quinta-feira, 22 de agosto de 2019
quarta-feira, 21 de agosto de 2019
Review: ⚡ The Black Wizards - 'Reflections' (2019) ⚡
Os The Black Wizards
habituaram todos os seus crescentes apreciadores a testemunharem por cada novo registo
lançado um passo em frente no caminho da maturação enquanto banda, mas este
terceiro e novo álbum não representa um passo evolutivo – quando comparado com
o seu antecessor – mas um verdadeiro salto olímpico na escala qualitativa que o
firmara não só como o trabalho mais completo da banda minhota até à data, mas como
um dos melhores álbuns que ouvi neste já farto ano de 2019. Depois de ‘Lake
of Fire’ de 2015 (review aqui), ‘What the Fuzz!’
de 2017 (review aqui), este talentoso quarteto prepara-se agora
para apresentar ‘Reflections’ – mantendo o seu já habitual
intervalo temporal de dois anos a balizar cada álbum – que tem o seu nascimento
oficial agendado para a próxima sexta-feira (23 de Agosto) pela mão da já
influente editora portuguesa Raging Planet (em formato de CD) e pelo fértil
selo germânico Kozmik Artifactz (em formato de vinil, repartido em variadas
edições ultra-limitadas a poucas dezenas de cópias físicas existentes). Ainda
assim, foi-me dada a irrecusável oportunidade de experienciar na íntegra e com
antecedência este seu novo álbum, e o que se segue é o mais fiel reflexo
vertido do universo emocional para o domínio textual de tudo o que o mesmo em
mim provocara e despertara.
De raízes soterradas num atraente,
perfumado, poeirento e excitante Heavy Blues – à boa moda de All Them
Witches mas com um vincado cunho pessoal – que conjuga na perfeição a sua carismática essência rudimentar trazida dos velhos campos de algodão lavrados na região delta do Mississippi, com um electrizante paladar a modernidade, a complexa e apaixonante sonoridade de ‘Reflections’ passeia-se por entre incandescentes, dinâmicas, vulcânicas e comoventes galopadas brilhantemente
esporeadas e inflamadas a efeito fuzz, e estarrecedoras baladas sublimemente
dedilhadas a um suavizante, ataráxico e inebriante Folk de inspiração Western
que prontamente nos remete para a xamânica solitude num anoitecer desértico
onde só os uivantes coiotes preenchem o purificante silêncio. De olhar
semicerrado, sorriso paralisado, cabeça e tronco bamboleantes e alma
completamente tomada por uma imperturbável sensação de pura fascinação, somos
incessantemente instigados por duas guitarras inspiradas que se entrelaçam em prazerosos,
místicos, arábicos e ostentosos riffs, e desenlaçam em borbulhantes,
ácidos e delirantes solos, um sombreado baixo balanceado a linhas sussurrantes,
fluídas e serpenteantes, uma inventiva bateria de toque polido, esmerado, cintilante
e cuidado nos pratos, e talentosas, tribalistas e desembaraçadas acrobacias a
trote da tarola e dos timbalões, e uma adorável voz de tonalidade melodiosa, cristalina,
ecoante e voluptuosa que – afagada e aureolada por um vocal coro celestial – se
balanceia entre plácidos, aveludados e reconfortantes momentos regados a desarmante
requinte e outros atiçados a uma megafónica, anárquica e amotinada irreverência. É-me ainda essencial
arremessar elogiosos sentimentos para com o colorido, berrante, vibrante e
exótico artwork de créditos facilmente reconhecidos e apontados à peculiar
ilustradora Jbwizard. Num movimento pendular que me desloca de uma doce e
sagrada paralisia até uma saturada e ardente euforia, chego ao final deste
irretocável ‘Reflections’ de lucidez entorpecida, esgotada e distorcida.
Um alucinante vórtice espelhado a texturas caleidoscópicas pelo qual escorregamos
sem vontade dele regressar. Com este álbum de beleza consumada e meteórica projecção, os The Black
Wizards alcançam uma invejável – mas inteiramente meritória – posição de
grande destaque no que ao panorama português da música Rock diz
respeito. Um registo que resvala nas tão ambicionadas fronteiras da perfeição e
que em mim hospedara todo um intenso e ofuscante deslumbramento impossível de
contrariar.
