terça-feira, 14 de julho de 2020

☀️ Emmylou Harris

✠ Lemmy Kilmister

🎙 Ian Gillan // Deep Purple

Review: ⚡ 10,000 Years - '10,000 Years' EP (2020) ⚡

Oriundo da cidade sueca de Västerås chega-nos o impactante EP de estreia do enérgico power-trio 10,000 Years. Carimbado com designação homónima e lançado muito recentemente através do formato digital e numa edição de autor em CD (este último ultra-limitado à existência de apenas 50 exemplares físicos numerados à mão), ’10,000 Years’ vem enegrecido, escaldado e tonificado por um narcotizante, musculado, sombreado e fumegante Stoner Doom de pesada, saturada e sísmica nasalação luciférica, que se emporcalha nas esverdeadas águas paradas de um viscoso, bafiento e fibroso Sludge Metal encrostado pelo fogoso efeito Fuzz. Descendente de vultosas referências do género tais como Kyuss, Acid King, Bongzilla e Weedeater, a ameaçadora, densa, tensa e esmagadora sonoridade violenta e ardentemente bafejada pelo jovem tridente nórdico é desdobrada e pautada a duas velocidades fortemente contrastadas. Combinando uma lodacenta, misantrópica e sonolenta letargia climatizada a distopia com uma saturada, turbulenta e destravada euforia de consumo impróprio para cardíacos, este titânico EP é motorizado por uma guitarra inquisidora de Riffs massivos, intrigantes, gigantes e altivos de onde efervescem e entoam solos serpenteantes, ácidos, delirados e intoxicantes, enlutado por um possante baixo de mugido reverberante, obeso, vigoroso e magnetizante, pontapeado por uma convulsiva bateria locomovida a ritmicidade explosiva, frenética e coerciva, e rugido por uma voz fogosa, gritada, escarpada e cavernosa que assombra e ecoa por todos os abismos desta sufocante atmosfera de ‘10,000 Years’. São 21 minutos locomovidos a um fervilhante, corrosivo e formigante negrume. Deixem-se banhar e arrasar por esta monolítica avalanche tecida a lava incandescente, expurgada e vomitada por um rumoroso vulcão em constante e inesgotável erupção. Este é um EP autenticamente impiedoso e demolidor que atropelará todo aquele que na sua frente estacionar. Um ardente e urticante trago de pura adrenalina via auditiva que estará seguramente perfilado por entre os mais medalhados registo de curta duração germinados e promovidos no presente ano de 2020.

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domingo, 12 de julho de 2020

Boston - "Peace of Mind" (1976)

Screaming Trees - "More or Less" (1992)

