terça-feira, 14 de agosto de 2018

Mount Carmel // PromoWest Productions

🌊 SonicBlast Moledo 2018: Dia 1

Expectativas, a chegada e as reverberações veraneias vindas da Piscina
Pela 7ª vez consecutiva obedeci ao chamamento daquela que há muito considero tratar-se a meca ibérica do Doom, Stoner e Psych Rock: o já carismático festival SonicBlast Moledo. Para a presente edição, a organização apresentava uma irresistível ementa sonora não só capaz de agradar a gregos e troianos como de motivar toda uma enchente nunca antes testemunhada na pequena e convidativa freguesia minhota de Moledo (Caminha, Viana do Castelo). O SonicBlast esgotava a bilheteira pelo 3º ano consecutivo, coroando as 2.600 pessoas portadoras do ingresso, mas também deprimindo outras tantas pela impossibilidade de comungarem esta oitava edição do festival. Adivinhava-se, portanto, uma cerimónia de contornos épicos e assim se materializou. No final da manhã de sexta-feira fazia-me à estrada de alma a transbordar de expectativas e olhar incendiado pelo entusiasmo de rever bandas como Causa Sui, Earthless, Kadavar, e Samsara Blues Experiment, bem como estrear-me frente a formações como Purple Hill Witch, Nebula e Naxatras. Assim que cheguei a Moledo, foi-me imediatamente perceptível a azáfama que o SonicBlast provocara nesta simpática localidade costeira beijada pelo oceano Atlântico. E isso foi preponderante para que – pela primeira vez – optasse por ancorar a tenda num parque privativo a poucos metros do recinto do festival, de forma a evitar a extenuante e duradoura procura de um local razoavelmente agradável na intimidade de uma floresta completamente apinhada de campistas. Com isso, queimei várias etapas e consegui entrar no recinto da piscina ainda a tempo de assistir ao capítulo final da fascinante odisseia desértica levada a cabo pelos portugueses Desert’Smoke. Munidos do seu incrível EP de estreia (review aqui) executado em palco de forma irrepreensível, esta jovem banda natural da capital lusitana empoeirou e conquistou toda uma plateia numerosa e ruidosa com o seu místico Heavy Psych de textura alucinógena e propensão espiritual. No recinto secundário da piscina vivia-se uma atmosfera de perfeita simbiose entre a sonoridade exalada do palco e a densa mancha humana que preenchia toda a zona envolvente. Era tempo de beber umas cervejas geladas e desenvolver tertúlias com velhos e novos conhecidos da scene. O Sol transpirava uma bafagem quente combatida pelas refrescantes e revitalizantes brisas sopradas pelo oceano, resultando num clima verdadeiramente agradável. Os portuenses Astrodome subiam a palco para nos levitarem juntamente com eles rumo aos mais enigmáticos domínios do negrume cósmico. E foi com base no seu Heavy Psych de soberba condução jazzística e uma apaixonante ambiência sideral que sulfataram e eterizaram todas as nossas almas com uma inebriante matéria estelar. As cabeças pendulavam à boleia da sua envolvente ritmicidade, as pálpebras desmaiavam e os sorrisos imortalizavam-se no rosto. Os Astrodome criaram e nutriram todo um perfeito deslumbramento celestial ao qual ninguém se recusou comungar. Deles resultara uma das performances mais aplaudidas e elogiadas vividas naquele palco. Seguia-se o exotismo do tridente irlandês Electric Octopus nas asas das suas hipnóticas, eróticas e dançantes jam’s sublimemente climatizadas e governadas por um psicadelismo tribal de mãos dadas com uma provocante e contagiante vibração Funk que nos obrigara a vivenciar toda uma profunda e detida hipnose só interrompida com o desligar dos amplificadores e o relaxar dos instrumentos. O dia começava a perder fulgor dando início ao demorado ritual crepuscular. Era tempo de virar costas ao recinto da piscina e estrear o recinto principal.


