Em 2017 redigia apaixonadas
palavras ao impactante álbum de estreia do irreverente power-trio de origem nórdica Ball (review aqui), e hoje – imensamente
deslumbrado e embriagado com a luciférica nasalação do fantástico registo que o sucede –
sinto-me forçado a replicar toda a minha desmoderada devoção apontada a esta sui
generis formação sediada na cidade-capital sueca de Estocolmo.
Lançado muito recentemente pela mão da parceria discográfica local entre a Horny Records e a Subliminal Sounds nos
formatos físicos de CD e vinil (este último ultra-limitado à prensagem de
apenas 300 exemplares disponíveis para venda), ‘Like You Are…I Once Was…Like I Am –
You Will Never Be’ ostenta um bélico, vigoroso, gorduroso e diabólico Hard
Rock de roupagem vintage, ensopado num efervescente, enérgico, vulcânico
e erodente Heavy Psych de bruma psicotrópica, e atemorizado por um ritualístico,
enfeitiçante, horripilante e enigmático Proto-Metal de galope revivalista e adoração
ocultista. A sua sonoridade fumegante, acrimónia e narcotizante – regada a diluviana lava
incandescente, e emporcalhada pelo borbulhante, abrasado e intoxicante efeito Fuzz
– é motorizada e carburada por uma guitarra pagã que se manifesta em afrodisíacos,
imperiosos, majestosos e monolíticos Riffs Iommi’escos
de onde trepam serpenteantes, ácidos, alcoolizados e esvoaçantes solos, um bafejante
baixo de possante, densa, tensa e ondulante reverberação, uma bateria combativa
de picante, enfática, dinâmica e rutilante ritmicidade, e ainda decrépitos vocais
de expressão depravada, cavernosa, oleosa e eriçada que lidera com distinção
toda esta vampírica liturgia. Deixem-se dissolver, consumir e revolver nas labaredas
infernais de Ball e vivenciem de forma detida e vivida este seu tão
ansiado regresso. Não vai ser fácil escoar toda a sedada euforia que nos
atestara e esporeara do primeiro ao último minuto. Escaldem-se e profanem-se neste sarcófago em constante
ebulição, e banhem-se no violento negrume que o assombra. Um dos meus registos favoritos do presente ano está aqui: na demoníaca combustão deflagrada por um álbum que aos meus ouvidos resvala nas fronteiras da perfeição.
segunda-feira, 17 de agosto de 2020
domingo, 16 de agosto de 2020
sexta-feira, 14 de agosto de 2020
quinta-feira, 13 de agosto de 2020
Review: ⚡ Ellis / Munk Ensemble: 'San Diego Sessions' (2020) ⚡
Depois de uma
travessia transatlântica com origem na Dinamarca e destino na idiossincrática
cidade de San Diego (Califórnia, EUA) – a consumada Shangri-La
do Heavy Psychedelic Rock – o conceituado músico nórdico Jonas Munk
(Causa Sui) decidira liderar e timonar na honrosa companhia do influente
Brian Ellis (Astra) toda uma populosa tripulação de consagrados
músicos locais, provenientes de renomadas bandas como Radio Moscow, Sacri
Monti, Monarch, Psicomagia, Astra e Ocelot,
numa auspiciosa mas gloriosa odisseia musical. De âncora recolhida, velas
içadas e bússolas apontadas a um aventuroso, eloquente, irreverente e engenhoso
Avant-Garde Jazz envolvido e revolvido num criativo, dançante,
contagiante e expressivo Progressive Rock regados a um sumarento psicadelismo
Woodstock’eano e a um exótico experimentalismo sem
fronteiras que o espartilhem, ‘San Diego Sessions’ representa uma
carnavalesca conferência brilhantemente musicada por talentosos músicos de
almas aparentadas que me dilatara as pupilas, salivara os ouvidos e enfeitiçara
a alma do primeiro ao derradeiro minuto. Desdobrado em estéticas, intuitivas e
proféticas Jams bronzeadas pelo Sol californiano e borrifadas pela brisa
oceânica que pendulam entre a absorvente lisergia e a ardente euforia, ‘San
Diego Sessions’ conserva – apesar da sua formação rotativa em cada um
dos temas – uma reinante cumplicidade inata e transversal a todos os artistas
que o esculpem e coloram. Na génese deste paradisíaco bacanal de magnetizantes
diálogos instrumentais está uma messiânica guitarra Hendrix’eana
de solos uivantes, espirais e esvoaçantes, um baixo bafejante de linhas
vagueantes, hipnóticas e murmurantes, um carismático órgão de frescas melodias
fabulares, cósmicos sintetizadores que auscultam os domínios alienígenas, e uma
polvorosa bateria – que aliada a uma percussão tribalista – se manifesta em
estonteantes acrobacias circenses. É-me ainda essencial elogiar o vistoso artwork
– soberbamente desenhado pelo inconfundível traço de Alan Forbes – que
conta com a inclusão de indiscretas alusões ao muito prestigioso ilustrador
californiano Rick Griffin, um dos mais relevantes artistas responsáveis pela
transposição para o universo visual de todo o psicadelismo musicado e
borbulhado nos vivificantes anos 60. Degustem sem moderação este espirituoso cocktail
de aroma tropical e vivenciem toda a onírica alquimia vaporizada por este
fantástico colectivo de instrumentos revestidos a um dourado revivalismo. ‘San
Diego Sessions’ será oficialmente lançado amanhã sob a forma física de
CD e vinil através da insuspeita El Paraiso Records, e encerra legítimas
aspirações de firmar uma posição de grande destaque por entre os melhores
álbuns lançados este ano. Um disco que se vislumbra do tamanho das minhas expectativas a ele previamente apontadas. Prazenteiem-se neste rico banquete que vos saciará
todos os sentidos, e embarquem num empolgante safari pela inesgotável liberdade
criativa desta belíssima cidade à beira-mar plantada.
