quinta-feira, 18 de junho de 2026

Review: 🐄 Bushman's Revenge - 'Ah, Les Vaches!' (2026, Is It Jazz? Records) 🐄


★★★★★

Com duas décadas de prolífica actividade – onde frutificaram duas mãos repletas de suculentos álbuns editados –, os noruegueses Bushman’s Revenge – um talentoso tridente domiciliado na cidade-capital Oslo – acabam de presentear todos os seus fiéis seguidores com o lançamento do novíssimo ‘Ah, Les Vaches!’ (título inspirado naquelas que, supostamente, foram as últimas palavras proferidas pelo célebre e excêntrico compositor francês Erik Satie no seu leito de morte) com o carimbo da jovem companhia discográfica local Is It Jazz? Records. Se o seu gélido e cristalino antecessor ‘All The Better For Seeing You’ (aqui trazido e desavergonhadamente namorado) senta os seus ouvintes no cume de uma monolítica montanha granítica de olhar embriagado e dissolvido na imensa brancura pincelada pelo rigoroso inverno escandinavo, ‘Ah, Les Vaches!’ fá-los sobrevoar o arenoso tapete dos dourados desertos norte-americanos bronzeados pelos impiedosos raios de um Sol desabrigado. Sem nunca perder de vista a sua estrela orientadora (um cuidado, elegante, estonteante e perfumado Contemporary Jazz) que a faroliza desde que desancorara e se entregara aos secretos desígnios dos mares, esta aventurosa embarcação viking perde-se e encontra-se agora por entre as revoltas ondas do experimentalismo sonoro dando à costa de um deslumbrante, exótico, tórrido e apaixonante Alternative Country de suor latino e sabor Tex-Mex. Conseguem imaginar os desérticos Calexico saídos de uma academia de Jazz com o doutoramento debaixo do braço? Se sim, estão aptos para avistar, com total clareza, as endeusadas paisagens sonoras de ‘Ah, Les Vaches!’. A sua enfeitiçante, camaleónica, meiga, hedónica e ambulante musicalidade – banhada a um lustroso misticismo que nos encandeia e ventilada por um doce sentimento de nostalgia que nos seduz e conduz à ébria sonolência crepuscular do enrugado e amarelecido coração do velho oeste americano – transporta-nos para os poeirentos e emblemáticos palcos cinematográficos do Spaghetti Western debaixo da superior orientação do realizador italiano Sergio Leone. Delicado, contemplativo, leve, lenitivo e sagrado é o reinante clima visual desta obra-prima puramente instrumental que nos iça as velas e veleja pelos serpenteantes desfiladeiros do infindável universo espiritual. ‘Ah, Les Vaches!’ é um registo ascético, anestésico, poético e ambiental para ser comungado de olhos fechados, sorriso imortalizado e sonhos desembrulhados. Um sábio contador de magnéticas histórias. Um postal musical do deserto florido. Uma obra comovente, de luzência milagrosa, que vive na santificada quietude e na consumada beatitude das suas refinadas composições. Deixem-se embevecer, enternecer e derreter à fascinante boleia de uma guitarra trovadora – discípula de Ry Cooder – que se manifesta em ensolarados, lisérgicos, estéticos e aromatizados acordes levados pela suave brisa do deserto, um baixo pachorrento que boceja aveludadas, vagueantes, intrigantes e sombreadas linhas, uma elegante bateria movida a leveza, sentimento e destreza, e um tocante pedal steel que com os seus arrepiantes, harmoniosos e ecoantes uivos nos faz salivar os ouvidos e desmaiar de prazer. São 43 minutos governados por uma imperante, imperturbável e contagiante paz onde, confortavelmente, nos recostamos, relaxamos e idealizamos uma existência exclusivamente nutrida pelos prazeres sensoriais. ‘Ah, Les Vaches!’ é um calmante natural e um sacramento mental que nos faz alhear da realidade e não mais dele querer despertar.

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