Vibrações douradas, noite ensolarada e a Lua maravilhada
Coube aos britânicos Conan a honrosa responsabilidade de inaugurar o palco principal e o público acorreu em massa e celeridade. Mas como havia visto esta formação (no Kristonfest) há cerca de três meses em território Madrileno, optei por obedecer aos chamamentos guturais do meu estômago e jantar na zona do festival dedicada a essa finalidade. Seguiam-se os italianos Ufomammut com o seu enigmático Psych Doom. Este poderoso tridente de instrumentos soterrados no negrume estelar teve o dom de hipnotizar, envolver e levitar toda uma plateia completamente absorvida pela sua xamânica atmosfera. A sonoridade agressiva, possante, instigante e intrusiva violentamente arremessada pelos Ufomammut provocava e norteava todos aqueles corpos temulentos de punhos cerrados e cabelos esvoaçantes. Um perfeito estádio de submissão que nos abraçara e narcotizara ao longo de toda a actuação. Instrumentos ao alto, aplausos ruidosos e os históricos Nebula em palco. Esta carismática formação californiana liderada pelo Eddie Glass trazia consigo toda a experiência resultada de uma carreira do tamanho de duas décadas inteiramente dedicadas ao desértico e poeirento Stoner Rock cozinhado e estreado nos 90’s, e presentearam todos os presentes com um desempenho proporcional às mais elevadas expectativas que lhes eram debitadas. Numa passeata transversal pelo seu historial discográfico, os norte-americanos Nebula comoveram e exaltaram os seus mais fiéis seguidores com a execução de clássicos como “To the Center” e “Smokin’ Woman”. No final sentia-se um envaidecido paladar de quem havia testemunhado uma das bandas mais influentes desta esfera musical.


Quase nove anos depois, tinha finalmente a oportunidade de rever aquela que se perfila como uma das grandes bandas da minha vida: Causa Sui. Os dinamarqueses subiam a palco e o público fervia num crescente entusiasmo. Vivia-se um clima generalizado de total crença em como aquele seria um dos concertos mais impactantes do festival e estávamos todos certos. Assim que ouvidos e imediatamente reconhecidos os primeiros acordes de “Homage”, toda a numerosa plateia mergulhara num estado de profundo e imperturbável transe que subsistiu muito para lá do corpo temporal daquela actuação. Resultante de uma prazerosa conjugação entre um ensolarado, ofuscante, deslumbrante e adocicado Psych Rock e um lenitivo, envolvente, atraente e narrativo Krautrock, a sua sonoridade veraneia – de empolgante condução jazzística – bronzeara, massajara e extasiara todos aqueles a quem as vibrações douradas de Causa Sui alcançavam. Os nossos corpos transpirados serpenteavam-se numa libidinosa, magnética e ostentosa dança, as nossas pálpebras rendiam-se e desmaiavam e o nosso olhar debatia-se para se manter focado no palco, o sorriso era esculpido e eternizado, a nossa alma afagada e bafejada por um suspiro epicurista. Nada nem ninguém conseguia contrariar toda aquela intensa e deslumbrante ataraxia que nos embaciava a lucidez, manuseava os membros e deleitava os sentidos. Causa Sui ao vivo foi verdadeiramente sublime. Num pêndulo que tanto nos enterrava numa doce e relaxante lisergia, como nos detonava de uma intensa e emancipadora euforia, fomos levados a orbitar uma edénica ode de onde não mais saímos. Temas do passado como “El Paraiso” (provavelmente o meu favorito da banda), "Red Valley" e “Soledad” (que preenchera todo um encore desejado e gritado pelo público com toda a fogosidade) elevaram-me a um perfeito estádio de combustão espiritual que me vomitara de encontro às mais distantes costuras do Cosmos interior. No final do concerto estávamos todos atordoados e incrédulos com o que havíamos testemunhado. As pessoas sorriam entre si numa mistura de cumplicidade, assombro e leviandade. Sabíamos que à boleia de Causa Sui havíamos alcançado tudo aquilo que o ser humano mais cobiça no universo musical: o paraíso mental. Concerto de uma vida.


