terça-feira, 28 de novembro de 2023

Review: 🧘 Lamp of the Universe - 'Kaleidoscope Mind' (2023) 🧘

★★★★

A um pequeno passo temporal de celebrar 25 anos de fértil existência, Lamp of the Universe – projecto do talentoso multi-instrumentista neozelandês Craig Williamson (Datura, Arc of Ascent e Dead Shrine) – apresenta o seu 17º trabalho de estúdio, intitulado ‘Kaleidoscope Mind’ e editado pela companhia discográfica helénica Sound Effect Records nos formatos físicos de LP e CD. Regressando à primordial fórmula musical que há muito celebrizara Lamp of the Universe, este mântrico ‘Kaleidoscope Mind’ combina um sacramental, caleidoscópico, nirvânico e celestial Psychedelic Rock de coloração exótica com um pastoral, reflexivo, lenitivo e outonal Acid Folk de clima melancólico. A sua sonoridade de fragância oriental, afago cerebral e purificação espiritual submerge o ouvinte num imperturbável estádio de transe que o hipnotiza, eteriza e canaliza até aos braços da ataraxia. A desapropriação e deserção do Eu, transcendendo e transportando a nossa consciência para lá das portas da percepção e testemunhando a paradisíaca desfloração do nosso Cosmos interior, deixando para trás um corpo caído e inanimado. De sentidos atordoados e lucidez embaciada, levitamos em órbita de um êxtase religioso que nos embarca numa gratificante peregrinação na endeusada direcção de um oásis espiritual. Vogando pelo fluido cósmico universal, mumificados num estado mesmérico e experienciando admiráveis registos akáshicos, somos banhados e farolizados pela seráfica luzência de Lamp of the Universe. Uma deslumbrante redescoberta interior à transformadora boleia de incontáveis instrumentos que se encavalitam uns nos outros, criando uma fascinante textura sonora onde nos perdemos e encontramos. É demasiado fácil derretermos com a desabrigada exposição à intensa toxicidade de uma alucinógena guitarra – empapada em efeito fuzz – que vomita ziguezagueantes, ácidos, polposos e borbulhantes solos, aconchegarmo-nos no bafo quente de um baixo fluído e ondeante, bailarmos os ritmos tribais de uma bateria magnética e estimulante, revirarmos os olhos com os serpenteios enleantes de uma enfeitiçante cítara de caligrafia árabe, ascender aos céus estrelados de atenção atrelada aos coros siderais e quiméricas melodias dos teclados, fantasiar sob a influência de uma flauta fabular que se enfatiza em frescos, sedosos e romanescos sopros, e imanizarmo-nos pela voz messiânica, xamânica e espectral que lidera toda esta caravana pelos desertos da alma. ‘Kaleidoscope Mind’ é um templo Zen onde nos refugiamos e comungamos – de alma completamente lavada e aliviada – uma terapêutica e milagrosa eucaristia que tudo cura em nós. Uma sedutora, reparadora e tranquilizante meditação que nos acalma e remete a uma profunda introspecção. Alinhem os vossos chakras com ‘Kaleidoscope Mind’ e vagueiem livremente por este infindável Jardim do Éden. Ninguém vai querer regressar deste álbum.

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terça-feira, 21 de novembro de 2023

🐎 Hermanos Gutiérrez @ KEXP (2023)

🌪 Ian Paice // Deep Purple (Osaka, 1972)

🦇 Supertzar - 'Epic Truths & Fantaisies' (2023, Analog Spleen Records)