Links:
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➥ Raging Planet
➥ Kozmik Artifactz
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➥ Raging Planet
➥ Kozmik Artifactz
terça-feira, 20 de agosto de 2019
segunda-feira, 19 de agosto de 2019
⚡️ SonicBlast Moledo: Dia 3 ⚡️
Depois de um primeiro dia
chuvoso e ventoso, e um segundo pardacento, mas com vistosas melhorias, para o
terceiro e derradeiro dia do SonicBlast estavam apontadas risonhas
previsões climatéricas e a manhã tratara bem cedo de as converter em
inabaláveis certezas. O Sol estava de regresso a Moledo, a brisa
esmorecia e aquecia, e a abertura do palco da piscina estava também assegurada.
Não haveria melhor forma de finalizar esta 9ª edição do festival. Calendarizado
em território veraneio, o SonicBlast é um festival pensado para decorrer
debaixo de Sol e abraçado pelo calor, e este seu último dia garantira
finalmente todas essas condições.
Mexicanos em alta rotação e uma piscina em borbulhante ebulição.
Depois de um imprevisto que
me fizera deslocar até à cidade de Viana do Castelo – tendo por lá almoçado –
foi já com o power-trio berlinense Maggot Heart em palco que
acorrera ao recinto da piscina. Tempo para combater o crescente calor – que se
expressava com vivacidade – de cervejas empunhadas e cabeças esvoaçadas à
boleia do irreverente, intenso e ardente Post-Punk destes germânicos.
Mas a piscina não demorava a conhecer o seu ponto alto do dia com a subida a
palco do duo mexicano Cardiel. Por mim elogiados em 2017, aquando do
lançamento do seu exótico EP ‘Aloha From Fuzz’ (review aqui),
esta era(-me) uma das bandas mais imperdíveis do festival. Munidos de uma
sonoridade camaleónica e de paladar tropical, que se distende de um vertiginoso
Punk Rock com indiscretas aproximações a um revoltoso Hardcore,
passando pelos negros, densos e lamacentos domínios do Sludge de
roupagem Doom’esca, e desaguando num acalorado, dançante, festivo e
inesperado Reggae de sensual condução Funky. E se todo este
sortido de géneros pode na teoria parecer indigesto, a verdade é que a ousada
receita musical sugerida pelos Cardiel resultara numa piscina lotada,
conquistada e em plena ebulição. Na plateia vivia-se um clima de saturada
euforia que contagiara não só os corpos secos que se tumultuavam em prazerosas
convulsões, como os tantos molhados que no interior da piscina faziam da mesma
um autêntico caldeirão em borbulhante exaltação. Uma performance
verdadeiramente irrepreensível que tomara de assalto todo um auditório pasmado
e enfeitiçado pela epidémica energia transpirada do palco. De coração
entusiasmado e corpo salpicado pelo muito participado mosh pit aquático,
dirigia-me agora na direcção do campismo para renovadas tertúlias condimentadas
a cerveja.
A frescura californiana, o (in)tenso negrume
e a consagração da Alma.
Finalizando o tridente de
referências repescadas a San Diego, o fascinante colectivo Sacri
Monti – em parceria com os seus conterrâneos Earthless e Petyr
– trazia a Moledo todo o seu majestoso, embriagante e esplendoroso Prog
Rock tingido a revivalismo e ainda com uma forte influência de um primoroso,
ensolarado e copioso Heavy Psych superiormente executado à boa moda
californiana. Depois de em 2016 terem apresentado ao vivo o seu tão aguardado álbum
de estreia (review aqui), este quinteto norte-americano
regressava agora à Praia de Moledo com o recém-lançado segundo trabalho
de longa duração (review aqui) e tudo em mim me empurrava na
direcção do recinto principal para repetir a catártica experiência que representa
vivenciar Sacri Monti em palco. De olhares cravados na já vasta plateia
que se ia posicionando e consolidando à sua frente, sorrisos tímidos no rosto e
instrumentos empunhados, os Sacri Monti iniciavam a sua maravilhosa
performance para um público entusiasta. Com todos os temas da sua ainda curta
discografia bem reconhecidos e presentes em mim, ia acompanhando e sussurrando no
meu universo imaginário não só os Riffs elegantes, tóxicos e delirantes
como os incessantes, torrenciais, siderais e alucinantes solos – muitas vezes
apanhados em contramão – desprendidos por duas guitarras endeusadas que se
entrelaçavam em empolgados diálogos com um adorável órgão de envolventes e
eloquentes bailados de atmosfera sonhadora, um vigoroso e ostentoso baixo de
linhas flutuantes, fibróticas e magnetizantes, uma entusiástica bateria de desembaraçadas
e talentosas acrobacias John Bonham’eanas, e ainda uma carismática
voz que balanceia entre a textura delicada e melodiosa e a encrespada e
revoltosa. Ninguém mostrava a mais pequena indiferença perante todas as sublimes
composições de beleza arquitectónica que os Sacri Monti conduziam a requintada
e inspirada excentricidade. No final e depois de um demorado aplauso aos
californianos, encaminhei-me na direcção do merchandising para trazer debaixo
do braço aquele que seria a última cópia física em CD do seu último ‘Waiting
Room for the Magic Hour’ ali presente para venda.
