segunda-feira, 29 de março de 2021

🌻 Roger Waters // Pink Floyd (Marselha,1972)


© Fernand Michaud

Review: ⚡ Spliffripper - 'Spliffripper' (2021) ⚡

★★★★☆

Proveniente da cidade de Kalispell – inserida no estado de Montana, EUA – chega-nos a psicotrópica, esverdeada e demoníaca exalação nasalada pelo tridente Spliffripper com o seu impactante álbum de estreia. De designação homónima e lançado muito recentemente pela mão do selo norte-americano Desert Records sob a forma digital e ainda numa ultra-limitada edição de 50 cópias em formato físico de CD, ‘Spliffripper’ vem fervido num pegajoso, fumegante, intoxicante e montanhoso Stoner Doom encrostado por um vulcânico, resinoso, enérgico e fogoso Sludge Metal que inflamam e atordoam o ouvinte do primeiro ao derradeiro minuto. A sua sonoridade tremendamente massiva, ácida e intrusiva – lubrificada a óleo de canabidiol e que aponta influências a vultosas referências do género tais como Bongzilla, Belzebong e Weedeater – perpetua-nos num profundo estádio de sedada euforia. De pálpebras semi-cerradas, narinas dilatadas e cabeça pesadamente balanceada de ombro em ombro, somos efervescidos e soterrados numa intensa narcose que nos alcooliza e emudece os sentidos. Na fórmula desta monolítica avalanche impregnada de THC (acrónimo de tetra-hidrocanabinol, perfila-se uma dominante guitarra Tony Iommi’esca de imponentes, tenebrosos, fogosos e contundentes Riffs, distorcidos a um urticante, escaldado e crocante efeito Fuzz, e de onde são destilados gritantes, alucinados, esvoaçados e borbulhantes solos, um corpulento baixo bafejado a linhas inchadas, obesas, coesas e pesadas, uma trovejante, robusta e provocante bateria detonada a intensa explosividade, e ainda uma voz de tonalidade abrasiva, fragosa, gutural e agressiva. ‘Spliffripper’ é um poderoso narcótico de ingestão auditiva que nos subtrai a lucidez e atesta de uma xamânica embriaguez. São 40 minutos integralmente sulfatados e saturados de tóxica, fumarenta, bafienta e maléfica radiação. Cambaleiem de orientação aturdida e embaciada pela ténue linha fronteiriça que separa a febril euforia da doce lisergia, e experienciem com total absorção um dos registos sonoros mais hipnóticos, nebulosos e psicotrópicos desenraizados até ao momento no fresco solo de 2021. Amortalhem-se e intoxiquem-se nele.

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sexta-feira, 26 de março de 2021

🔥 Sainte Anthony's Fyre - 'Sainte Anthony's Fyre' (1970)

🎁 45 years of Thin Lizzy - 'Jailbreak' (26/03/1976, Vertigo)

Review: ⚡ 1782 - 'From The Graveyard' (2021) ⚡

★★★★☆

Depois de em 2019 ter sido celebrada a sua primeira liturgia de adoração pagã (aqui descrita e reverenciada), os demoníacos sacerdotes italianos 1782 regressam agora ao herético e negro altar com mais um trevoso ritual. Batizado de ‘From the Graveyard’ e promovido pelo influente selo discográfico romano Heavy Psych Sounds sob a forma física de CD e vinil, este segundo álbum da banda mediterrânica que conhecera hoje mesmo a luz do dia vem chamejado e possuído por um intoxicante, inquisidor, aterrador e intrigante Doom Metal de macabra inclinação ocultista e umbrosas ressonâncias Black Sabbath’icas. A sua sonoridade luciférica, vigorosa, rumorosa e esotérica – banhada e encarvoada a um inflamante negrume que nos enluta e profana a alma – agiganta-se numa imponente, musculada, encrespada e trovejante avalanche de poderosos e fumegantes efeitos psicotrópicos. Arrasados, boquiabertos e incinerados pelas intensas, obscuras e densas labaredas que apimentam toda a misantrópica atmosfera de ‘From the Graveyard’, somos fervidos numa morfínica efervescência e prontamente convertidos em fiéis discípulos do lado eclipsado e emporcalhado da religiosidade. De olhar selado, semblante anestesiado e pesadamente tombado sobre o peito, e espiritualidade encoberta e sombreada por ameaçadoras nuvens tingidas a intensa pretura, vagueamos – absorvidos, sedados e aprisionados num inamovível estádio de sonambulismo – pelas melancólicas, embruxadas e fantasmagóricas paisagens de 1782 nas asas de uma guitarra perversa que se enegrece e enrijece na ascensão de titânicos, ímpios e mastodônticos Riffs de onde são vertidos penetrantes, ácidos e ecoantes solos, um baixo lúgubre de massiva, violenta e coerciva reverberação bafejada a potente intensidade, uma bateria explosiva vergastada a pujante, pausada e provocante ritmicidade, um teclado sinistro de fúnebres baladas condimentadas a trágica beleza, e ainda uma voz cadavérica, oxidada e colérica que se ergue do túmulo para emergir à tona de toda esta perniciosa, abissal e caliginosa nebulosidade. O ostentoso artwork cerimonial, de feição elucidativa e clima infernal, aponta os seus créditos de autor ao engenhoso designer gráfico SSCVLT. Deixem-se estremecer, petrificar e dissolver nesta diabólica fervura vulcanizada por 1782, e comunguem de forma devota todo este maldito rito de veneradas preces arremessadas na direcção do Anticristo.

