sexta-feira, 1 de novembro de 2019

🐸 Dead Meadow - "Beyond the Fields We Know" (2001)

🎖 Heavy 27th Birthday Sleep's Holy Mountain (11/1992 via Earache Records)

Review: ⚡ Zip-Tie Handcuffs - 'Warm Shadows' (2019) ⚡

Directamente de Boston (a capital e mais populosa cidade do estado norte-americano de Massachusetts) chega-nos ‘Warm Shadows’, o ardente e excitante novo álbum do irreverente tridente Zip-Tie Handcuffs. Lançado no Verão já findado não só em formato digital como nos formatos físicos de vinil (edição autoral) e cassete (ultra-limitada a uma reduzida edição de apenas 100 cópias disponibilizadas pelo selo discográfico nova-iorquino King Pizza Records), este provocante registo vem lavrado e inflamado por um apimentado, flexível, furioso e despachado Garage-Punk de estética radical, que é simultaneamente refrescado e desacelerado pela etérea e salgada brisa oceânica de um dançante, hipnótico, lisérgico e cativante Surf-Rock trazido das ensolaradas praias sessentistas, e colorado e abrasado por um vulcânico, enigmático, agradável e messiânico Psych Rock de (in)discretas aproximações aos territórios da Neo-Psychedelia. A sua sonoridade de bafagem veraneia e exótica ritmicidade – tanto lavrada e acicatada por uma chamejante e borbulhante efervescência que nos atesta e infesta de uma inquietante euforia, quanto massajada e apaziguada por uma psicotrópica bonança que nos canaliza e nebuliza numa ataráxica hipnose – encarcera o ouvinte num fascinado estádio de intensa e fremente devoção que o corteja do primeiro ao derradeiro tema. Como ingredientes deste caldeirão abraçado pelas chamas e em constante ebulição estão uma guitarra catalisadora de serpenteantes, fogosos, acintosos e urticantes riffs de onde se desenraízam desenfreados, gritantes, ondulantes e alucinados solos de elevada toxicidade, um possante baixo de reverberação empolada, fibrótica e sombreada, uma dinâmica bateria em polvorosa de cadência galopante, frenética e entusiasmante, e ainda uma espectral, translúcida e ácida voz – perseguida de perto por um angelical, melódico e cristalino coro vocal – que lidera com destacada influência e magnificência toda esta contagiante revolução. Este ‘Warm Shadows’ é um álbum imensamente incitante que nos esporeia e pontapeia os batimentos cardíacos a alta rotação. Um desconcertante registo que – embora locomovido e conduzido a duas velocidades contrastadas – nos envolve, revolve e dispara na direcção de uma progressiva vertigem sem destino à vista.

terça-feira, 29 de outubro de 2019

🎖 Happy 73rd Birthday Peter Green!

📸 Fleetwood Mac, 1970 - Michael Putland

🍒 Laura Pleasants // Kylesa

🌴 Fu Manchu // Hipnosis 2019

💤 Duane Allman & Gregg Allman (Rolling Stone, 1972)

📀 Desert'Smoke - 'Karakum' (?/11/2019)

