Foi já no longínquo ano
de 2013 que os norte-americanos Yawning Man divulgaram esta séria intenção
de replicar a imersiva experiência vivida pelos Pink Floyd, quando em
1971 a célebre formação britânica praticara a sua tão característica liturgia
cósmica em plenas históricas ruínas romanas de Pompeia (nota oficial aqui
exposta na íntegra), mas com a mesma transposta para o seu tão familiar ambiente
que os vira nascer e crescer: o Deserto de Mojave. O presente e estranho
ano de 2020 foi então o palco temporal dessa tão desejada materialização, resultando numa memorável
odisseia audiovisual a todos aqueles que a vivenciaram de forma detida e
apaixonada, ainda que à distância do epicentro deste tão emblemático ritual. Longe
dos olhares presenciais do grande público – devido ao confinamento imposto pela pandemia global COVID-19 – e apenas cercado pelas múltiplas câmeras de vídeo superiormente comandadas
pelo Sam Grant, este famoso power-trio motorizado a um velho e
barulhento gerador de forte odor a gasolina (ressuscitando, assim, o espírito
das célebres generator parties), ventilado pela profética e revitalizante
brisa desértica, e de pés enraizados no bronzeado, nativo e sagrado solo de Giant
Rock, arrancara para uma épica performance, estreando toda uma mão cheia de
novos temas. De velas içadas ao sabor de um estético, meditativo e lisérgico Post-Rock,
um enfeitiçante, arejado e dançante Surf-Rock e ainda um fogoso, contagiante
e arenoso Desert Rock, a sua ataráxica sonoridade de moldura cinematográfica
sobrevoara e ecoara pelas planuras a perder de vista de um bocejante deserto
vigiado de perto pelo chamejante Sol suspenso no céu azul diamantino. Cruzando os caminhos de uma messiânica guitarra que delicadamente dedilha solos uivantes, experimentais, espirais e ziguezagueantes,
um pulsante e ronronante baixo bafejado e conduzido a linhas fibradas, reverberantes, magnetizantes e
viajadas, e uma bateria tribalista de timbalões galopantes e pratos cintilantes,
esta tapeçaria de vistosidade étnica e ingestão auditiva, superiormente tecida
pelos artesões musicais Yawning Man, instaura e nutre na alma dos
ouvintes toda uma epifania desértica que os mantém firmemente embriagados, absorvidos
e embalados numa extasiante, profunda e deslumbrante hipnose sem escapatória
possível. ‘Live at Giant Rock’ representa um verdadeiro bálsamo
sensorial que nos massaja o cérebro e prazenteia o espírito sedento por poder vivenciar
algo assim. Este tangível oásis arborizado pelos Yawning Man pode ser visto
em formato de DVD numa edição de autor, e ouvido nos formatos físicos de CD e
vinil através da prestigiada discográfica italiana Heavy Psych Sounds.
Empoeirem-se na mística musicalidade destes três eremitas que tocam o idioma do
deserto, e testemunhem imponentes saguaros e Joshua Trees eclodirem
no vosso peito. Provavelmente o mais epopeico registo captado ao vivo neste insólito
ano alérgico a concertos está aqui, no caprichado sonho acordado de uma das grandes bandas da minha vida.
Santifiquem-se e regozijem-se nele.
Links:
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➥ Heavy Psych Sounds
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