segunda-feira, 30 de março de 2020

☀️ Blues Pills - "Little Sun" (Lindbacka Session)

🎖 Happy 75th Birthday Eric Clapton (30/03/1945)

🎖 Happy 50th Anniversary Miles Davis - 'Bitches Brew' (1970)

Review & Full Premiere: ⚡ Moura - 'Moura' (2020) ⚡

Da vizinha Espanha – mais concretamente da cidade galega de Corunha – chega-nos um dos trabalhos mais ansiados e surpreendentes do ano. ‘Moura’ é o magistral álbum de estreia – de designação homónima – esculpido e lapidado pelo talentoso e sui generis quinteto espanhol que verá a luz do dia no próximo dia 1 de Abril (quarta-feira) através do conceituado selo discográfico local Spinda Records na forma física de CD e vinil (ambos os formatos ultra-limitados à existências de parcas centenas de cópias disponíveis para venda). Respondendo positivamente ao dignificante convite que me fora feito para estrear – de configuração exclusiva – em solo (digital, entenda-se) português a escuta integral desta prodigiosa primeira obra discográfica de Moura, é ainda assombrado por um febril entusiasmo – deixado pelo mesmo – que tentarei da forma mais genuína transladar para o domínio textual tudo aquilo que ‘Moura’ em mim ateara no universo emocional. Concebido e conservado por um devocional, outonal, novelesco e tradicional Folk de aura ritualista que desenterra e ressuscita toda a esquecida mística do paganismo celta, e um exuberante, enigmático, magnético e apaixonante Heavy Prog – matizado a um efervescente psicadelismo – de contornos épicos e estirpe revivalista, este sublimado ‘Moura’ presenteia e prazenteia o ouvinte com requintadas, deslumbrantes e inspiradas composições musical e liricamente desafiadoras. De olhar envidraçado, semblante pasmado e espírito enfeitiçado, somos cativados e orientados por uma esotérica liturgia – superiormente liderada por estes cinco druidas – de oração e adoração apontadas ao revivalismo de lendas ancestrais. Absorvidos e nutridos por um profundo e intenso transe religioso, é-nos demasiado fácil converter em devotos peregrinos de duas guitarras messiânicas que se hasteiam em ostentosos, faraónicos, mitológicos e imperiosos riffs, e se inflamam em delirantes, exóticos, tóxicos e uivantes solos, um vultoso baixo de pesada, densa, tensa e ondulada reverberação, um maravilhoso órgão Hammond de hipnotizantes, enigmáticos e transbordantes bailados, um mágico sintetizador que nos empoeira e beatifica de profecias cósmicas, uma sofisticada bateria de natureza erudita e galope tribalista que tiquetaqueia todo o álbum com a sua apurada técnica, e uma voz evangélica que – perseguida por um populoso, ecoante e luminoso coro vocal – capitaneia esta quimérica digressão pelos primórdios da preciosa cultura galega. A bonita fotografia que adorna o rosto deste imaculado registo tem os seus devidos créditos apontados ao fotógrafo espanhol Leo López. Este é um álbum verdadeiramente utópico. Um irrepreensível trabalho arquitectado e executado a desarmante maestria que me seduzira e conquistara do primeiro ao derradeiro tema. ‘Moura’ garante – assim – não só uma estreia profundamente marcante, como um lugar cativo por entre os mais premiados e elogiados álbuns que representarão os melhores discos de 2020. Estes cinco eremitas hispanos vêm comprovar que nem só dormindo, sonhamos. Corações ao alto, o nosso coração está em Moura.


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🛹 Laura Thornhill

🧿 Alice In Chains

domingo, 29 de março de 2020

💎 Prog'tugal

🎖 Happy 51st Birthday Quicksilver Messenger Service - 'Happy Trails' (1969)