Review: ⚡ Holy Monitor - 'This Desert Land' EP (2020) ⚡

Da cidade-capital grega de Atenas chega-nos o renovado sonho musicado do quimérico quinteto helénico Holy Monitor. Intitulado de ‘This Desert Land’ e lançado no primeiro vislumbre do passado mês de Junho sob a exclusiva forma digital através da sua página de Bandcamp oficial, este fabuloso e caprichoso EP prende uma sublimada, onírica, paradísica e embriagada envolvência onde se envaidece, naufraga e embevece um magnético, imersivo, sidérico e sedativo Krautrock em harmoniosa e dialogante conjugação com um viajante, mágico, enigmático e enfeitiçante Space Rock, um deslumbrante, ensolarado, perfumado e narcotizante Psychedelic Rock, e ainda um estimulante, melódico, radiofónico e extasiante Indie Rock. A sua sonoridade de tez caramelizada, afrodisíaca e arrebatada tem o especial condão de embaciar a nossa lucidez e mergulhar os nossos sentidos num profundo, delirante e ofuscante estádio de deleitável embriaguez. Num admirável equilíbrio entre a doce letargia e a exótica euforia, somos afunilados e escoados numa anestésica, profética e nirvânica hipnose que desagua a nossa espiritualidade no edénico areal do tão almejado transe sensorial. De alma atordoada, olhar eclipsado e corpo balanceado e compenetrado num movimento serpenteante, comungamos toda esta febril saturação de Holy Monitor, farolizados e guiados por uma voz messiânica de paladar aveludado, tropical, sensual e melificado, duas deliciosas guitarras de esponjosos, místicos, caleidoscópicos e lustrosos acordes, e ziguezagueantes, alucinados, alcoolizados e ecoantes solos de extravagância arábica, um baixo ensonado de reverberação arrastada, pulsante, ondeante e sombreada, uma esplendorosa bateria de ritmicidade detida,  hipnotizante, tranquilizante e voluptuosa, e ainda um magnífico teclado de arejados, desarmantes, intrigantes e aromatizados bailados que ensaboa e acolchoa toda a jubilosa atmosfera de ‘This Desert Land’ com uma endeusada, encantada e diluviana fluorescência. Este é um registo verdadeiramente apaixonante, precioso e obcecante que me incitara a ouvi-lo e apreciá-lo vezes e vezes sem conta. São apenas 16 minutos integralmente empoeirados de uma tangível utopia onde o ouvinte se esperneia, enleva e hasteia ao mais genuíno estádio epicurista. Uma incansável massagem cerebral e um lúbrico afago sensorial que nos mantêm imortalizados num inenarrável orgasmo espiritual. Banhem-se e bronzeiem-se na louvável, deífica e insuperável beatitude resplandecida pelos gregos Holy Monitor, e experienciem toda a ataráxica alquimia nebulizada pelos poros de um dos EP’s mais magistrais de 2020. Não vai ser fácil – ou sequer desejável – emergir e despertar desta entorpecedora, estupenda e sonhadora nebulosidade que nos amortalhara e oxigenara do primeiro ao derradeiro tema.

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quinta-feira, 9 de julho de 2020

👻 Petyr

📸 Sam Giles

☕️ Molior Superum - 'As Time Slowly Passes By​.​.​.' (2019)

🥁 Michael Shrieve // Santana (Woodstock '69)