O negro manto da noite começava a arrastar-se e a afirmar-se pelo dia adentro, e a luminosidade em palco de tonalidade púrpura não enganava nenhum dos ali presentes: os tão aguardados Windhand estavam aí. Naturais da histórica cidade de Richmond (capital do estado norte-americano da Virgínia) os Windhand são hoje uma das mais consagradas referências da música Doom contemporânea, e depois de terem cancelado a sua presença numa das edições passadas do SonicBlast Moledo, recolhiam hoje a si uma das maiores fatias da expectativa trazida pelos festivaleiros que atestavam a presente edição. Pressentia-se que deles viria uma das mais inolvidáveis performances do festival e assim se materializou. Debaixo de um crescente coro de aplausos ruidosos e gritos motivantes, os Windhand iniciavam o seu emblemático ritual de adoração pagã, levando com eles toda uma extensa plateia de alma sedada e olhar petrificado pelos eclipsados, enigmáticos, sorumbáticos e misantrópicos territórios do Psych Doom. Uma monolítica avalanche de denso negrume varria o público, soterrando-o numa mélica, nebulosa, poderosa e psicotrópica melancolia impossível de contrariar. De alma enlutada, sentidos desmaiados e corpo lentamente balanceado, respondíamos de forma instintiva à pesada, vigorosa, dominante e delongada reverberação ocultista destilada e exorcizada da cerimonial sonoridade de Windhand. E foi nas asas de uma profana guitarra de Riffs encorpados, tensos, densos e amaldiçoados, e solos delirantes, gélidos, ácidos e penetrantes, um baixo massivo de linhas monstruosas, torneadas, violentas e rumorosas, uma bateria galopante de ritmicidade trovejante, explosiva, altiva e rutilante, e ainda uma voz espectral, translúcida, cristalina e melódica – a contrastar com o veemente negrume instrumental – que de olhar cerrado e semblante tombado sobre o peito nos deixámos envolver e embevecer neste brumoso, sombrio e tumultuoso oceano da mais pura lisergia e misantropia. Não foi fácil despertar de toda esta luciférica liturgia e contrariar o espesso torpor que nos corria pelas veias. Windhand foram verdadeiramente titânicos em palco e a ressaca dos mesmos ameaça em mim subsistir até que a futura memória se esqueça de os recordar. Era tempo de silenciar os rugidos estomacais na zona de restauração, relaxar os cansados músculos das pernas e regressar a tempo de comungar todo o misticismo de OM.