Review: ⚡ Freeways - 'True Bearings' (2020) ⚡

Da cidade canadiana de Brampton (Ontário, Toronto) chega-nos a fresca e revitalizante brisa sonora bafejada pelo quarteto Freeways, que está na iminência de nos brindar com o lançamento do seu muito esperado álbum de estreia. Intitulado de ‘True Bearings’ e tendo o seu nascimento oficial agendado para o próximo dia 2 de Abril pela mão do ainda jovem selo discográfico local Temple of Mystery Records (sediado na cidade de Montreal, fiel e exclusivamente dedicado às variantes da música Metal) nos formatos físicos de CD, cassete e vinil, este sensacional primeiro trabalho de longa duração da formação canadense enverga um ostentoso, melódico, estético e charmoso Heavy Metal de roupagem costurada à anos 80, em cumplicidade com um oleado, vigoroso, primoroso e ritmado Hard Rock de tração e vocação setentista. Numa sofisticada e apaixonante homenagem – exemplarmente executada – a vultosas referências dos géneros como Thin Lizzy, April Wine, Budgie, Blue Öyster Cult e UFO, a aromática e carismática musicalidade de ‘True Bearings’ combina relaxadas baladas climatizadas a envolvente e deslumbrante harmonia com empolgantes galopadas carboradas a uma inflamada e embriagada euforia. Na génese deste irresistível registo perfilam-se duas virtuosas guitarras gémeas que se entrelaçam na ascensão e condução de majestosos, felinos, cativantes e voluptuosos Riffs, e desenlaçam numa animada e enfurecida perseguição por entre ziguezagueantes, gélidos, ácidos e atordoantes solos, um sussurrante e ondulante baixo sombreado, balanceado e rugido a linhas dançantes, magnéticas e possantes, uma instigante bateria firmemente esporeada a uma ritmicidade moderada, consistente, eloquente e descomplicada, e ainda uma voz distinta de tez sedosa, afinada, aquecida e melosa – a fazer-me recordar os notáveis dotes vocais do ímpar Klaus Meine (vocalista de Scorpions) – que confere toda uma maviosidade lapidar à encantadora atmosfera de ‘True Bearings’. É-me ainda inevitável enfatizar e aplaudir o fantástico artwork de aura revivalista e beleza polar, irrepreensivelmente ilustrado pelo ainda desconhecido, mas deveras promissor, artista canadiano Wayne Deadder, que se estreia assim na concepção de uma capa para um trabalho musical. Este é um álbum de fascinação e veneração imediatas. Uma obra forjada em combustão, maturada pela habilidade e polida pela sensibilidade que me cortejara e conquistara na primeira audição que lhe dedicara. Deixem-se enternecer e embevecer pela simétrica e melancólica maviosidade que contorna ‘True Bearings’, e vivenciar – ainda que de forma fugaz e subtil – um fogoso trago de chamejante excitação que vai colorindo e vivificando as pálidas e invernosas paisagens sonoras de Freeways polvilhadas e banhadas pela neve. Seguramente, um dos grandes álbuns do ano está aqui, na desarmante magnificência patenteada por um álbum dotado da rara capacidade de reconfortar e extasiar todo aquele que nele se refugiar.

quinta-feira, 26 de março de 2020

🦇 Black Sabbath

🎖 Heavy 44th Birthday Thin Lizzy - 'Jailbreak' (1976)

Review: ⚡ Heavy Trip - 'Heavy Trip' (2020) ⚡

Da cidade canadiana de Vancouver chega-nos a gloriosa estreia do excitante power-trio Heavy Trip. Envergando a designação homónima e tendo o seu lançamento oficial mapeado para o próximo dia 28 do presente mês de Março (sábado) sob a forma física de vinil e digital, este sensacional álbum conjuga a afrodisíaca extravagância de Jimi Hendrix com a altiva obscuridade de Black Sabbath. Lavrado por um provocante, fogoso, revoltoso e delirante Heavy Psych de elevada toxicidade que se esperneia e enlameia num pantanoso, intrigante, luciférico e poderoso Proto-Doom de essência ritualística, ‘Heavy Trip’ é gravitado e capitaneado por magnetizantes, ácidas, esponjosas e impactantes jams – de natureza exclusivamente instrumental – que facilmente nos abafam a lucidez e inundam de uma febril e euforizante embriaguez. Totalmente absorvidos nesta chamejante, profunda e fumegante efervescência sonora, somos embalados pelo berrante exotismo de uma guitarra faraónica que se manifesta em riffs tenebrosos, soberanos, massivos e vigorosos de onde desabrocham borbulhantes, desvairados, turbinados e atordoantes solos, pelo pesado rugido de um baixo imponente que canaliza toda a sua trovejante reverberação em linhas possantes, hipnóticas e navegantes, e pela enérgica galopada irrepreensivelmente esporeada por uma rumorosa bateria de desembaraçada, acrobática e apressada ritmicidade conduzida a pura adrenalina. São estes os três ingredientes que quando fundidos resultam numa emocionante e aparatosa explosão de endorfinas. De espalhar ainda elogiosas palavras pelo prodigioso artwork de créditos facilmente apontados ao já consagrado ilustrador californiano Alan Forbes que traduzira para o universo visual tudo aquilo que a xamânica e psicotrópica musicalidade de Heavy Trip edifica no imaginário do ouvinte. Este é um álbum verdadeiramente piramidal. Um disco cabalmente oxigenado e saturado por uma catártica aura que nos estremece e sobreaquece a alma, fazendo-a entrar numa bombástica erupção de puro prazer. Confesso que ‘Heavy Trip’ era um dos registos por mim mais ansiados do ano, portanto a expectativa a ele previamente dedicada era mastodôntica. Mas não só o mesmo entupira essa mesma espaçosa esperança, como lhe rasgara e trespassara as suas costuras fronteiriças, forçando-me a vivenciá-lo de semblante boquiaberto e coração cavalgado a alta rotação do primeiro ao derradeiro tema. São 36 minutos de uma impetuosa ardência que nos sacode e implode de um incontido entusiasmo. Deixem-se impulsionar e fulminar à enlouquecedora e libertadora boleia de Heavy Trip, e experienciem toda a dominante opulência de um dos mais sérios e acreditados candidatos ao tão ambicionado título de álbum do ano.