Review: ⚡ Crypt Trip @ Barracuda, Porto ⚡

Os texanos Crypt Trip são hoje uma das grandes bandas da minha vida. Lembro-me de tropeçar no seu EP ‘Mabon Songs’ algures em 2016 e não mais ter recuperado da queda. No passado ano de 2018 lançavam o impecável ‘Rootstock’ (devidamente namorado aqui) que me forçara mesmo a considerá-lo como o melhor álbum desse ano (listagem completa aqui), e já no presente ano de 2019 apresentaram o seu tão (por mim) ansiado novo álbum ‘Haze County’ (copiosamente apreciado aqui) e que até ao momento se perfila como o meu álbum de eleição deste prolífico ano (no que à quantidade e qualidade da produção musical diz respeito) que caminha a passos largos para o crepúsculo da sua existência. Foi – portanto – com um vibrante empolgamento que digerira a tão apetecida notícia de que este Outono os Crypt Trip viriam a Portugal pela primeira vez com duas datas agendadas para as cidades de Porto e Lisboa, através da promoção conjunta entre a editora discográfica italiana Heavy Psych Sounds e a influente promotora portuguesa Garboyl Lives. Sendo transmontano e vivendo em território transmontano, foi-me demasiado simples eleger a cidade do Porto como o destino escolhido para me estrear frente a uma banda que causa em mim todo um titânico impacto emocional. Não só me estreava apenas a experienciar Crypt Trip ao vivo, como pisava também pela primeira vez o novo espaço Barracuda – que promete futuramente ser o anfitrião portuense de tantas e tantas outras bandas do universo underground da música Rock – e o meu olhar atento e curioso – assim que entrara no bar – comprovava isso mesmo. Depois de algumas cervejas brindadas e muitas conversas partilhadas com os tantos rostos amistosos que por ali atracavam, o talentoso e apaixonante power-trio texano subia a palco debaixo de um barulhento aplauso e encorajadoras palavras gritadas por uma pequena plateia completamente incendiada e tomada pelo entusiasmo. Fora do palco sofria-se por antecipação, mas com a inabalável convicção de que se avizinhava algo para não mais esquecer (pelos melhores motivos, é claro).

E assim aconteceu: de baquetas firmemente empunhadas, instrumentos amplificados, microfone ajustado e alguns olhares envergonhados na direcção do público, os Crypt Trip estavam finalmente prontos para redecorar e metamorfosear o Barracuda num perfeito e poeirento Saloon fielmente trazido do carismático velho oeste. E assim que as rédeas foram agarradas e as esporas pontapeadas nas coxas, iniciou-se uma irrepreensível performance que certamente levarei e recordarei pelas restantes estações da minha vida. Descendentes de lendárias referências como Doug Sahm, Captain Beyond, James Gang, The Allman Brothers Band e The Grateful Dead, estes três jovens naturais de San Marcos (cidade localizada no estado norte-americano do Texas) presentearam todos os seus ouvintes com um populoso e original sortido sonoro de inspiração sessentista e setentista, de onde facilmente se apalada e saboreia um primitivo Texas Blues em erótica harmonia com um elegante Classic Rock, um dançante Southern Rock, um agradável Country Rock e ainda um electrizante Heavy Psych. Numa irretocável simbiose que enlaçava e oxigenava todos os instrumentos, os Crypt Trip balancearam a sua curta mas impoluta exibição numa adorável e fluída alternância entre desenfreadas, estonteantes, euforizantes e alucinadas galopadas que imediatamente aceleravam e atropelavam os nossos batimentos cardíacos, atestavam a nossa alma de adrenalina e desprendiam furiosamente as nossas cabeças rodopiantes no seu encalço, e melodiosas, relaxadas e sumptuosas baladas às quais ninguém se negava a bater o pé de sorriso sincero e olhar distante e sonhador. A plateia respirava plena satisfação pela calorosa sonoridade transpirada do palco, e a banda sentia e investia toda essa motivação numa performance inteiramente talhada e norteada a talento, ardência e sentimento. A guitarra simultaneamente trovadora e impetuosa – de provocantes, tórridos e serpenteantes Riffs que desaguam e se perdem na ciclónica comoção de atordoantes, furiosos, majestosos e ziguezagueantes solos de elevada toxicidade – é perseguida e sombreada bem de perto pela quente e eloquente reverberação bafejada por um baixo deliciosa e criativamente Krauty de linhas pulsantes, hipnóticas, fibróticas e possantes, e acicatada por uma provocante bateria locomovida a circenses acrobacias temperadas a desarmante subtileza e impressionante destreza que ganhara e conquistara total protagonismo no derradeiro tema do concerto quando de forma decidida e ousada arrancara para um desconcertante, inventivo, selvático e contagiante solo à boa moda do polvoroso e espalhafatoso John Bonham, que nos deixara a todos de olhos bem arregalados, ouvidos salivantes e semblantes boquiabertos. De destacar ainda a voz tanto melosa e revoltosa que se ambienta na perfeição aos mais variados climas de Crypt Trip.