Esta era a terceira vez que experienciaria o sagrado rito deste trio superiormente liderado pelo profético druida Al Cisneros, mas o meu coração comportava-se como se da primeira tratasse. Assim que reconhecidos em palco, o imenso auditório explodira num colossal bramido a uma só voz entusiasmada e arremessada na direcção destes três monges fielmente devotos ao lado mais religioso do Mantra Doom. Imediatamente convertidos em seus fiéis discípulos, assim que os primeiros acordes foram dedilhados e exorcizados do carismático baixo Rickenbacker, e por nós todos pressentidos e reconhecidos, embalámos numa demorada e consagrada peregrinação pelos incomensuráveis desertos da nossa espiritualidade. De olhar eclipsado e alma canonizada, as nossas cabeças contorciam-se até onde a extensão de cada nota alcançava. Estávamos todos integralmente absorvidos pela santificada missa rezada pelos OM e o palco principal representava agora um verdadeiro altar ao qual todas as mais elogiosas venerações eram arremessadas. Numa harmoniosa digressão pelos derradeiros álbuns que adornam esta prestigiada banda norte-americana, os OM emanciparam em Moledo todas as suas divinas ressonâncias com base num rumoroso, expressivo e portentoso baixo de linhas ungidas a coesão, fluidez e robustez, uma bateria circense de extravagantes, habilidosas e incessantes acrobacias, um intrigante sintetizador criador de uma atmosfera climatizada a devoção, e uma voz messiânica que lidera com apaixonante e hipnotizante lirismo toda esta sacra romaria destinada ao tão almejado e imaculado transe religioso. Vivia-se um ofuscante e universal estádio de profundo bem-estar que nos desencorajava a tentação de abrir as pálpebras e despertar de todo aquele sonho acordado. Foi demasiado fácil deixarmo-nos glorificar e canalizar pela terapêutica infusão de OM e desaguar num perfeito oásis mental que nos banhara e extasiara do primeiro ao último tema. OM foi toda uma endeusada imersão à qual ninguém se recusou comungar. No final – quando todos os instrumentos se calaram e perpetuaram no silêncio – estávamos todos órfãos daquela mística reverberação que nos desobstruíra todos os caminhos de encontro ao Paraíso. Não foi fácil aceitar que a eucaristia havia terminado, mas reinava em cada um de nós a completa e irrefutável sensação de que havíamos testemunhado algo de verdadeiramente purificador. Corações ao alto, o nosso coração esteve em OM.
O negro manto da noite começava a arrastar-se e a afirmar-se pelo dia adentro, e a luminosidade em palco de tonalidade púrpura não enganava nenhum dos ali presentes: os tão aguardados Windhand estavam aí. Naturais da histórica cidade de Richmond (capital do estado norte-americano da Virgínia) os Windhand são hoje uma das mais consagradas referências da música Doom contemporânea, e depois de terem cancelado a sua presença numa das edições passadas do SonicBlast Moledo, recolhiam hoje a si uma das maiores fatias da expectativa trazida pelos festivaleiros que atestavam a presente edição. Pressentia-se que deles viria uma das mais inolvidáveis performances do festival e assim se materializou. Debaixo de um crescente coro de aplausos ruidosos e gritos motivantes, os Windhand iniciavam o seu emblemático ritual de adoração pagã, levando com eles toda uma extensa plateia de alma sedada e olhar petrificado pelos eclipsados, enigmáticos, sorumbáticos e misantrópicos territórios do Psych Doom. Uma monolítica avalanche de denso negrume varria o público, soterrando-o numa mélica, nebulosa, poderosa e psicotrópica melancolia impossível de contrariar. De alma enlutada, sentidos desmaiados e corpo lentamente balanceado, respondíamos de forma instintiva à pesada, vigorosa, dominante e delongada reverberação ocultista destilada e exorcizada da cerimonial sonoridade de Windhand. E foi nas asas de uma profana guitarra de Riffs encorpados, tensos, densos e amaldiçoados, e solos delirantes, gélidos, ácidos e penetrantes, um baixo massivo de linhas monstruosas, torneadas, violentas e rumorosas, uma bateria galopante de ritmicidade trovejante, explosiva, altiva e rutilante, e ainda uma voz espectral, translúcida, cristalina e melódica – a contrastar com o veemente negrume instrumental – que de olhar cerrado e semblante tombado sobre o peito nos deixámos envolver e embevecer neste brumoso, sombrio e tumultuoso oceano da mais pura lisergia e misantropia. Não foi fácil despertar de toda esta luciférica liturgia e contrariar o espesso torpor que nos corria pelas veias. Windhand foram verdadeiramente titânicos em palco e a ressaca dos mesmos ameaça em mim subsistir até que a futura memória se esqueça de os recordar. Era tempo de silenciar os rugidos estomacais na zona de restauração, relaxar os cansados músculos das pernas e regressar a tempo de comungar todo o misticismo de OM.