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terça-feira, 24 de março de 2020

🎗 Holger Czukay // CAN (24/03/1938 - 05/09/2017)

🍂 Melanie - "Stoneground Words" (1972)

🥁 Keith Moon // The Who

Review: ⚡ Chief - 'Chief' EP (2020) ⚡

Da boémia e airosa cidade de São Francisco (estado da Califórnia) chega-nos o tão ansiado primeiro registo de estúdio apresentado pelo entusiástico power-trio Chief. Lançado muito recentemente e unicamente em formato digital (com a possibilidade de download gratuito) através da sua página de Bandcamp oficial, este curto trabalho de designação homónima e alma vintage prende um elegante, libidinoso, odoroso e serpenteante Heavy Blues de oxidação revivalista chamejado, mordido e matizado por um fogoso, expressivo, intoxicante e revoltoso Heavy Psych lavrado e desdobrado à tão típica moda californiana. A sua sonoridade intensamente provocante, virtuosa, vistosa e embriagante – que se desenvolve de uma sedutora majestosidade brilhantemente destilada por uns lendários britânicos Cream à selvática efervescência vivamente detonada pelos seus ruidosos vizinhos JOY – tem o atrevimento de nos sobreaquecer o motor cardíaco e baralhar os sentidos com uma caleidoscópica adrenalina. Albergando apenas dois temas que se esperneiam até à duração total de 14 minutos, este saboroso ‘Chief’ é exemplarmente cozinhado por uma magnificente guitarra que se bamboleia em uivantes, charmosos, musculosos e magnetizantes Riffs e se inflama em solos gritantes, aparatosos, ostentosos e alucinantes, um baixo fibrado de hálito pesado, denso, empolado e sombreado, uma extraordinária e exímia bateria de impactante ritmicidade que agarra firmemente as rédeas do protagonismo quando se lança num ciclónico e galopante solo de natureza circense onde atordoantes, inventivas, lépidas e extravagantes acrobacias nos atiçam e enfeitiçam, e ainda uma estética, aveludada, cuidada e carismática voz de vaidade aristocrática que embeleza um dos dois temas. Este é um EP deveras galante, hipnótico e emocionante que nos nebuliza, eteriza e embala do primeiro ao derradeiro minuto. Percam-se e encontrem-se nas absorventes e vertiginosas profundezas da sua delirada e temulenta vistosidade, e vivenciem todo o ofuscante esplendor de um primoroso registo que apenas peca pela sua diminuta extensão temporal. Que este estreante e auspicioso trabalho de Chief represente o primeiro e destemido passo rumo a uma espaçosa discografia, ou não se tratasse este de um irretocável EP inteiramente enroupado e maquilhado à minha imagem.

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segunda-feira, 23 de março de 2020

🎖 Happy 76th Birthday Tony McPhee // The Groundhogs (1944)

🎖 Heavy 44th Birthday Judas Priest - 'Sad Wings of Destiny' (1976)

🎖 Proggy 47th Birthday King Crimson - Larks' Tongues in Aspic (1973)