No final estávamos todos suados, perplexos e embriagados pela enlouquecedora montanha-russa que havia sido a honrosa experiência de vivenciar Crypt Trip acima de palco. O olhar luzidio de todos os presentes dizia tudo aquilo que a boca muda não conseguia soletrar e exteriorizar. As gigantescas expectativas previamente maturadas estavam então integralmente saciadas, e os três músicos devidamente congratulados. Foi um concerto do tamanho da desmedida admiração que nutro pela banda e um dos mais especiais e tocantes da minha vida. O meu sentido agradecimento a todos os responsáveis por tornarem isto possível.

* Fotografias gentilmente cedidas pela
downclose.

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

✠ Lemmy Kilmister // Motörhead ✠

🍒 Chuck Berry '68

⛱ Chevrolet Corvette Asteroid 1963

🎙 King Gizzard & The Lizard Wizard @ KEXP (2019)

What is Stoner Rock ❓

Review: ⚡ The Dues - 'Ghosts of the Past' (2019) ⚡

Depois de em 2017 ter ficado pasmado com ‘Time Machine’ (devidamente reverenciado aqui), premiando-o mesmo como um dos melhores álbuns nascidos nesse mesmo ano (listagem completa aqui), o talentoso tridente suíço The Dues acaba de lançar hoje mesmo o seu novo álbum apelidado de ‘Ghosts of the Past’ e promovido em formato digital e sob a forma física de CD e vinil pela mão das editoras discográficas locais Sixteentimes Music e Czar of Crickets Productions. Tratando-se de um dos registos por mim mais aguardados de 2019, prontifiquei-me sem demoras a experienciá-lo na íntegra e devo já antecipar que o mesmo extravasara largamente as mais altas e elogiosas expectativas a ele previamente dedicadas. Natural de Winterthur (Zurique) este fascinante e entusiástico power-trio incendeia-se num poderoso, chamejante, afrodisíaco e ostentoso Heavy Blues de roupagem e fragância revivalistas, que homenageia – de forma irrepreensível e exemplar – velhas e carismáticas referências como Rory Gallagher, Ten Years After, ZZ Top, Cactus, Cream, Led Zeppelin ou The Jimi Hendrix Experience. A sua sonoridade fervorosa, requintada, irresistível e vistosa passeia-se envaidecida e graciosamente por uma equilibrada conjugação entre o dinamismo, a imaginação e o tecnicismo. De olhar semi-cerrado, sorriso imperturbável e cabeça baloiçada de ombro a ombro, somos enfeitiçados, contagiados e abalados pela apurada e sublimada virtuosidade que este fabuloso ‘Ghosts of the Past’ transpira e destila por todos os seus poros. Nesta lasciva combustão de destreza, subtileza e emoção vem ao de cima a desarmante destreza de uma guitarra endeusada que se mexe e remexe na apaixonante condução de majestosos, presunçosos, expressivos e espirituosos Riffs de onde germinam e florescem voluptuosos, serpenteantes, alucinantes e espalhafatosos solos, a dançante reverberação de um baixo diligente que se movimenta por entre linhas torneadas, sinuosas, vaidosas e sombreadas, a inquietante sagacidade de uma bateria circense que se enleva e sobressai à boleia de provocantes, aparatosas, revoltosas e estonteantes acrobacias, e ainda a fresca vivacidade de uma voz avinagrada, melódica e enregelada que confere uma isolada acidez à vulcânica efervescência borbulhada pelo instrumental. ‘Ghosts of the Past’ é um álbum movido, fervido e nutrido a um intenso e saturado entusiasmo que nos liberta e atesta de adrenalina. Um disco previsivelmente pensado e forjado à minha imagem e que certamente estará perfilado por entre os mais venerados e elogiados registos lançados no presente ano.