Review: ⚡ Acid Moon and the Pregnant Sun - 'Speakin' of the Devil' (2020) ⚡

Da histórica e devota cidade de Tel Aviv (Israel) chega-nos o novíssimo álbum de estreia produzido pelo talentoso colectivo Acid Moon and the Pregnant Sun, um projecto formado em 2015 e que reúne diversos músicos locais. Designado de ‘Speakin' of the Devil’ e oficialmente lançado hoje mesmo pela mão do influente selo discográfico local Reality Rehab Records através do exclusivo formato digital, este primeiro, mas ousado e caprichado, passo discográfico desta muito promissora formação israelita, vem nutrido por um carismático, agradável e radiofónico Classic Rock de aroma revivalista, matizado por um ensolarado, caleidoscópico e perfumado Psychedelic Rock de textura sessentista e ainda massajado por um contemplativo, lírico e lenitivo Folk Rock de mãos dadas a um cativante, jovial e dançante Alternative Country que em estética e simbiótica parceria conferem toda uma aura edénica, profética e pastoral à apaixonante ambiência que climatiza e eteriza todo o corpo temporal desta inspirada obra. Destilada deste emaranhado novelo – estilo musical comummente apelidado de Americana - onde coabitam e dialogam entre si todos os géneros acima referidos e retratados, a envolvente, sedutora e eloquente sonoridade de ‘Speakin' of the Devil’ traz-nos todo um inefável paladar à mais purificante, extasiante e catártica liberdade espiritual. Uma transformadora passeata pelas rugosas, idosas e poeirentas estradas do velho-oeste americano de punhos firmemente cerrados no volante de um velho e vistoso Cadillac, sorriso genuíno esboçado e eternizado no rosto, olhar embriagado e cravado no desfocado horizonte fervilhado pelo corado Sol poente, e de esvoaçantes cabelos entrelaçados na refrescante brisa suspirada pelo deserto crepuscular. Toda uma ataráxica absorção sensorial e espiritual que em nós cultiva um profundo estádio de compenetrada e viajada introspecção. São 43 minutos integralmente farolizados e banhados a uma nirvânica luminância que nos bronzeia, deleita e esperneia sem a mais pequena réstia de inibição. Deixem-se embalar neste sonho acordado – superiormente capitaneado pelos Acid Moon and the Pregnant Sun – à mística boleia de uma liderante voz de feição verdadeiramente garbosa, simpática, melódica e melosa, duas fabulosas guitarras Grateful Dead’eanas que se manifestam em fascinantes, paradisíacos e comoventes acordes, e enlouquecem na emancipação de ostentosos, ácidos e cheirosos solos, um baixo bocejante de reverberação relaxante, sombreada, fluída e ondeante, um harmonioso teclado de refrescantes, airosos, lustrosos e deslumbrantes bailados, e uma bateria lasciva que – na companhia de uma percussão tropical, exótica e tribalista, e a galope de uma ritmicidade luminosa, delicada e despretensiosa – tiquetaqueia e trauteia com apurada graciosidade toda esta edénica digressão pelos arborizados trilhos do reino da esperança, bonança e alegria. De arremessar ainda elogiosas palavras ao enigmático e ritualístico artwork que deve a sua distinta existência à já célebre espanhola Branca Studio. Este é um álbum coroado a uma devocional beatitude de clima veraneio que me cortejara e embriagara do primeiro ao derradeiro tema. Deixem-se glorificar, embevecer e empoderar pela terapêutica musicalidade de Acid Moon and the Pregnant Sun e testemunhem na primeira pessoa todo o mágico, ofuscante e prismático esplendor de um dos mais maviosos e deliciosos álbuns nascidos em 2020.

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domingo, 5 de julho de 2020

Review: ⚡ Slypon - 'Slypon! Alive at Fitzroy Street' (2020) ⚡

Da cidade costeira de Melbourne (situada na Austrália) chega-nos uma das mais aprazíveis surpresas sonoras do ano. ‘Slypon! Alive at Fitzroy Street’ dá nome ao adorável álbum de estreia do jovem quinteto Slypon que fora lançado no passado mês de maio sob a exclusiva forma digital. Orquestrado por um delicioso cocktail musical de receita complexa e paladar tropical, que ostenta um ensolarado, sumarento, melífluo e sublimado Psychedelic Rock de clima West Coast, um majestoso, dançante, serpenteante e lustroso Progressive Rock de reconhecível sotaque Canterbury’eano e ainda um exuberante, místico, carnavalesco e hipnotizante Jazz Fusion de vocação arábica, este primeiro trabalho dos inspiradores Slypon traz-nos um irresistível exotismo capaz de fazer salivar os nossos ouvidos. Integralmente sobrevoado e farolizado por uma carismática atmosfera setentista, esta irretocável obra do colectivo australiano respira e transpira uma sonoridade refrescante, inebriada, condimentada e extasiante que decora o imaginário do ouvinte com paradisíacas paisagens de ardência veraneia. De olhar envidraçado, semblante anestesiado, sorriso perpetuado no rosto e alma plenamente arrebatada, somos passeados pelas fervilhantes, bronzeadas e ziguezagueantes estradas de Big Sur enquanto de narinas dilatadas aspiramos a fresca e salgada brisa suspirada pelo Oceano Pacífico e de lucidez embaciada procuramos resistir à tentação de mergulhar num súbito desmaio de prazer. Na génese desta espirituosa, frutada, sagrada e airosa bebida de consumo via auditivo está uma exótica guitarra de inspiração emprestada pelo virtuosismo de Santana e Peter Green que desdobra maviosos, enfeitiçantes, relaxantes e sumptuosos acordes e vomita borbulhantes, orgiásticos, bombásticos e atordoantes solos de elevada toxicidade, um baixo bamboleante de linhas ondeantes, magnéticas, proféticas e magnetizantes, uma bateria jazzística que – aliada a uma percussão de extravagância tribalista – tiquetaqueia com delicadeza, sensibilidade, criatividade e destreza, um lírico piano Fender Rhodes de notas saltitantes, simétricas e sonantes, um órgão Farfisa de intrigantes, litúrgicas e revigorantes melodias, toda uma panóplia de cósmicos sintetizadores que sulfatam a ambiência do disco com uma harmoniosa poeira estelar, um gracioso clarinete de envolventes narrativas fabulares, uma vistosa gaita de fole detidamente entregue aos seus excêntricos bailados de aura celta, e ainda tímidas aparições de vocais entorpecidos, sedosos, melodiosos e amolecidos que flutuam vagarosamente pelo sereno caudal deste verdadeiro sonho acordado. Conseguem imaginar um concordante diálogo instrumental entre o esplendoroso psicadelismo espelhado pelos californianos Monarch e a extravagância pérsica vagabundeada pelos texanos Khruangbin? Se sim, chegaram aos nirvânicos domínios de Slypon. Um real oásis de afago espiritual e sensorial que nos lenifica, seduz, conduz e purifica do primeiro ao derradeiro tema. São 52 minutos atestados de uma afrodisíaca beatitude capaz de expurgar e canonizar a alma de quem nele se deixar absorver, namorar e embevecer. Decididamente um dos mais cativantes álbuns do ano está aqui, na impecável estreia discográfica de uma banda que tem tanto de talentosa quanto de auspiciosa. Não vai ser fácil escutá-lo apenas uma vez, duas ou três. Quatro ou cinco. Ou seis.

