Encerrada a
trilogia ‘Edena Gardens’ (aqui falado), ‘Agar’ (aqui
falado) e ‘Dens’ (aqui falado), este harmonioso, aventureiro e
talentoso trio dinamarquês de essência puramente instrumental apresenta-nos
agora o seu quarto álbum de estúdio experimental, intitulado ‘Dispossessed’
e editado pela insuspeita companhia discográfica El Paraiso Records
através dos formatos LP, CD e digital. Provenientes de diferentes projectos musicais
como Causa Sui, Papir, London Odense Ensemble e Sun
River, estes três marinheiros nórdicos reúnem-se em Edena Gardens,
recolhem a âncora e desbravam mares nunca antes navegados. Esta sua nova
expedição começa debaixo de um tormentoso, mal-humorado, embriagado e umbroso Psychedelic
Doom de pesada cadência repetitiva, na linha com que são tricotadas as grisalhas
e arrastadas sonoridades de bandas como Earth, Bardo Pond, Barn
Owl e Heron Oblivion – assombrado e vigiado de perto por um denso
manto de pardas nuvens que impedem a entrada da luz solar, mas que – de forma vagarosa
e evolutiva – vai encontrando e conquistando a reinante paz nas pacíficas,
relaxantes e mornas águas de um lenitivo, melancólico, bucólico e reflexivo Contemporary
Jazz com o carimbo de qualidade ECM – com movediças e caleidoscópicas tinturas de um
psicadelismo colorido, deslumbrante e ensolarado – de vítreos céus banhados por
um azul diamantino e ventilados por agradáveis brisas com sabor a maresia, que
nos remete para as solitárias estradas trilhadas por Ry Cooder, John
Abercrombie, Bill Frisell e Jakob Bro. É neste segundo estado
de espírito que este novo registo de Edena Gardens se conforta, espreguiça
e demora. Sonolento, etéreo e pachorrento, ‘Dispossessed’ tem o raro dom
de nos desintegrar do presente e mergulhar nas relaxantes profundezas da doce
nostalgia onde sorrimos de olhos mareados em lágrimas. A sua sonoridade arejada,
espaçosa, introspectiva, odorosa e delicada – climatizada por uma requintada e
apurada sensibilidade –, passeia-se leve, suave e graciosamente através dos
encaracolados, atmosféricos, estéticos e imaculados solos de uma guitarra
uivante, ecoante e sedutora, de uma bateria soberbamente jazzística cujas
baquetas saltitam e tilintam entre pratos luminosos e cintilantes, timbalões tribais
e galopantes, e desarmantes rufos na tarola, e das anoitecidas, contemplativas,
aveludadas e desprendidas linhas de um baixo elástico e hipnótico. ‘Dispossessed’
é um apaixonante, ofuscante e sensacional álbum – de beleza cinematográfica e moldura
outonal – que nos trava a respiração e mumifica num perfeito estádio de inquebrável fascinação. A banda-sonora perfeita para musicar e consolar estados chorosos e céus chuvosos em orvalhadas madrugadas, crepúsculos sombrios e frias noites
acordadas.
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