De presença reiterada no alinhamento do SonicBlast Moledo (haviam estado presentes na já longínqua segunda edição, em 2012), os germânicos Samsara Blues Experiment – entretanto transfigurados de quarteto para trio – eram os responsáveis pela próxima ocupação do palco principal, e deles perspetivava-se uma exibição incensurável, capaz de dar continuidade ao arrebatamento em nós causado e deixado pelos Causa Sui. Esta ilustre formação sediada na cidade-capital de Berlim vergou a audiência com os seus poderosos riffs superiormente edificados por uma guitarra vigorosa, possante e majestosa, enegrecidos e tonificados por um baixo de linhas pulsantes, tensas, torneadas e dançantes, empolados e esporeados por uma bateria flamejante, dinâmica e retumbante, e ainda perfumados pela mágica extravagância exalada por um sintetizador de idioma alienígena capaz de nos catapultar na vertiginosa direcção estelar. E se a esta equação ainda acrescentarmos os vocais vistosos, sólidos e melodiosos temos a fórmula acabada de como nos desprendermos da gravidade terrestre e deambularmos pela infinidade espacial. O público revirava os olhos e sacudia a cabeça na instintiva resposta a esta portentosa avalanche decibélica. Samsara Blues Experiment deram um concerto de natureza inatacável, essencialmente sustentado no lado mais Doom’esco do seu tão característico e místico Heavy Blues.

Foi já com a intrigante, cáustica e vibrante ardência Sludgy do insano power-duo alemão Mantar a intensificar o negrume dos céus que vestiam a noite de Moledo, que me dei por derrotado numa delongada batalha contra o cansaço e avancei decidido, mas cambaleante, na direcção da minha tenda. Aquele primeiro dia prometia deixar em mim toda uma ressaca de longa validade, e ainda esta renovada experiência SonicBlast’eana estava apenas no intervalo.

*Fotografias da autoria de Miguel Raimundo

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Review: ⚡ Meteor Vortex - 'Absorb / Implode' EP (2018) ⚡

Do sul da Finlândia chega-nos o novo e segundo EP do fascinante power- trio Meteor Vortex. Lançado em território primaveril unicamente no formato digital (disponível para download gratuito) através da sua página oficial de Bandcamp mas com uma edição em formato físico de cassete agendada ainda para este Verão, ‘Absorb / Implode’ é um registo surpreendente e extasiante que promete deslumbrar quem nele se resguardar. A sua sonoridade de vocação astral situa-se no ponto de equilíbrio entre um ofuscante, alucinógeno, aparatoso e empolgante Heavy Psych e um envolvente, intrigante, sublime e hipnotizante Space Rock capaz de nos desamarrar a consciência terrena e a impulsionar rumo à mais recôndita e longínqua intimidade do espaço sideral. Uma maravilhosa odisseia alimentada a misticismo que nos prende e passeia pelas profundezas do negrume cósmico. Deixem-se empoeirar e narcotizar pela bafagem estelar exalada por Meteor Vortex e sintam-se transcender e mergulhar na magnetizante vertigem que vos conduzirá a um ponto sem retorno. Absorvam-se detidamente nas extravagantes, intoxicantes, ácidas e delirantes manifestações de uma guitarra endeusada que discursa no idioma dos astros, balanceiem o vosso corpo pesado e embriagado na instintiva resposta a um baixo de reverberação ondulante, hipnótica, atlética e dançante, desprendam a cabeça na rápida e furiosa perseguição a uma bateria galopante, incisiva, explosiva e inquietante, inalem a divina fragância transpirada por um mágico sintetizador de natureza alienígena, e deixem-se seduzir e enlevar por um uivante e arrepiante saxofone movido a sumptuosos, agradáveis e sedosos bailados. São estes os primordiais elementos que quando combinados fazem de ‘Absorb / Implode’ um registo constantemente aliciante. São cerca de 31 minutos intensamente vividos à frenética boleia de um cometa que golpeia e mareia o negro solo espacial. Cabeceiem os mais remotos e solitários astros, aqueçam e afaguem a alma nas ardentes fornalhas estelares que farolizam o obscuro oceano cósmico, e resvalem nas costuras fronteiriças da infinidade sideral ao encantador som de um dos mais marcantes trabalhos talhados em 2018. Uma vez perdidos na órbita deste EP, não será nada fácil encontrar o caminho de regresso a casa.

🙏🏻 Chris Hakius & Al Cisneros (OM)

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Prog'licious!

