terça-feira, 25 de julho de 2017

Review: ⚡ Kungens Män - 'Dag & Natt' (2017) ⚡

Kungens Män é uma daquelas bandas que passa mais tempo em estúdio que fora dele. Desde 2013 esta formação escandinava sediada na cidade de Estocolmo (Suécia) já lançara cerca de duas dezenas de trabalhos e o presente ano de 2017 conta já com o lançamento de dois álbuns e um EP. Depois de no início do ano ter degustado, referenciado e elogiado o álbum ‘Bränna Tid’ (review aqui) este inspirador quinteto está prestes a lançar oficialmente o seu próximo álbum designado de ‘Dag & Natt’ que tem data de nascimento agendada para o próximo dia 31 de Julho nos formatos digital e de CD através do seu Bandcamp e ainda futuramente na forma de vinil pela mão do selo discográfico Adansonia Records. Dividido em duas partes que tão bem se complementam, ‘Dag & Natt’ presenteia o ouvinte com uma envolvente, demorada e anestésica odisseia pelos hipnóticos, ataráxicos e encantadores domínios do Krautrock. Contando ainda com discretos e harmoniosos laivos do extravagante Free Jazz e do intoxicante Psych Rock, a celestial ambiência sonora deste álbum passeia-nos pela profunda vastidão cósmica de olhar desmaiado no horizonte e alma narcotizada e sepultada em solo astral. São cerca de 90 minutos climatizados por uma deslumbrante hipnose que nos mantém recostados a um intenso e prazeroso estádio de inércia. Na índole desta relaxante digressão às mais distantes costuras do espaço sideral estão duas guitarras em constante diálogo que se ensoberbecem nos seus mélicos e encantadores acordes e solos lisérgicos, delirantes e viscerais, um baixo fluido de linhas marcadas, densas e oscilantes que nos obriga a um constante pendulo corporal, uma bateria jazzística firmemente entregue a uma magnetizante monotonia que nos dilata as pupilas, um sintetizador de aura estelar que nos empoeira com toda uma nebulosa e fascinante alquimia sonora, e ainda um luxurioso saxofone de excêntricas, exóticas e mirabolantes danças que se serpenteia livremente pela lenitiva atmosfera de ‘Dag & Natt’. Sintam-se diluir nas perfumadas, deleitosas e penetrantes jams de Kungens Män e vivenciem um dos mais estarrecedores registos de 2017.

sábado, 22 de julho de 2017

Review: ⚡ The Electric Shakes - 'Electrohypnosis' (2017) ⚡

Da cidade inglesa de Bournemouth (UK) chega-nos ‘Electrohypnosis’, o entusiástico álbum de estreia do electrizante power-trio The Electric Shakes. Lançado no passado dia 17 de Julho em formato digital e de CD através do seu Bandcamp oficial, este poderoso trabalho da jovem banda inglesa encerra um abrasivo, radioso e euforizante Desert Rock dissolvido num enérgico, sujo e vibrante Garage Rock e emaranhado num mordente, obscuro e influente Heavy Blues que – apimentados e ebulidos pelo corrosivo efeito fuzz – provocam no ouvinte uma indomável e libertadora adrenalina que o esporeia e endoidece do primeiro ao derradeiro tema. A sua sonoridade extraordinariamente dinâmica, provocante, alegre e arrebatadora destrava-nos numa crescente, prazerosa e alucinante cavalgada imprópria para cardíacos. O intenso e envolvente ritmo a que é tocado obriga-nos a sacudir a cabeça desenfreadamente e a compassar com os pés toda esta selvática galopada ao longo dos seus 42 minutos de duração. Engulam este ardente trago de euforia e sintam-se implodir numa vulcânica, violenta e extasiante comoção aos conjugados sons de uma guitarra despótica que se agiganta em soberanos, dançantes e impetuosos riffs e se desembaraça e transcende em solos verdadeiramente uivantes, desvairados e vertiginosos, uma bateria pesada, explosiva e retumbante de cadência frenética, um baixo corpulento de linhas sólidas, dançantes e torneadas, e uns vocais harmoniosos, polidos, elegantes e oleosos que fazem de ‘Electrohypnosis’ um disco desmesuradamente viciante. Um registo que combina na perfeição o peso e a elegância com a leveza e a arrogância. Este é um álbum intensamente embriagante que nos obriga a uma instintiva, redentora e exuberante resposta corporal. Um dos discos mais hipnóticos e vibrantes do ano está aqui, na fúria superiormente controlada de ‘Electrohypnosis’.

Lamp of the Universe - 'The Cosmic Union' (2001)

🐫 Tinariwen @ Mimo Festival, Amarante (2017)

Ontem – sexta-feira – viajei até à cidade de Amarante para testemunhar pela 2ª vez o fascinante Desert Blues dos malianos Tinariwen. Integrados na presente edição do festival Mimo, esta formação nativa da região rural de Tessalit trouxe os seus desertos sonoros a território português pelo segundo ano consecutivo. A noite de Amarante palpitava vida e emoção. As estreitas ruas que me afunilavam até ao Parque Ribeirinho (local dos concertos) estavam entupidas de pessoas, os bares lotados e barulhentos, e vivia-se uma atmosfera verdadeiramente encantadora nas margens do rio Tâmega. Já no recinto do festival pude testemunhar a extensão de toda aquela exuberante e contagiante vitalidade. Os muitos e diversificados restaurantes enraizados no Parque Ribeirinho estavam entregues a uma intensa azáfama provocada pela crescente procura e em frente ao palco já muitos peregrinos musicais (aos quais eu me juntava) aguardavam a subida ao palco de uma das bandas mais cobiçadas do festival. Poucos instantes depois de irromper e estabelecer no meio da multidão, os Tinariwen subiam ao palco para me presentear com um dos concertos mais apaixonantes testemunhados em toda a minha vida. Com uma actuação a rondar os 60/70 minutos, a banda nem precisou de amplificar os instrumentos para conquistar toda uma plateia que lhes arremessava amabilidade na forma de constantes gritos motivacionais. De seguida viveu-se um perfeito clima de êxtase religioso ao qual ninguém recusou comungar. O público – de olhar selado, sorriso talhado no rosto e detidamente entregue a uma luxuriante dança arábica – respondia como podia às guitarras que se serpentavam e envaideciam em acordes relaxantes, mélicos e hipnotizantes e se transcendiam em contagiantes, eróticos e comoventes solos, ao baixo pulsante de linhas robustas, torneadas e bailantes, à redentora e empolgante percussão tribalista e aos vocais messiânicos que lideravam toda esta envolvente, sagrada e harmoniosa expedição pelos dourados e aveludados desertos de Tinariwen. Respirava-se uma edénica atmosfera que climatizara a banda e o público do primeiro ao derradeiro tema. Um verdadeiro e pleno estádio de deslumbramento instaurara-se em todos nós proveniente da ataráxica sonoridade destes sete músicos de indumentária tuaregue. Quando os instrumentos se calaram pela última vez, um imponente, ruidoso e generalizado aplauso agigantou-se e abateu-se sobre a banda que retribuía o agradecimento ao público dedicando-lhe delongadas vénias. Não foi fácil aceitar que o concerto havia terminado. A plateia recuperava lentamente o estado de lucidez que havia sido raptado pelos malianos e – pela primeira vez – virava costas àquele palco que durante uma hora se transformara num imaculado altar e canonizara todas as almas daqueles que interiorizaram a consagrada profecia de Tinariwen.