sexta-feira, 28 de junho de 2019

© Yuri Hill

Review: ⚡ Frozen Planet 1969 - 'Meltdown On The Horizon' (2019) ⚡

Da grande e populosa cidade de Sydney chega-nos o 7º capítulo da extensa e quimérica odisseia celestial timonada pelo cativante power-trio australiano Frozen Planet 1969. Intitulado de ‘Meltdown On The Horizon’ e oficialmente lançado no passado dia 19 de Junho pela insuspeita editora local Pepper Shaker Records em formato de CD e pelo selo discográfico holandês Headspin Records sob a forma física de vinil, este seu novo álbum repete a receita sonora posta em prática nos álbuns que o antecedem. Alicerçado num hipnotizante, sublime e empolgante Heavy Psych de propensão astral – que se desdobra através de longas e evolutivas jam’s de cariz instrumental – este ‘Meltdown On The Horizon’ causa no ouvinte uma bipolaridade emocional tão capaz de o sepultar e anestesiar num profundo estádio de narcose como de o disparar e vibrar numa crescente e emancipadora erupção de pura adrenalina. De atenção fascinada e atrelada à psicotrópica musicalidade de Frozen Planet 1969, somos puxados para fora da gravidade terrestre e dissipados pela perpétua vacuidade de um Cosmos bocejante e inebriante. Contando ainda com uma forte dosagem de experimentalismo sónico que facilmente se dilui no estonteante psicadelismo que o irriga, ‘Meltdown On The Horizon’ convida-nos a ingressar num vertiginoso vórtice do qual não regressaremos sóbrios. Balanceiem todos os membros e sentidos ao sabor de uma exótica guitarra que vomita alucinantes, ácidos, caóticos e desviantes solos de elevada toxicidade, um baixo latejante de linhas magnetizantes, torneadas, musculadas e ondeantes que instintivamente nos instiga a sussurrá-lo, e uma estimulante bateria que – com inspirada ritmicidade – escolta e tiquetaqueia toda esta renovada improvisação destes destemidos astronautas de instrumentos empunhados. De destacar e elogiar ainda o majestoso artwork – ilustrado pelo artista indonésio Alfiandi – que nos escancara todo um portal cósmico e maravilha com o místico esplendor de uma colorida é vistosa paisagem alienígena. ‘Meltdown On The Horizon’ é um mirífico álbum detentor de um encantamento transbordante que facilmente nos seduz, prazenteia e conduz pelo universo onírico de um mavioso sonho acordado.

⚡️ Jesse Hughes // Eagles Of Death Metal

☄️ Electric Moon @ Freak Valley Festival (2019)

🎖 Heavy 25th Birthday 'Welcome to Sky Valley' (28/06/1994)

Sucking the 70's

quarta-feira, 26 de junho de 2019

Chris Cornell // Soundgarden

Review: ⚡ Electric Moon - 'Hugodelia' (2019) ⚡

Do alto do seu iminente 10º aniversário, os três astronautas germânicos Electric Moon acabam de lançar um novo álbum gravado ao vivo – engordando assim toda uma discografia que se dissemina a uma quantidade e velocidade estonteantes – para gáudio daqueles que – tal como eu – há muito escoltam e veneram as suas envolventes e fascinantes jam’s de propensão extraplanetária. Depois de os ter vivenciado ao vivo em 2015 no já extinto festival ribatejano Reverence Valada (review aqui) o deslumbramento que até aí nutria pelos Electric Moon sofrera um empolamento de tal ordem, que ainda hoje – passados quatro anos – tenho bem presente a ressaca que essa mágica experiência deixara em mim. E se é inegável que me confesso pouco apreciador de registos gravados ao vivo, Electric Moon consegue verter com imaculada fidelidade para cada uma das nossas casas toda a mágica essência que climatiza e condimenta as suas performances em palco. E este ‘Hugodelia’ não escapa à regra. Gravado ao vivo em 2018 no velho e carismático edifício austríaco Graf Hugo – que logo após essa actuação seria permanentemente encerrado ao público – este álbum adjectiva-se como que uma sentida e inspirada homenagem à vida desse histórico espaço enraizado na cidade austríaca de Feldkirch. Lançado no passado mês de Maio pela mão da insuspeita editora alemã Sulatron Records (numa edição em CD limitada a apenas 1000 cópias disponíveis) e da Pancromatic Records (em formato de vinil), este ‘Hugodelia’ vem atestado de uma inebriante poeira estelar que nos desenraíza da gravidade terrestre e magnetiza de encontro aos mais profundos e negros solos do imenso oceano cósmico. Destilada de um admirável equilíbrio entre a doce lisergia e a ardente euforia, a mística sonoridade que Electric Moon tricota e pulveriza ao vivo causa no ouvinte toda uma crescente hipnose que o canaliza pelas longas e evolutivas jam’s que se desdobram pelos domínios alienígenas da infinidade e majestosidade sideral. Uma enigmática essência que gradualmente nos suga de encontro à sua medula, numa anestésica levitação que desagua numa perfeita erupção de intenso prazer e revoltosa comoção. Icém as velas da consciência e desbravem os mares cósmicos bem para lá do lado eclipsado da Lua à boleia de uma endeusada guitarra de orientação Space & Psych, embrulhada e embriagada num experimentalismo sónico de onde florescem extravagantes, alucinógenos e delirantes solos de elevada toxicidade e durabilidade a perder de vista, um delicioso baixo Krauty que com as suas linhas pulsantes, robustas, onduladas e hipnotizantes nos murmura repetidamente as feições do riff-base, e uma agradável bateria detidamente entregue a uma constante cadência rítmica que tiquetaqueia e capitaneia esta fabulosa e aventurosa digressão por entre os mais secretos e solitários astros suspensos na mais longínqua verticalidade. ‘Hugodelia’ é uma experiência imersiva que nos faz sentir presentes na gloriosa despedida do Graf Hugo. Recostem-se confortavelmente, respirem pausada e profundamente, desmaiem as pálpebras sobre o olhar envidraçado e tombem o semblante eterizado de encontro ao peito. Electric Moon encarregar-se-á de tudo o resto.