Review: ⚡ Canyon - 'EP III' (2020) ⚡

Os norte-americanos Canyon acabam de publicar um comunicado que provocara em mim uma acesa disputa entre sentimentos contraditórios. Se o imediato lançamento de um novo EP incendiara o rastilho do meu entusiasmo, o triste e inesperado anúncio de um hiatus de duração indefinida deixara-me com um ainda ligeiro travo a nostalgia que o futuro se encaminhará de intensificar com o amadurecer do tempo. Sem mais demoras, vou avançar para o que de melhor esta talentosa banda natural da cidade de Filadélfia (Pensilvânia, EUA) deixara imortalizada na memória: a sua curta, mas rica discografia. ‘EP III’ é o nome dado ao último capítulo do legado discográfico deixado pelo jovem power-trio de nomenclatura clássica e uma leal dedicação – transformada numa inspirada reencarnação – ao que de melhor desabrochara no fértil solo das douradas décadas de 60 e 70. Sustentado e regrado por uma sagrada aura de feição e aroma revivalistas, e muito recentemente disponibilizado para escuta integral, numa exclusiva edição de autor em formato digital – com a sempre elogiável possibilidade de download gratuito – através da sua página de Bandcamp oficial, este derradeiro e imaculado EP de Canyon vem ungido, condimentado e chamejado por um elegante, apurado, sublimado e empolgante Heavy Blues de estirpe setentista, engrenado num irreverente, alucinógeno, erógeno e ardente Acid Rock trazido da segunda metade da boémia década de 60, e num fervilhante, dinâmico, bombástico e electrizante Heavy Psych de berrantes e impactantes erupções. Baloiçado entre turbulentos momentos de euforizante efervescência e nirvânicas passagens de delirante dormência, ‘EP III’ atesta e extravasa de incontáveis virtudes os vinte minutos que o balizam. Capitaneado por uma majestosa guitarra de essência Led Zeppelin’esca que se envaidece na criativa elaboração de charmosos, cativantes, triunfantes e alterosos Riffs urtigados pelo efeito Fuzz, e se enraivece na virtuosa ejaculação de exuberantes, labirínticos, furiosos e atordoantes solos, um baixo bafejante, ondulado e pulsante de sinuosas linhas desenhadas a negrito, uma apaixonante bateria de alma circense que se manifesta com base em desembaraçadas, aparatosas, engenhosas e apressadas acrobacias, e ainda uma voz de tez rugosa, felina, mélica e melodiosa – depositária de dotes que prontamente nos remetem para o emblemático Robert Plant – que confere a este admirável registo toda uma simétrica e aristocrática graciosidade. Amotinado pelas revoltosas e fogosas águas da comoção, e desaguado nas paradisíacas e oníricas praias de um ofuscante transe espiritual, alcanço o glorioso final de um precioso registo que resvala nas costuras da perfeição. Muito dificilmente existiria melhor forma dos Canyon se despedirem de todos os seus ouvintes. ‘EP III’ afigura-se como um dos mais sérios candidatos a EP do ano. Na pesada ressaca em mim deixada pelo mesmo fica um discreto gosto a saudade de um tridente inesquecível ao qual seguramente recorrerei vezes e vezes sem conta.

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sábado, 21 de março de 2020

🍂 Yusuf / Cat Stevens, 1975

📸 George Wilkes

Marshall Headphones meets J Mascis (Dinosaur Jr.)

Black Mountain - "Set Us Free" (2004)