Review: ⚡ Travo - 'Astromorph God' (2023) ⚡

★★★★

Depois da estreia ‘Ano Luz’ (aqui descrita) e do imersivo ‘Sinking Creation’ (aqui descrito), os bracarenses Travo estão de regresso com o seu novíssimo álbum denominado ‘Astromorph God’ e editado através da coligação ibérica entre a portuguesa Gig.Rocks e a espanhola Spinda Records nos formatos LP, CD e digital. Baseada num electrizante cocktail que combina um eruptivo, flamejante, efervescente e eruptivo Heavy Psych de irreverente atitude Garage com um propulsivo, vertiginoso, aparatoso e incisivo Space Rock de alta tensão, a camaleónica, criativa e ciclónica sonoridade de ‘Astromorph God’ ziguezagueia pelos serpenteios enleantes dos norte-americanos Elder, é varrida pelas rajadas psicotrópicas dos franceses SLIFT e contagiada pelo ecletismo sónico dos australianos King Gizzard & the Lizard Wizard. Contando ainda com discretos laivos de Rock Progressivo, este terceiro registo do quarteto português tanto banha e euforiza o ouvinte num fumegante vulcão em constante erupção, como o narcotiza e deixa à deriva na perpétua vacuidade cósmica. De dentes cravados no lábio inferior, coração galopante, olhar fulminante e cabeça furiosamente rodopiante embalamos na enlouquecedora vertigem espacial de Travo que nos dispara numa redentora eclosão sensorial. Uma injecção de pura adrenalina que nos satura de ebulição e arremessa a alta rotação pelas autoestradas do território alienígena. Uma atordoante, ofuscante e iridescente pirotecnia onde orbitam duas guitarras intoxicantes que manobram riffs infecciosos, fogosos e caleidoscópicos, e vomitam solos centrifugantes, ácidos e gritantes, um baixo elástico de reverberação escaldante, espessa e ondeante, uma bateria sísmica de ritmicidade bombástica, enfática e alucinante, um sintetizador de enfeitiçantes sirenes cósmicos, e vocais avinagrados, diabrinos e espectrais que pendulam entre níveos murmúrios siderais e coléricos rugidos infernais. A ilustração que confere um rosto robótico a esta arrasadora bomba de endorfinas – a fazer lembrar a sui generis e inventiva arte do helvético H. R. Giger – aponta os respectivos créditos autorais ao artista de rua portuense IMUNE. São 43 minutos transpirados e cadenciados a uma desenfreada correria. ‘Astromorph God’ é um grito implosivo que se propaga até às costuras fronteiriças do Cosmos interior. Psicadelismo de alta voltagem e em curto-circuito que põe à prova a resistência dos alicerces da nossa sanidade mental. Regressamos de ‘Astromorph God’ sem fôlego, de rastos e derrotados pela incontida descarga de energia que o mesmo liberta sem dó nem piedade. Um dos mais sérios candidatos a melhor álbum português do ano está aqui. Electrifiquem-se nele.

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quinta-feira, 16 de novembro de 2023

Marta Pereira da Costa @ Tiny Desk Concert (2023)

🔥 Roger Waters // Pink Floyd @ 'Dark Side of the Moon' tour (1973)

📸 Jill Furmanovsky

✌🏾 Jimi Hendrix (1968)

🩸 Early Moods - 'Blood Offerings' (2023, RidingEasy Records)

Review: 🪐 Orbitron - 'Cassini' EP (2023) 🪐

★★★★

Da cidade germânica de Paderborn chega-nos o inflamante EP de estreia do jovem, mas muito auspicioso, quinteto Orbitron. Denominado ‘Cassini’ e lançado no final do passado mês de Outubro sob a exclusiva forma digital, este primeiro passo discográfico da turma alemã – que aponta os seus instrumentos ao domínio astral – é sobreaquecido por um bombástico, arenoso, fogoso e desértico Heavy Psych, viajado por um imersivo, sónico, catatónico e explorativo Space Rock, e enfeitiçado por um contagiante, hipnótico, robótico e dançante Krautrock. Partilhando o ADN musical de outras bandas, suas conterrâneas, tais como Rotor, Iguana, Typhaon, Elara, Space Raptor, Nap, Wired Mind, Space Invaders, Trail e Hazeshuttle, os Orbitron embalam os seus ouvintes numa vertiginosa propulsão que os desenraíza da atmosfera terrestre, emancipa a consciência e mergulha na negra boca do Cosmos. Sobrevoando a cascuda atmosfera marciana, driblando a ossuda cintura de asteroides, rejeitando o asfixiante abraço gravitacional do colossal Júpiter e surfando os anéis de Saturno, exploramos e alcançamos tudo aquilo que se revela no sempiterno horizonte alienígena. A sua sonoridade poderosa, evolutiva, esponjosa e celestial – integralmente instrumental – vive de fortes contrastes, onde a alternância entre a letargia e a euforia, o glacial e o infernal, a morosidade e a aceleração, a serenidade e a ebulição convivem de perto e em sedutora harmonia. São 26 minutos saturados de um puro deslumbramento que nos empoeira o olhar de matéria estelar. Uma fantástica odisseia espacial, de estética cinematográfica Stanley Kubrick’eana, nas asas de duas guitarras escaldadas em vulcânica distorção que se coligam na condução de um verdadeiro tsunami de riffs titânicos, dinâmicos e ventosos, e desagregam na libertação de solos vistosos, ácidos e virtuosos, um baixo de bafo obeso, coeso e movediço, um teclado de aquosos, refrescantes e lustrosos coros siderais, e uma bateria de baquetas em chamas que pontapeia e afogueia toda a gloriosa atmosfera de ‘Cassini’ com uma energia imensamente contagiosa. A chamativa arte gráfica – tão condizente com tudo aquilo que a sonoridade de Orbitron edifica no imaginário do ouvinte – aponta os seus créditos de autor ao ilustrador francês Jo Riou. Este é um EP verdadeiramente aliciante que imortaliza a jovem banda germânica no meu radar. Apertem bem os cintos, recostem-se confortavelmente, fechem os olhos e embarquem nesta espantosa digressão extraterrestre sem a mais pequena vontade dela regressar.