📀 High On Fire - 'Electric Messiah' (05-10-2018)

Review: ⚡ Psilocibina - 'Psilocibina' (2018) ⚡

Do outro lado do oceano Atlântico chega-nos um dos registos por mim mais aguardados do ano. Falo do álbum de estreia do muito promissor power-trio brasileiro Psilocibina que acaba de ser disponibilizado para escuta integral através da sua página oficial de Bandcamp, e que tem nas mãos da editora discográfica brasileira Abraxas (responsável pela distribuição em solo americano) e do selo discográfico germânico Electric Magic (responsável pela distribuição em solo europeu) o respectivo lançamento nos formatos físicos de CD e vinil agendado para as próximas semanas. Este jovem tridente enraizado na cidade do Rio de Janeiro tem neste álbum de designação homónima o culminar de mais de três anos de ensaios e o resultado não poderia ser mais do meu agrado. Baseado num fascinante, erótico, psicotrópico e inflamante Heavy Psych de clima tropical e textura setentista, este poderoso alcaloide via auditiva provoca em nós todo um caleidoscópio de alucinações, a instauração de um perfeito estádio de êxtase, e o sagrado desprendimento do ego pela infinita vertigem da nossa espiritualidade. A sua sonoridade de orientação instrumental tanto se balanceia por passagens meditativas, lisérgicas e sedativas que nos relaxam e massajam os sentidos, como se lança em frenéticas e estonteantes cavalgadas nos fervem, borbulham e agitam de uma saturada e desgovernada adrenalina. E é este equilíbrio entre duas emoções tão contrastadas que faz deste ‘Psilocibina’ é um álbum verdadeiramente cativante que nos magnetiza e euforiza do primeiro ao derradeiro tema. São cerca de 36 minutos envolvidos num narcotizante deslumbramento celebrado por uma guitarra ostentosa e venenosa que se exterioriza e supera na incrível criação e condução de extravagantes, ácidos, caóticos e delirantes solos, um baixo pulsante de linhas volumosas, fluídas e dançantes que nunca perde a guitarra de vista, e uma acrobática e vistosa bateria movida a destreza, leveza e requinte que com a sua selvática execução nos desarma e empolga com tremenda intensidade. De destacar ainda o exótico artwork de textura étnica e natureza alucinógena – pensado e ilustrado pelo guitarrista da banda Alex Sheeny – que combina na perfeição com o universo musical de Psilocibina. Este é um álbum maravilhoso que nos escancara as portas da percepção, evacua a lucidez, e convida a mergulhar num ciclónico vórtice de onde não será nada fácil regressar. ‘Psilocibina’ é um registo tremendamente envolvente e impactante que acabara mesmo por inundar e até extravasar as enormes expectativas a ele dedicadas. Estamos indubitavelmente na presença de um dos álbuns mais extraordinários lançados até ao momento e que seguramente estará perfilado por entre os melhores de 2018. Absorvam-se na sua profunda toxicidade.

🌿 Dope | Electric Wizard

sábado, 4 de agosto de 2018

✈️ Led Zeppelin '73

Review: ⚡ Black Voodoo Train - 'We are not in California' (2018) ⚡

Os germânicos Black Voodoo Train estão de regresso com a promoção do seu segundo álbum ‘We are not in California’ e o mesmo não poderia ter causado maior impacto em mim. Lançado unicamente em formato digital (disponível para download gratuito) através da sua página oficial de Bandcamp, este sucessor de ‘Cosmic Sessions’ (dissecado e elogiado aqui) vem climatizado e aromatizado por um envolvente, exótico e extasiante psicadelismo de propensão astral capaz de nos absorver, inebriar e deslumbrar sem qualquer inibição. Apesar de enraizado na cidade de Munique, este quinteto presenteia os ouvintes com uma sonoridade de paladar californiano onde um afável, veraneio e adorável Psych Rock, um lisérgico, contemplativo e hipnótico Krautrock e um sideral, viajante e fascinante Space Rock convivem em perfeita harmonia. ‘We are not in California’ é portador de uma resplandecência, sensualidade e ardência que nos bronzeia e enfeitiça do primeiro ao último tema. São cerca de 42 minutos conduzidos a sublimidade por duas guitarras celestiais que se passeiam e dialogam por entre aliciantes acordes e delirantes solos, um baixo sussurrante de bafagem dançante, uma bateria groove’sca de ritmicidade relaxante, e ainda uma voz angelical que faroliza toda esta paradisíaca digressão pelos suavizantes oceanos da ataraxia. Deixem-se naufragar na infinidade espacial de Black Voodoo Train e empoeirar de um sagrado misticismo que nos canaliza e desagua num perfeito oásis espiritual. Há algo de verdadeiramente edénico na ambiência deste apaixonante registo que nos massaja os sentidos, apazigua a alma e faz salivar os ouvidos. ‘We are not in California’ vem munido de propriedades terapêuticas nas quais nos reconfortamos e regozijamos do primeiro ao último tema. Embalem na sua esplendorosa e maravilhosa essência e sintam-se orbitar os domínios do nirvana. Este é um álbum de beleza ofuscante e estonteante, destinado a perfilar-se por entre os melhores discos lançados em 2018. Banhem-se e deliciem-se na sua mágica radiação.