🏁 Ann Margaret, 1971

Review: ⚡ Arbouretum - 'Let It All In' (2020) ⚡

Chegou a Primavera e com ela veio um dos álbuns por mim mais aguardados de 2020. Da cidade portuária de Baltimore (Maryland, EUA) é suspirado e disseminado o agradável aroma sonoro de Arbouretum com o lançamento integral do seu novo e seráfico álbum intitulado ‘Let It All In’ e devidamente promovido pela afamada gravadora nova-iorquina Thrill Jockey sob a forma física de CD e vinil. Oxigenado e embalado por um sublimado, místico, melódico e refinado Folk – em constante ricochete entre o Indie Folk e o Folk Rock – de mãos dadas a um radioso, diáfano, açucarado e carinhoso Psychedelic Rock de raiz revivalista e uma quente e oceânica ambiência West Coast, esta estupenda obra raciocinada e lapidada pelo fascinante quarteto norte-americano vive da sensibilidade, do detalhe e primor. A sua sedosa, apaladada, desanuviada e melodiosa sonoridade – aureolada e encerada por um jubiloso esplendor de clima primaveril e uma ensolarada atmosfera campesina – tem o dom de nos sedar o olhar, rebaixar as pálpebras a meia-haste, desenhar um inextinguível sorriso no rosto, corar as bochechas, purificando e extasiando a alma sedenta de algo assim. De ouvidos salivantes, sentidos adormecidos e corpo mitigado, detidamente entregue a uma suave dança serpenteante, somos absorvidos, estarrecidos e canonizados por uma guitarra intensamente afrodisíaca que se enaltece e embevece à boleia de contemplativos, ternurentos e lenitivos acordes pincelados a desarmante subtileza, de onde florescem e se envaidecem estonteantes, labirínticos e inebriantes solos conduzidos a vistosa destreza, um pulsante baixo de magnética reverberação Krauty balanceado a linhas flutuantes, sombreadas, tonificadas e ambulantes, uma cativante bateria de afável ritmicidade galopada a um toque cintilante, polido, descontraído e enfeitiçante, um fabuloso teclado de magia onírica que deambula nas asas dos seus eloquentes, etéreos e atraentes bailados, e uma irresistível voz de aparência veludosa, lustrosa, risonha, e deleitosa que sobrevoa de forma harmoniosa, liderante e graciosa toda a vastidão deste frondoso, magnificente e cheiroso jardim sonoro. Chego ao indesejado final deste irretocável e venerável álbum integralmente entontecido e comovido pela doce maviosidade transudada pelo mesmo. ‘Let It All In’ é um trabalho magistral – de beleza consumada e fineza lapidar – que provocara em mim um firme e febril estado de ofuscante encantamento. Um autêntico oásis espiritual onde todos os nossos membros e sentidos se esperneiam, massajam e prazenteiam demoradamente. Deixem-se inspirar e arrebatar pela renovada e inspirada fragância de Arbouretum, e testemunhem toda a edénica e catártica refulgência farolizada por um disco fadado a perpetuar-se numa das mais cobiçadas posições por entre os melhores álbuns do presente ano. Já sentia saudades de vivenciar um registo tão lírico, íntimo e sincero assim.

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 Thrill Jockey

quarta-feira, 18 de março de 2020

💗 Emerson Lake & Palmer - "Take A Pebble" (Live, 1970)

🎖 Grungy 54th Birthday Jerry Cantrell // Alice in Chains (18/03/1966)

📸 Ola Bergman

Review: ⚡ Siena Root - 'The Secret of our Time' (2020) ⚡

Os já históricos Siena Root prosseguem a sua rica e duradoura digressão discográfica e a próxima paragem denomina-se ‘The Secret of our Time’ e terá lugar marcado no próximo dia 20 do presente mês (sexta-feira) pela mão do selo discográfico germânico MIG Music através dos formatos físicos de CD e vinil. Com mais de duas décadas de prolífica existência – onde se perfilam quase uma dúzia de álbuns – esta talentosa formação sueca situada na cidade-capital de Estocolmo vem amadurecendo o invejável estatuto que a certifica como uma das referências musicais mais importantes do território nórdico. Progredindo em modo rewind pelo revivalismo musical perpetuado nas douradas décadas de 1960 e 1970, os Siena Root – apesar de inspirados pela mesma estrela que os faroliza desde as suas origens – possuem a admirável e elogiável capacidade de se reinventarem a cada renovada obra que desabrocha no seu jardim musical. É essencialmente por isso que Siena Root se mantém resolutamente por entre a fornalha onde coabitam as minhas mais premiadas bandas contemporâneas de eleição. Tal como acontece com os seus antecessores, ‘The Secret of our Time’ vem sulfatado e perfumado de uma carismática aura de beleza e refulgência vintage – resultado de uma produção exclusivamente analógica – onde o elegante, melódico, erótico e cativante Blues-Rock, o harmonioso, serpenteante, dançante e luxuoso Progressive Rock e até o deslumbrante, agradável, bucólico e purificante Folk são donos e senhores de toda a atmosfera que o mesmo encerra. Este mélico álbum de natureza conceptual – que explora a afeição da natureza humana à tecnologia vanguardista e realidades virtuais – vem oleado, condimentado e oxigenado por uma desarmante e inspirada destreza aliada a uma comovente e requintada delicadeza que – lado a lado – dialogam e rebolam pelas ensolaradas, verdejantes e imortalizadas planícies de ‘The Secret of our Time’. Tricotado por uma faustosa guitarra de majestosos acordes e libidinosos solos, sombreado por um fibrado baixo de linhas errantes, tiquetaqueado por uma acrobática bateria de sensibilidade jazzística, massajado por um opulento órgão de extravagantes bailados, e capitaneado a duas sedosas, encorpadas, caramelizadas e melodiosas vozes femininas que repartem entre si todo o protagonismo vocal, este novo registo de Siena Root conta ainda com a honrosa participação de uma mão cheia de músicos convidados – como por exemplo, o virtuoso Stefan Koglek (guitarrista e vocalista dos carismáticos Colour Haze) – abrilhantando assim toda a mágica narrativa sonora que o mesmo ostenta. De membros adormecidos, sentidos salivantes e alma acariciada pela enternecedora temulência suspirada por este ataráxico néctar via auditivo, somos enfeitiçados e canalizados de encontro aos braços de um transe espiritual que nos desobstrói as artérias da espiritualidade e desagua num imperturbável estádio de perfeito bem-estar. ‘The Secret of our Time’ é uma obra primorosa de estética e mística fabular que nos climatiza e eteriza do primeiro ao derradeiro tema. Um álbum edénico, redigido a uma simétrica e inspirada fineza, que certamente escalará até às mais elevadas posições de destaque na listagem que premeia os melhores álbuns brotados no presente ano de 2020.