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quarta-feira, 1 de julho de 2020

🦉 Dead Meadow

✝ Atomic Rooster

✌️ Woodstock '69

🎖 50 Years of 'Cactus' (01/07/1970, ATCO Records)

Review: ⚡ Permanent Clear Light - 'Cosmic Comics' (2020) ⚡

Oriundo da cidade finlandesa de Jyväskylä chega-nos o segundo e novo álbum do tridente nórdico Permanent Clear Light. Designado de ‘Cosmic Comics’ e oficialmente lançado pela mão da influente editora alemã Sulatron Records através dos formatos físicos de CD e vinil, este demorado e ansiado regresso à produção de registos de longa duração traz-nos uma sonhadora e entorpecedora amálgama musical de onde se reconhece e degusta um relaxante, lisérgico, estético e flutuante Neo-Psych de roupagem sessentista, um exótico, intoxicante, atordoante e ritualístico Space Rock de idioma alienígena, um estival, campestre e medieval Acid Folk emoldurado e oxigenado por enternecedoras baladas de natureza fabular, e ainda um hipnótico, futurista e omnipresente experimentalismo electrónico que condimenta toda esta fantástica digressão pelo aveludado, misterioso e embrumado negrume astral. A sua sonoridade autenticamente anestésica, inebriante, extasiante e sidérica causa em nós uma etérea envolvência que nos mumifica os membros e sentidos numa febril dormência. De espírito compenetrado e embevecido num imperturbável estádio de transe induzido, testemunhamos e comungamos o progressivo entorpecimento em nós plantado e sustentado pelos Permanent Clear Light que nos nebuliza e canaliza num caleidoscópico mergulho sensorial ornamentado a texturas magnetizantes, aromas frutados e colorações berrantes. De olhar eclipsado, narinas dilatadas, semblante esbatido e lucidez alcoolizada somos embalados numa delirante hipnose alimentada por uma perfumada guitarra de acordes suavizantes, airosos, melosos e deslumbrantes, um baixo soberbamente Krauty de linhas ondeantes, magnéticas e vagueantes, um risonho teclado de notas refrescantes, harmoniosas e saltitantes, um mágico sintetizador de radiação deífica, vaporosa e onírica, uma enfeitiçante bateria detidamente entregue a um galope minimalista, descontraído e tribalista, e uma voz robótica, jubilosa e profética – perseguida por um celestial coro vocal – que faroliza toda esta mística liturgia de consagração espiritual. ‘Cosmic Comics’ é um álbum de fácil digestão e pronta sedução que nos convida a uma profunda introspecção. Deixem-se ancorar nesta quietude nirvânica destilada de um álbum inteiramente banhado a cegante e cativante sumptuosidade, e efervescer no seráfico e aturdido universo de Permanent Clear Light.