Tony Alva aka Mad Dog // Santa Monica, '78

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Odyssey - St. Elmo's Fire (1969)

Review: ⚡ Brimstone Coven - 'What Was and What Shall Be' (2018) ⚡

O saudoso Classic Rock formulado na década de 70 continua a prosperar neste prolífico ano de 2018, e mais uma prova disso é o novo álbum do tridente norte-americano Brimstone Coven que vem consolidar esta venerável tendência. Lançado na segunda metade do passado mês de Julho sob a forma física de CD e vinil (ambos os formatos ultra-limitados à existência de apenas 300 cópias), ‘What Was and What Shall Be’ prende um vigoroso, ardente, enigmático e majestoso Hard Rock oleado e adornado por um elegante, harmonioso e imponente Heavy Blues de natureza revivalista. A sua sonoridade sumptuosa é sombreada por um clima ocultista que lhe confere uma misticidade capaz de intrigar e conquistar o mais céptico dos ouvintes. Conseguem imaginar a titânica obscuridade de uns Black Sabbath aliada à encantadora melosidade de uns Led Zeppelin, à cremosa melodia de Wishbone Ash, e ainda à empolgante ritmicidade de uns Grand Funk Railroad? Se sim, alcançaram os singulares domínios de Brimstone Coven. Esta fascinante formação sediada na cidade de Wheeling (West Virginia, EUA) tem em ‘What Was and What Shall Be’ um louvável registo detentor de um estilo bastante peculiar que me hipnotizara e apaixonara do primeiro ao derradeiro tema. São cerca de 40 minutos conduzidos a destreza, volúpia e firmeza ao volante de uma guitarra opulenta de poderosos, dinâmicos, obscuros e luxuosos riffs que se desmoronam e desaguam em serpenteantes, estéticos, lisérgicos e intoxicantes solos, um baixo pulsante e reverberante movido e enegrecido a potência, exuberância e vigor que sombreia todas as incursões da guitarra, uma vistosa bateria brilhantemente executada a fulgor, primor e intenso virtuosismo, e ainda uma agradável e melódica voz temperada a delicadeza, fineza e paixão que se sobressai e notabiliza nesta extasiante e envolvente combustão. Recostem-se confortavelmente, desmaiem as pálpebras e deixem-se seduzir e dirigir pela faustosa atmosfera de ‘What Was and What Shall Be’, numa das mais belas e impactantes surpresas sonoras do ano.

🌴 Yawning Man (live)

📀 King Buffalo - 'Longing to be the Mountain' (12-10-2018)