Links:
➥ El Paraiso Records
➥ El Paraiso Records
quarta-feira, 12 de agosto de 2020
terça-feira, 11 de agosto de 2020
segunda-feira, 10 de agosto de 2020
Review: ⚡ Rocky MTN Roller - 'Rocky MTN Roller' EP (2020) ⚡
Da cidade arborizada de Asheville
(localizada no estado norte-americano de Carolina do Norte) chega-nos a
psicotrópica radiação vaporizada pelo vulcânico EP de estreia do
recém-formado quarteto Rocky MTN Roller. Esta jovem banda liderada pelo já
afamado músico norte-americano Zach Blackwell (baixista de Danava
e guitarrista de Lecherous Gaze) respira e transpira um fumegante, eufórico,
melódico e picante Proto-Metal aliado a um extravagante, enérgico,
caótico e delirante Heavy Psych de espírito Boogie
que nos chicoteiam, revolvem e incendeiam com expressiva e altiva dominância. Oficialmente lançado no mês de Março sob a forma digital e muito recentemente também em cassete
através do selo discográfico texano Olde Magick Records, este seu provocante,
fogoso e contagiante registo homónimo traz-nos uma intensa efervescência sonora
que nos enevoa, pontapeia e atordoa do primeiro ao derradeiro minuto. Contando
ainda com resquícios de uma melancólica, musguenta e narcótica acidez que muito
me faz recordar os saudosos Caustic Resin, a sua musicalidade vivificante,
combativa, persuasiva e empolgante é (des)temperada a um toque garageiro
que esporeia, ruboriza e chameja os quatro temas que o incorporam. São 18
minutos completamente atestados de uma febril ardência saturada e borbulhada
por duas guitarras imperiosas que se auxiliam na ascensão de rumorosos, monolíticos
e resinosos Riffs, e confrontam em épicos duelos de alucinantes, sensacionais
e estonteantes solos em selvática debandada, um incansável baixo pululante de densa, tensa
e sombreada reverberação, uma bateria Punky locomovida a destravado
galope de uma enérgica, explosiva e frenética ritmicidade, e ainda uma liderante
voz rugida de forma escarpada, cáustica e enrouquecida que apimenta ainda mais
todo este exaltado caldeirão em crescente ebulição. ‘Rocky MTN Roller’
é um EP de alma rebelde que em nós detona todo um acalorado frenesim. Deixem-se
absorver, fervilhar e euforizar pela ciclópica e despótica exuberância gritada e destilada pela arrebatadora estreia de Rocky MTN Roller, e velejem como
conseguirem os tempestuosos mares que o governam.
Links:
➥ Facebook
➥ Bandcamp
➥ Olde Magick Records
➥ Bandcamp
➥ Olde Magick Records
domingo, 9 de agosto de 2020
sexta-feira, 7 de agosto de 2020
Review: ⚡ Rafael Denardi - 'Adios, Rick' EP (2020) ⚡
Poucos meses depois de Rafael
Denardi nos ter presenteado e alvoroçado com uma intensa dosagem de ardente,
vistoso, ostentoso e empolgante Heavy Blues – brilhantemente lavrado e chamejado
no seu fabuloso EP de estreia ‘Two Handfuls of Rock’ (nascido
no início do presente ano, e aqui descrito e devidamente elogiado) – eis
que este auspicioso, versátil e talentoso multi-instrumentista brasileiro
redirecciona agora a sua bússola para os apaixonantes territórios de um elaborado,
refrescante, deslumbrante e requintado Progressive Rock fielmente resgatado
dos dourados anos 70 e aqui hoje espelhado com um (in)discreto cunho pessoal.
