terça-feira, 16 de setembro de 2025

Review: 🕊️ Edena Gardens - 'Dispossessed' (2025, El Paraiso Records) 🕊️

★★★★

Encerrada a trilogia ‘Edena Gardens’ (aqui falado), ‘Agar’ (aqui falado) e ‘Dens’ (aqui falado), este harmonioso, aventureiro e talentoso trio dinamarquês de essência puramente instrumental apresenta-nos agora o seu quarto álbum de estúdio experimental, intitulado ‘Dispossessed’ e editado pela insuspeita companhia discográfica El Paraiso Records através dos formatos LP, CD e digital. Provenientes de diferentes projectos musicais como Causa Sui, Papir, London Odense Ensemble e Sun River, estes três marinheiros nórdicos reúnem-se em Edena Gardens, recolhem a âncora e desbravam mares nunca antes navegados. Esta sua nova expedição começa debaixo de um tormentoso, mal-humorado, embriagado e umbroso Psychedelic Doom de pesada cadência repetitiva, na linha com que são tricotadas as grisalhas e arrastadas sonoridades de bandas como Earth, Bardo Pond, Barn Owl e Heron Oblivion – assombrado e vigiado de perto por um denso manto de pardas nuvens que impedem a entrada da luz solar, mas que – de forma vagarosa e evolutiva – vai encontrando e conquistando a reinante paz nas pacíficas, relaxantes e mornas águas de um lenitivo, melancólico, bucólico e reflexivo Contemporary Jazz com o carimbo de qualidade ECM – com movediças e caleidoscópicas tinturas de um psicadelismo colorido, deslumbrante e ensolarado – de vítreos céus banhados por um azul diamantino e ventilados por agradáveis brisas com sabor a maresia, que nos remete para as solitárias estradas trilhadas por Ry Cooder, John Abercrombie, Bill Frisell e Jakob Bro. É neste segundo estado de espírito que este novo registo de Edena Gardens se conforta, espreguiça e demora. Sonolento, etéreo e pachorrento, ‘Dispossessed’ tem o raro dom de nos desintegrar do presente e mergulhar nas relaxantes profundezas da doce nostalgia onde sorrimos de olhos mareados em lágrimas. A sua sonoridade arejada, espaçosa, introspectiva, odorosa e delicada – climatizada por uma requintada e apurada sensibilidade –, passeia-se leve, suave e graciosamente através dos encaracolados, atmosféricos, estéticos e imaculados solos de uma guitarra uivante, ecoante e sedutora, de uma bateria soberbamente jazzística cujas baquetas saltitam e tilintam entre pratos luminosos e cintilantes, timbalões tribais e galopantes, e desarmantes rufos na tarola, e das anoitecidas, contemplativas, aveludadas e desprendidas linhas de um baixo elástico e hipnótico. ‘Dispossessed’ é um apaixonante, ofuscante e sensacional álbum – de beleza cinematográfica e moldura outonal – que nos trava a respiração e mumifica num perfeito estádio de inquebrável fascinação. A banda-sonora perfeita para musicar e consolar estados chorosos e céus chuvosos em orvalhadas madrugadas, crepúsculos sombrios e frias noites acordadas.

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