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🌕 Pappo's Blues - 'Vol. 2' (1972)

sábado, 11 de novembro de 2023

The Allman Brothers Band - "Whipping Post" @ Fillmore East (1970)

☘️ Rory Gallagher - "Tattoo'd Lady" (Irish Tour, 1974)

💚 Pescado Rabioso - "Cementerio Club" (1973)

✝️ Berry Oakley // Allman Brothers Band (04/04/1948 🎗 11/11/1972)

📸 Sidney Smith (1972)

🎁 Rory Gallagher - 'Tattoo' (11/11/1973)

✝️ Phil Taylor // Motörhead (21/09/1954 🥁 11/11/2015)

📸 Dick Wallace / Rex Shutterstock

quinta-feira, 9 de novembro de 2023

🧠 3rd Ear Experience - 'Incredible Good Fortune' (2014)

🥡 Mong Tong 夢東 - 'Mystery 秘神' (2020)

✨🎹✨

Review: 🌋 Rëlisp - 'Akt​ï​w1' EP (2023) 🌋

★★★★

A recém-formada banda azteca Rëlisp acaba de lançar o seu arrojado EP de estreia intitulado ‘Aktïw1’, e carimbado pela jovem companhia discográfica local Noizu! Records através dos formatos CD (este ultra-limitado à prensagem de apenas duas centenas de cópias disponíveis) e digital. Residente na populosa Cidade do México, este extravagante sexteto revitaliza o sui generis Zeuhl: um exótico subgénero musical do Prog Rock estabelecido em 1969 pela banda francesa seminal Magma, termo proveniente da linguagem artística ficcional Kobaïan inventada pelo baterista e compositor francês Christian Vander (Magma), e cuja sua execução está hoje – infelizmente – em vias de extinção. Conjugando a ousadia e a maestria, Rëlisp vê a sua bússola apontada ao fascinante, camaleónico, místico e cerimonial Prog Rock de idioma Zeuhl e que hasteia bem alto a bandeira do movimento R.I.O. (acrónimo de Rock in Opposition), aliado ao primaveril, fabular, rústico e pastoril Folk de ensolarado e arejado clima Canterbury’esco, e ao espiritual, anárquico, claustrofóbico e sensacional Avant-Garde Jazz de carnavalesco bacanal sintonizado nas frequências de John Coltrane e Frank Zappa. Arquitectada por ambiciosas, complexas e gloriosas composições que trajam e conduzem os temas, e desregrada por um experimentalismo que confere asas à criatividade de cada um dos seus intérpretes, a sonoridade cerebral, excêntrica, enigmática e orquestral de ‘Aktïw1’ – indiscretamente influenciada por bandas clássicas como Magma, Weidorje, ZAO, Dün e Kōenji Hyakkei, e pelos contemporâneos californianos Corima – baloiça-se com altivez por desiguais estados de espírito que tanto relaxam e inebriam o ouvinte com suavizantes, etéreas e deslumbrantes passagens de verdejante placidez, como escaldam e euforizam o mesmo com furiosas, aparatosas e centrifugantes danças de instrumentos em debandada. Contando nas suas fileiras com a carismática presença colaborativa do pianista Patrick Gauthier (membro de Magma e Weidorje) e mais dois músicos convidados, este talentoso colectivo mistura a magia e a bizarria. Uma hipnótica alquimia superiormente musicada pelos enfeitiçantes e polifónicos coros vocais, a acintosa efervescência de uma voz acrimoniosa e a sedutora luzência de uma feminina voz angelical, a reverberação magnetizante, baloiçante e fluída do baixo, os coléricos, caóticos e estridentes sopros do saxofone, as mirabolantes, circenses e empolgantes acrobacias de uma bateria jazzística, os acetinados mugidos do violino, as intrincadas e coloridas melodias – de notas vivas e saltitantes – dos teclados, e os acordes angulosos de uma guitarra erudita. ‘Aktïw1’ é um registo verdadeiramente brilhante que só peca pela sua curta duração. Compartimentado em apenas três temas de almas dissemelhantes, este primeiro, mas triunfante, passo discográfico de Rëlisp provocara em mim todo um inextinguível estádio de intenso transe que me faz ansiar, de coração galopante e boca salivante, pelo segundo trabalho da banda. Nunca a elegância e a irreverência casaram tão bem. O mais sério candidato até ao momento a melhor EP do ano está aqui, no ostentoso culto de fragância alienígena celebrado por esta secreta sociedade mexicana.

