Depois do EP
de estreia ‘Hidden Mirage’ (lançado em 2018 e aqui explanado) e
do álbum ‘Karakum’ (lançado em 2019 e aqui analisado), os druidas
desérticos Desert Smoke estão finalmente de regresso com o nascimento do
seu muito aguardado novo trabalho de longa duração – de denominação homónima e
com a edição a cargo do insuspeito selo discográfico português Raging Planet
através dos formatos LP, CD e digital – e, devo antecipar, que se trata do meu
registo favorito destes cosmonautas portugueses. Incensada por um intoxicante,
místico, atmosférico e electrizante Heavy Psych que se agiganta, encrespa
e obscurece num montanhoso, belicoso, imponente e contagioso Psychedelic
Doom, a esfíngica, cerimonial e camaleónica sonoridade de ‘Desert Smoke’
é farolizada pela simbiose instrumental, lavrada por uma extravagante
caligrafia árabe e perfumada por uma doce fragância oriental. As suas
absorventes, criativas, intuitivas e incandescentes jams que evoluem de
estados contemplativos, letárgicos e reflexivos – banhados a deífica, plácida e
seráfica beatitude – para explosivas, agressivas e orgásmicas erupções de
incontida e diluviana adrenalina, tanto embrumam o ouvinte numa açucarada
anestesia, como o estremecem e enlouquecem de sísmica e vulcânica euforia. Governado por atmosferas virulentas, sulfurosas, arenosas e fumarentas que se adensam num
mistério tentador, somos engolidos e cativados do primeiro ao derradeiro tema. São 35
minutos com vista panorâmica e desabrigada para a eterna noite sideral.
Desancorados da gravidade terrestre e mergulhados nas profundezas abissais do
infindável oceano cósmico, somos embalados na sónica vertigem de Desert
Smoke, trespassando quasares, montando cometas e driblando massivos astros
solitários. Toda uma fantástica odisseia intergaláctica superiormente musicada
por duas guitarras sultanas – dominadas pela rugosidade e fogosidade do efeito Fuzz
– que se entrançam na condução de ciclónicos, enfeitiçantes e catatónicos riffs,
e destrançam num inesgotável manancial de solos ácidos, alucinados e esvoaçantes,
um baixo hipnótico de linhas carnudas, sisudas e dançantes, e uma bateria estimulante
que – com a robótica precisão de um relógio suíço – tiquetaqueia com total perseverança
a tempestade e a bonança. Este é um álbum piramidal – de natureza celestial,
consagração sensorial e dilatação consciencial – que tanto nos inebria, amolece
e extasia com as suas edénicas paisagens introspectivas, como aspira, centrifuga
e sobreaquece com os seus inflamados e selváticos remoinhos. Aventurem-se e desventurem-se nesta
impactante, febril e viciante alucinação que varre todo o Cosmos, distorce as
coordenadas do espaço-tempo e resvala nas costuras fronteiriças da perfeição.
Links:
➥ Facebook
➥ Instagram
➥ Bandcamp
➥ Raging Planet