Esta era a terceira vez que experienciaria o sagrado rito deste trio superiormente liderado pelo profético druida Al Cisneros, mas o meu coração comportava-se como se da primeira tratasse. Assim que reconhecidos em palco, o imenso auditório explodira num colossal bramido a uma só voz entusiasmada e arremessada na direcção destes três monges fielmente devotos ao lado mais religioso do Mantra Doom. Imediatamente convertidos em seus fiéis discípulos, assim que os primeiros acordes foram dedilhados e exorcizados do carismático baixo Rickenbacker, e por nós todos pressentidos e reconhecidos, embalámos numa demorada e consagrada peregrinação pelos incomensuráveis desertos da nossa espiritualidade. De olhar eclipsado e alma canonizada, as nossas cabeças contorciam-se até onde a extensão de cada nota alcançava. Estávamos todos integralmente absorvidos pela santificada missa rezada pelos OM e o palco principal representava agora um verdadeiro altar ao qual todas as mais elogiosas venerações eram arremessadas. Numa harmoniosa digressão pelos derradeiros álbuns que adornam esta prestigiada banda norte-americana, os OM emanciparam em Moledo todas as suas divinas ressonâncias com base num rumoroso, expressivo e portentoso baixo de linhas ungidas a coesão, fluidez e robustez, uma bateria circense de extravagantes, habilidosas e incessantes acrobacias, um intrigante sintetizador criador de uma atmosfera climatizada a devoção, e uma voz messiânica que lidera com apaixonante e hipnotizante lirismo toda esta sacra romaria destinada ao tão almejado e imaculado transe religioso. Vivia-se um ofuscante e universal estádio de profundo bem-estar que nos desencorajava a tentação de abrir as pálpebras e despertar de todo aquele sonho acordado. Foi demasiado fácil deixarmo-nos glorificar e canalizar pela terapêutica infusão de OM e desaguar num perfeito oásis mental que nos banhara e extasiara do primeiro ao último tema. OM foi toda uma endeusada imersão à qual ninguém se recusou comungar. No final – quando todos os instrumentos se calaram e perpetuaram no silêncio – estávamos todos órfãos daquela mística reverberação que nos desobstruíra todos os caminhos de encontro ao Paraíso. Não foi fácil aceitar que a eucaristia havia terminado, mas reinava em cada um de nós a completa e irrefutável sensação de que havíamos testemunhado algo de verdadeiramente purificador. Corações ao alto, o nosso coração esteve em OM.
sábado, 17 de agosto de 2019
sexta-feira, 16 de agosto de 2019
quinta-feira, 15 de agosto de 2019
⚡️ SonicBlast Moledo: Dia 2 ⚡️
Depois de uma noite de sono
intranquilo – diversas vezes importunado pelas profusas tertúlias incessantemente
conduzidas pelos mais variados idiomas – as minhas pálpebras recolhiam aos
primeiros raios solares da manhã. Num movimento brusco e decidido –
contrariando o ócio de quem ainda se esperneia na cama – desafoguei a cabeça
sonolenta do interior da tenda e de narinas bem dilatadas inalei os frescos e
vivificantes ares bafejados pelo oceano. O segundo dia de SonicBlast
trazia a tão ansiada esperança de que pudesse decorrer num cenário climatérico
contrastando (para melhor, é claro) com aquele que marcara uma vincada presença
no dia anterior. Os incisivos ruídos dos fechos zíper das tendas iam
golpeando a plácida atmosfera matinal que governava no campismo, e as geleiras
eram arrastadas para o exterior. Avizinhavam-se os já habituais planos de
revitalização na preparação física e mental para o segundo dia de festival: um
demorado passeio pelo paredão à beira-mar e um relaxado almoço pelas principais
artérias de Moledo.