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sexta-feira, 3 de novembro de 2023

✝️ Vic Vergeat // TOAD (1951 ⚡ 2023)

♦️ Lucid Sins - "Jack of Diamonds" (2023, Totem Cat Records)

Review: 🍁 Lucid Sins - 'Dancing in the Dark' (2023) 🍁

★★★★

Recordo-me de na Primavera de 2021 ter ficado completamente petrificado e assoberbado pelo álbum ‘Cursed!’ cozinhado pelo adorável duo escocês Lucid Sins (aqui trazido e reverenciado), e, portanto, foi com um chamejante brilho no olhar que li o anúncio de um novo álbum a florir este Outono. Quando a espera pelo lançamento de um dos registos – por mim – mais aguardados do ano findou, corri sem medos e demoras para o interior dos decrépitos e labirínticos bosques de Lucid Sins para experienciar os seus novos contos maquiavélicos. E se muito deles esperava, tudo eles me deram. Denominado ‘Dancing in the Dark’, carimbado pelo selo discográfico francês Totem Cat Records e exteriorizado sob as formas LP, CD e digital, este terceiro álbum do dueto localizado na cidade portuária de Glasgow, que conta já com uma década de existência, vem incensado por um outonal, fascinante, tranquilizante e pastoral Neofolk de orientação pagã entrançado num umbroso, enfeitiçante, enigmático e charmoso Occult Rock de intrigantes diabruras. Encobertos por um escuro manto gótico que nos anoitece a alma, escutamos, com inquebrável encanto, imaginativos contos medievais que ressuscitam velhas lendas que assombravam os ancestrais, e dançamos, obsessiva e desavergonhadamente, de pés descalços e desnudos corpos transpirados, à volta de uma fogueira abraçada pelas trevas, cujas intensas lavaredas cospem endiabradas faúlhas que se convertem em cintilantes astros soterrados no negro solo cósmico. Uma magia cerimonial que nos seduz e conduz – sonâmbulos – ao lado eclipsado da religiosidade. Composto por duas mãos repletas de bonitas faixas de estética rural que transpiram uma serenidade demoníaca, uma graciosidade ritualística e uma melancolia obscurantista, ‘Dancing in the Dark’ é uma obra de aura fabular, moldura vintage e arejada a formosura, tricotada a melódica suavidade, mística obscuridade e hipnótica sensualidade que nos cerca e sufoca de uma profana doçura. Remexidas no interior de um esverdeado e borbulhante caldeirão em constante ebulição, gravitam influências como Wishbone Ash, Black Widow, Witchcraft e Dunbarrow que, quando combinadas, resultam numa deliciosa sopa sonora. Uma irresistível feitiçaria de natureza Wicca, soberbamente musicada por uma guitarra sumptuosa de requintados, romanescos, magnificentes e sublimemente detalhados acordes e solos ziguezagueantes, níveos, filamentosos e deslumbrantes, um aconchegante baixo de sussurrantes, sombreadas, amaciadas e magnetizantes linhas, uma encantadora bateria tiquetaqueada a desarmante sensibilidade jazzística, teclados quiméricos, vocais angelicais, luminosos, sedosos e siderais, um carismático órgão Hammond de polposos, faustosos e harmoniosos mugidos, e um fresco clarinete de misterioso clima noir que vagueia livremente à boleia de sopros serpenteantes, dourados e gritantes. O fantástico artwork que casa na perfeição o visual com o musical aponta os seus créditos autorais ao inconfundível David V. D’Andrea. Este é um registo imensamente bonito e cativante que, de forma leve e discreta, nos namora sem moderação. A venenosa picada de uma serpente que nunca vislumbrámos. O sangrento beijo do vampiro que nunca encontrámos fora dos nossos sonhos. ‘Dancing in the Dark’ é uma mélica tentação que nos faz tombar as pálpebras, corar as maçãs do rosto e morder os lábios. O chamamento das trevas onde nos agasalhamos e refugiamos confortavelmente. Bailem de olhos vendados pelos sombrios e embruxados bosques de Lucid Sins, e vivenciem com salivante e inapagável fascinação todo este estranho sonho acordado. Nunca o pecado assentou tão bem em nós.

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