Tal como a sua designação e respectivo artwork assim o sugerem, ‘Adios, Rick’ simboliza a sentida homenagem ao estimado e carismático baixo Rickenbacker
4003 que o autor natural da cidade de São Paulo entretanto
vendera. Responsável pela condução de todos os instrumentos que o cultivam e
pela criação da ilustração que o emoldura, Rafael Denardi tem neste seu novíssimo
e segundo EP (gravado em sua casa durante o período de quarentena a que o vírus COVID-19 obrigou a humanidade) um registo que decerto merecerá a fascinada e entusiasmada aprovação
de todos os devotos discípulos do clássico Prog Rock semeado e colhido
no fértil solo setentista. Tendo o seu lançamento oficial agendado para
o próximo dia 14 de Agosto através do exclusivo formato digital com o editorial
carimbo autoral, ‘Adios, Rick’ é um sólido trabalho digno de
conquistar a atenção das editoras discográficas fielmente dedicadas ao género
em que o mesmo se insere, e consequentemente promove-lo em formato físico para
gáudio de todos os seus ouvintes. Na génese de toda esta orgásmica simbiose
instrumental, reina um fibrótico baixo de reverberação ondulada, viçosa, melodiosa
e empolada, um glorioso órgão de frescas, esdrúxulas e principescas harmonias
desdobradas a um imersivo erotismo, uma operante bateria de toque lustroso,
acrobático, enfático e cuidadoso, e uma voz polida que deambula livre e
graciosamente por todo este cabaret musicado. Sintonizado nas mesmas
frequências de vultosas referências como Gentle Giant, Genesis, Atomic
Rooster, Camel e Uriah Heep, este renovado rasgo de irretocável
inspiração – inteiramente arquitectado e executado a uma só cabeça e duas mãos –
causara e conservara em mim todo um intenso turbilhão de cegante sedução que me
embriagara e arrebatara ao longo dos seus 18 minutos de extensão temporal. Este
é um registo verdadeiramente magistral – oxigenado a um irresistível revivalismo
que prontamente me hipnotizara e forçara a cair na sua tentação – e que apenas
peca pela sua curta durabilidade. Depois de dois EP’s desiguais no que à
tipologia sonora diz respeito (pois quanto à qualidade, o ponteiro continua a
garantir altas rotações), resta saber com que género de surpresa sonora Rafael
Denardi nos irá brindar na exploração do seu próximo trabalho. Isto, embora
seja uma evidência de que muito dificilmente o mesmo não será do meu inteiro
agrado e aqui seguidamente desmontado com recurso a sinceras palavras de apreço
e devoção.
quinta-feira, 6 de agosto de 2020
quarta-feira, 5 de agosto de 2020
terça-feira, 4 de agosto de 2020
Review: ⚡ Atlanta - 'Nugrybauti' (2020) ⚡
Da Holanda chega-nos ‘Nugrybauti’,
o segundo e novo trabalho de longa duração produzido pelo alucinante power-trio
Atlanta. Oficialmente lançada na segunda metade do precedente mês de
Julho tanto em formato digital como sob a forma física de vinil (reduzido a uma
edição ultra-limitada à prensagem de apenas 250 cópias rotuladas pela editora
discográfica local Lay Bare Recordings), esta extensível e apaixonante odisseia
de interiorização via auditiva pela desmedida vacuidade do Cosmos bocejante tem
como seu primordial combustível um intoxicante, imaginativo, expressivo e
delirante Heavy Psych – distorcido por um sónico experimentalismo
que nos atordoa a lucidez, e talhado a uma refrescante aura jazzística
que nos matiza a embriaguez – que pendula entre a euforizante, carnavalesca
e provocante efervescência e a relaxante, cinematográfica e extasiante quietude.
A sua sonoridade maravilhosamente complexa, de paisagens e climas desiguais, é norteada
e desenvolvida à boleia de intuitivas, exploratórias, enlouquecedoras e
criativas jam’s de natureza e destreza puramente instrumentais
provocam no ouvinte um inamovível estádio de ofuscante deslumbramento que o
climatiza ao longo dos seus respectivos 62 minutos de duração. De pés descalços,
enraizados nas bronzeadas e fervilhantes areias do deserto, e cabeça soterrada
na vertiginosa e visceral verticalidade do negrume cósmico, somos seduzidos e
conduzidos por uma uivante guitarra de exótico idioma Hendrix’eano
que se perde e encontra por entre extravagantes, esvoaçantes, orgiásticos e
estonteantes solos guiados a desarmante sagacidade e oleados a elevada
toxicidade, um baixo pesadamente murmurante de serpenteantes, densas, tensas e
ondeantes linhas sombreadas a fibrada reverberação, e uma bateria soberbamente Jazzy
que – com um toque lustroso, saltitante, libertino e harmonioso – tiquetaqueia
e capitaneia de forma airosa e graciosa toda esta temerária embarcação por nirvânicos
e revoltosos mares que a esperam nos inesperados horizontes de ‘Nugrybauti’.
Este é um álbum de estética veraneia onde a doce melancolia e a espirituosa
euforia convivem em alegre concordância. Velejando e naufragando por todo um profundo
espectro de emoções fortemente contrastadas, somos mutuamente sedados e agitados
pela heterógena musicalidade de Atlanta. Inalem a fresca brisa suspirada
pelas ondas do oceano e transpirem a vulcânica ardência que incendeia o
deserto. Diluam-se no fértil improviso deste tridente holandês e experienciem
todo o intenso encantamento farolizado pela magnetizante, admirável e dialogante
simbiose que cola e não mais descola os três instrumentos. Uma das mais arrebatadoras surpresas sonoras do
ano está aqui.
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