Da Califórnia à velha Pérsia em Skate
E foi já ao crescente som do
colectivo português O Bom, o Mau e o Azevedo que iniciámos a caminhada
de aproximação ao recinto do festival. Munida de um envolvente, despreocupado, aromatizado e
eloquente Surf Rock de adorável e afável ambiência Western
fora do coldre, a fresca, campesina e agradável sonoridade deste peculiar
quarteto de origem lusitana tem o dom de no nosso imaginário erigir e dirigir toda
uma imersiva narrativa cinematográfica, que nos coloca a trote pausado de um cavalo cansado pelo
arenoso solo de um infindável deserto bronzeado pelo intenso e ofuscante Sol
poente que se debruça e esbate no inalcançável horizonte. Uma musicalidade deveras
inspiradora, arrebatadora e visual – a fazer recordar os californianos Spindrift – à
qual nem o Quentin Tarantino ficaria indiferente. Lamentei profundamente
ter chegado ao recinto já quando estes quatro cowboys abandonavam o saloon
– deixando no seu interior um forte odor a pólvora, whiskey vertido e incontáveis corpos caídos de armas empunhadas – e se
perdiam no chamejante horizonte desértico. Seguia-se o volumoso, enérgico e
tumultuoso Skate Punk dos bracarenses Mr. Mojo que motivava nova
reaproximação da plateia até à frente do palco principal. E foi à instigante boleia
de duas guitarras erosivas, um baixo possante, uma bateria galopante e uma voz
gutural que os primeiros headbanging’s do dia ganhavam um aparatoso
protagonismo. Uma empolgante performance exemplarmente orientada a uma só
velocidade que atestara de adrenalina todos aqueles aos quais a poderosa ressonância
de Mr. Mojo alcançava. Um aplauso motivador a esta jovem banda portuguesa
que se adjectivara como o aperitivo perfeito para o que aí vinha: Petyr.
É justo começar por admitir que este quarteto californiano – sediado na
carismática cidade de San Diego e superiormente liderado pelo Riley Hawk (filho do
lendário pro-skater Tony Hawk) – recolhia para ele mesmo o estatuto
de banda que eu mais ansiava experienciar não só naquele segundo dia, mas no
conjunto dos três dias de SonicBlast. De influências apontadas aos
míticos Black Sabbath e aos norte-americanos Witch, os jovens Petyr
escudam-se num euforizante, tóxico, nebuloso e alucinante Heavy Psych
com indiscretas aproximações a um titânico, obscuro, luciférico e messiânico Proto-Doom
de tração setentista. Depois de em 2017 ter reverenciado o seu homónimo álbum
de estreia (review aqui), premiando-o mesmo com o título de melhor
registo lançado nesse mesmo ano (listagem aqui), e de no passado ano de
2018 ter replicado toda esta minha fascinação ao seu segundo trabalho de longa
duração ‘Smolyk’ (review aqui), era com o coração
taquicardíaco e membros convulsionados pela ansiedade que me firmava em frente
ao palco de olhar incendiado em entusiasmo. E o que se seguiu foi uma selvática
cavalgada esporeada por duas guitarras que se consolidavam na ascensão de intrigantes,
portentosos, rumorosos e inflamantes Riffs arábicos e dialogavam em trepidantes,
desvairados, excitados e atordoantes solos, um pulsante e possante baixo de
linhas sombreadas e carregadas a um hipnótico misticismo, uma bateria explosiva,
acrobática e altiva de ritmicidade imprópria para cardíacos, e uma voz ácida, ecoante,
penetrante e diabrina que emergia das abissais profundezas desta psicotrópica
absorção. Petyr ao vivo foi um implosivo petardo que brotara em cada um
de nós. Uma constante e sónica vertigem à qual tudo em mim obedecia. De
destacar ainda a inspirada reinterpretação de “Satori III” – originária
dos nipónicos Flower Travellin' Band (‘Satori’, 1971) que – aos meus
ouvidos – supera a original. Ao irrepreensível som de Petyr – num admirável
equilíbrio entre a pujança, a agilidade e o virtuosismo – foi-me demasiado
fácil imaginar Black Sabbath sobrevoarem os crepusculares céus da velha
Pérsia e por ela se deixarem influenciar. No final do concerto encontrava-me de
corpo cambaleante, visão embaciada, alma integralmente pasmada e expectativa
largamente saciada. Depois de todo aquele violento e exuberante exorcismo
sensorial que me fizera rasgar as vestes da lucidez, era tempo de regressar ao
campismo e procurar no conforto da tenda – bem como no fundo da geleira – toda a
estabilidade que Petyr me subtraíra e tardava em devolver.
Esquizofrenia, doce Paralisia e a pesada Volumetria
E como nem só de música é
feito o SonicBlast, a minha consciência despiu o seu traje arbitrário e
permitiu – sem sequentes juízos lesivos – que preenchesse as próximas horas com
entretidas e fraternas conversas entre novos e velhos amigos. Caras conhecidas
de almas aparentadas cruzavam-se comigo e a circunstância imposta pelo acaso
obrigava à enriquecedora troca de palavras e afectos. E não fosse a minha
imutável vontade de experienciar ao vivo pela segunda vez os finlandeses Kaleidobolt,
ainda agora lá estaria completamente sorvido nas estimulantes e movimentadas conversações.