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 MIG

segunda-feira, 16 de março de 2020

🌙 Neil Young

Review: ⚡ The Skookum Brothers - 'En Las Montañas' EP (2020) ⚡

Da cidade californiana de Oakland chega-nos a quente e doce fragância revivalista do quarteto The Skookum Brothers com o lançamento do seu segundo e novo EP intitulado ‘En Las Montañas’ e promovido exclusivamente em formato digital (com a possibilidade de download gratuito) através da sua página de Bandcamp oficial. Sendo eu um intratável entusiasta pela música Rock forjada no final dos anos 60 e em toda a extensão da década de 1970, não poderia evitar que a musicalidade deste EP me trouxesse a esta apaixonada dissertação lírica. Massajado e climatizado por uma sonoridade genuinamente vintage, de onde facilmente se reconhece e degusta um ensolarado, primaveril, pastoril e relaxado Psychedelic Rock de coloração Bluesy e inspiração resgatada a icónicas referências como Grateful Dead, The Allman Brothers Band e Quicksilver Messenger Service, um rural, mavioso, risonho e estival Country Rock – de discretas aproximações ao vibrante Western Swing – à boa e velha moda de Neil Young e The Marshall Tucker Band, e ainda um dançante, ritmado, assanhado e inflamante Boogie Rock de maquilhagem e indumentária ZZ Top’eana, este afável e adorável ‘En Las Montañas’ conta ainda com a reinterpretação do clássico intemporal “Sugar Mama” (unificando as versões desiguais executadas pelo guitarrista e purista do Delta-Blues Big Joe Williams e pelos irlandeses Taste) e de “Ripple” (tema original dos texanos Shiva's Headband). Embebidos na sua atmosfera western’eana, as nossas pálpebras escorregam pela córnea abaixo, os lábios curvam e desenham um genuíno sorriso no rosto, e a cabeça embriagada é pesadamente pendulada de ombro a ombro à enfeitiçante boleia de uma guitarra trovadora que nos cativa e namora com os seus acordes envolventes, lenitivos, meditativos e comoventes, e nos eteriza e nebuliza com os seus solos errantes, exóticos, jubilosos e emocionantes, uma voz delicada, aconchegante, sóbria e aveludada, um diligente e murmurante baixo serpenteado a linhas pulsantes, fluidas, sombreadas e magnetizantes, um carismático e aromático órgão Hammond de harmoniosos, excêntricos e deleitosos bailados, e ainda uma bateria galopante, despretensiosa e magnetizante que – em cumplicidade com uma percussão de orientação tribalista – troteia, esporeia e tiquetaqueia toda esta sonhadora, contemplativa e libertadora cavalgada pelas verdejantes e cinematográficas pradarias sobrevoadas por uma perfumada e suavizante brisa e farolizadas por um vigilante Sol chamejado a intensa combustão que se debruça nas montanhas de recortam o intangível firmamento. ‘En Las Montañas’ é um mágico registo de curta duração que reencarna um encanto há muito perdido e esquecido. O regresso a um tempo e espaço aclimatados pela pura e dourada bonança só vislumbrada – por entre suspiros – no nosso imaginário. Deixem-se sorver e purificar pelo ataráxico, diáfano e edénico revivalismo reluzido e transpirado por este charmoso e espirituoso EP, e vivenciem de forma absolutamente detida e deslumbrada esta surpreendente banda contemporânea que – para minha imensa satisfação – faz do passado o seu presente e futuro. Um verdadeiro fármaco para as almas inadaptadas que - tal como a minha - prosseguem a sua fuga à modernidade.

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