segunda-feira, 29 de junho de 2020

🎨 Alex Grey

🎂 Ian Paice // Deep Purple (29/06/1948)

🎬 Up In Smoke (1978)

☕️ Agitation Free - 'معليش = Malesch' (1972, Vertigo)

Review: ⚡ El Triángulo - 'La Fuga del Color' (2020) ⚡

Da cidade-capital argentina de Buenos Aires chega-nos a psicotrópica fogosidade nasalada pelo exímio power-trio El Triángulo com o lançamento do seu novo álbum. Designado de ‘La Fuga del Color’ e muito recentemente revelado na íntegra através do exclusivo formato digital (com a sempre elogiável possibilidade de download gratuito através da sua página de Bandcamp oficial), este tão ansiado regresso discográfico por parte de uma banda que partilha o domicílio e respectiva musicalidade com actuais e egrégias referências locais como Ambassador, Knei, Almanegra, Denso Crisol e Montenegro vem enriquecer, homenagear e enobrecer o vasto, influente e sui generis legado musical principiado por vultosos nomes, seus conterrâneos, trazidos da dourada década de 1970 como Pappo’s Blues, Pescado Rabioso, Crucis, Invisible, Almendra, Color Humano, Cuero e El Reloj. Saltitando de um inflamante, afrodisíaco e entusiasmante Heavy Blues que concilia a estonteante maestria de Pappo com a tenebrosa heresia de Black Sabbath - matizado a um delirado, caleidoscópico e embriagado Psych Rock, apimentado a um dançante, bem-disposto e contagiante Funk, e conduzido a um serpenteante, majestoso e extravagante Prog Rock – até um apaziguante, sublimado e deslumbrante Acid Folk de adornos idílicos, aromas primaveris e ensolarado por uma esbelta voz feminina, ‘La Fuga del Color’ respira e transpira toda uma mística aura de paladar vintage que me cativara, arrebatara e namorara do primeiro ao derradeiro tema. São 65 minutos integralmente condimentados por uma apurada, fascinante e elaborada ostentação sonora que nos aguça e prazenteia os sentidos. Na génese desta pitoresca, exótica e carnavalesca fusão de géneros está uma guitarra magistral que agarra firmemente a maior dose de protagonismo com os seus imponentes, sinuosos e incandescentes Riffs superiormente desdobrados a irresistível lubricidade, e solos electrizantes, apoteóticos e ziguezagueantes vomitados a imaculada tecnicidade, um baixo ondeante de pesada e saturada reverberação que sussurra linhas magnetizantes, densas  e vagueantes, uma bateria dinâmica que conjuga a vulcânica explosividade esporeada a destravada euforia com a maviosa suavidade de tez jazzística, e uma voz polida, acidificada e melodiosa – a fazer recordar as avinagradas cordas vocais de Geddy Lee (baixista / vocalista dos lendários Rush) – que lidera com distinção toda esta virtuosa obra de El Triángulo. De estender ainda lisonjeiras palavras ao fabuloso artwork de natureza novelesca, brilhantemente pincelado pelo prendado ilustrador argentino Agustín Murias (aka Marea Negra). Este é um álbum verdadeiramente sensacional – orquestrado e norteado a uma dialogante, vertiginosa e incessante simbiose instrumental – que me mantivera de atenção e fascinação a ele atreladas do primeiro ao último tema. ‘La Fuga del Color’ é um álbum talhado e emoldurado a contornos épicos, marcadamente contrastado a intrigante obscuridade e purificante luminosidade, que vive da destreza e subtileza. Um registo vivamente enfeitiçante que decerto cortejará e conquistará todo aquele que o comungar. Vai ser demasiado fácil reencontrá-lo por entre os mais medalhados trabalhos desabrochados no presente ano de 2020.