segunda-feira, 30 de julho de 2018

Review: ⚡ Pushy - 'Hard Wish' (2018) ⚡

Da cidade norte-americana de Portland (Oregon, EUA) chega-nos um dos meus registos favoritos nascidos até ao momento em 2018. ‘Hard Wish’ é o primeiro álbum do quarteto Pushy que fora muito recentemente lançado em formato físico de vinil pela mão da pequena editora discográfica alemã Who Can You Trust? Records numa prensagem ultra-limitada a 500 cópias existentes. Com os seus instrumentos hasteados e apontados aos dourados anos 70, a sonoridade desta fascinante formação representa um autêntico hino ao que de melhor emergiu no universo da música Rock durante essa década tão abastada, inventiva e carismática. ‘Hard Wish’ escuda-se num elegante, robusto e provocante Hard Rock de feições clássicas aliado a um erótico, ardente e dinâmico Blues Rock. A sua sonoridade de essência vintage – esporeada e executada a uma ritmicidade emocionante, formosa e contagiante – tem o dom de nos envolver e remexer do primeiro ao derradeiro tema. São cerca de 40 minutos lotados de uma desarmante e refinada fogosidade que nos bronzeia e incendeia de prazer. Deixem-se deslumbrar ao primoroso e purificante som conjugado entre duas guitarras harmoniosas detidamente entregues a majestosos, torneados e ostentosos riffs e distintos solos lavrados a opulência, virtuosismo e exuberância, um baixo dançante de linhas fluentes, atléticas e oscilantes, uma bateria talentosa movida a um toque polido, eficiente, leve e apurado, e ainda uma voz afável, suave, cristalina e melodiosa que se passeia livre e graciosamente ao longo de todo o álbum. De destacar ainda o caprichoso artwork – superiormente pincelado pelo singular artista norte-americano Adam Burke – que empresta toda uma aura poética e bucólica a esta obra-prima inspirada. Este é um disco verdadeiramente sublime, talhado e conduzido a vitalidade, luxúria, destreza e lubricidade que não deixará ninguém indiferente. Uma locomotiva carburada a leveza, firmeza e mestria. Entreguem-se de corpo e alma a esta irretocável e incensurável criação de Pushy e testemunhem todo o esplendor de um dos registos mais estupendos do ano. Um dos mais sérios candidatos ao pódio dos melhores álbuns de 2018 está aqui, na sensacional resplandecência de ‘Hard Wish’. É difícil desejar algo de diferente neste trabalho. Perfeito aos meus ouvidos.

🎙 Blue Eyed Sons meets Led Zeppelin

Necro - "Deuses Suicidas" (2016)

sexta-feira, 27 de julho de 2018

Review: ⚡ Khan - 'Vale' (2018) ⚡

Da grande e populosa cidade de Melbourne (na Austrália) chega-nos a apaixonante e inebriante fragância sonora de Khan com a promoção de ‘Vale’, o primeiro trabalho de longa duração deste trio de ainda tenra idade. Lançado no território primaveril do presente ano tanto em formato digital como na forma física de CD através da sua página oficial de Bandcamp, este álbum de estreia é aureolado e climatizado por um delicioso, meditativo, lenitivo e prazeroso Psych Rock de bafagem veraneia e natureza Kraut’eana – dirigido com base num deslumbrante, inventivo, ataráxico e envolvente Prog Rock – que se desenvolve, revolve e incendeia num fervilhante, intenso, sedutor e provocante Desert Rock afogueado pelo intoxicante efeito fuzz. A sua sonoridade tremendamente narrativa e visual – tricotada a esplêndidas composições – conduz a nossa espiritualidade pela ofuscante vertigem de uma paisagem estival emoldurada pela imensa profusão de luzência, aroma e coloração. Há algo de verdadeiramente encantador na atmosfera de ‘Vale’ que nos afaga, enfeitiça e petrifica num perfeito estádio de bem-estar. São cerca de 62 minutos – distribuídos por oito temas – ensolarados, bafejados e irrigados por um sublime misticismo capaz de nos enlevar e carregar aos tão almejados domínios do transe espiritual. Deixem-se absorver e consagrar na desarmante e narcotizante beatitude de Khan à comovente boleia de uma guitarra etérea que se passeia em acordes maviosos, lisérgicos, estéticos e caprichosos, e se encrespa na criação e orientação de solos penetrantes, caóticos, alucinógenos e ecoantes, um baixo hipnótico de linhas dançantes, morfínicas, fluídas e murmurantes, uma bateria relaxante, delicada e tocante, e uma voz espectral, doce, leve e angelical que tempera na perfeição toda esta maravilhosa hipnose. Deixem-se canalizar pela paradisíaca intimidade de ‘Vale’ que vos adornará a alma e adormecerá os sentidos. Este é um álbum praticamente pensado e executado à minha imagem que me embalara e arrebatara do primeiro ao último minuto. Um registo de contornos quiméricos – delineado e colorido a simetria, requinte e magia – que me faz coroá-lo com o estatuto de um dos mais distintos discos hasteados em 2018. Um autêntico talismã de origem australiana que garante emocionar todos os corações que nele se refugiarem.

