisboa. É a verdadeira concepção do conforto, da ataraxia. Tantos são os rostos que me abordam na rua, tantas são as mãos que me saúdam na rua, tantos são os sorrisos que me afagam na rua… Carrazeda de Ansiães, Trás-os-Montes. Tão mais que um nome, uma identidade. Alguns clássicos do Cinema (Europeu) têm me escoltado nesta jornada rumo ao bem-estar (físico). Venham mais dois paus secos e murchos para a fogueira, que as, adormecidas, chamas necessitam de saciar a sua, eterna, sede. Elas (Chamas) que ambicionam o Mundo. As nuvens estão a ser inspiradas pelo céu azul que surpreende o bô (expressão exclusivamente transmontana, pena o dicionário do Word não ser regionalista) povo. Já se sente a dolorosa percepção dos raios solares a trespassarem as núvens e fitando a minha face amarela. Janela, que todos os dias me permites contemplar a vida lá fora, aspiro ser como tu, ter essa defesa invicta, familiarizada com toda uma vasta panóplia de temperaturas, extremos, sem nunca vacilar. A morte tem essa estranha característica.

O bom velho tempo escocês voltou!

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Phil Anselmo


Cúmplicidade


Caïna - Temporary Antennae

Está uma noite fria. O vento forte e incisivo penetra por entre os, maduros, ramos das árvores. A estrada está deserta. Os numerosos candeeiros de iluminação pública, dispostos ao longo da rua, conformaram-se com as suas limitações, e assumem (de forma tímida) a, previsível, derrota que os assaltou. As árvores tremem. Os vidros do carro também. Música. Música que gosta de ouvir e de ser ouvida. Companheira constante da minha “viagem” vivencial. Silêncio. Transicção de tema. Folhas brancas que, apenas, suportam o pesado silêncio desmaiado sobre as almas opacas. Horizonte lisérgico.

quinta-feira, 2 de abril de 2009