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🤩 Psychedelic Sixties

sexta-feira, 26 de junho de 2020

Review: ⚡ Power Plant - 'Cargo' (2020) ⚡

Da cidade portuária de Szczecin (mapeada na Polónia) chega-nos o portentoso álbum de estreia forjado pelo auspicioso quarteto Power Plant, intitulado de ‘Cargo’ e oficialmente lançado hoje mesmo pela mão do jovem selo discográfico polaco Galactic SmokeHouse através do formato digital e CD. Desancorando o seu navio cargueiro nas quietas águas de um contemplativo, ensolarado, deslumbrado e imersivo Space Rock banhado e bronzeado a desarmante, sublimado e ofuscante psicadelismo, que vai progredindo destemida e triunfantemente até alcançar, lavrar e combater os revoltosos, negros, espessos e tormentosos mares de um fogoso, denso, tenso e impetuoso Stoner Doom de saturação Grunge, a evolutiva, cinematográfica, enfática e expressiva sonoridade de Power Plant pendula entre a edénica bonança e a despótica tempestade, a embaciada letargia e a sedada euforia, a misantrópica negrura e a quimérica luminosidade. De olhar semi-selado e petrificado, semblante desbotado, cabeça pesadamente baloiçante e espírito intensamente atordoado por toda esta intoxicante, fumarenta e enfeitiçante nebulosidade – nasalada pela fresca formação polaca e untada a THC (tetrahidrocanabinol) – somos narcotizados, perturbados e sepultados na obscurantista vacuidade do perpétuo espaço interstelar. Este é um lugar onde a utopia e a distopia se entrelaçam e unificam. Tecido e colorido por duas guitarras dialogantes que tanto se enternecem em maviosos acordes de beleza deífica como se enfurece em titânicos Riffs de bafagem demoníaca e solos trepidantes, ácidos, alucinógenos e rutilantes, escoltado e sombreado por um possante baixo sobrecarregado a uma reverberação sufocante, massiva, altiva e hipnotizante, e tiquetaqueado por uma absorvente bateria de marcha arrojada, dinâmica e compenetrada, ‘Cargo’ é um álbum integralmente climatizado a sedutora, embrumada e redentora soberania que nos ensurdece, entontece e eteriza os sentidos sedentos de experienciar algo assim. São cerca de 46 minutos gravitados por uma empoeirada, profunda e irresistível narcose – amuralhada a sideral misticismo e perfurada pela mais esfaimada vontade de desvendar o ocultismo – que nos mantém de corpo e alma firmemente atrelados à esfíngica liturgia superiormente doutrinada pelos Power Plant. Uma das mais impactantes surpresas sonoras do ano está aqui, na intrigante, diáfana e apaixonante bruma em nós sulfatada e imortalizada por ‘Cargo’. Não vai ser fácil contrariar todo este onírico torpor que nos invadira e entupira do primeiro ao derradeiro tema, e reaver a lucidez que nos fora subtraída e asfixiada pelas propriedades druídicas destes jovens polacos. Estamos na presença de um álbum de natureza mutuamente esmagadora, exploradora, profética e emancipadora que seguramente não deixará nenhum dos ouvintes recostado à indiferença.

🎶 Sister Rosetta Tharpe

🥁 Ginger Baker // Cream

🌴 Whitewater, CA