👽 Earthless @ De Kreun (2018)

Sombra - "Quimera" (live)

Baroness - "Rays On Pinion" (2007)

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Review: ⚡ Black Elephant - 'Cosmic Blues' (2018) ⚡

Da província costeira de Savona (Itália) chega-nos o novo álbum do quarteto Black Elephant designado de ‘Cosmic Blues’. Lançado muito recentemente pela mão da influente editora norte-americana Small Stone Records (responsável pela promoção discográfica de bandas carismáticas como Acid King, Los Natas, Sasquatch, Dozer, Sons of Otis, Greenleaf, Wo Fat e Tia Carrera) nos formatos físicos de CD e vinil (este último confinado à disponibilidade de apenas 500 cópias existentes). Tal como o nome deste registo nos sugere, ‘Cosmic Blues’ vem saturado de um poderoso, atraente, empolgante e ostentoso Blues Rock em harmoniosa parceria com um possante, dinâmico, vulcânico e inflamante Heavy Rock de propensão e inspiração setentista. A sua sonoridade ardente, erótica e envolvente – incendiada e consumida pelo cáustico efeito Fuzz – causa no ouvinte um inquietante sentimento de prazerosa comoção que o abraça e orbita do primeiro ao último tema. São cerca de 34 minutos completamente atestados de uma vibrante, lasciva e apaixonante vivacidade que faz dele um dos álbuns mais extraordinários do ano. Dissolvam-se por entre a abrasadora nebulosidade de Black Elephant à hipnótica e entusiasmante boleia sonora de duas guitarras que se fundem e robustecem na criação de tumultuosos, monolíticos, intensos e majestosos riffs e se perdem e encontram por entre a incrível condução de desvairados, gritantes, alucinantes e assombrosos solos, um baixo encorpado de linhas magnetizantes, escurecidas, tensas e oscilantes, uma bateria dominante de ritmicidade diligente, volumosa, atlética e provocante, e uma voz cavernosa, incisiva, urticante e furiosa que lidera com distinção toda esta reverberante e ciclópica avalanche. O artwork copiosa e detalhadamente tricotado a misticismo é da inconfundível autoria do prodigioso artista sueco Robin Gnista (intérprete visual de bandas como Brant Bjork, Buried Feather, Honeymoon Disease, The Sonic Dawn, Killer Boogie, Gypsy Sun revival e até da presente edição do festival português SonicBlast Moledo). Deixem-se atear e intoxicar pela contagiante turbulência de ‘Cosmic Blues’ e vivenciem-no com total fascínio e exuberância. Uma verdadeira dose de adrenalina e encantamento que seduzirá e exaltará o mais frio dos ouvintes.

🦇 The Black Wizards - "Fire" (live, 2018)

Mike Eginton // Earthless

© Clemens Mitscher / VG Bild-Kunst, Bonn

domingo, 22 de julho de 2018

Heavy Grass meets Black Sabbath!

Hawkwind - 'Hall of the Mountain Grill' (1974)

©️ David A. Hardy

Review: ⚡ Chill Child - 'Bong Colony' (2018) ⚡

Da costeira e exótica cidade de Ventura (Califórnia, EUA) chega-nos ‘Bong Colony’, o novo álbum do extravagante power-trio Chill Child. Lançado no início do presente mês de Julho unicamente em formato digital através da sua página oficial de Bandcamp, este excitante registo prende um ardente, enérgico, tumultuoso e incessante Stoner Punk de alta rotação que nos pontapeia, estimula e provoca um imperturbável estádio de crescente ebulição. A sua sonoridade anárquica incendeia e fervilha os oito temas do disco, motivando no ouvinte um intenso e absorvente entusiasmo que o domina, sacode e implode com tremenda violência. São cerca de 25 minutos mergulhados e cozinhados num vulcânico e borbulhante caldeirão sonoro que faz deste ‘Bong Colony’ um álbum de natureza verdadeiramente provocante. Segurem firmemente as rédeas desta desenfreada galopada e sintam as incisivas esporas de uma bateria incansável, impulsiva e despachada, o ácido rugido de uma voz volumosa, áspera e furiosa, a contagiante ardência de uma guitarra que se inflama em riffs velozes, atordoantes e ferozes, e a pujança de um baixo movido a firmeza, vigor e destreza. Este é um registo imensamente impactante que – apesar da sua curta duração – deixa o ouvinte completamente esgotado, embriagado e sem fôlego. Uma louca, alucinante e acrobática montanha-russa vivida a grande velocidade que nos atesta e arrebata de pura adrenalina. Inalem esta psicotrópica efervescência de Chill Child, ouçam o rufar dos vossos corações e exaltem-se de um vivificante prazer.

🌟 Slowdive - "Star Roving" (live)