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quinta-feira, 25 de março de 2021

🐋 Satin Whale - "I Often Wondered" (1974)

☀️ Colosseum - "The Valentyne Suite" (1969)

⚰️ Dunbarrow - "In My Heart" (2021, Blues for the Red Sun)

🎁 57 years of Buzz Osborne // (the) Melvins (25/03/1964)

🎁 49 years of Deep Purple - 'Machine Head' (25/03/1972)

Review: ⚡ Saturnia - 'Stranded in the Green' (2021) ⚡

★★★★☆

Depois de uma longa estadia na residência editorial da muito conceituada Elektrohasch (casa-mãe dos germânicos Colour Haze), que carimbara e promovera cinco dos seus sete álbuns lançados até à data, o talentoso multi-instrumentista português Luís Simões (ex-Blasted Mechanism) ao serviço de Saturnia acaba de celebrar um vínculo contratual com o produtivo selo discográfico alemão Sultron Records, e o primeiro fruto desta recém-formada relação está na iminência de ser colhido e saboreado. Com o seu nascimento oficial calendarizado para o dia de amanhã - sexta-feira, 26 de Março – através dos formatos físicos de CD e vinil (ambos limitados à prensagem de apenas 500 cópias disponíveis), este muito aguardado oitavo álbum, apelidado de ‘Stranded in the Green’, é consequência da enriquecedora exposição de Saturnia à religiosidade de deus Baco. Gravado dentro de uma moldura vínica, em perfeita comunhão com a natureza de vestes primaveris e onde toda uma resplandecência bucólica aliada a uma devoção mitológica fermentam e materializam este mélico e espirituoso néctar de ingestão auditiva, esta renovada, balsâmica e elaborada obra tricotada a duas mãos embriaga, afaga e reconforta o ouvinte com base num meditativo, ensolarado e imersivo Psychedelic Rock em afrodisíaca consonância com um lenitivo, hipnótico e criativo Space Rock. Oxigenada por um aventuroso experimentalismo que explora e perscruta os domínios alienígenas, e nos empoeira a alma de nebulosidade estelar, a onírica, arejada, espaçada e ritualística sonoridade de ‘Stranded in the Green’ gravita em órbita de um imperturbável estádio de plena tranquilidade. São 57 minutos – repartidos por nove temas (o vinil conta com sete faixas) de almas aparentadas – de inescapável hipnose pelos nirvânicos trilhos da introspecção. Perfilando e combinando toda uma panóplia de instrumentos – onde se lavram deslumbrantes diálogos entre uma messiânica guitarra de incessantes, alucinógenos e serpenteantes solos, um murmurante baixo de sombreada, densa e bafejada reverberação, uma cítara endeusada de extravagantes, proféticos e revitalizantes bailados, um místico gong de prolongados bocejos repletos de luz estival e empoderamento oriental, um cósmico sintetizador de majestáticos coros celestiais, um litúrgico mellotron de mugidos polifónicos, intrigantes e melancólicos, um clássico piano Rhodes de teclas harmoniosas, cheirosas e saltitantes, uma tambura indiana de magnéticos, absorventes e enigmáticos véus sonoros, chimes de colorida e tilintante luzência,  e uma bateria tribalista de compasso lento e minimalista – à sua voz macia, etérea e xamânica, Saturnia conta ainda com as presenças dos convidados Ana Vitorino (que embeleza o tema introdutório do disco com a sua recitada voz de entoação fantasmagórica e dramática) e Winga (que enriquece a percussão do segundo tema a trote de um acrobático djambé). ‘Stranded in the Green’ é um álbum de textura campesina, clima ensolarado, coloração esverdeada e afago espiritual que nos mantém suspensos num mântrico zen. Um registo de doutrina evangelista que nos alinha os chakras, eteriza e canaliza rumo ao tão desejado transe religioso. Bronzeiem-se, prazenteiem-se e canonizem-se numa das melhores colheitas da sua respeitável discografia.

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