Links:
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domingo, 23 de junho de 2019

🖤 Geezer Butler // Black Sabbath (via Ciao 2001 magazine 1972)

Low - "Rope" (I Could Live In Hope, 1994)

Pink Floyd - "A Saucerful Of Secrets" (Paris, 1969)

Review: ⚡ 1782 - '1782' (2019) ⚡

No já muito remoto ano de 1782, a helvética Anna Göldi – considerada a última bruxa da Europa a ser executada – era acusada de infanticídio, condenada e punida através de decapitação. Em sua homenagem – assim como também em honra a todas as restantes bruxas perseguidas, julgadas e executadas pela severa tirania da Santa Inquisição – o recém-formado duo italiano 1782 lança agora o seu homónimo álbum de estreia através dos selos discográficos seus conterrâneos Heavy Psych Sounds Records (em CD e vinil) e Electric Valley Records (em cassete). Enegrecido, distorcido e demonizado por um intrigante, lodacento, bafiento e atemorizante Psych Doom de veneração pagã, este ‘1782’ causara em mim toda uma imersiva sensação de ininterrupta fascinação que enlutara e profanara a minha alma do primeiro ao derradeiro tema. A sua sonoridade maléfica, tenebrosa, densa e ritualística – descendente natural da magia negra doutrinada por uns Black Sabbath e Electric Wizard – convida o ouvinte a ingressar e participar numa luciférica liturgia climatizada a ocultismo. Assim que os sinos ressoam por entre o relaxante som da chuva e dos longínquos rugidos baforados pelos trovões – numa clara menção ao histórico tema “Black Sabbath” de 1970 (tema homónimo e pertencente ao álbum homónimo da lendária banda inglesa) – somos hipnotizados, assombrados e arrastados pela titânica, influente e demoníaca ressonância exalada e propagada ao longo de todo o álbum, desaguando e despertando num crescente sentimento de Déjà vu assim que o tema conclusivo de ‘1782’ nos surpreende com uma inspirada reinterpretação do mítico tema “A Saucerful Of Secrets” (1968) de créditos apontados aos inigualáveis Pink Floyd. De olhar eclipsado, cabeça pesada e lentamente baloiçada junto ao peito, e alma amortalhada e embaciada nas profundezas de um oceano morfínico, somos banhados e enlameados pela negra reverberação de uma guitarra profana que se agiganta em poderosos, vigorosos e monolíticos riffs tonificados, vibrados e calcinados a efeito Fuzz, um baixo modorrento de linhas possantes, carregadas e magnetizantes, uma bateria trovejante de ritmicidade lenta, pesada e retumbante, um cerimonioso órgão Hammond de intrigantes, trágicos, melancólicos e arrepiantes bailados, e ainda uma voz avinagrada, ecoante, inebriante e desconsagrada que nos mancha e rasga as vestes da religiosidade. ‘1782’ é um álbum governado a uma pervertida sobranceria que nos converte em seus devotos peregrinos. Um impactante registo de audição incontornável a todos os apaixonados pelo lado mais herético e psicotrópico do Doom Metal. Deixem-se sombrear e conspurcar nos viscosos pântanos de 1782 irrigados pelo próprio Diabo, e comungar com intensa sedução toda a sua gloriosa dominância.

🌌 Stacia Blake // Hawkwind

🐫 Andrew Latimer // Camel

Mark Lanegan - "Strange Religion" [Anthony Bourdain, Seattle]