O meu passo apressado locomovia-me na direcção do recinto principal à mesma
velocidade que os instrumentos deste dinâmico power-trio eram
executados. Depois de ter desconstruído e devidamente reverenciado os seus três
álbuns (‘Kaleidobolt’, ‘The Zenith Cracks’ e o seu
recentíssimo ‘Bitter’) e de no outono de 2017 os ter ouvido ao
vivo pela primeira vez na abertura para o concerto do tridente californiano Radio Moscow (review
aqui) estava novamente entusiasmado por testemunhar este mirabolante
embate entre um poderoso, furioso, enérgico e vigoroso Hard Rock de
influência clássica e um empolgante, oleado, rebuscado e magnetizante Heavy
Prog de essência setentista. E assim aconteceu. Iguais a si próprios,
os Kaleidobolt avançaram para uma performance verdadeiramente irrepreensível
onde a maestria foi executada a uma ferocidade estonteante e a uma agilidade
vertiginosa. A sua sonoridade intensamente extravagante – saturada de inesperadas
alternâncias rítmicas – é balanceada entre pacíficos momentos condimentados a
uma luxuriosa orientação jazzística que nos convidam a desmaiar as
pálpebras e a levitar a espiritualidade, e outros momentos atestados de pura e
desenfreada adrenalina que nos agridem, revolvem e centrifugam a alma. Contando
ainda com a inlusão da prontamente reconhecida e apaladada cover de “21st
Century Schizoid Man” (pertencente aos clássicos King Crimson,
1969) os Kaleidobolt despediram-se de Moledo de instrumentos ao
alto e debaixo de uma calorosa, ruidosa e merecida ovação. Repetentes no SonicBlast,
os polacos Belzebong subiam a um palco que bem conhecem com o seu
fumarento, pestilento, psicotrópico e luciférico Doom Metal embrumado e
enlameado por uma carregada sonoridade de tonalidade pantanosa, nebulosa, morfínica
e tenebrosa que provoca no ouvinte efeitos em tudo semelhantes aos do Tetraidrocanabinol
(mais comumente catalogado de THC). De semblantes pálidos, olhares
distanciados e troncos balanceados, a plateia respondia como podia perante toda
aquela tensa e monolítica reverberação transpirada do palco. Depois da impressionante
e inesgotável galopada promovida pelos enérgicos Kaleidobolt, os Belzebong
anestesiaram-nos e arrastaram-nos consigo para o lado eclipsado do empolgamento.
Submersos numa intensa e permanente narcose que nos climatizara e inebriara do
primeiro ao derradeiro tema, não foi nada fácil aceitar que o concerto havia já
terminado, seguindo-se uma demorada reactivação da lucidez sensorial. Tempo
para uma descontraída incursão até à zona de restauração e de regresso ao
recinto agendado para os históricos Orange Goblin. Capitaneada pelo impetuoso
colosso Ben Ward, esta incontornável banda londrina é desde há muito uma
das mais consagradas referências dentro do universo Stoner europeu, e o
concerto que se seguiu fez – uma vez mais – jus a esse título que merecidamente
ostenta. Foi com base no seu potente, expressivo e vibrante Stoner Metal
de vigorosa e estrondosa dimensão que o SonicBlast se transformara numa autêntica
arena onde populosos, ciclónicos e tumultuosos Mosh Pit’s borbulhavam dentro
daquele vulcânico caldeirão humano, enquanto que o Crowd Surf também era
uma válida manifestação na instintiva exteriorização do que é vivenciar todo o fulgor
de um concerto de Orange Goblin. De punhos cerrados e cervejas ao alto,
o eloquente vocalista Ben Ward acicatava todo um público afogueado pela exaltação.
Do palco eram libertados motorizados Riffs de fácil digestão e veneração,
e fora dele o ambiente era de um selvático frenesim. A par do que acontecera em
2017 aquando da sua estreia em Moledo (review aqui), o
quarteto inglês mostrou-se irredutível na arte de entusiasmar toda uma plateia
sedenta de algo assim. Com o apoteótico final de Orange Goblin, o meu
segundo dia de festival estava também findado.
quarta-feira, 14 de agosto de 2019
terça-feira, 13 de agosto de 2019
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